Kees Hoekert e Grootveld ven­dendo can­na­bis na Lowland Weed Company em 1964

.
Como assim não bos­te­jar sobre 1968. Faz qua­renta anos, afi­nal. Hoje não seria como hoje se não fosse aquela doi­deira toda. Por sua vez, a doi­deira toda não teria sido doi­deira alguma sem a mas­siva influên­cia dos até hoje rela­ti­va­mente des­co­nhe­ci­dos de Amsterdam.

Como bons anar­quis­tas que eram, os Provos (cor­rup­tela do termo “pro­vo­ka­tie”, ou “pro­vo­ca­ção”) não che­ga­ram a carac­te­ri­zar um movi­mento orga­ni­zado, menos ainda uma ide­o­lo­gia. A inten­ção des­ses jovens tres­lou­ca­dos do iní­cio dos anos 60 era debo­char o mais cini­ca­mente das tra­di­ções monár­qui­cas holan­de­sas da Casa Real de Orange e sua pro­tegé, a bur­gue­sia con­su­mista – o que, como vere­mos, con­se­gui­ram fazer com o máximo de diver­são e ousadia.

Apesar do paren­tesco, os Provos não que­riam mudar o mundo, como seus român­ti­cos caçu­las hip­pies, nem inte­lec­tu­a­li­zar suas ações, como fize­ram os situ­a­ci­o­nis­tas fran­ce­ses. Estes, que fomen­ta­ram as gre­ves estu­dan­tis pari­si­en­ses em , tive­ram um tête-a-tête um ano antes com os Provos na Holanda. Mas a dife­rença de ati­tude entre os dois gru­pos era clara. A pri­meira de uma incen­diá­ria série de edi­ções da revista “Provo” dizia: “Não pode­mos con­ven­cer as mas­sas, e tal­vez sequer nos inte­resse fazer isso. O que pode­mos espe­rar deste bando de apá­ti­cas, indo­len­tes, tolas bara­tas? É mais fácil o sol sur­gir no oeste do que eclo­dir uma revo­lu­ção nos Países Baixos (…) O homem médio é um come­dor de repo­lhos, impro­du­tivo, não-criativo, emo­tivo. Alguém que se diverte fazendo fila nos gui­chês”. E ainda: “Provo tem cons­ci­ên­cia de que no final per­derá, mas não pode dei­xar esca­par a oca­sião de cum­prir ao menos uma qüin­qua­gé­sima e sin­cera ten­ta­tiva de pro­vo­car a sociedade”.

Foi em 62, com Robert Jasper Grootveld, que a saga começa a tomar um for­mato mais ou menos defi­nido. Grootveld, um fumante inve­te­rado, decide come­çar uma hila­ri­ante cam­pa­nha anti­fumo por Amsterdam, por onde anda total­mente fan­ta­si­ado de fei­ti­ceiro afri­cano, pin­tando a pala­vra “cân­cer” sobre todos os car­ta­zes publi­ci­tá­rios de cigar­ros das ruas. Foi preso algu­mas vezes, che­gando, gra­tui­ta­mente, às mes­mas pági­nas de jor­nais que as cor­po­ra­ções de tabaco pagam milhões para anun­ciar. Uma vez solto, usou um case­bre velho numa região boê­mia para rea­li­zar ritu­ais anti­fumo que atraíam cada vez mais pes­soas; mais tarde, trans­fe­ri­ria os even­tos para a praça Spui que, além de exi­bir uma está­tua pre­sen­te­ada pela Hunter Tobacco Company para a cidade, ficava estra­te­gi­ca­mente pró­xima à mai­o­ria das reda­ções dos jornais.

Em 64, no clí­max de seus pro­tes­tos, já con­si­de­rado um herói na cidade, Grootveld junta-se a Bart Huges para lan­çar o Marihu Project, um plano para rei­vin­di­car a lega­li­za­ção da maco­nha (afi­nal con­si­de­ra­vam o cigarro uma “droga lega­li­zada”) e tirar um sarro da polí­cia. Espalharam por Amsterdam cen­te­nas de maços pin­ta­dos à mão com dese­nhos flu­o­res­cen­tes, con­tendo base­a­dos fei­tos com folhas secas cata­das dos par­ques, algas, palha, peda­ços de cor­tiça e tam­bém, natu­ral­mente, a boa e velha can­na­bis. Concomitantemente, fazem cir­cu­lar car­tas com as regras do jogo: “Cada um pode fabri­car sua Marihu (…) Cada qual pode criar suas pró­prias regras, ou omiti-las”.

