Revista O Grito! — Cultura pop, cena independente, música, quadrinhos e cinema https://www.revistaogrito.com Notícias, resenhas e artigos de arte, quadrinhos, cultura pop e cena independente Tue, 13 Apr 2021 14:54:06 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=5.5.3 1589497 Paraibana radicada em Londres, Carmem Red Light aborda hipocrisia da fé no clipe de “Faith No More” https://www.revistaogrito.com/paraibana-radicada-em-londres-carmem-red-light-aborda-hipocrisia-da-fe-no-clipe-de-faith-no-more/ Tue, 13 Apr 2021 14:22:26 +0000 https://www.revistaogrito.com/?p=152189 A artista paraibana radicada em Londres, Carmem Red Light, anuncia para o próximo dia 20/04 o clipe de “Faith No More”, faixa que está no EP You Can Shoot But Who’s Kill is God. A música é uma crítica ao caráter mercadológico de religiões que exploram a fé de pessoas ao redor do mundo. No vídeo, Carmem representa várias figuras ‘santas’ para provocar e questionar a hipocrisia que muitos segmentos religiosos apresentam em seus discursos tidos por muitos como verdades […]

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A artista paraibana radicada em Londres, Carmem Red Light, anuncia para o próximo dia 20/04 o clipe de “Faith No More”, faixa que está no EP You Can Shoot But Who’s Kill is God. A música é uma crítica ao caráter mercadológico de religiões que exploram a fé de pessoas ao redor do mundo.

No vídeo, Carmem representa várias figuras ‘santas’ para provocar e questionar a hipocrisia que muitos segmentos religiosos apresentam em seus discursos tidos por muitos como verdades absolutas.

Alter ego de Izabella Ricarte, Carmem Red Light traz em seu nome uma homenagem à Carmem Miranda e ao lendário João Acácio Pereira da Costa, conhecido como Bandido da Luz Vermelha. De maneira bastante performática, Carmem quebra estereótipos e apresenta sua arte completa: ela compõe, produz e dirige.

O clipe de “Faith No More”, filmado em Londres, cidade onde vive há mais de 10 anos, foi produzido e dirigido por ela, que é natural de Cajazeiras, na Paraíba.

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Papo com Thiago Pethit: “Esperança e acolhimento também são resistência” https://www.revistaogrito.com/papo-com-thiago-pethit-esperanca-e-acolhimento-tambem-sao-resistencia/ Tue, 13 Apr 2021 11:00:00 +0000 https://www.revistaogrito.com/?p=152169 Aos 38 anos, o artista paulista Thiago Pethit é uma verdadeira sinestesia entre teatro, literatura e música. Considerado um dos melhores autores da cena indie de São Paulo que emergiram neste início de século, Pethit participou da última edição do Coquetel.EXE, em março de 2021. O artista ministrou um vídeo/oficina ensinando técnicas de preparação, respiração e expressão corporal para apresentações em público. Tudo de forma virtual, claro, em virtude das medidas de distanciamento social impostas pela pandemia de Covid-19. “São […]

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Aos 38 anos, o artista paulista Thiago Pethit é uma verdadeira sinestesia entre teatro, literatura e música. Considerado um dos melhores autores da cena indie de São Paulo que emergiram neste início de século, Pethit participou da última edição do Coquetel.EXE, em março de 2021. O artista ministrou um vídeo/oficina ensinando técnicas de preparação, respiração e expressão corporal para apresentações em público. Tudo de forma virtual, claro, em virtude das medidas de distanciamento social impostas pela pandemia de Covid-19. “São poucos os artistas que podem ter uma live paga e com boa produção”, opina Pethit.

O primeiro álbum de Thiago Pethit foi Berlim, Texas (2010). Ele conquistou ainda mais espaço no cenário pop a partir do segundo, Estrela decadente (2012). Numa trajetória existencial e marginal, o ponto culminante do cantor e compositor foi atingido com o terceiro álbum, Rock’n’roll Sugar Darling (2014). Cinco anos mais tarde, o artista ressurgiu com Mal dos Trópicos (Queda e ascensão de Orfeu da Consolação, 2019), com arranjos de tom sinfônico. “Não gosto muito de descrever música. Não saberia como”, ressalta.

Um dos nomes artisticamente mais ambiciosos da populosa cena indie musical do Brasil, o virginiano Thiago Pethit, que tem como ídolos nomes como Caetano Veloso, Lou Reed, Kurt Weill, Chopin, entre outros, bateu um papo sobre a carreira e todos estes assuntos com a Revista O Grito! Confira:

Durante a pandemia, as lives se tornaram centrais para os artistas da música. Como tem visto esse novo cenário?

Infelizmente é o único formato possível neste momento. Digo infelizmente, pois não me agrada em geral. Vi poucas produções realmente interessantes e a maioria eram pré-gravadas ou com muito investimento. Por isso, vejo como um cenário limitado, tanto em termos de recursos artísticos, mas, sobretudo, economicamente.

São poucos os artistas que podem ter uma live paga e com boa produção. E ainda assim, uma live – diferentemente de shows presenciais – não pode ser uma turnê. Ela não vai acontecer todo mês com investimento e pagamento. Então é um cenário bastante complicado. Mas olha, admiro muito quem esteja com energia para fazer. Eu não me animei até hoje.

Como funciona o seu processo criativo? Você tem composto agora nesse tempo de pandemia e isolamento social?

Sinto que ainda não me abri para criar neste período. Minha criação e inspiração surgem de processos e experiências de observação do mundo à minha volta, das vivências… e esse processo pandêmico e isolado nunca acabou. Claro que já deu tempo de observar, mas ele segue me levando a novos pensamentos, novas angústias. E é algo tão absurdo, tão único e particular… prefiro observar tudo o que posso e deixar que essa experiência ressoe até que eu precise dizer algo sobre ela.

Como descreve a sua música?

Não gosto muito de descrever música. Não saberia como.

Quais são suas referências de estilo? Você muda de estilo em cada álbum ou é algo que acontece naturalmente?

