Win Wenders

26.08.2008 às 11:31

WENDERS NÃO É MAIS O MESMO
O fim da linha para o velho lobo do cinema que já não consegue mais articular utopias e o desejo de futuro de uma nova geração de realizadores e espectadores
Por Fernando de Albuquerque

Se levarmos em conta que Ases Do Desejo é um filme que levou platéias a euforia nos idos 1987 e que Paris, Texas decretou o cinema enquanto sofrimento três anos antes disso, saberemos exatamente o porque da discreta cobertuda dada a passagem do cineasta alemão Win Wenders pelo Brasil - isso se compararmos ao pandemônio informativo causado em torno de David Lynch. Este último é dono de obras muito mais contemporâneas e que angariou uma leva de fãs empedernidos para descortinar os segredos por trás de narratividades propositadamente incompletas e que deixam o espectador em suspensão. Mas nem de perto o querido alemão Wenders merece ter a obra cinematográfica diminuida, apenas boa parte de suas produções já encorpam a prateleira dos clássicos e já não se adequam as novidades pós-modernas.

Essa bola murcha em torno de Wenders se deve a necessidade quase que onipresente em suas obras de filmar e investigar as terras estrangeiras. A obsessão do alemão, pela América, por exemplo, é algo que, em suas últimas produções está se tornando obsesseivo e compulsivo demais. O mundo globalizado já não se contenta com a própria aldeia. A aldeia alheia é o foco ótico do espectador que, inebriado de si mesmo e da própria realidade já não sente tesão por filmes que versam sobre seu entorno.

Se radiografarmos a obra de Wenders, desde O Amigo Americano e O Estado das Coisas à fase atual com O Fim da Violência veremos que quase tudo versa sobre uma única aldeia repleta de medo, obsessão e de morte ao subtexto no cinema. E para fazer isso, ele tem sido um homem sem pátria, sem lugar próprio e que se apega muito mais aos espaços urbanos e circundantes que aos próprios personagens que cria. Por isso costuma se ligar a lugares e não a contextos fazendo com que seja cineasta incapaz de articular-se dentro de um panorama político próprio fazendo com que ele sempre pareça alguém que vê os personagens como algo menor na enunciação. Filmando, assim, apenas certezas e não possibilidades e dúvidas. E essas certezas, nos dias atuais, parecem um tanto covardes.

Há espaço de sobra em seus filmes para personagens abaixarem a cabeça e zero de interesse de se pensar uma mudança. Enquanto Michelle Williams (a jovem de Medo e Obsessão) se surpreende com a quantidade de pessoas que passam dificuldades nos EUA, John Diehl (o tio paranóico), se perde pela cidade com seu veículo-tanque, na busca de reencontrar as glórias de seu país. Assim, o filme é uma assustadora realidade que se prende pela forma como mostra as escolhas que impõe às pessoas que retrata.

O discurso do cineasta nesse filme chega ao cúmulo em três momentos terríveis: John Diehl entrando numa lixeira para buscar provas de uma de suas paranóias e sendo interrompido pelo toque de seu celular (o hino americano); tio e sobrinha se reconciliando, enfim, e para tal tendo que relatar o dia de seus horrores, ele na guerra do Vietnã, ela no dia dos atentados de 11 de setembro; e acima de tudo, a cena em que Diehl, perseguindo um grupo de suspeitos, acaba na casa de uma velha que lhe pede que troque o canal da TV, pois já não pode mais suportar aquilo: um discurso de Bush. Os heróis de Wenders são pessoas que, ao verem uma notícia ruim na TV, trocam de canal. O que nos leva mais uma vez, então, à falência cinematográfica de Wenders: incapaz de articular em cena seu discurso sem que este soe grosseiro, ele quase chega ao fim de linha.

A ferocidade de Wenders com o capitalismo já soa como falsária tendo em vista a euforia de seus personagens como consumidores de jogos eletrônicos, coca-cola e rock. E a crítica ao sistema apare como o enfrentamento de uma terrível solidão e vazio existencial enfatizada pelo movimento lento da câmera, em imagens de personagens localizados em diversos lugares do mundo.

A narratividade dos vencidos, tema predileto de Wenders, causa mais um movimento inevitável em direção à catastrofe de público do que evidencia a desgraça humana. Seus personagens, no comparativo com a cinematgrafia atual, tratam mais do passado do que uma perspectiva de futuro. Isso reflete ainda mais uma influência do Nazismo. Algo tão condenável quanto o marxismo contemporâneo. E essa influência nazista pode ser vista, por exemplo, na identidade fragmentada dos personagens sempre marginais, nômades, artistas, desempregados. E esses ritos são tão gagás quanto a própria ideologia que subjaz.

  • E-mail this story to a friend!
  • Print this article!
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • Technorati
  • TwitThis
  • Live
  • Rec6
  • Reddit

LEIA MAIS

« The Verve | ForthEntrevista: Kid Vinil »

« 2 Comentários

Vânia Lemos
02.11.2008

Desculpe, mas fazia tempo que não lia uma crítica tão imbecil. Tamanho foi meu pasmo que resolvi deixar registrada minha modesta opinião.

adriana galvão
23.11.2008

faça um favor a si mesmo: aprenda o significado de coesão para não passar vergonha com seus textos.

« Escreva um comentário