Raul Luna: Sou produtora cultural. O que devo fazer para me proteger de farsas autorais?

Elis, observando com cautela o set de seu novo filme
Guia de higiene, comportamento e comedoria para o audiovisual pernambucano
2: Sou produtora cultural. O que devo fazer para me proteger de farsas autorais?
Após publicar o primeiro texto deste meu, seu, nosso guia de higiene, comportamento e comedoria para o audiovisual pernambucano, recebi uma avalanche de e-mails de produtoras culturais que buscavam dicas de como agir cautelosamente no mercado da sétima arte. Leitores dessa coluna já sabem que regionalismo é coisa do passado: o mais novo inimigo da classe audiovisual é o cineasta autoral promissor. Estes novos representantes da nova cena esbanjam representatividade de tempo e época, mas saia de baixo quando o assunto for produção de seus curtas-metragens. Não é qualquer um(a) que pode ser produtora para projetos autorais, precisa ter muita sagacidade e jogo de cintura para enfrentar as feras autorais da selva audiovisual recifense. Elas, produtoras culturais, por vezes duras e sexualmente frustradas, por outras vezes doces e afáveis, são verdadeiras hienas da sétima arte.
De psicóloga fracassada a uma produtora de sucesso: conheça a história de Elis, que gerencia a produção de curtas metragens de uma agência em Recife. Formada em psicologia pela Unicap em 1996, Elis Moreira praticou por 6 anos a profissão de psicóloga em um consultório associado ao Hospital das Clinicas de Pernambuco. Especializada em Psicopatologia, Elis não mede afirmações: “Ainda evoco Minkowski quando preciso”. Depois de ver seus filhos, frutos de um casamento vazio e de curta duração, terem guarda provisória garantida pelo pai, Elis se viu numa sinuca de bico. O que fazer para preencher o vazio da solidão, a frustração sexual, além da falta de dinheiro e poder, vital para a sobrevivência? A resposta é previsível. Elis se tornou uma produtora de curtas metragens. “A melhor da cidade”, afirma.
“Uso a teoria da intimidação. E quando não cumpro o que prometi, finjo que não ouvi, dou aloka e saio do ambiente”. Segundo Elis, mais da metade das produtoras culturais de Recife já adotam a mesma técnica. Certa ela, que, visivelmente influenciada pelo nosso primeiro texto, utiliza a persona de vadia emocionalmente desequilibrada como parte do avatar de hiena do audiovisual, apelido que renega. Durante aproximadamente uns 2 anos, Elis trabalhou em diversas produções de baixo orçamento, incluindo algumas universitárias. “Tenho péssimas lembranças dessa época e prefiro não comentar sobre isso”, diz.
Durante muito tempo, ela continuou a receber propostas de universitários ególatras e também de cineastas da velha guarda:”Tenho uma idéia que é a sua cara, vamos escrever um roteiro juntos”. “Ouvi muito esse tipo de coisa. Meu cu que eu vou sentar pra escrever roteiro!” diz Elis, e complementa: “Geralmente estas são pessoas tristes, que ainda não obtiveram sucesso no que fazem e estão desesperadas por atenção”. “Existe um princípio que uma produtora recifense sabe muito bem: você não precisa de quem precisa de você. Ponto final.” Foi quando Elis conheceu um executivo, representante de uma refinaria, e, após casar-se, pôde escolher a dedo em quais produções autorais desejava trabalhar. “Desenvolvi um selo de qualidade Elis. Hoje, todos sabem que só trabalho em curtas metragens nos quais eu acredito. É uma Elismania, todos os dias diretores me ligam fazendo convites para novas produções. Marco sempre de ir no Raval tomar uns drinks com eles”, conta.
“A hiena-malhada (Crocuta crocuta) é a maior e mais conhecida da família das hienas, Hyaenidae. Uma fêmea adulta chega a pesar mais de 70 kg. A hiena-malhada vive nas savanas e desertos da África e é um predador que pode perseguir as suas presas a velocidades de até 55 km/h, caçando em grupos de até 100 indivíduos.” (Wikipedia)
Nem todas as produtoras da cidade tiveram a sorte de Elis de casar com um financiador masculino. Para as feias, as não tão astutas ou simplesmente lésbicas, este guia ajuda a como alcançar o sucesso respondendo algumas das perguntas de produtoras culturais que caíram na caixa de e-mails essa semana.
“Estou bastante preocupada. O diretor com o qual eu trabalho vem sendo considerado uma promessa da nova geração do audiovisual. Ele faz estranhos barulhos durante as refeições e costuma também chorar no set. Ontem todos ficaram chocados com um auto-induzido transe artístico onde ele passou 3 horas falando em russo. Estes podem ser considerados sintomas de autoralismo pernambucano promissor? Quais atitudes devo tomar nesta situação? Minha real preocupação é acabar por me tornar uma espécie de Mefisto recifense, quando na verdade apenas quero ser uma produtora cultural. O que devo fazer?”
