Lucrecia Martel (Foto: Conrado Roel)

O CINEMA À DERIVA DE
Diretora argen­tina fala sobre seu novo filme , rejeita a clas­si­fi­ca­ção que os crí­ti­cos dão aos seus fil­mes e afirma que seu cinema não car­rega sim­bo­lismo algum
Por Conrado Roel (texto e fotos), espe­cial para O Grito!, de Paraty

“Na con­versa, a pes­soa que fala se dis­solve. Como algo que vai se modi­fi­cando enquanto fala. Fui me dando conta disto enquanto tra­ba­lhava, nos fil­mes. A fala é uma coisa muito rica, uma pro­pri­e­dade que não se pode ser tomada, nem dimi­nuída. Como está o mundo atu­al­mente, é uma das pou­cas coi­sas que nos resta. Algo que está fora do sis­tema. É o que per­mite a exis­tên­cia daque­les momen­tos em que a par­ti­cu­la­ri­dade do indi­ví­duo brilha”.

Não. Este não é um ras­cu­nho esque­cido aci­den­tal­mente. A repro­du­ção de falas dis­per­sas e reor­de­na­das acima é uma ousa­dia do reda­tor na ten­ta­tiva de ilus­trar um prin­cí­pio que a cine­asta argen­tina Lucrecia Martel aplica na cons­tru­ção de suas nar­ra­ti­vas. Trata-se de ele­men­tos que cons­ti­tuem a ora­li­dade e que ela iden­ti­fi­cou como mar­can­tes em seus fil­mes, estando pre­sen­tes na maneira como ela arti­cula os pen­sa­men­tos, mate­ri­a­li­za­dos em ima­gem e som. Tanto que afirma ter assu­mindo o resul­tado como um sis­tema de tra­ba­lho. Cortês e aces­sí­vel, Lucrecia não esconde a inqui­e­ta­ção que deve ter lhe con­du­zido à per­cep­ção de mundo retra­tada em seus fil­mes, em que seres huma­nos se esco­ram em fia­pos de uma rea­li­dade cons­truída por eles mes­mos, na ten­ta­tiva de ofe­re­cer algum sen­tido ao coti­di­ano. Situações que ficam mais evi­den­tes jus­ta­mente nos momen­tos em que se sus­peita de que nem tudo é o que parece.

No hotel em que esteve hos­pe­dada em Paraty (RJ), como uma das con­vi­da­das da Festa Literária Internacional de Paraty () deste ano, ela rece­beu a equipe de repor­ta­gem na hora mar­cada. Cumpriu o tra­di­ci­o­nal ritual de troca de ame­ni­da­des, comum nes­tas cir­cuns­tân­cias, sentou-se de per­nas cru­za­das sobre a cadeira e con­sul­tou se os pre­sen­tes a acom­pa­nha­riam no chá, que bebeu enquanto con­ver­sava. Mas a cine­asta se mos­trou real­mente à von­tade quando pôde abor­dar a esfera das idéias. “As vezes a pes­soa fala em uma idade que não tem. Na con­versa, está se diri­gindo à outra pes­soa, mas ao mesmo tempo evoca outras, que não estão pre­sen­tes ali na hora da con­versa. Mistura pre­sente e pas­sado”, expli­cou, con­cei­tu­ando a abor­da­gem como uma “deriva” de pen­sa­men­tos que tra­du­zi­riam a con­di­ção humana retra­tada por ela. Ou ao menos aquela que lhe inte­ressa, con­du­zida por uma cons­ci­ên­cia atra­ves­sada por super­po­si­ções, subs­ti­tui­ções e uma infi­ni­dade de mis­tu­ras de refe­rên­cias toma­das no dia-a-dia das pes­soas e que lhes deli­neiam a forma como vêem o mundo. “Para mim é inte­res­san­tís­simo, como uma estru­tura nar­ra­tiva para o cinema”, apontou.

É uma aposta cons­ci­ente da cine­asta, jus­ti­fi­cada em um raci­o­cí­nio esté­tico com­pleto, que mobi­liza ao mesmo tempo forma e con­teúdo. “Se qui­ser­mos trans­cre­ver o que esta­mos con­ver­sando agora, fica muito difí­cil cap­tar as nuan­ces, as inten­ções, só pelo texto. Na fala, a liga­ção com o con­teúdo é muito mais forte que na escrita. O tom de voz, a empos­ta­ção, o ritmo, são liga­dos ao con­teúdo das pala­vras. Mas, por exem­plo, um ator quando decora um texto e vai dar forma a isso, já acres­centa estas coi­sas, a inter­pre­ta­ção da pala­vra falada já con­tém essa forma, já se dirige para uma deter­mi­nada intenção”.

