“O ROMANCE NUNCA VAI MORRER“
Por Rafael Dias

Por ter sido alfa­be­ti­zada nos Estados Unidos, sabe pouco por­tu­guês. “Foi edu­cada nos EUA, em Miami, então nunca tinha (sic) uma edu­ca­ção for­mal em por­tu­guês”, jus­ti­fica a mezzo bra­si­leira mezzo ame­ri­cana, que exibe, na entre­vista con­ce­dida por e-mail, um bom domí­nio da lín­gua por­tu­guesa — com alguns peque­nos des­li­zes, é ver­dade — porém bas­tante claro e arti­cu­lado. Só diante de algu­mas per­gun­tas (todas fei­tas em inglês), segundo ela, “mais com­ple­xas”, é que a escri­tora vacila e volta à sua língua-máter. “Na rea­li­dade, ainda estou apren­dendo (por­tu­guês). Tenho uma amiga bra­si­leira em Chicago, que estu­dou comu­ni­ca­ção na facul­dade, e ela virou minha pro­fes­sora. Duas vezes por mês temos aulas onde ela me ensina a gra­má­tica por­tu­guesa que eu nunca tinha apren­dido”, diz.

Entrevistá-la tam­bém não foi tarefa das mais fáceis. Desde março pas­sado, a repor­ta­gem da Revista O Grito! ten­tava obter res­posta de Frances Peebles por meio da asses­so­ria de imprensa de sua edi­tora nos EUA, a HarpperCollins. Uma das con­di­ções para que a entre­vista fosse feita foi a de não publi­car uma rese­nha crí­tica do livro, ainda iné­dito, antes do lan­ça­mento no Brasil e nos EUA, em agosto. Pedido aten­dido. Depois, a asses­sora jus­ti­fi­cava a demora, ale­gando difi­cul­dade para arru­mar uma bre­cha na agenda de Frances e sobre­carga do agente lite­rá­rio direto, que esta­ria muito ocu­pado com “outras pri­o­ri­da­des”. A repor­ta­gem já estava a ponto de desis­tir da ten­ta­tiva. Após dois meses de espera, a entre­vista final­mente saiu esta semana.

Abaixo, colo­ca­mos alguns tre­chos da con­versa. Nela, Frances se volta às suas memó­rias afe­ti­vas da infân­cia no Recife (e, depois, das via­gens que faz, todo ano, de férias). Diz que uma de suas mai­o­res influên­cias é a escri­tora regi­o­na­lista Rachel de Queiroz, e atesta que Pernambuco sem­pre será o pano de fundo para suas his­tó­rias. Questionada se o romance esta­ria em declí­nio, ela é taxa­tiva. “Os roman­ces nunca irão embora”, prega. Nota da reda­ção: alguns erros de por­tu­guês foram cor­ri­gi­dos para faci­li­tar a lei­tura e com­pre­en­são dos lei­to­res. Aguardem em agosto, aqui n’O Grito!, a rese­nha do romance de estréia de Frances de Pontes Peebles, The Seamstress. Boa leitura!

O GRITO! - Você dei­xou o Recife ainda pequena, com ape­nas cinco anos de idade. Tempo sufi­ci­ente, no entanto, para guar­dar uma memó­ria afe­tiva. Que lem­bran­ças retém?
Quando era pequena, minha avó tinha uma casa no bairro de Madalena, na rua Hermógenes de Morais. Passei mui­tas férias naquela casa, com minhas tias-avós. Quando escrevi meu livro, morei no bairro de Casa Forte e no meu sítio, em Taquaritinga. Tenho mui­tas memó­rias boas do Recife. Tomando banho de sol nas praias de Boa Viagem e Candeias. Andando pela praça de Casa Forte. Comprando revis­ti­nhas e cho­co­la­tes (sou vici­ada por sonho de valsa) no Bompreço. Visitando a feira de pas­sa­ri­nhos no Mercado de Madalena. Também tenho bas­tan­tes memó­rias boas do nosso sítio em Taquaritinga: do cheiro de café maduro secando ao sol, do gosto de leite — gor­du­roso e morno — tirado da vaca, e do baru­lho cons­tante de cigar­ras can­tando nas árvores.

Você vem sem­pre ao Recife visi­tar sua famí­lia?
Todo ano, eu e minha irmã pas­sá­va­mos as nos­sas férias de verão no Recife, na casa da minha avó, e tam­bém em nosso sítio em Taquaritinga do Norte. Quando escrevi o meu livro, pas­sei 18 meses morando no Brasil (em Recife e Taquaritinga). Agora, todo ano tento pas­sar 6–8 sema­nas no Brasil. Mas é pouco! Queria pas­sar mais tempo.