Eu tenho diversas referências e mudo de estilo e entendo isso como algo natural. Eu não me preocupo muito com essa questão do ‘gênero musical’. Com qual gênero e estilo estão mais na moda ou não. Pra mim, a sonoridade precisa estar a serviço da mensagem. Se a mensagem é agressiva ou delicada, se é triste ou dançante… Eu escrevo canções e me importa que elas tenham a minha autenticidade. Isso é o que eu busco em cada trabalho.

Você possui algum ídolo quando se trata de música?

Tenho muitos: Cida Moreira, Caetano Veloso, Lou Reed, Kurt Weill, Chopin, Jup do Bairro, Linn da Quebrada, Leonard Cohen,…é uma lista longa.

Você se sente dentro de uma cena, ou de uma “turma” no cenário musical?

Não. É claro que me identifico mais com um ou outro artista, mas não consigo me ver numa cena. Acho que ao longo desses dez anos, a mídia já tentou criar diversos recortes diferentes e me inserir em cenas sob essas óticas específicas: novos paulistas, nova mpb, queer, folk… Mas eu mesmo me vejo mais como um estranho no ninho sempre que me colocam num grupo ou numa gaveta.

E você gravou com artistas como Liana Padilha Tiê, entre outros… Como é criar música com outros colegas?

Eu acho muito, muito difícil criar em parceria. Dito como na pergunta parece até que eu tenho muitas e uma facilidade em fazer isso, mas a verdade é que acho super difícil.

Eu adoro quando acontece, mas é como se o universo precisasse conspirar para que eu e alguém sentemos juntos e por acaso tenhamos o desejo de fazer uma música e visitar o universo um do outro. Eu trabalho com muita intimidade nas minhas canções e é estranho muitas vezes deixar palavras ou voz para outros contarem minha história junto comigo ou vice-versa.

Você acha que o papel dos artistas é de resistência, mas também despertar esperança?

Esperança e acolhimento também são resistência. Tem hora que é de luta. Tem hora que é de preparação para luta. Cada uma pede algo, uma música, um artista.

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Sky Rojo: o road movie das garotas do bordel https://revistaogrito.com/femmefatale/sky-rojo-o-road-movie-das-garotas-do-bordel/ Mon, 12 Apr 2021 16:12:50 +0000 https://www.revistaogrito.com/?p=152167 A série espanhola Sky Rojo da Netflix, divertida, um autêntico road movie latino, faz a linha de casting global para atingir o mercado de fala hispânica do Velho ao Novo Mundo, e é bem feliz nessa empreitada. A espanhola Coral (Veronica Sanchez), a cubana Gina (Yanis Prado) e a argentina Wendy (Lali Sposito) são três prostitutas que prestam serviços em um bordel alimentado pelo tráfico humano de mulheres, em Tenerife, balneário espanhol sofisticado. Sob ameaça de morte das famílias, passaportes […]

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A série espanhola Sky Rojo da Netflix, divertida, um autêntico road movie latino, faz a linha de casting global para atingir o mercado de fala hispânica do Velho ao Novo Mundo, e é bem feliz nessa empreitada. A espanhola Coral (Veronica Sanchez), a cubana Gina (Yanis Prado) e a argentina Wendy (Lali Sposito) são três prostitutas que prestam serviços em um bordel alimentado pelo tráfico humano de mulheres, em Tenerife, balneário espanhol sofisticado. Sob ameaça de morte das famílias, passaportes devidamente confiscados, elas cumprem com toda a rotina da casa, que inclui bondage, mulheres com pintos de borracha e todas as perversões do catálogo de sexo pago. Coral, a espanhola, a argentina e a cubana são amigas que inesperadamente, por solidariedade, acabam se envolvendo em um assassinato e passam a ser perseguidas por seus patrões.

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O noir galego de O Sabor das Margaridas https://revistaogrito.com/femmefatale/o-noi-galego-de-o-sabor-das-margaridas/ Mon, 12 Apr 2021 15:02:11 +0000 https://www.revistaogrito.com/?p=152164 Totalmente noir, a série espanhola Netflix O Sabor das Margaridas (El Sabor de las Margaritas),  tem protagonista feminina de peso.

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Totalmente noir, a série espanhola Netflix O Sabor das Margaridas (El Sabor de las Margaritas),  tem protagonista feminina de peso.

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Videeodança Entranhas Marcas discute agressões ao corpo feminino e ao planeta https://www.revistaogrito.com/videeodanca-entranhas-marcas-discute-agressoes-ao-corpo-feminino-e-ao-planeta/ Fri, 09 Apr 2021 22:31:29 +0000 https://www.revistaogrito.com/?p=152135 A videodança Entranhas Marcas trata das agressões sofridas pelo corpo feminino e será exibido neste domingo (11), às 20h, pelo Vimeo. Em seguida será realizada uma live no Instagram com as artistas realizadoras Com direção colaborativa e criação conjunta, o elenco é composto pelas dançarinas e performers Drica Ayub, Isabela Severi e Silvia Góes, com direção de fotografia/filmagem de Flora Negri e trilha de Conrado Falbo. O projeto conta com o apoio da Lei Aldir Blanc no Edital de Criação, […]

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A videodança Entranhas Marcas trata das agressões sofridas pelo corpo feminino e será exibido neste domingo (11), às 20h, pelo Vimeo. Em seguida será realizada uma live no Instagram com as artistas realizadoras

Com direção colaborativa e criação conjunta, o elenco é composto pelas dançarinas e performers Drica Ayub, Isabela Severi e Silvia Góes, com direção de fotografia/filmagem de Flora Negri e trilha de Conrado Falbo. O projeto conta com o apoio da Lei Aldir Blanc no Edital de Criação, Fruição e Difusão LAB PE.

“Há tempos, vivemos uma conjuntura extremamente violenta, principalmente para nós mulheres, que muito se acentua com a pandemia e o contexto político. A cultura machista com sua lógica hegemônica e homogeneizante, nos rasga muitas cicatrizes que são riscadas nos corpos físico, emocional, mental e também espiritual”, contextualiza Drica Ayub. “Assim como nossos corpos, a Terra sofre há centenas de anos a agressão humana registrada em escaras profundas em sua paisagem e dinâmica. É verdade que nossas marcas nos compõem, porém a ameaça à vida pode estagnar o seu fluxo e nos congelar; paralisar o que necessita de movimento para seguir e evoluir”, complementa Isabela Severi.