Trata-se de uma estru­tura de arti­cu­la­ção nar­ra­tiva que segue na dire­ção do cinema enquanto via de pro­je­ção do pen­sa­mento ante­rior ao fil­tro da razão. Exatamente aquela em que o dis­po­si­tivo tenta repro­du­zir a gênese do pen­sa­mento, que a psi­ca­ná­lise iden­ti­fica como ima­gens fun­da­men­tais e arque­tí­pi­cas, e que tenta ope­rar atra­vés de uma certa sines­te­sia que com­põe a per­cep­ção humana. O entu­si­asmo com que defende esta liga­ção da ora­li­dade com o cinema se move, inclu­sive, em dire­ção à ori­en­ta­ção ide­o­ló­gica da dire­tora. Ela con­cei­tua a fala como um canal de nive­la­mento demo­crá­tico para o pen­sa­mento cri­a­tivo. “A ori­gi­na­li­dade é algo que não depende de classe social ou dinheiro. Muitas vezes, a forma como as pes­soas usam as pala­vras, de como as com­bi­nam para dizer algo, é muito mais cri­a­tiva em indi­ví­duos de clas­ses mais bai­xas, que não tive­ram acesso à edu­ca­ção for­mal e à uni­ver­si­dade”. Essa ten­dên­cia nada ori­gi­nal da inte­lec­tu­a­li­dade latino ame­ri­cana, de apego a uma certa sin­ge­leza da pobreza – sinal dos tem­pos de uma América Latina que assis­tiu na Argentina a der­ro­cada de um modelo econô­mico dito neo­li­be­ral e apa­ren­te­mente des­lo­cado em meio à falta de auto-estima do con­ti­nente – não impe­diu o ama­du­re­ci­mento esté­tico da diretora.

La Mujer Sin Cabeza (Foto: Divulgação)
Cena de La Mujer Sin Cabeza: filme estreou na Flip
.

La Mujer Sin Cabeza, o ter­ceiro longa da car­reira de Lucrecia retrata com suti­leza o des­fi­gu­ra­mento moral da classe média. Depois de Cannes, o filme estreou no con­ti­nente ame­ri­cano na Flip e cabe aqui aqui uma cen­sura à orga­ni­za­ção do evento, que con­fi­nou a exi­bi­ção a uma sala quente e abar­ro­tada, a uma pla­téia sub­me­tida a uma suces­são de filas para reser­var o ingresso e depois assis­tir ao filme, pro­je­tado em uma tela digna de pales­tras, no máximo. No enredo, o des­mo­ro­na­mento emo­ci­o­nal da pro­ta­go­nista, desen­ca­de­ado por uma fata­li­dade, repro­duz a forma como a soci­e­dade soterra a pró­pria hipo­cri­sia sob sedi­men­tos de peque­nas e ordi­ná­rias cor­rup­ções. A inter­pre­ta­ção de María Onetto atinge con­tor­nos do que se pode­ria ser cha­mado de um roman­tismo vis­ce­ral, mate­ri­a­li­zando com uma pre­ci­são por­no­grá­fica a dilui­ção de atos e fatos sór­di­dos no entor­pe­ci­mento do cotidiano.

Lucrecia Martel (Foto: Conrado Roel)
Lucrecia, direta: “Não há metá­fo­ras em meus fil­mes. As pes­soas tem mania de pro­cu­rar sím­bo­los em tudo”

.
Cinema direto
Assim mesmo, Lucrecia rejeita cate­go­ri­ca­mente a clas­si­fi­ca­ção de suas obras como fil­mes de crí­tica à hipo­cri­sia social atra­vés de metá­fo­ras ou ale­go­rias. Para ela, a cri­a­ção emerge de um momento de sen­si­bi­li­dade, no momento da con­cep­ção, e depois se passa à mão-de-obra, às esco­lhas cons­ci­en­tes sobre como con­tar a his­tó­ria, mas que em nenhum momento o que ela faz é colar suges­tões para que as pes­soas inter­pre­tem, como um jogo. “As pes­soas têm um vício, uma certa mania de pro­cu­rar e encon­trar sím­bo­los e inter­pre­ta­ções em tudo o que vêem. Não tem metá­fora nenhuma, de nada (em seus fil­mes). Quando escrevo ou filmo, não estou jogando com os espec­ta­do­res”. Mas ao rejei­tar esta cate­go­ri­za­ção, Lucrecia acaba por se auto-enquadrar numa outra, a do cinema sines­té­sico, mais sub­je­tiva, mas que não deixa de recor­rer à explo­ra­ção for­mal do cinema. O inte­res­sante, entre­tanto, é que jus­ta­mente aí ela demons­tra sua com­pe­tên­cia e revela seu trunfo con­cei­tual, aquilo que atri­bui a suas obras o sta­tus de uni­ver­sa­li­dade. “No fundo, estou me refe­rindo à soli­dão. Porque o que me motiva é uma inten­ção meio con­de­nada ao fra­casso (…) que é com­par­ti­lhar uma per­cep­ção. E para isso é pre­ciso com­par­ti­lhar a per­cep­ção do outro e, neste caso, é pre­ciso ocu­par um lugar de muita soli­dão para as pes­soas. Porque se há um lugar onde a pes­soa está real­mente só é no pró­prio corpo”.

[+] FESTA LITERÁRIA DE PARATY (FLIP 2008)
[+] NA FLIP, LUCRECIA FALA DA ADAPTAÇÃO DA HQ EL ETERNAUTA
[+] ÂNGELA PRYSTHON: O NOVO CINEMA ARGENTINO

Related Posts with Thumbnails

leia mais:

comentários (0)