RE-DESCOBRIR
Leitores bra­si­lei­ros ganham, enfim uma edi­ção à altura da impor­tân­cia da obra de
Por Paulo Floro

OS INVISÍVEIS — REVOLUÇÃO 1
Grant Morrison (texto), e (arte)
[Pixel, 236 págs, R$ 45]

Repensar todos os mis­té­rios acu­mu­la­dos em sécu­los da exis­tên­cia humana não é novi­dade há muito tempo. Grant Morrison, um dos mais impor­tan­tes escri­to­res de qua­dri­nhos deste século (e do ante­rior), con­se­guiu criar a his­tó­ria defi­ni­tiva de cons­pi­ra­ção. Os Invisíveis — Revolução 1 che­gou iní­cio deste mês às livra­rias bra­si­lei­ras pela edi­tora Pixel.

A idéia de for­ças ocul­tas que domi­nam o pen­sa­mento e ações huma­nas é o mote da série, que che­gou a ser a série número 1 do selo Vertigo, da DC Comics. Tudo pode acon­te­cer nas pági­nas desta HQ, desde via­gens no tempo até apa­ri­ções mís­ti­cas de demô­nios, sem esque­cer, claro de ali­e­ní­ge­nas que inva­dem a Terra. A trama conta a his­tó­ria de uma célula anar­quista que busca a evo­lu­ção da huma­ni­dade. Isto é tudo o que é pos­sí­vel expli­car nes­tas linhas. De resto, o pra­zer de des­ven­dar o qua­dri­nhos é a prin­ci­pal pro­posta de Os Invisíveis.

O gênio louco de Morrison tor­nou pos­sí­vel uma trans­cen­dên­cia além-papel para a série. Ele é o pri­meiro a acre­di­tar pia­mente em sua fic­ção, ou é isso que ele quer nos fazer acre­di­tar. Já afir­mou se tra­tar de sua obra “auto­bi­o­grá­fica” e che­gou a dizer que teve uma expe­ri­ên­cia de conhe­cer um outro estado de exis­tên­cia (como via­jar a outra dimen­são) antes de escre­ver o texto. Mas, para alguém que diz ser uma estu­di­oso da Magia do Caos, tudo é possível.

Ler a série, sobre­tudo para quem nunca leu nenhum outro texto deste autor esco­cês pode ser per­tur­ba­dor. Centenas de refe­rên­cias se escon­dem em cada qua­dro, cada cena com­pele o lei­tor a se con­fron­tar com o mundo em que vive. Existe um outro mundo além das per­cep­ções huma­nas, uma exis­tên­cia ao mesmo tempo mís­tica e vir­tual. Foi por esta abor­da­gem de um mundo obs­cu­re­cido por for­ças domi­nan­tes que fez a série ser com­pa­rada a Trilogia Matrix, estre­lada por Keanu Reeves e diri­gida pelos irmãos Warchowski.

Nenhuma outra HQ rom­peu tanto com parâ­me­tros da indús­tria dos qua­dri­nhos norte-americanos quanto Os Invisíveis. Até hoje, figura como refe­rên­cia pri­mor­dial em todo tipo de expe­ri­men­ta­ção nos qua­dri­nhos. De todos os gênios da nona arte reve­la­dos nos anos 80, como Neil Gaiman, Frank Miller e Alan Moore, Morrison é o mais visi­o­ná­rio de todos.

Para mui­tos, seus argu­men­tos che­gam a ser ego­cên­tri­cos e her­mé­ti­cos, mas à oca­sião do lan­ça­mento do pri­meiro volume de sua obra maior, disse que tra­vava um diá­logo com seus lei­to­res para que eles “des­per­tas­sem”, ou numa lin­gua­gem pop mais enten­dí­vel, tomem a pílula azul.

Caos
Mais com­pli­cado do que enten­der os con­cei­tos e idéias por trás de Os Invisíveis era ten­tar acom­pa­nhar a série no Brasil. Obra-prima de Grant Morrison, só agora ela ganha uma edi­ção mere­cida. Lançado pela edi­tora Brainstore, nunca teve peri­di­o­ci­dade defi­nida, nem mesmo uma boa dis­tri­bui­ção. A Pixel tenta agora lan­çar a série em enca­der­na­dos com nova tra­du­ção e bom acabamento.

Chama a aten­ção tam­bém os extras que ten­tam con­tex­tu­a­li­zar a série com suas diver­sas refe­rên­cias. Outro reno­mado escri­tor de HQs, Peter Miligham (Shade, X-Táticos) assina o pre­fá­cio e o jor­na­lista Delfin fez um inte­res­sante pos­fá­cio do livro. Entre tan­tos acer­tos, o único des­lize é o for­mato, menor que o ori­gi­nal ame­ri­cano sem que isso sig­ni­fi­casse uma dimi­nui­ção no preço. Lembrando que esta era uma das prin­ci­pais quei­xas que os lei­to­res Vertigo faziam das edi­ções da Devir.

Mas res­tam razões para come­mo­rar o lan­ça­mento de uma das mais impor­tan­tes obras de qua­dri­nhos do século 20.

NOTA: 9,5

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