O grupo realizou a gravação da performance com cenas no Engenho Pombal, situado no município de Vitória de Santo Antão, Zona da Mata de Pernambuco, e também na Praia de Xaréu, Cabo de Santo Agostinho, no Litoral Sul do Estado. 

PROGRAMAÇÃO – Além do lançamento da videodança “Entranhas Marcas” seguido de live com as artistas, que acontecerá às 20h do domingo (11/04), na quinta-feira anterior (08/04), também às 20h, as dançarinas farão uma live pelo perfil do Instagram @entranhas.marcas e pelos seus perfis pessoais (@isabelaseveri, @drica.ayub e @silvinha_goes) com algumas convidadas (Gabi Holanda, Duda Freire e outras) para conversar a respeito da temática arte-ambiente-corpo. Já no sábado que antecederá o lançamento (10/04), às 20h, as artistas abrirão uma sala na plataforma Zoom para uma conversa mais ampla e com mais vozes sobre as interseccionalidades nas artes de discursos políticos essenciais, como o corpo da mulher que sofre múltiplas formas de violência, as corpas pretas e a sua invisibilidade, o meio ambiente e tantas questões que perpassam as artes de mulheres e homens de nossa contemporaneidade. Nomes ainda a confirmar. 

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Ser drag é ser feliz https://www.revistaogrito.com/ser-drag-e-ser-feliz/ Wed, 31 Mar 2021 17:57:02 +0000 https://www.revistaogrito.com/?p=152032 Make-ups deslumbrantes, figurinos ousados e criativos, glamour, fantasia e o desejo de brilhar nos palcos, nas pistas das boates e clubes, ou simplesmente nas ruas, são imagens que estão associadas ao universo das drag queens, uma arte performática que há décadas causa rebuliço pelo mundo afora. Embora boa parte dos artistas que abraçam esse tipo de expressão artística estilize elementos do universo feminino, a arte de transformação e criação de uma personagem não significa necessariamente uma orientação sexual específica. Mulheres, […]

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Make-ups deslumbrantes, figurinos ousados e criativos, glamour, fantasia e o desejo de brilhar nos palcos, nas pistas das boates e clubes, ou simplesmente nas ruas, são imagens que estão associadas ao universo das drag queens, uma arte performática que há décadas causa rebuliço pelo mundo afora. Embora boa parte dos artistas que abraçam esse tipo de expressão artística estilize elementos do universo feminino, a arte de transformação e criação de uma personagem não significa necessariamente uma orientação sexual específica. Mulheres, homens e pessoas LGBTIA+ podem ser drags e podem se metamorfosear no que elas quiserem e bem entenderem. E foi com esse espírito de descoberta e curiosidade que nos lançamos na oficina de drag queen promovida pelo Festival da Diversidade Sexual e de Gênero do Recife – o Recifest. Quer saber como foi? Segue o fio.

Prelúdio

Não vou negar que já na primeira oficina de drag queen oferecida pelo Recifest em 2014 me passou pela cabeça o desejo de fazê-la. Nos tenros anos da juventude, nas festas com minha turma da época, foi-não-foi, fazia performances sensuais imitando o cantor Ney Matogrosso. A caráter, dublava “despeerta América do Suuul” ou Coubanakan misterioso país del amor” e era sempre um sucesso. Depois, fui fazer teatro de rua, virei jornalista, acadêmico, cineasta e esqueci a brincadeira. 

No decorrer dos anos, porém, de vez em quando, episódios ocasionais me colocaram na rota do mundo drag: um namorico com um gaúcho que morava em São Paulo e estava iniciando a carreira como drag queen (depois ela ficou famosa, aparecia em programas de TV e foi até capa de revista);  os alunos drag queens de quem me tornei amigue: Shayane Thompson, Cassia Blue,  Gilka Brechó; a pesquisa sobre o grupo de Teatro Vivencial; o filme que realizei em homenagem a Elza Show; a ligação transcendental cinematográfica com o ator Elpídio Lima, o Piu Piu, transformista do Teatro Marrocos imitador de Carmem Miranda e Sarita Montiel, por mim transformado em documentário; e, por fim, a produção do filme sobre a travesti Consuelá, atualmente em fase de montagem.  

Assim, quando começaram a aparecer no Instagram, as chamadas para a oficina no Recifest, me perguntei: “se todas essas figuras singulares e queridas se transformam nesses personagens tão bacanas que eu gosto e admiro, por que eu também não posso ser uma drag queen?  Nesses tempos tão complexos de pandemia e obscurantismo político, me jogar numa experiência libertadora não é de forma alguma uma má ideia. E assim foi feito, preenchi o formulário de inscrição e enviei.

“Quem domina a arte de se maquiar, certamente é um gênio”. (Foto: Alex Figueirôa).

Primeiro dia: descobrindo a drag em mim

Ao saber que fui selecionado para participar da oficina de drag queen ministrada por Sheyla Muller (Zécarlos Gomes) senti um medinho. Mesmo sendo on-line, por conta da pandemia da covid-19, passei a pensar como seria uma oficina de drag? Seria igual a série RuPaul’s Drag Race? Será que na hora H eu ficaria intimidado em colocar o meu corpo e meu rosto a disposição de uma criatura desconhecida que se apossaria de mim?

“Existe um arquétipo da drag, mas é importante desconstruí-lo. Cada um tem que descobrir a drag que carrega consigo”

Para completar o drama, no grupo de WhatsApp, criado para a oficina, Sheyla encaminhou a lista de maquiagem com todos os produtos necessários. Entrei em pânico. Alguns ingredientes não eram novidade: rímel, base, sombra, glitter; mas tinha um monte de pinceis (chanfrado, em leque), pó translúcido, iluminador, duo cake, etc., os quais nunca tinha ouvido falar. E com o comércio de cosméticos fechado como dar conta de tanta coisa? Felizmente meu analista deu uma ajudinha (na mente, não nos cosméticos) e cheguei na primeira aula tenso, mas sereno.