Desde quando deci­diu se tor­nar escri­tora pro­fis­si­o­nal?
Sempre gos­tei de ler, e isso natu­ral­mente se tor­nou um desejo de escre­ver. Fiz meu mes­trado na Universidade de Iowa, onde fica a escola para escri­to­res, o Writer’s Workshop. Lá, per­cebi a dedi­ca­ção e tam­bém a soli­dão neces­sá­ria para ser escri­tora. Nunca decidi, “vou ser escri­tora pro­fis­si­o­nal.” Simplesmente come­cei a escre­ver, e vendi alguns con­tos para revis­tas. Depois ganhei bol­sas para escre­ver um romance e para pes­qui­sar a década de 1930 e o Cangaço. Foi uma com­bi­na­ção de sorte e dedi­ca­ção ao meu trabalho.

Seu conto “The Disappearance of Lucia Porto” é ins­pi­rado em um poema de Carlos Drummond de Andrade. Além dele, que auto­res a influ­en­ciam?
Adoro Rachel de Queiroz. Com cer­teza, ela é minha escri­tora pre­fe­rida. Também gosto muito de Nélida Piñon, Graciliano Ramos e Machado de Assis. De con­tem­po­râ­neos, gosto de Patrícia Mello (O Matador) e Adriana Lisboa (Um Beijo de Columbina).

Na rea­li­dade, auto­res de vários paí­ses influ­en­ci­a­ram meu tra­ba­lho. Gosto de Junichiro Tanazaki, um escri­tor japo­nês. Gosto dos ame­ri­ca­nos Louise Erdrich, Edith Wharton, Willa Cather, Toni Morrison e William Maxwell. Gosto de Margaret Atwood e Alice Munro, ambos cana­den­ses. Gosto tam­bém de Jamaica Kinkaid e Derek Walcott, que são do Caribe. Hoje, o mundo é pequeno. Somos todos cida­dãos glo­bais e temos que ler livros de vários países.

Eu tam­bém gosto do rea­lismo mágico quando é bem feito. Mas eu acho que o público asso­cia auto­ma­ti­ca­mente todos os latino-americanos com uma mágica, exó­tica ten­dên­cia. Isso é muito reducionista

E lite­ra­tura per­nam­bu­cana?
José Lins do Rego, que na rea­li­dade foi da Paraíba mas pas­sou bas­tante tempo em Pernambuco. Manuel Bandeira, claro: “Recife morto, Recife bom, Recife bra­si­leiro, como a casa do meu avô.” Lindo! Gilberto Freyre e João Cabral de Mello Neto, tam­bém gran­des auto­res per­nam­bu­ca­nos. Hoje em dia, tem Frederico Pernambucano de Mello, que escreve sobre Canudos e o Cangaço.

Você é uma escri­tora bas­tante jovem e tem con­se­guido bons resul­ta­dos para uma pre­coce car­reira. Alguns de seus con­tos foram publi­ca­dos na reno­mada revista lite­rá­ria Zoetrope: All-Story, de Francis Ford Coppola. Como você reage a isso?
Neste momento tenho 29 anos, mas vou fazer trinta anos no fim do mês! Comecei a escre­ver The Seamstress com 24–25 anos. Meu pri­meiro conto publi­cado foi “The Drowned Woman”, na Indiana Review, uma revista lite­rá­ria ame­ri­cana. Logo depois, este conto foi pre­mi­ado no O. Henry Prize Stories de 2005. Depois, foram publi­ca­dos outros con­tos, mas só qua­tro em total. Ainda estou come­çando minha car­reira como escri­tora. E não sou pro­lí­fica, como a escri­tora ame­ri­cana Joyce Carol Oates! Escrevo lentamente.