O hap­pe­ning é um sucesso retum­bante, em pouco tempo as cen­trais telefô­ni­cas da polí­cia esta­vam con­ges­ti­o­na­das com cha­ma­das anô­ni­mas de cida­dãos denun­ci­ando os vizi­nhos como usuá­rios de maco­nha, a mai­o­ria delas fei­tas pelos pró­prios Provos para cau­sar con­fu­são. Os homens da lei são obri­ga­dos a um ritmo de tra­ba­lho estres­sante, che­gando a decla­rar para a imprensa que a situ­a­ção come­çava a se tor­nar “pro­ble­má­tica”. Grootveld observa, muito apro­pri­a­da­mente: “Para dar caça a alguns con­su­mi­do­res de erva, uns agen­tes, notó­rios con­su­mi­do­res de nico­tina, efe­tuam incursões-surpresa, que depois são pro­pa­gan­de­a­das na imprensa, medi­ante arti­gos escri­tos por jor­na­lis­tas amiúde alco­o­li­za­dos e lidos por um público que, por sua vez, é escravo da tele­vi­são ou da nico­tina. Quem tem direito de dizer ao outro que não deve con­su­mir uma deter­mi­nada substância?”

Em 65, reu­niões na Spur à toda, a pró­pria famí­lia real holan­desa dá a deixa para a ins­ti­tu­ci­o­na­li­za­ção da zorra Provo. A prin­cesa Beatriz decide casar-se com Claus von Amsberg, um diplo­mata ale­mão que ser­vira nas filei­ras do exér­cito nazista. Sofisticadas mano­bras polí­ti­cas foram exe­cu­ta­das, nos bas­ti­do­res, pela Casa Real de Orange para rever­ter a pés­sima reper­cus­são ini­cial que o noi­vado con­se­guiu junto à popu­la­ção e à imprensa. Quando o mal-estar pare­cia con­tor­nado, chega às ruas a ter­ceira edi­ção do tablóide Provo, ata­cando o futuro prín­cipe por todos os lados. O pro­vo­ta­ri­ado os esconde den­tro dos jor­nais matu­ti­nos, sobre­tudo os sen­sa­ci­o­na­lis­tas con­ser­va­do­res; em res­posta, a imprensa começa ime­di­a­ta­mente a ata­car os Provos, for­ne­cendo a pri­meira e neces­sá­ria publi­ci­dade à causa anti­ca­sa­mento de nos­sos heróis. Para con­so­li­dar a rixa, na oca­sião do des­file de lan­cha de Beatriz e Claus pelos canais de Amsterdam, alguns Provos lan­çam cópias da ter­ceira edi­ção da revista, sobre o casal.

CRUZADA REVOLUCIONÁRIA ANTI
A esta altura, tanto o pre­feito como o chefe de polí­cia da cidade ensaiam pos­tu­ras linha-dura para lidar com os rebel­des. Mesmo assim os emba­tes são sem­pre bas­tante frus­tran­tes: ao con­trá­rio dos mani­fes­tan­tes clás­si­cos, os Provos não rea­gem aos cas­se­te­tes dos agen­tes; ape­nas dispersam-se e vol­tam a juntar-se alguns quilô­me­tros mais adi­ante, num claro esquema de mani­fes­ta­ção não-violenta – modelo que se tor­na­ria a tônica das pas­se­a­tas anti­bé­li­cas e anti­di­ta­dura que domi­na­ram a Europa e as Américas na década de 60. Diversas edi­ções dos tablói­des Provo são apre­en­di­dos, seus edi­to­res mul­ta­dos por uti­li­za­rem foto­gra­fias sem licença. Mas tudo isto só ser­via para dis­se­mi­nar suas men­sa­gens, ala­van­cando sua popularidade.

Então, em pleno boom auto­mo­bi­lís­tico, os ritu­ais anti­fumo da Spur transformam-se em cam­pa­nha anti­carro. Os Provos ini­ciam sua cru­zada con­tra os moto­ris­tas, “con­su­mi­do­res hidro­car­bu­ro­de­pen­den­tes mima­dos pelos tra­fi­can­tes de petró­leo”. Recusam-se a par­ti­ci­par do sonho-classe-média de adqui­rir um auto­mó­vel, rei­vin­di­cando o direito de não con­su­mir; cha­mam a aten­ção para o tombo que os car­ros cau­sam à qua­li­dade de vida das cida­des, entu­pindo o espaço público, cau­sando aci­den­tes e enve­ne­nando o ar; e, com o Plano da Bicicleta Branca, pro­cla­mam um meio de loco­mo­ção “soci­al­mente responsável”.