Às 19h30, da sexta feira 26, quando Sheyla se apresentou, no entanto, todas as caraminholas e receios evaporaram. Consciente de seu papel e de sua força como performer e de sua experiência em iniciar novas drags, apesar das limitações da tela do computador, Sheyla conversou com os oito alunos – cinco rapazes e três meninas – que por diferentes motivações – soltar o corpo, aprimorar a atuação como drag, assumir os seus desejos – estavam ali ávidos para descobrir os segredos de como se tornar uma artesã ou artesão da transformação corporal. Todes se apresentaram e uma energia bacana começou a rolar.

Sheyla Muller foi nossa mestra. (Divulgação)

Sheyla, apesar de reconhecer o mérito e o impacto na arte drag promovida por RuPaul, lembrou que atuar como drag é quebrar os padrões, inclusive os estereótipos. “Existe um arquétipo da drag, mas é importante desconstruí-lo. Cada um tem que descobrir a drag que carrega consigo”. A partir da sua própria vivência como ator, ela demonstrou o quanto, hoje, performar neste campo é um ato de resistência às imposições sociais, um ato político e também de auto aceitação. “É preciso, em primeiro lugar interromper a homofobia interna, como também outros preconceitos – gordofobia, transfobia –, e passar pelos lugares de dor e negação que nos foram impostos, para superá-los e alcançarmos a nossa liberdade de expressar-se”. 

A primeira noite foi, portanto, de conversas para quebrar a timidez e descobrir o porquê de estarmos ali. A distância, por conta do modo remoto, não impediu a interação. Sheyla em Santos, alguns no Recife, eu na Ilha de Itamaracá, Hanna em São Paulo ou André Angelina em Cruzeiro, no interior de São Paulo, compartilhávamos, de alguma forma, o mesmo sentimento de alegria por dizer não aos nossos próprios medos. “As drags hoje estão em todos os lugares! Nos palcos, nos filmes, no YouTube, no Instagram”, arrematou Sheyla.

Segundo dia: “liberem o corpo e coloquem ele para falar”

Os preparativos do sábado começaram muito antes das 19h30. Na noite anterior, Sheyla pedira que na segunda aula tivéssemos um batom e um lençol em mãos. Eu ainda estava atordoado sem nenhuma ideia de como iria encontrar os produtos da lista de maquiagem. Nem batom eu tinha. Depois de uma rede de conexões telefônicas, consegui descobrir uma moça que vendia cosméticos em Itamaracá. O salão de beleza dela estava fechado, mas para uma compra sem aglomerações ela abriu uma exceção. Acompanhado do meu amigo Fernando de Albuquerque, seguimos para o salão e não é que ela tinha tudo que estava na lista? 

Compras feitas, entrei no Skype para a segunda aula mais confiante.  Bruno, Anderson, Lucas, André Angelina, Juliana, Thayná, Hanna, estavam animadíssimos. Sheyla ampliou as reflexões da noite anterior e mesclou conversas com movimentos corporais. Entre exercícios para soltar o corpo com músicas que foi de “Xiquexique”, de Tom Zé a hits de house music, algumas novas questões foram abordadas, dentre elas o processo de construção da personagem drag que cada um gostaria de representar. “Temos que buscar uma motivação em nosso interior. A persona que vai nascer está dentro da gente. Lembrem que a drag está em um lugar de potência e faz parte do processo de criação encontrar esse poder contra os códigos que nos são impostos”, argumentou Sheyla incisiva. Assim, mesmo sozinhos, cada um em suas casas, por meio da dança seguimos as sugestões de nossa instrutora: “liberem o corpo e coloquem ele para falar”. 

Depois rolou um momento terapia. Confesso que sou meio cismado com essas técnicas, mas como quem está na chuva é para se molhar, entrei no clima. O jogo foi concluído com cada um pegando os lençóis, fazendo nele nós que representavam nossos medos. Depois ao som da música “Ongotô”, de Caetano Veloso e José Miguel Wisnick, fomos desatando esses nós, uma forma simbólica de se desembaraçar dos obstáculos que poderiam impedir a busca de nossos personagens. Fiquei rodopiando pelo meu quarto ao ritmo da melodia e imaginando coreografias com o lençol dos nós desfeitos. Por fim, pegamos os batons e fizemos pinturas livres em nossos rostos. Para encerrar, Sheyla nos lembrou que para o final do curso teríamos que criar uma performance e gravá-la em vídeo. Lembrei da cara dos meus alunos quando passo alguma atividade mais complicada para execução. Com um “eu não vou conseguir” vagando pela minha cabeça, nos despedimos ansiosos pelo dia seguinte quando iríamos aprender a se maquiar, um ponto chave na arte drag.

Terceiro dia: atropelos da make

Sempre pensei que fazer maquiagem fosse algo difícil e que exige muita habilidade. Mas depois do encontro do terceiro dia da oficina revi completamente meu conceito sobre as pessoas que se dedicam a esse ofício – incluindo as drags que fazem sua próprio make. Gente, vocês não têm ideia. Quem domina a arte de maquiar pode se considerar um gênio. Só a preparação da pele, a cobertura da sobrancelha e esculpir os traços do rosto me deixaram em polvorosa. Foi luta, viu? No final saiu, mas tenho cá minhas dúvidas quanto ao resultado. Sheyla, porém, sempre gentil e positiva, não deixou a peteca cair. “Não se preocupem. Essa é a primeira vez. Quem prosseguir verá que a próxima vez já conseguirá fazer melhor”. 

A mesa onde coloquei o material estava um caos, cola em bastão, pincéis, cremes, pós, tudo espalhado e eu louco. De vez em quando dava uma olhada na tela do computador para ver como os demais estavam se saindo e me consolou ver que todes, em maior ou menor grau, também enfrentavam alguns atropelos. No grupo do Whatsapp, Sheyla compartilhava imagens com instruções e aos poucos a coisa foi engrenando. Levamos tudo numa boa, e acabamos todes rindo das sobrancelhas que insistiam em continuar visíveis e dos contornos meio desajeitados. “A maquiagem que vocês irão fazer tem que acompanhar o estilo dos personagens que serão criados por vocês. Já pensaram neles?”. Silêncio mortal. Todos estavam ainda sem saber ao certo qual a drag que iria brotar em cada um. Pelo fato de estar no meio do mato em Vila Velha, eu oscilava entre criar uma personagem de estilo brejeiro ou algo mais urbano e contemporâneo. 