Por que deci­diu tema­ti­zar o romance The Seamstress no fenô­meno do ban­di­tismo social ser­ta­nejo no Brasil de 1930? Como foi o pro­cesso de cri­a­ção?
O can­gaço faz parte do fol­clore nor­des­tino. Quando era menina, meu tio me deu de pre­sente um boneco de pano ves­tido com roupa de can­ga­ceiro: cha­péu de couro em forma de uma meia-lua, alper­ca­tas nos pés, e espin­garda na mão. Antônio Silvino foi um can­ga­ceiro famoso no Cariri de Taquaritinga do Norte, onde temos nosso sítio. Então sem­pre foi rode­ada do fol­clore do can­gaço, e fiquei curi­osa. Lembrei das his­tó­rias dos can­ga­cei­ros que ouvi durante minha infân­cia, e pen­sei nas vidas da minha avó e de suas irmãs. Durante minhas visi­tas ao Brasil, aprendi muito sobre a vida da minha avó Emília e suas seis irmãs — eram todas cos­tu­rei­ras no inte­rior da Paraíba (cidade de Sapé), até minha avó se casar com um homem de uma famí­lia boa do Recife. Depois do casa­mento, ela se mudou para o Recife com o marido (meu avô) e levou todas as suas irmãs. Minhas tias-avós me ensi­na­ram a bor­dar, a fazer can­jica e gali­nha de cabi­dela, e a con­tar boas his­tó­rias. Mas se as vidas delas tives­sem sido dife­ren­tes? E se a vovó não tivesse se casado com um homem de bem, e todas elas tives­sem ficado no inte­rior, nas déca­das de 1920–1930? E se um grupo de can­ga­cei­ros as tivesse visto e eles tal­vez sen­tis­sem a ten­ta­ção de levar uma delas? Comecei a escre­ver um livro ana­li­sando estas pos­si­bi­li­da­des, jun­tando a his­tó­ria real com a ficção.

O livro tem um aspecto auto­bi­o­grá­fico?
Tem só “um tiqui­nho” de auto­bi­o­gra­fia no livro. Minha avó era cha­mada Emília e uma das suas seis irmãs era cha­mada Luzia. Elas eram cos­tu­rei­ras no inte­rior da Paraíba. Minha avó casou com um homem de uma famí­lia boa do Recife, mas é aqui que a auto­bi­o­gra­fia ter­mina. Meu avô era muito dife­rente de Degas Coelho (o marido de Emília no livro), e o casa­mento deles era muito dife­rente do casa­mento no livro. Ninguém (que eu saiba) da minha famí­lia era envol­vido no cangaço.

Tenho mui­tas sau­da­des [de Pernambuco]. Escrever é uma maneira de matar essas saudades

The Seamstress con­tém várias refe­rên­cias à pai­sa­gem e cul­tura reci­fen­ses (Capunga Bridge, Capunga River, bea­ting of mara­catu drums etc), assim como em seus pri­mei­ros con­tos. Pernambuco é o seu cená­rio favo­rito? Será sem­pre um ter­reno de ins­pi­ra­ção para você?
Eu conheço Recife e Taquaritinga. Em qual­quer livro, acho que o local ou o “cená­rio” se torna uma per­so­na­gem. E, como outras per­so­na­gens no livro, o escri­tor tem que conhecê-lo para que escreva uma his­tó­ria autên­tica. Tudo que eu escrevo é uma carta de amor para Pernambuco, para o Brasil. Tenho mui­tas sau­da­des. Escrever é uma maneira de matar essas saudades.

Uma fic­ção base­ada na cul­tura bra­si­leira, publi­cada em inglês, nos EUA e no Brasil. Como acha que a audi­ên­cia e a crí­tica (norte-americana ou bra­si­leira) irão se com­por­tar ao ler o livro? Com olhos exó­ti­cos?
Se eu pudesse, eu teria escrito esse livro em por­tu­guês. Mas a vida não é per­feita, então escrevi o livro em inglês! Com cer­teza, bra­si­lei­ros enten­de­rão mui­tos aspec­tos do livro: o local, os fenô­me­nos do can­gaço e o coro­ne­lismo, a revo­lu­ção de 1930, as secas no ser­tão etc. Nos EUA, o livro será ofi­ci­al­mente lan­çado em agosto deste ano, então eu não tenho cer­teza que res­posta terá. Eu espero que boa. Eu recebi várias rese­nhas muito boas. Em geral, eu acho que os lei­to­res norte-americanos quando ouvem “Brasil” ou qual­quer refe­rên­cia na América Latina, eles ime­di­a­ta­mente asso­ciam ao rea­lismo mágico (a cor­rente lite­rá­ria esta­be­le­cida por Gabriel García-Márquez). No pas­sado, as pes­soas diziam que minhas his­tó­rias tinham uma seme­lhança com o rea­lismo mágico, e eu fiquei sur­presa! A mai­o­ria das minhas his­tó­rias – assim como o meu romance – foi fir­me­mente base­ada na rea­li­dade. Eu amo García-Márquez e acho sua lite­ra­tura bonita. Eu tam­bém gosto do rea­lismo mágico quando é bem feito. Mas eu acho que o público asso­cia auto­ma­ti­ca­mente todos os latino-americanos com uma mágica, exó­tica ten­dên­cia. Isso é muito reducionista.

