Revista O Grito!

Raul Luna: Como ser um cineasta pernambucano de sucesso


Guia de higiene, comportamento e comedoria para o audiovisual pernambucano
Consideraçoes gerais para um realizador autoral promissor na cena audiovisual pernambucana

Antes de discorrer sobre o fenômeno audiovisual que avassala a cidade do Recife, gostaria de me apresentar: sou Raul Luna, 25 anos, videomaker, dj, ilustrador, estudante de arquitetura e membro do coletivo Tv Primavera. Há mais ou menos seis anos, trabalho no furacão audiovisual pernambucano, observando de perto detalhes desse cenário. Arrisco-me a escrever uma coluna semanal voltada para o jovem realizador do audiovisual no estado, criando este guia de higiene, comportamento e comedoria, analisando o comportamento do cineasta promissor diante das situações do dia-a-dia desse profissional. Tudo para mantê-lo atualizado e ajudá-lo a domar essa floresta cultural com muita criatividade.

Fazer o hype e gerar interesse

O primeiro passo para se dar bem no audiovisual pernambucano é saber que você é o seu maior produto. Busque gerar mídia a seu favor e produza o máximo possível, sempre tentando se associar a uma imagem de qualidade, ganhando credibilidade perante a sociedade. Esse é um ponto importante para o jovem realizador, onde muitos se perdem e não obtém êxito, já que não passam de farsas ambulantes. Igualmente importante é nunca subestimar o poder do encontro ocasional com pessoas influentes do cenário pernambucano no bar Capitão Lima. O espaço é uma verdadeira mina de ouro para emergentes, amplamente freqüentado por boêmios, prostitutas, hipsters e cineastas estabelecidos (alvo principal). Fazer a íntima com cineastas no Capitão Lima pode garantir a sua freqüência em círculos restritos do audiovisual, convites para festas de pessoas ricas e, quem sabe até, novas parcerias. Parcerias essas que podem melhorar as condições para a produção do seu curta-metragem e, quem sabe também, de um novo roteiro que possa ser premiado no Ary Severo.

Tudo pode ser, se quiser será, o sonho sempre vem pra quem sonhar.
Tudo pode ser, só basta acreditar. Tudo que tiver que ser, será

Michael Sullivan

Adote uma persona

Para um diretor promissor no cenário pernambucano, mise-em-scène é indispensável. Adote uma persona, finja-se de louco no meio de uma conversa ocasional ou simplesmente dê alokas. Causar no cenário é importante porque gera nos outros a impressão de uma constante esquizofrenia em você, que imaginam estar relacionada com um processo vulcânico de idéias e pensamentos. É maduro saber que cada pessoa que ocasionalmente você encontra é um consumidor em potencial para a sua arte, portanto não economize nos trejeitos e na excentricidade. Como cineasta promissor, você possui imunidade cultural e, de certa forma, pessoas esperam um comportamento excêntrico de alguém especial.

Como criar uma nova cena

Nunca se deve buscar agradar o peixe grande. Já a aliança com peixes pequenos é de grande importância, porque cria a impressão de existência de uma nova cena. Embora não pareça, é bastante fácil criar uma cena de novos artistas. Vamos lembrar do Manguebeat, por exemplo. Artistas excelentes em 1991, porém sem local na mídia e sendo quase que encarados como putasfarsas de sua geração. O que fizeram? Festas para amigos, manifestos, produtos culturais de guerrilha e conexão com a mídia externa. Importante observar que, graças à mídia sulista (leia-se novela Tropicaliente), o Manguebeat passou a ser conhecido como um fenômeno cultural que varria Recife, mesmo sendo mentira. O processo de criar uma movimentação na cidade em torno do consumo de seu produto gera no consumidor a necessidade de acompanhar um fenômeno que ainda não existe realmente. É eficaz e você ganhará muito dinheiro com isso. A Coca-cola, o Mcdonald’s e o Manguebeat fizeram isso muito bem.

Após aprender a lição de como criar a sua cena local de artistas originais, o processo se torna mais fácil para o realizador promissor da cena audiovisual. Todos sabem que, para todo cineasta estabelecido, não existe nada mais apavorante do que uma nova geração de artistas na cidade. Nisso, os cineastas estabelecidos não mais são uma ameaça ao domínio da nova geração. São pessoas tristes, com uma vida sexual insatisfatória e desesperadas por tentar reviver a criatividade do passado. Devemos ter pena e não levar a sério o que dizem.

“Mantenha seu equilíbrio. O equilíbrio depende da serenidade da mente. Jamais se aborreça nem se exalte. Não dê importância às coisas passageiras que lhe vêm de fora. Não se impressione com o que os outros dizem. Siga a conduta ditada por sua consciência, e não perca seu equilíbrio. Caminhe para frente, alegre e certo de que há de vencer, por maiores que sejam as dificuldades do caminho.” (Minutos de sabedoria, # 163)

Invente projetos inexistentes

Por diversão, invente e divulgue projetos inexistentes. Elogie seu trabalho (qual o problema de ter consciência de que você tem qualidade?), dando riquezas de detalhes sobre inovação e de sua conexão com a contemporaneidade internacional. A cena é competitiva e, ao mínimo sinal de serem passados pra trás, cineastas autorais são capazes de cometer as mais divertidas atrocidades sociais. Observe, ria e ganhe pontos a favor.

o cineasta e a higiene bucal

Este tópico não se aplica apenas aos profissionais da sétima arte, mas a todos, alertando e lembrando que uma higiene bucal bem feita abre muitas portas. É importante não tratar a o assunto como uma escolha: saúde bucal é uma necessidade para a sobrevivência humana.