Quarto dia: drags vindo à tona

Se preparar a base do rosto já foi osso, a pintura dos olhos é que foi babado. O caos da noite anterior ressurgiu ainda mais poderoso. Mas, nada como a voz de quem sabe das coisas. O que Sheyla previu se concretizou. A segunda preparação do rosto já fluiu sem tantos traumas. Maquiar os olhos exige muita delicadeza e cuidado. Para mim foi ainda mais complicado por usar óculos. Sem eles não enxergo nada direito. Mais uma vez Sheyla, sempre atenta, deu um toque de otimismo: “é isso aí Alex, sua sobrancelha está perfeita”. 

Percebi que o resultado não tinha ficado lá essas coisas e estavam bem aquém, por exemplo, dos olhos desenhados por Tahyná e André Angelina, mas como não estávamos numa competição, muito pelo contrário, resolvi colocar uma peruca loura que tenho (daquelas de carnaval) e já me convenci que nem tudo estava perdido. Todes compartilharam o resultado final no grupo e não restavam dúvidas que as drags estavam se preparando para virem à tona. Antes de encerrar as atividades, Sheyla complementou as dicas, que já vinha nos dando a cada encontro, de como fazer os vídeos da performance de encerramento. “Sejam criativos, usem os elementos que vocês têm, improvisem, se não tiverem brincos, é só cortar um pedaço de papelão em forma triangular, aplicar glitter e colar na orelha. Trabalhem a luz, sejam vocês”. 

Quinto dia: “o importante é sentir-se feliz”

Acordei na terça-feira com as palavras de Sheyla reverberando na minha mente. E assim como um passe de mágica, o personagem surgiu: Galina Aleksandrova.

Inconscientemente (só depois de gravar o vídeo foi que notei os traços de semelhança) minha inspiração visual veio de uma pintura do expressionista alemão Otto Dix Retrato da Jornalista Sylvia Von Harden. Já o motivo musical foi fruto de umas taças de vinho compartilhadas com meu amigo Fernando no domingo. Fizemos uma viagem sonora por músicas antigas e ao me deparar mais uma vez com a gravação de Dalida com Alain Delon da canção “Paroles Paroles”, decidi: “é essa”. No decorrer das aulas, sobretudo as de maquiagem, percebi melhor os meus traços e trejeitos faciais. A idade tem um peso em nossas expressões. E o misto de inspirações referentes ao século passado me puseram à vontade com a minha drag. Lembrei o que Sheyla falou ainda no segundo dia: “o importante é sentir-se feliz”. 

Na noite da terça-feira o meu quarto transformou-se em um estúdio. Sem vestidos, sem sapatos de salto, decidi filmar meu número em plano médio. Uma hora inteira foi dedicada à maquiagem. Depois, com ajuda de Fernando (que se tornou um personagem importante nesse processo) montamos um cenário, estudamos a iluminação, pegamos o celular e depois de umas sete tentativas conseguimos o resultado que eu queria. O vídeo é um plano sequência onde investi na interpretação, na gestualidade, nas expressões.

Não é nenhuma obra-prima, mas foi muito divertido fazer tudo isso. Aplacou um pouco a tristeza por tantas mortes pelo Brasil afora, acalmou a tensão pelo perigo que estamos enfrentando de acordar no meio de um regime autoritário, me fez conhecer um grupo de pessoas lindas e talentosas e mostrou que, às vezes, podemos fazer o que queremos. Obrigado Sheyla, obrigado Recifest.

Quem quiser ver um clipe com os vídeos feitos pela oficina, basta acompanhar o encerramento do Recifest às 19h desta quarta (31) pelo canal do evento no YouTube. 

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O teatro em plena expansão da companhia Bote https://www.revistaogrito.com/o-teatro-em-plena-expansao-da-companhia-bote/ Wed, 31 Mar 2021 12:11:05 +0000 https://www.revistaogrito.com/?p=152017 Estreou dentro da programação do Recifest – Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero, o espetáculo Salto, da companhia Bote de Teatro. Com livre inspiração na montagem brasileira dos anos 1970 de Os saltimbancos, quatro atores e uma cantora e atriz convidada, incorporam a verve de sujeitos-usuários que procuram uma forma de se descolar da realidade em que vivem estabelecendo o que a companhia sinalizou como “uma nova forma, mais justa, de viver em sociedade”. Após a estreia, […]

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Estreou dentro da programação do Recifest – Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero, o espetáculo Salto, da companhia Bote de Teatro. Com livre inspiração na montagem brasileira dos anos 1970 de Os saltimbancos, quatro atores e uma cantora e atriz convidada, incorporam a verve de sujeitos-usuários que procuram uma forma de se descolar da realidade em que vivem estabelecendo o que a companhia sinalizou como “uma nova forma, mais justa, de viver em sociedade”.

Após a estreia, o espetáculo entra em temporada de 3 a 18 de abril, sempre aos sábados e domingos, 20h, no YouTube da companhia. Para ter acesso à apresentação é necessário se inscrever no formulário eletrônico que consta no perfil oficial da companhia @boteteatro.

Recifest realiza edição online com mais de 30 filmes com temática LGBTI+ de graça

Recifest – Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero, do Recife, retorna este ano com uma edição online e gratuita. Depois da pausa de um ano, o evento, que é tido como um dos principais de seu seguimento no País, apresenta 30 curtas-metragens, além de um longa-metragem, oficinas e rodas de diálogos. O festival começa nesta sexta (26) e vai até quarta da semana que vem (31). As inscrições e mais detalhes das exibições podem ser conferidos no […]

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Como faz uma releitura com profunda incursão nas relações tecnológicas, a companhia Bote faz desta estreia uma expansão, onde o corpo, o som e o texto não são as únicas plataformas para se manifestar diante do mundo. Lançando mão do que eles intitulam como cyberpresença, a companhia sofistica o seu entrelaçamento com a realidade cravando a cisão definitiva na tradição aristotélica que vê o texto em detrimento da concretude da cena.