Tom Wolfe disse que o “romance está mor­rendo rapi­da­mente”. Críticos vão além, dizem que o romance é um gênero morto. Você con­corda?
O romance nunca vai mor­rer. Pode tomar uma forma dife­rente: mídia ele­trô­nica, por exem­plo. Mas seres huma­nos são natu­ral­mente con­ta­do­res de his­tó­rias – con­tar his­tó­rias sem­pre foi a nossa forma de enten­der o mundo. De mitos anti­gos a roman­ces con­tem­po­râ­neos, his­tó­rias são a forma encon­trada para fazer sen­tido às nos­sas vidas e o nosso lugar no mundo. Nós tam­bém gos­ta­mos de optar pelo escape da vida coti­di­ana e mer­gu­lhar no mundo ima­gi­ná­rio. Isso é muito tera­pêu­tico. Romances fazem isso. Eles nunca irão embora.

Você con­si­dera a idéia de vol­tar a morar no Brasil num futuro pró­ximo? Sente mui­tas sau­da­des da sua terra natal?
O escri­tor Salman Rushdie escre­veu: “Isso é, tal­vez, o que sig­ni­fica amar um país: que a forma dele seja tam­bém a sua, a forma de como você pensa e sente e sonha. Que você nunca pode real­mente se des­ven­ci­lhar”. Eu con­cordo com Rushdie. O Brasil fica sem­pre comigo; vive den­tro de mim. Com cer­teza. Tenho pla­nos de vol­tar e pas­sar mais tempo aí. Nosso sítio pre­cisa de cari­nho, e eu gosto do campo. Mas sei que minha vida sem­pre será divi­dida entre os dois países.

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comentários (07)

  • O mara­vi­lhoso livro se encon­tra agora nas livra­rias !!!
    Leva o título: “A cos­tu­reira e o can­ga­ceiro”.
    Brindemos!!!
    Ana Blumenstock

    Ana Blumenstock 16.01.2010 09h18
  • Este livro ainda nao foi edi­tado no Brasil??
    Qual o motivo de tanta demora?
    Um livro desta cate­go­ria deve estar urgen­te­mente nas livra­rias
    bra­si­lei­ras. Temos que valo­ri­zar os nos­sos gran­des talen­tos e
    pro­por­ci­o­nar ao nosso povo a boa lei­tura.
    Sao apro­xi­ma­da­mente 700 pági­nas, que nao deve­rao ser resu­mi­das.
    Cada pala­vra, cada expres­sao merece estar na ver­sao ori­gi­nal.
    Espero bre­ve­mente ter o imenso pra­zer de ler este livro mais
    uma vez: desta vez em por­tu­gues!
    Ana M. de S. Blumenstock

    Ana Blumenstock 17.05.2009 11h30
  • Ola gente,

    Por favor,gostaria que alguem me desse uma dica sobre onde posso encon­trar o livro ‘A Costureira’,da Frances Peebles,em por­tu­gues.
    Minha irma que mora na Alemanha leu em ingles e se apaixonou,e eu,gostaria muito de ler esse livro.Tentei encon­trar pela inter­net , nas livra­rias de Recife,na Editora Nova Fronteira,no Google,mas nao consegui.

    Obrigada,Roseane

    roseane moraes 02.03.2009 09h31
  • O romance — A cos­tu­reira de Pernambuco– é para min um pre­sente
    fabu­loso que pro­vo­cou no meu cora­ção um estado de pai­xão. A com­pa­nhar na Caatinga e no Recife os des­ti­nos das duas irmas é viver uma aven­tura cheia de poe­sia. As des­cri­ções do ser­tão mos­tram a beleza do man­da­carú, do pas­sa­ri­nho “sofreu” e reve­lam
    um grande res­peito pelo nor­des­tino. Eu ado­rei a lei­tura e ape­sar de ter ter­mi­nado o livro con­ti­nuo com a estó­ria den­tro de mim. Resido há 24 anos na Alemanha, li em ale­mão e lerei em breve em por­tu­guês. Como gos­ta­ria de para­be­ni­zar a escri­tora expres­sando pes­so­al­mente o meu entusiasmo!

    Ana Maria de S. Blumenstock 15.01.2009 08h54
  • Frances Peebles nos ofe­rece a opor­tu­ni­dade de uma digna repre­sen­ta­cao fora do Brasil da nossa ver­da­deira riqueza cul­tu­ral.
    Muuuuuiiitooooo obrigada!!!

    Jenifer De La Parra 09.06.2008 10h23
  • Boa entre­vista!!! Valeu, Frances! Espero o livro em breve.

    Raquel Kelner 27.05.2008 01h58
  • O livro real­mente e mara­vi­lhoso.
    Um ver­da­deiro orgu­lho para o Nordeste e Brasil.

    lucia de pontes peebles 17.05.2008 05h57