Entrevista: Guizado

18.08.2008 às 2:12

Guizado (Foto: Myspace/ Divulgação)

A IMAGEM DO SOM
Por Gabriel Gurman

Uma trilha sonora para o caos urbano. É isso que propĂ”e Guilherme Mendonça, jovem trompetista que, sob a alcunha de Guizado, ao lado de Regis Damasceno (guitarra), Rian Batista (baixo) e Curumim (bateria), acaba de lançar o disco Punx. Paulistano de alma e de gĂ­rias, Guizado incorpora elementos antes observados em Miles Davis e outros grandes mestres do trompete e os mistura com sintetizadores, overdubs e programaçÔes. O resultado Ă© uma mĂșsica instrumental nĂŁo palpĂĄvel a qualquer ouvinte mas que, pelo mesmo motivo, nos instiga a prestar uma atenção redobrada para nĂŁo deixar passar qualquer detalhe. Confira abaixo a entrevista que a Revista O Grito realizou com o mĂșsico:

Vamos começar do começo: Quando vocĂȘ decidiu que ia tocar um instrumento e por que o trompete?
Logo de cara, meu interesse começou pela bateria, lĂĄ pelos treza anos. Cheguei a tentar formar uma banda com o meu primo e uns amigos, e a coisa atĂ© que foi em frente, mas nada muito sĂ©rio. O problema foi que a bateria começou a causar muitas confusĂ”es com vizinhos, eles chegaram atĂ© a chamar a polĂ­cia. Com tudo isso, fui parando aos poucos, mas tinha que dar um jeito para prosseguir meu caminho na mĂșsica. Passei entĂŁo para guitarra e o violĂŁo durante um tempo, atĂ© que duas coisas me fizeram ir para o trompete: primeiro, um trompete veio parar na minhas mĂŁos, atravĂ©s do avĂŽ de um amigo que, por sua vez, tocava saxofone. Eu havia ficado sĂłcio de um sebo de discos que permitia alugĂĄ-los e levar pra casa, entĂŁo ficĂĄvamos eu e esse meu amigo tocando em cima dos discos que a gente conseguia e ali foi aonde eu senti que mais estava evoluindo. Passava as tardes inteiras tocando em cima desses ĂĄlbuns e me identifiquei com a idĂ©ia de ter uma voz mais abstrata, de poder criar melodias dentro de uma banda e nĂŁo precisar da letra, seguir outros caminhos.

Mas até então sua pegada era mais roqueira?
Era sim. Um dos primeiros discos que eu tive foi o Electric Ladyland, do Jimmy Hendrix, lĂĄ pelos quatorze anos. Hoje em dia, eu consigo perceber como essa Ă©poca foi fundamental para traçar a forma como eu crio minha mĂșsica.

Falando sobre isso, quais foram suas maiores influĂȘncias, tanto em sua formação musical no trompete como para o Punx?
No trompete, a maior influencia foi, de inĂ­cio, o blues. Foi com ele que aprendi as formas e estruturas da mĂșsica, os primeiros acordes etc. Depois, conheci os trompetistas que vinham do blues, como Louis Armstrong e Roy Eldridge. Foi sĂł entĂŁo que veio o Miles Davis, que foi quem abriu infinitos caminhos com suas inovaçÔes. AlĂ©m disso, hĂĄ tambĂ©m os mĂșsicos do avant-garde como Ornette Coleman, Don Cherry, Art Essemble of Chicago, entre outros, que abriram minha cabeça para o free jazz. JĂĄ no Punx, as influĂȘncias vieram de diversos lugares. Foi um momento em que passei a ouvir poucos trompetistas e me ligar mais na produção dos discos que eu ouvia. Coisas como Kraftwerk, TV On The Radio, Prefuse 73, a fase mais antiga do Pink Floyd, mas tambĂ©m Miles Davis, Jimmy Hendrix e o free jazz.

Poucos instrumentos sĂŁo tĂŁo ligados a um tipo de som como o trompete com o jazz. Mesmo com discos como On The Corner, de Miles Davis, por exemplo, que me parece como um percurssor desta miscigenação que hĂĄ em Punx. VocĂȘ enxerga algum tipo de preconceito nessa mistura de influĂȘncias e gĂȘneros que vocĂȘ propĂ”e em seu ĂĄlbum?
De modo algum. Pode gerar, de início, uma certa estranheza. Mas acho que essa estranheza é, na verdade, um ponto a favor, ou melhor, uma coisa negativa que no final das contas se torna positiva, pois também gera interesse e acaba se tornando instigante ao invés de estranho.

AtĂ© por isso, vocĂȘ concorda que Punx nĂŁo Ă© um disco imediato, fĂĄcil? VocĂȘ nĂŁo tem medo de lidar com isso em uma Ă©poca onde a mĂșsica Ă© um “produto” cada vez mais efĂȘmero e substituĂ­vel, onde as pessoas fazem downloads e, se nĂŁo gostam na primeira vez que ouvem, acabam deixando de lado?
É, eu penso nessas coisas sim. Mas, por enquanto, ficam mais no campo das reflexĂ”es e das especulaçÔes. Na hora de compor eu acabo nĂŁo me preocupando muito com isso. AlĂ©m disso, creio que existe algo mais sĂłlido na comunicação desse disco com o ouvinte, Ă© um processo mais lento porĂ©m mais verdadeiro e que fica por mais tempo.

Como é seu processo de composição? Elas surgem através das sensaçÔes, de improvisos, ou são extremamente desenvolvidas e trabalhadas, nota por nota?
Começa em casa, onde eu tenho um pequeno estĂșdio. Ali eu programo a parte rĂ­tmica, adiciono samplers e gravo os sintetizadores. Com isso, eu direciono a levada da mĂșsica, algumas melodias e grande parte da harmonia. A partir daĂ­, nos ensaios acontece a lapidação final, quando a banda se junto comigo e escutamos como tudo soa junto. A partir disso, a gente vai encaixando as coisas, fazendo alteraçÔes e criando novas partes tambĂ©m.