Assim, eles fazem uso da gramatologia essencial que compõem as lives, o cinema, a música eletrônica, o transe e o próprio teatro para metrificar, diante do público, respostas às questões essenciais delineadas pela montagem de 43 anos atrás e que, hoje, ainda ainda não encontraram a assertiva verdadeira: Todos juntos somos fortes? Realmente não há nada a temer? E o que fizemos com aquilo que fez sentido naquela época? Fez sentido?

Ao buscar respostas para questões que pensávamos estarem sanadas, o Bote flerta com aquilo que Horace Mann identificou como “serendipity”, neologismo inspirado no conto lendário Os três príncipes de Serendipe”, onde heróis estão sempre fazendo descobertas e traçando pontes onde os outros só enxergam vazios. Atestando no aleatório as oportunidades para se conectar com eventos que moldam a nossa realidade. Segundo o pesquisador Pek Van Andel, a serendipidade é a “arte de fazer descobertas não buscadas”, mas que são essenciais para o entendimento pleno do edifício de cristais em iminente quebra que compõem o cotidiano individual e coletivo.

O Grito! conversou por e-mail com a Companhia e manteve a centralidade da entrevista na compreensão dos meandros da adaptação e das fontes em que bebem. Não há uma voz que delimite as respostas na entrevista, eles falam em “nós”, como um organismo-espetáculo-pensante. A apresentação tem duração de 45 minutos e foi gravada no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, na Zona Sul do Recife. No elenco estão as atrizes Inês Maia e Una Martins e os atores Daniel Barros, Cardo Ferraz, e Pedro Toscano.

“A narrativa é uma ode marxista às revoluções, às carências de confrontamento e a criação de novas formas de se viver em sociedade” (Foto: Desna.)

Como foi o processo de adaptação dos Saltimbancos?
Nós, enquanto grupo, estamos numa pesquisa há mais de dois anos que se debruça sobre a coletividade, sobre o estar junto ou, simplesmente, como manter-se grupo. Chegar nos saltimbancos foi um caminho meio natural para todos nós do Bote. É uma obra que faz parte da nossa memória afetiva e quando fazemos um paralelo entre teatro, nossa infância e as experiências que ficaram dessa transa, foi unânime a necessidade de recorrer ao texto de Chico.

Como presentificar um espetáculo já tão referenciado?
O processo de adaptação veio a partir de um dessecamento da peça, pra gente, o que tinha mais valor durante o processo era a trajetória dos quatro arquétipos ali presentes, o que eles representavam socialmente e como eles lidavam com aquilo que era necessário de ser articulado dentro do espetáculo. Hoje, adultos, fazendo uma leitura da dramaturgia, nós encontramos uma camada que antes, criança, não captamos. A narrativa é uma ode marxista às revoluções, às carências de confrontamento e a criação de novas formas de se viver em sociedade mais justas e auto gerenciadas de forma horizontal, ou melhor, com equidade. E foi em cima disso que nós pensamos a nossa adaptação. Trazer para o agora um espetáculo que tantas vezes já foi mastigado, engolido, regurgitado, e engolido novamente vem do nosso desejo de tentar emplacar aquilo que está velado dentro do percurso da peça. Para isso foi necessário que a gente limasse a linguagem para infância da trajetória, na nossa versão, os corpos que ali vivem trazem uma bagagem que se assemelha a questionamentos mais adultos. Nós constantemente durante o processo nos perguntávamos: todos juntos somos fortes mesmo? Se encontramos alguma resposta? Não. Não encontramos, mas tentamos levantar essas incertezas dentro do nosso espetáculo e compartilhá-las. O que faz hoje o jovem que passou sua infância cantando au-au-au, ia-i-on, miau-miau-miau e cocorocó. O quanto que fica? O quanto é eficaz? Recriando metáforas, fomos seguindo essa ideia de fábula, mas dentro de outra atmosfera.

A música continua como uma tônica?
O espetáculo, assim como em Saltimbancos, envolve muita música. É parte fundamental de nossa peça, as letras de Chico entraram no texto dos personagens de forma irônica. Agora, aquilo que era cantado perde a ludicidade da música e ganha força como atmosfera,a gente traz a estética da cena clubber, da noite, das drogas, da música eletrônica para ambientalizar os anseios da juventude, que somos nós no final das contas. Tivemos uma honra imensa de trabalhar com uma parceira nossa, a DJ olindense Libra na construção da trilha sonora original da peça. Libra é produtora de uma festa clubber na cidade e já se apresentou no Carnaval do Rec Beat, então ela sabia muito bem o que estava fazendo. São todos os minutos embalado por uma track única.

Salto trabalha dentro de um conceito híbrido que une teatro e audiovisual. (Divulgação).

Em um período em que cultura da convergência é o lugar comum dos produtos e bens culturais, como trazer inovações, questionamentos e encruzilhadas para o teatro?
Se permitindo novas perspectivas, mesmo. Misturar as diferentes linguagens da arte se tornou lugar comum, acredito eu, justamente por essas vontades de questionamentos, encruzilhadas e inovações. As linguagens enquanto entidades puras começaram a se esgotar, isso já era uma vertente forte antes da pandemia e só se intensificou com ela. A escolha de reinvenção é constante no teatro, como no cotidiano, desde sempre e, até então, essa ideia de expansão vem com um valor que muitas vezes é consequência da soma de outras linguagens. Por exemplo, uma atriz que agrega práticas vindas das artes marciais para compor o seu monólogo ou o próprio Kathakali que vive desde sempre na potência do hibridismo da dança e do teatro. Essa lógica de artes integradas impulsiona as experiências, levanta os estímulos. Somos fãs do Teatro. Estamos sedentos por trocar com o público e foi muito doido transformar SALTO numa obra que converge com o audiovisual mas não foi triste, foi enriquecedor. A gente assumiu a experiência. Nesse momento de isolamento onde a linguagem teatral se treme nas bases e se pergunta “como continuar existindo?” Os resultados, majoritariamente, são produtos audiovisuais. Não fazer as pazes com essa informação poderia precarizar o nosso trabalho e também não tínhamos a pretensão de inventar a roda. Seguimos fazendo uma peça de Teatro mas dessa vez, usando o cinema como público e se apropriando de tudo aquilo que ele poderia nos oferecer de elementos que nos impulsionam, como falei acima. Talvez o nosso jogo seja o de brindar com nossas referências, sempre que possível, mesmo que elas sejam de outras naturezas. Isso pode ampliar nossas perspectivas. Um outro exemplo mais próximo, assim como o filme de Salto, para a adaptação para o presencial, nós também vamos recorrer ao híbrido de artes. Para ela, a gente conta com a Direção de Movimento de Kildery Iara, que trará soluções para preencher artifícios que no filme foram criados pelas ferramentas do audiovisual, e no presencial usaremos com a dança. Criando uma outra ação-hibridação dessa vez mais próxima da dança-teatro. Serão 3 meses de trabalho com a preparadora em nossa sede, situada no bairro da boa vista no Edf. Texas, onde trabalharemos partituras que irão compor o espetáculo. 