Obrigado pela pergunta. Primeiramente busque ficar tranqüila, estar calma é sempre importante para tomas decisões corretas. Saiba que adjetivações da mídia especializada, como “nova geração do audiovisual”, “revelação”, “diretor promissor” e outras similares devem ser encaradas pelo público como medicação placebo. Não significa nada. É mais uma questão de estimulo à produção universitária e massagem do ego, do que um real reconhecimento de importância.
Porém, de acordo com os seus exemplos, é bem provável que o diretor com o qual você trabalhe sofra de sintomas de autoria promissora pernambucana. Existem formas de você saber ou não se está em perigo. Sintomas como introspecção, impotência sexual e o uso constante de expressões como ” do meu jeito”, “tem que ser”, “vamos reeditar isso” e “ela não me ama” denotam uma forte inclinação autoral promissora para cineastas recifenses.
Porém, existem sim formas de conviver com o autoralismo, caso realmente seja necessário. Questionar decisões do diretor é o primeiro passo para ele saber que você entende tanto quanto ele nas decisões do curta metragem, o que complica bastante o mise-en-scène do mesmo e te garante ao menos uma boa risada.
Mantenha-se no comando. Cineastas recifenses são sim emocionalmente instáveis. Se por acaso algum deles vier pro seu lado com esse papo de “me beija que eu sou cineasta”, preste queixa de abuso sexual e mostre quem manda. Estaremos à disposição para responder duvidas em caso de futuros problemas.
“Fui chamada para uma reunião na Fundarpe para justificar o mau uso do dinheiro público em um projeto de um diretor autoral promissor (ególatra, vale dizer), que pretendia recriar o primeiro ensaio da Loustal, em peixinhos. Ele gastou todo o nosso dinheiro em pesquisas de locação e em negas malucas na livraria cultura. O diretor alega que todo o dinheiro foi usado em brainstormings para a produção do filme. Eu acho que ele é uma puta farsa e que brainstorming de cu é rola. O que devo fazer?”
Olá, obrigado por ler o nosso guia. Você tem dois problemas sérios. Primeiro, precisa convencer o governo que o orçamento disponibilizado por este para financiar a produção do seu curta-metragem foi bem gasto. Não menospreze a distração. “Oi?”, “Aceita um café?”, “Que horas são?” e “Que loucura o caso Isabella, hein?!” são algumas soluções desesperadas, mas que te darão tempo para inventar uma desculpa coesa. Essa é uma questão complicada. Informaremos melhor sobre isso em nosso texto “Como rebater criticas sobre má gestão de dinheiro público com classe”. Afinal, dar o chatô e passar despercebida é tarefa diária de qualquer produtora que se preze. O segundo problema se resolve da forma mais fácil e prazerosa: a exposição da farsa. Utilize a mídia especializada para destruir uma carreira cinematográfica. Não sinta pena, já temos demais deles por aí.
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[+] Raul Luna é arquiteto, videasta e membro do coletivo TV Primavera. Escreve um guia definitivo para a intelligentsia audiovisual pernambucana.
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« 10 Comentários
Eu conheço Elis e posso dizer que ela é realmente uma pessoa que venceu.
“não é só por disputarem alimentos e zelarem pela sobrevivência das crias que as hienas fêmeas são confundidas com os machos. Os seus órgãos sexuais também não ajudam a distingui-las (…). As fêmeas têm um clítoris muito saliente, que pode ser confundido com um pénis, uma vez que tem entre 15 a 17 centímetros.”
aaaahahhahahahahahahahahahhahahahahahaha
Boas dicas, seu Raul! A cena recifense precisa de gente com bons conselhos como você. Hehehehehehehhe… Falow!
amanda vc vai ficar postando informaçoes complementares sobre elis por aqui? ela nao vai gostar de saber disso.
For Raul
Tudo começou na Recanto
E tudo
Empurrado em uma superficie
Sem atrito
Em direção ao infinito
Manguebit
Grampola
Portishead
Devils Haircut
Seal
Kermit
Seremos sempre aqueles
Que decidimos
Não envelhecer
Pois de todas as formas
Somos artistas
DRC
Hot Chip
Belle and Sebastian
London
Fundação
Seremos sempre belos e jovens
Embora nossa idade avance
Seremos como os Picassos
Deste século XXI
E não precisamos de retratos
De Dorian Gray
Para nos dizer isso
Nos simplesmente sabemos
-x-
for joana: W.H.A.T. T.H.E. F.U.C.K.?
Muito esclarecedora sua coluna, Raul!
beijos
O que é : sintomas de autoralismo pernambucano promissor?! Oo
Raulzito,
EU TE AMO!
Tou muito passado com você e com seus textos, parabéns mesmo!
Agora um desafio: fale sobre coletivos de audiovisual!
Hahahahaha. Beijomeescreve!
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