
A Queen Of Heats de Roby Coffey
A FORÇA DA ROUPA-FARSA
Seria menos banal se fosse mais conceitual. Digo, tudo. De sabores a automóveis, mas sobretudo roupas. Um sobretudo conceitual, imagina. Poderia me abrigar como uma casa faria. Janela-bolso que abre e saltam moedas do meu mamilo. Chaminé sobre o ombro, umbigo de campainha. E a garagem? Bem, a garagem não se vê.
Uma vez gostei de um vestido. Quando entrei para perguntar, a moça disse que era uma peça conceitual da loja. Era vermelho com pedaços de pano vermelho de corte coloidal costurados com linha branca no colo, até a gola careca. Lógico que era incomum e eu já pensava na expressão decepcionada da minha mãe ao me ver dentro dele.
Porque o século XX criou o ramo da roupa teaser sexual, e é assim que a maioria dos homens e mulheres se veste. Vestidos de alcinha e decotão, camisetas agarradas ao torso – o feminino justinho e o masculino torneado.

Mas nas últimas décadas começou a eclodir os sufragistas da fantasia possível. Foi o início da era da roupa-farsa: pense Björk. Uma roupa que nos transforma em imaginação. Quão mais atraente é uma pessoa metade real, metade arte. A escultura viva que não se pinta de branco e paralisa, mas que passeia e movimenta as glórias do tecido na forma extravagante.
Queremos comprar pão vestidos de Rainha Amídala – ou pelo menos um look da designer chinesa Ma Ke no inverno. No mínimo o DVD do último desfile de Jum Nakao para inspiração.
Nossas chances estão no pós-industrialismo, que liberou as marcas do processo industrial da moda pasteurizada para que explorassem a criaividade individual dos estilistas. É a estréia da “obra de arte utilizável”, levando modelos “exemplares únicos” ou “edições limitadas” às lojas para alimentar uma reduzida e ansiosa parcela de excêntricos.
Life’s a drag.
.
LEIA MAIS
Publicado no dia 20 de abril de 2008 às 1:03. Arquivado em Colunas · Joana Coccarelli — Bjork, Coluna: Joana Coccarelli [Imprimir essa matéria
| Enviar por email
]
Acompanhe a opinião dos leitores pelo feed,publique seu comentário ou trackback.
































Sorela, e o fashion victim que se acha conceitual? Onde se encaixa?
Da série “homem que é homem não tem gato nem roupa conceitual”.
e roupa conceitual pra homem, cola?
Ótimo artigo, já caí também na ‘peça conceitual da loja’ e é super frustrante ver tantas idéias frescas que, por inúmeros motivos, acabam ficando só como aperitivo visual.