Guizado (Foto: Myspace/ Divulgação)

Uma pergunta que sempre me instiga: da onde surgem os nomes para cançÔes instrumentais?
Surgem de diferentes formas. “Maya”, por exemplo, Ă© uma mĂșsica forte e meio agressiva que vem de encontro a sensação urbana do caos (maya no sentido budista significa “o mundo das ilusĂ”es”), toda essa babilĂŽnia urbana. “Rinkisha” Ă© um nome fictĂ­cio que eu inventei e foi feita na mesma Ă©poca que “Maya”, mas me lembra algo de sentido muito forte. Em geral, as mĂșsicas desse disco, por serem muito imagĂ©ticas, me levam a imaginar palavras que Ă s vezes fogem de seu significado e vĂŁo para um lugar mais prĂłximo a sensaçÔes.

VocĂȘ jĂĄ tentou transformar essas imagens e sensaçÔes em letras de mĂșsica?
Sim, eu tenho pensado nisso e fico feliz em saber que existe essa porta aberta. Ainda quero inserir voz no meu trabalho e jĂĄ estou planejando pesquisar coisas nesse sentido.

Queria que vocĂȘ comentasse sobre as influĂȘncias alĂ©m-mĂșsica. Me parece que a prĂłpria cidade de SĂŁo Paulo Ă© uma grande influĂȘncia no seu som…
É verdade.Viver nessa cidade Ă© algo que me impulsiona. O dia a dia, os relacionamentos que acontecem e que nos levam para diferentes lugares da mente, essa trama de pessoas tendo como pano de fundo uma cidade imensa… Essa combinação gera uma certa intensidade que parece estar em todo lugar, e isso sempre me pareceu algo muito inspirador desde pequeno.

JĂĄ que estamos falando de SĂŁo Paulo, de uns tempos para cĂĄ, vem sendo construĂ­da uma cena cooperativa que inclui diversos mĂșsicos como vocĂȘ, Curumin, Anelis Assumpção, M. Takara, entre muitos outros. VocĂȘ divide a opiniĂŁo de que hoje em dia faz muito mais sentido a idĂ©ia de “coletivo” do que de uma banda fixa?
Eu acredito que existe hoje em dia muita gente produzindo, muita coisa sendo feita e, com o auxĂ­lio da tecnologia, o conceito de registrar e gravar idĂ©ias se desenvolveu e barateou bastante. Mas, se vocĂȘ olhar de mais de perto, vai ver que as bandas estĂŁo todas aĂ­. Existem afinidades e amizades que ligam muita gente envolvida. O fato Ă© que, hoje em dia, a idĂ©ia de se ter uma banda e aquilo ser tudo na sua vida nĂŁo existe mais. Todo mundo tem que abraçar vĂĄrios projetos para poder seguir em frente na mĂșsica, por isso, ĂĄs vezes, um substitui o outro em algumas situaçÔes. Mas o Guizado, por exemplo, Ă© uma banda “formada”. A gente construiu algumas coisas em grupo que foram fundamentais.

VocĂȘ comentou sobre o barateamento nos custos de gravação e produção. O seu disco foi lançado em SMD, versĂŁo que Ă© vendida por um preço baixo e fixo, mas que ainda possui alguns problemas de aceitação. Na sua opiniĂŁo, o CD ainda Ă© vĂĄlido como produto comercial ou se tornou um mero cartĂŁo de visitas? E como vocĂȘ avalia a importĂąncia da internet na sua mĂșsica?
Eu acredito no produto fĂ­sico do CD, acho legal poder distribuir o disco em uma escala mais abrangente. Creio que o mercado mudou para um setor mais independente e as coisas tendem a crescer. PorĂ©m, o que eu tenho aprendido Ă© a direcionar o meu foco Ă© na construção de um pĂșblico, de ter acesso a o maior nĂșmero de pessoas possĂ­vel, de maneira objetiva. Com um CD de custo mais baixo, isso tem sido comprovadamente eficaz, assim como a internet. Mas acho que o que impulsionara o mercado vai ser a formação de publico para a mĂșsica atravĂ©s nĂŁo sĂł dos discos, mas da internet, shows, festivais etc. Existe muita gente atrĂĄs de coisas novas e interessantes.

Mas, para uma banda de rock independente conseguir construir uma carreira de sucesso, jĂĄ Ă© difĂ­cil. Um trompetista jovem que lança um disco instrumental e que ainda abusa de sintetizadores e programaçÔes tem que ralar muito mais ou jĂĄ existe esse pĂșblico formado para seu tipo de som?
Pois Ă©, tem que ralar! A coisa Ă© lenta e hĂĄ a necessidade de se produzir muito, pois para essa fogueira pegar tem que ter muita lenha. Existe um pĂșblico que estĂĄ se formando e, aos poucos, ele tem mostrado a sua cara.

Guizado (Foto: Myspace/ Divulgação)

Para finalizar, quais sĂŁo suas expectativas para o show no festival Coquetel Molotov, agora em setembro?
Os shows tĂȘm sido cada vez melhores. EstĂŁo surgindo muitos momentos Ășnicos de interação entre a banda e eu fico feliz de estarmos indo para Recife nesse momento em que essas coisas estĂŁo acontecendo de fato. AlĂ©m disso, tenho algumas mĂșsicas novas que possivelmente tocaremos por lĂĄ. Gostaria de dizer tambĂ©m que tocaremos semana que vem em SĂŁo Paulo, na Livraria da Esquina, no dia 22/08.

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