Com os ânimos liber­tá­rios em ebu­li­ção, ainda lan­ça­ram o Plano das Mulheres Brancas de liber­dade sexual (já pedindo a venda de cami­si­nhas a pre­ços bai­xos, numa época pré-AIDS), que pou­cos anos depois seria a tônica do movi­mento femi­nista e de direito dos homos­se­xu­ais; fize­ram mani­fes­ta­ções anti­co­lo­ni­a­lis­tas, con­de­nando a polí­tica repres­siva con­tra os indo­né­sios que luta­vam pela inde­pen­dên­cia, e de direi­tos huma­nos con­tra as dita­du­ras de Franco (Espanha) e Salazar (Portugal); cons­ti­tuí­ram peque­nas comu­ni­da­des alter­na­ti­vas rurais; e puxa­ram os pro­tes­tos con­tra a guerra do Vietnã, cri­ando um escar­céu deli­rante diante da embai­xada ame­ri­cana local. Ainda sobrava ener­gia para espor­tes menos enga­ja­dos, como pin­tar a casa do pre­feito de branco ou sus­pen­der uma dis­cus­são sobre o casa­mento da prin­cesa Beatriz no Parlamento de Haia usando uma sirene de bombeiro.

As apre­en­sões das revis­tas Provo ofe­re­ce­ram grande publi­ci­dade para a publi­ca­ção, que pas­sou das ini­ci­ais 500 cópias para as 20 mil cópias da der­ra­deira edi­ção. Na esteira desse cres­cente sucesso, 1965 foi o ano da explo­são da imprensa under­ground holan­desa, pas­quins pipo­cando por todo país. Tinham con­cep­ção grá­fica ino­va­dora e ins­pi­ra­ram publi­ca­ções por todo o globo, como a lon­drina It, que por ser em inglês se tor­na­ria refe­rên­cia inter­na­ci­o­nal do gênero. Em 64, Grootveld, visi­o­ná­rio, disse que “os jor­nais se tor­na­rão cada vez mais con­for­mis­tas, cada vez mais cor­rup­tos, cada vez mais depen­den­tes dos sin­di­ca­tos da droga e da nojenta classe média (…) Vai se desen­vol­ver um sen­ti­mento de dúvida em rela­ção aos meios de comu­ni­ca­ção. O resul­tado será o flo­res­ci­mento de uma imprensa des­cen­tra­li­zada, tal­vez até mesmo ile­gal (…) No futuro, cada um terá seu pequeno jor­nal. Porque não pode­mos esque­cer que temos uma revo­lu­ção ao alcance das mãos”. A
inter­net, com seus sites inde­pen­den­tes e blogs, está aí para confirmar.

A saga Provo ren­deu maté­rias his­tó­ri­cas nos prin­ci­pais jor­nais psi­co­dé­li­cos ame­ri­ca­nos, dando uma lavada em seus lei­to­res ao insi­nuar que os hip­pies pouco sabem sobre con­tra­cul­tura; e come­çou a ver a si pró­pria se tor­nar pop: uma agên­cia de turismo inclui uma visita à Spui na agenda de pas­seios e o órgão esta­tal para turismo orga­niza, numa cidade pró­xima a Amsterdam, fal­sos hap­pe­nings, com ence­na­ções envol­vendo fal­sos Provos e fal­sos poli­ci­ais, tudo muito à la Disneyworld.

Para não se tor­na­rem cari­ca­tu­ras de si pró­prios, já que são ple­na­mente cons­ci­en­tes de que estão atu­ando na soci­e­dade do espe­tá­culo, em maio de 67, um ano antes das bar­ri­ca­das do meio de 68 fran­cês, nos­sos pro­ta­go­nis­tas deci­dem bai­xar as cor­ti­nas. Fazem-no atra­vés do 15º número do tablóide e uma festa de des­pe­dida no Vondel Park. Afinal, sem o apoio do chefe de polí­cia e o pre­feito de Amsterdam, que foram des­pe­di­dos por ine­fi­ci­ên­cia, não fazia mais tanto sentido.


.

[+] Joana Coccarelli é jor­na­lista, autora do blog Narghee-La e ide­a­li­za­dora do Coccarelli.art, cole­tivo de artis­tas, blo­guei­ros e escri­to­res. Escreve nesta coluna sobre esté­tica, design e moda.
joana@revistaogrito.com.

.
Leia as colu­nas ante­ri­o­res
[+] Moda con­cei­tual
[+] Be My Eighties
[+] Se olha no espelho

Related Posts with Thumbnails

leia mais:

comentários (01)

  • Excelente artigo!

    Bruno 24.05.2008 02h35