Considerando a pandemia, como trazer experiências reais do espetáculo de teatro para um público que irá consumir pela tela?
Parece fantasia, mas acreditamos que há uma mágica que existe quando o Teatro acontece e é brincando com ela que a gente procura sustentar a imagem teatral nas telas. Artifícios que transformam o zero no cem. No teatro tudo é possível. Eu posso estar num palco vazio olhar para plateia e dizer: eu estou numa ilha deserta. A tendência é que quem assista se permita compor essa imagem junto ao atuador. No cinema essa liberdade tão explícita é subutilizada, os trabalhos lidam com necessidades mais realistas para criar a ilusão. Preservar essa estrutura de pensamento e criação foram os pontos fortes nas nossas intenções de não descaracterizar o trabalho como uma obra teatral. A gente não queria que fosse algo como teatro gravado, pois acreditamos que o teatro, tal como é, só atinge seu máximo na presencialidade, na troca com o público. Então gravar uma peça encenada como em um teatro e querer que as pessoas tenham a mesma experiência, seria um pouco demais. Como solução, nós nos apropriamos de todas as ferramentas audiovisuais e criamos uma obra cinematográfica, mas que tem como base a liberdade e imaginação do teatro. A pandemia nos afastou da presencialidade, mas não nos privou de criar e teatro é uma criação coletiva entre ator e público, só que nesse momento intermediados pelo cinema. A gente abraçou a linguagem do audiovisual como ferramenta levando em consideração que os resultados iriam transpassar até o próprio cinema, inevitavelmente. A hibridação foi a nossa escolha, é tudo uma grande mistura, até não ser nem mais um nem mais o outro.

As questões sociais apontadas pelo espetáculo dos anos 70 ainda estão presentes na encenação?
Na verdade, o fato das pautas dos anos 70 ainda serem pautas atualmente é o grande centro da peça. Nós adaptamos Saltimbancos não em uma ideia de trazer para o mundo atual, embora seja inevitável que isso tenha acontecido, até por causa do texto que fala muito das nossas aflições pessoais, que são atuais. Mas além disso, a grande ironia está em observar os ciclos. Veja, Saltimbancos foi escrito na época da ditadura, que por sua vez foi baseado em um texto italiano “I Musicanti”, que foi feito na época do fascismo italiano, que por sua vez foi baseado em um texto dos Irmãos Grimm, “Os Músicos de Bremen”. Todos esses textos se encaixam muito bem com as suas épocas, não por mérito dos textos e sim porque a sociedade segue em declínio, repetindo os mesmos erros, como Plínio Marcos respondeu uma vez quando perguntaram como as obras dele eram tão atuais. No dia 31 de Março, estrearemos SALTO em um governo autoritário, com mais semelhanças do que diferenças com esses outros governo que passaram, então mais do que nos perguntar “será que ainda temos pautas que se conectam com os anos 70?” é se perguntar “por que continuamos andando em círculos? por que essas pautas estão TÃO presentes?”. Pegamos essa ideia e fizemos um paralelo com a própria história dos animais de Saltimbancos, eles partem em busca da utopia, do grande sonho. Mas no final, por mais que para eles seja uma vitória, eles retornam para ocupar as mesmas funções que faziam quando eram empregados: o burro carrega, a galinha cozinha, o cachorro vigia e a gata entretém. No final das contas, todos nós sentimos como eles agora, especialmente passado um ano de pandemia e a gente se vê de volta ao começo. A gente brinca um pouco com isso até na cenografia e na direção de arte, levamos o espetáculo para uma atmosfera retrofuturista, onde o passado e o futuro se confundem na intenção de questionar nossa ideia de evolução. Achamos que o público também pode se identificar com isso, só esperamos não destruir pra eles esse grande símbolo da infância que é Saltimbancos, e que também fez parte da infância de todos nós. Ou talvez seja para destruir mesmo, não sabemos, vamos ir além e ver o que vai dar.

Foto: Desna.

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Luke Giles, novidade da cena pop recifense, lança o misterioso EP”Amortentia” https://www.revistaogrito.com/luke-giles-novidade-da-cena-pop-recifense-lanca-o-misterioso-epamortentia/ Tue, 30 Mar 2021 17:53:45 +0000 https://www.revistaogrito.com/?p=152009 O cantor e compositor recifense Luke Giles lançou o EP Amortentia – inspirado na poção do amor citada nos livros do Harry Potter, com canções que transbordam amor e suas fases: o desejo, a paixão e a saudade. Inspirado por sonoridades como Reginaldo Rossi, Duda Beat, Rita Lee, Jonnhy Hooker, Katy Perry, Coldplay, Pabllo Vittar, Anitta, entre outros. São ao todo três faixas (“Sorte”, “Nosso Amor”, “D`Volta – ft. Phílipe Mendes”). O EP foi produzido por Leandro Aleckrin. Veja o faixa a […]

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O cantor e compositor recifense Luke Giles lançou o EP Amortentia – inspirado na poção do amor citada nos livros do Harry Potter, com canções que transbordam amor e suas fases: o desejo, a paixão e a saudade.