Sou cineasta. e agora?

Nosso guia recomendará em breve, com o artigo “Como se adaptar a novas gerações de audiovisual e se manter em evidência”, dicas de como sobreviver à selva do audiovisual recifense e reconhecer farsas ambulantes. Fique ligado.

——
[+] Raul Luna é arquiteto, videasta e membro do coletivo TV Primavera. Escreve um guia definitivo para a intelligentsia audiovisual pernambucana.

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Publicado no dia 20 de abril de 2008 às 1:04. Arquivado em Colunas · Raul Luna, , [Imprimir essa matéria | Enviar por email ]

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19 comentários em “Raul Luna: Como ser um cineasta pernambucano de sucesso”

  1. D'Lucena disse:

    Ótima coluna. Acho porém que para o bem do cinema e da cultura, em um sentido mais amplo, locais, o pernambucano, em geral, deveria ser mais receptivo. Recorro a uma frase, citada acima em ‘opniões’ p/ fazer-me entender:” E mais: não ver filmes feitos por aí afora, pois temos o melhor cinema do mundo”. ACHO Q DEVERIA SER O CONTRÁRIO, não? Conhecer outras realidades, criar integração compartilhando experiências alheias fazem parte do crescimento crítico. Acredito que pesar de toda a produção cultural, enquanto bahianos, pernambhucanos, ceahrenses,… pensarem da forma tacanha como expresso na ‘pérola’ citada, o Nordeste será um lugar à margem do Poder, de mentes ensimesmadas e de uma mentalidade provinciana. Digo isto com a autoridade de quem tocou em um festival onde ícones da cena recifense como Chico Science, estavam presentes. Notei q na matéria veiculada no dia seguinte pela Tv Globo Recife, a apresentação da banda que eu integrava, Alfandega, tomou praticamente todo o espaço da entrevista.Com certeza, isto foi decisivo para que nunca mais ela fosse convidada pela Direção do evento. Provavelmente até disseram “Muito boa sua capacidade de não se levar a sério… Arrasô!”

  2. Renata disse:

    Parece uma particularidade Pernambucana, mas não é, sua cartilha é univesal…hahah já vi tanta coisa parecida.Talvez frequentar a fundação dê um certo status ou não?
    Aqui em São Paulo é o Café do espaço Unibanco a Vila Madalena reduto de nova geração do cinema Paulista..hehe

  3. bile, é uma honra ter vc como leitor da coluna. e sim, realmente foi muito bom o comentario do julio, porque foi quando essa coluna realmente passou a ter um sentido real. hahahahahahahah

  4. J.G. disse:

    Genial!!! Nunca tinha lido, comecei e lí as 4 primeiras colunas de uma vez só! Continue escrevendo velho!

    Bom também foi o comentário do Júlio (supra) que não levou muito a sério o escrito! uhahuahuauau…

    Abraço velho!

  5. Gostei da coluna visitarei e comentarei sempre, deu pra iluminar minha mente sobre a minha opção de escolha em ser ou não cineasta, já pensava em fazer desde mais novo, mas como por aqui(Pe) não havia um curso especifico nas faculdades federais,optei sempre pro jornalismo(e fazer uma cadeira de cinema) mas aida sim, fico um pouco inseguro em saber se devo seguir o que gosto ou seguir o que seria mais satisfatório economicamente para minha vida, mesmo sabendo que Jornalismo tbm não é lá essas coisas…ainda tenho dúvidas…me ilumina Raul!!! =D
    Não sou pobre nem rico, então eu tenho que decidir se viver de cinema é apenas um sonho pra mim ou eu devo tentar seguir esse sonho e torná-lo real,mesmo quando pessoas dizem a mim: “morrerás de fome cinema não traz vantagem à pobre”…hehehe ;D

    abraço!

  6. Clarinha disse:

    Raul! Que legal sua coluna!
    Não sabia que tinha multi-facetas, além da arquitetura!

    Great! ;)

  7. Julio disse:

    Muito bom o texto. Concordo com 90% do que foi dito… só fiquei com a impressão de que o texto tenta passar a idéia de que a produção audiovisual daqui é 100% fake e todos os filmes são merda. Será que é bem assim? TUDO é ruim? TODOS são esquizofrênicos fake? Depois pensei… óbvio que o texto não pode ser levado 100% a sério, uma vez que tira a maior onda com os “cabeçóides-pseudo-hyper-cult” do Recife, mas foi escrito por alguém que có-dirigiu “Eisenstein” (Curta corretinho e falado em Russo. Tem coisa mais pseudo-cult?) e ainda faz parte do coletivo TV Primavera (mais um daqueles coletivos de jovens que passaram tempo demais no intercâmbio pela europa). Tô louco pra ler o texto que tá vindo por aí! Muito boa sua capacidade de não se levar a sério… Arrasô!

  8. Gabi disse:

    Can´t wait…

  9. raul disse:

    vai rolar entrevistas red carpet na praça de alimentação do cine pe. verdadeira fauna audiovisual em peso dando depoimentos pra gente ler com muita atenção depois!!

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