Revista O Grito!

Felipe Attie: No Bar de Esquina

No Bar de Esquina
Por Felipe Attie

Se me pedissem pra apontar alguma coisa de útil que minha existência na faculdade me ofereceu, meu dedo apontaria duas: Primeiro, a professora Camila Verdana, a mulher que me apresentou o real sentido da palavra paixão e o autor que viria influenciar minha escrita e, consequentemente, minha vida pelo resto dos meus dias: Hunter S. Thompson. A outra coisa… seria o bar da esquina.

Conheci a professora Camila no segundo semestre de aula. Logo que a vi entrar na sala, soube que iria casar com ela. Lógico que eu estava enganado. Mas, vontade não me faltou. Ela era tão… tão… tão… “Esquisita”, disse uma amiga minha, certa vez, enquanto conversávamos a respeito. “Como pode, alguém sentir atração por Camila Verdana?”. Pois é, eu sentia.

O que me atraía nela não era seu lindo corpo repleto de curvas que não existiam, nem seus sedosos cabelos alisados artificialmente, tão pouco, sua voz, levemente abalada pela rouquidão. Sei lá… O que me atraía nela era… era… Ah! Não sei! A única certeza que tenho é a de que ela foi uma das mulheres que conseguiu mexer comigo pra valer, fazendo-me sentir como um menininho dos tempos de escola, nutrindo aquela utópica paixão pela professorinha tradicionalmente chamada de Tia. Lógico que, quando se está na faculdade, as chances de você chamar a professora de Tia são tão remotas quanto a facilidade que você tem de, de uma hora pra outra, se ver fumando um baseado ao lado dela, dentro do seu carro, num estacionamento qualquer. Mas como a vida tem o talento nato de nos pregar surpresas…

Foi num dia após a aula, enquanto conversávamos sobre Hunter S. Thompson e sua obra embriagada de drogas, que ela me perguntou se eu fumava. Essa é uma pergunta que não se espera ouvir sendo dita pela boca de uma professora. Afinal, eu sabia sobre qual fumo ela estava se referindo. Minha resposta foi um sim com a cabeça, acompanhada de um tremor que dominou meu corpo ao vê-la meter a mão na bolsa e, como um mágico, puxar um baseado. “Ta afim?”, ela perguntou, sorrindo. Mudo, fiz outro sim com a cabeça.

… Eu só posso estar sonhando, foi o que me lembro ter pensado, ao me ver no estacionamento, dentro do carro da “Tia Camila”, puxando um… ao seu lado. O papo começou com alguma coisa relacionada a Jornalismo Literário, disciplina que lecionava, e foi parar num terreno um pouco mais delicado…

“Tudo pode acontecer”, ela me disse num dado momento. “A vida é repleta de possibilidades. É isso que a torna maravilhosa.”

“É verdade”, concordei, suspirando.

“Você acha que eu nunca notei?”, ela me perguntou, olhando fixamente para os meus olhos.

“Notou o quê?”

“O jeito como você me olha durante as aulas?”

“Como?”

“Isso mesmo que você ouviu.”

Er… Er… Ok. Ok. Você venceu!, pensei. Essa é uma boa maneira de fazer um aluno confessar algo: drogando-o. Mas, e agora? O que vem adiante? Será que existe alguma punição para alunos que são apaixonados por suas professoras?

“Não sei o que dizer”, resmunguei envergonhado. “Acho que um pedido de desculpas não se encaixa nessa situação.”

“Quer saber de uma coisa?”, ela perguntou, enquanto eu puxava o máximo de fumaça possível, forçando um desmaio. “Até que eu gostei.”

“Fruuuuuuuuuuuuu! Cof! Cof! Urgh! Cof! Roouf! Cof! Cof! Cof!… Como?”

“Isso mesmo. Eu gostei.” E nesse instante ela se aproximou de mim, afagando meus cabelos ensebados. “Toda mulher gosta de se sentir desejada.” E me beijou.

Foi fácil, pensei. Muito fácil. Tal facilidade me fez pensar se, durante todo o semestre, eu havia tido aula com uma pederasta, filha da puta, viciada em traçar alunos babacas como eu — o que, durante curtos instantes, quebrou parte do encanto que nutria, uma vez que sou o tipo de pessoa que valoriza mais a batalha do que a conquista. Mas, ok, ok… Eu estava dentro de um puta carro, fumando um ótimo baseado e beijando a minha professorinha… Quem era eu pra reclamar? Não transamos. Mas pelo seu beijo pude ter uma leve noção de como deveria ser sua chupada. Mas não fizemos nada, além disso.

Na semana seguinte, ela viajou a Inglaterra com o noivo e nunca mais nos falamos. Tentei manter contato via e-mail, mas não tive retorno. Não deve ser legal manter contato com um passado errôneo, uma vez que se está em outro país, em outra vida. Agora, ela já deve estar casada e não gosto de ter esses pensamentos. Pois eles sempre vêm acompanhados da imagem dela apoiada num fogão, com significantes quilos a mais, descabelada e com duas crianças irritantes gritando pela casa. Não gosto.

Enquanto isso… Eu continuo no meu mundo… Acabei de ser demitido de mais um emprego… Continuo lendo Hunter S. Thompson… Comecei a escrever um livro. Talvez, ela se torne uma das minhas personagens. Talvez, eu publique. Talvez, ela leia. Talvez, ela se lembre. Mas, talvez, nada disso aconteça e eu continue aqui, bebendo e escrevendo no bar da esquina. Quem pode garantir? Afinal, como uma professora me disse certa vez, a vida é repleta de possibilidades.

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Publicado no dia 8 de junho de 2009 às 13:09. Arquivado em Colunas · Felipe Attie [Imprimir essa matéria | Enviar por email ]

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