Inspirado por sonoridades como Reginaldo Rossi, Duda Beat, Rita Lee, Jonnhy Hooker, Katy Perry, Coldplay, Pabllo Vittar, Anitta, entre outros. São ao todo três faixas (“Sorte”, “Nosso Amor”, “D`Volta – ft. Phílipe Mendes”). O EP foi produzido por Leandro Aleckrin.

Novos Sons: Luna Vitrolira, serpentwithfeet, Juliana Linhares, Thiago Elniño e Graveola

Luna Vitrolira – Aquenda (O Amor Às Vezes é Isso) (Independente) serpentwithfeet – DEACON (Secretly Canadian) Thiago Elniño – Correnteza (Independente) Karol G – KG0516 (Universal) Juliana Linhares – Nordeste Ficção (Independente) Veja abaixo os singles novos que saíram, além de faixas presentes nos discos acima: Veja mais da coluna:

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Veja o faixa a faixa:

1 Xícara de Desejo: SORTE

A música SORTE, fala sobre o desejo das pessoas de ser amado e de ter alguém para amar, sobre o quanto são sortudos aqueles que amam. Por meio de um som cheio de swing, alegria e palavras com um duplo sentido, a primeira faixa te convida a dançar, a desejar um gole dessa porção do amor.

2 colheres de Paixão: NOSSO AMOR

Essa música foi escrita e composta como o intuído de se tornar uma marcante declaração de amor, nela apresenta os mais sinceros sentimentos por quem o compositor está apaixonado. O amor é um vício, uma droga, uma cura para muitas doenças no mundo mas a sua falta pode ser trágica. Nosso amor, conta relatos de uma história real de amor com um toque poético. Um abraço musical.

Luke possui também mais dois singles: “Agora é a Hora” e “Não diga que não” (Foto: Leandro Cardoso/Divulgação)

3 gotas de Saudade: D’VOLTA

Uma hora o efeito da porção mágica chega ao seu fim, deixando um gostinho doce na boca com notas de saudade. A última faixa do EP traz uma melodia melancólica e uma letra muito profunda, uma versão ainda não ouvida pelo público do Luke. Composta e cantada também pelo Phílipe Mendes, a música fala sobre a perda desse amor continuo, a falta da pessoa amada. As boas lembranças são aquilo que devemos guardar em nossos corações.

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Novos Sons: Luna Vitrolira, serpentwithfeet, Juliana Linhares, Thiago Elniño e Graveola https://www.revistaogrito.com/novos-sons-luna-vitrolira-serpentwithfeet-juliana-linhares-thiago-elnino-e-graveola/ Mon, 29 Mar 2021 19:40:24 +0000 https://www.revistaogrito.com/?p=151999 Luna Vitrolira – Aquenda (O Amor Às Vezes é Isso) (Independente) serpentwithfeet – DEACON (Secretly Canadian) Thiago Elniño – Correnteza (Independente) Karol G – KG0516 (Universal) Juliana Linhares – Nordeste Ficção (Independente) Veja abaixo os singles novos que saíram, além de faixas presentes nos discos acima: Veja mais da coluna:

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Alguns dos novos discos que chegaram esta semana pra geral atualizar a playlist com os lançamentos musicais.

Toda semana atualizamos a nossa playlist “Novos Sons” no Spotify com as melhores músicas lançadas e também com as faixas que estão bombando, de artistas brasileiros e estrangeiros. Por isso segue o nosso perfil por lá que adicionamos novas faixas quase que diariamente.

Temos ainda diversas playlists organizadas por gêneros e temas. Não esquece de colocar o modo de exibição para exibir as mais recentes.


Luna Vitrolira – Aquenda (O Amor Às Vezes é Isso) (Independente)


serpentwithfeet – DEACON (Secretly Canadian)


Thiago Elniño – Correnteza (Independente)


Karol G – KG0516 (Universal)


Juliana Linhares – Nordeste Ficção (Independente)

Veja abaixo os singles novos que saíram, além de faixas presentes nos discos acima:

Veja mais da coluna:

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Obi-Wan Kenobi, estrelada por Ewan McGregor, tem elenco revelado https://www.revistaogrito.com/obi-wan-kenobi-estrelada-por-ewan-mcgregor-tem-elenco-revelado/ Mon, 29 Mar 2021 17:40:08 +0000 https://www.revistaogrito.com/?p=151993 Obi-Wan Kenobi nova série do Disney+ estrelada por Ewan McGregor como o Mestre Jedi começará a ser filmada em abril. O elenco foi divulgado nesta segunda (29) pela Disney+. A história começa dez anos após os eventos dramáticos de Star Wars: A Vingança dos Sith, onde Kenobi enfrentou sua maior derrota, a queda e corrupção de seu melhor amigo e aprendiz Jedi, Anakin Skywalker tornando-se o malvado Lorde Sith Darth Vader. Obi-Wan Kenobi é dirigida por Deborah Chow, diretora de […]

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Obi-Wan Kenobi nova série do Disney+ estrelada por Ewan McGregor como o Mestre Jedi começará a ser filmada em abril. O elenco foi divulgado nesta segunda (29) pela Disney+.

A história começa dez anos após os eventos dramáticos de Star Wars: A Vingança dos Sith, onde Kenobi enfrentou sua maior derrota, a queda e corrupção de seu melhor amigo e aprendiz Jedi, Anakin Skywalker tornando-se o malvado Lorde Sith Darth Vader.

Obi-Wan Kenobi é dirigida por Deborah Chow, diretora de dois episódios aclamados pela crítica de The Mandalorian, na primeira temporada.

A série também marca o retorno de Hayden Christensen no papel de Darth Vader.

Juntando-se ao elenco estão Moses Ingram, Joel Edgerton, Bonnie Piesse, Kumail Nanjiani, Indira Varma, Rupert Friend, O’Shea Jackson Jr., Sung Kang, Simone Kessell e Benny Safdie.

Obi-Wan Kenobi tem produção executiva de Kathleen Kennedy, Michelle Rejwan, Deborah Chow, Ewan McGregor e do escritor Joby Harold. O diretor de elenco é Carmen Cuba.

Obi-Wan Kenobi estará disponível exclusivamente no Disney+, em data ainda a ser divulgada.

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