Neil Gaiman (Foto: Divulgação)

NOS BASTIDORES DO SONHO
Livro do jor­na­lista ame­ri­cano mos­tra como cons­truiu a car­reira a par­tir dos artis­tas com quem tra­ba­lhou
Por Paulo Floro

PASSEANDO COM O REI DOS SONHOS — CONVERSA COM NEIL GAIMAN E SEUS COLABORADORES
Joseph McCabe
[HQM Editora, 312 págs, R$ 49,9]

Se existe um cha­vão para os qua­dri­nhos auto­rais da indús­tria norte-americana é dizer que Neil Gaiman rede­fi­niu o gênero adulto de HQs, ampliou o público lei­tor, criou um uni­verso pró­prio com influên­cia da lite­ra­tura, cul­tura pop, etc. Certo, tudo isso, em maior ou menor grau de exa­gero é sabido. O que pou­cas vezes é comen­tado são as cola­bo­ra­ções do autor inglês, que o pos­si­bi­li­ta­ram a atin­gir um pata­mar iné­dito entre escritores-quadrinhistas. É isto que o livro Passeando Com O Rei Dos Sonhos — Conversa Com Neil Gaiman e Seus Colaboradores apre­senta. Um com­pên­dio de mais de 300 pági­nas de entre­vis­tas com cola­bo­ra­do­res de Gaiman desde o iní­cio de sua car­reira, como Dave McCain, Jill Thompson, Brian Talbot, entre outros.

As 29 entre­vis­tas foram com­pi­la­das pelo jor­na­lista Joseph McCabe, edi­tor da revista Weird Tales e abor­dam desde o uni­verso de até outras mídias pelas quais Gaiman já se aven­tu­rou, entre elas o cinema. Mais do que con­tar os bas­ti­do­res de cri­a­ção do autor, Passeando… reúne um vasto conhe­ci­mento em como se tra­ba­lhar em cola­bo­ra­ção nos qua­dri­nhos. Essa é uma inten­ção do pró­prio McCabe, de bus­car enten­der a inte­ra­ção entre os diver­sos artis­tas que se envol­ve­ram com o escri­tor de . Desta forma, o livro repre­senta tanto uma fonte robusta de curi­o­si­da­des quanto um estudo sobre o modo de fazer quadrinhos.

O livro foi divi­dido de maneira cro­no­ló­gica, de acordo com a ordem em que Gaiman tra­ba­lhou com os entre­vis­ta­dos. Também está edi­tado de acordo com as refe­rên­cias de sua obra mais famosa, Sandman (tome por exem­plo, os nomes dos capí­tu­los “Prelúdios”, “Sonhos”, “Outros Devaneios”). Mas o melhor se revela após um breve pas­seio pelas pági­nas. Mesmo tendo Gaiman e seu uni­verso como norte, McCabe con­se­gue dis­cu­tir muito do tra­ba­lho dos cola­bo­ra­do­res. Como Dave McKean, que apre­senta ao lei­tor um tra­ba­lho no cinema pouco conhecido.

Neil Gaiman (Foto: Divulgação)

Prestígio
Por mais que pos­sua um tra­ba­lho con­sis­tente em outras fren­tes, como os elo­gi­a­dos livros infan­tis e seus rotei­ros para cinema, só mesmo seu tra­ba­lho em Sandman para jus­ti­fi­car uma obra desse porte. A entre­vista de Karen Berger ajuda a enten­der o cami­nho que a série seguiu para se tor­nar um dos títu­los da Vertigo que mais ven­deu na his­tó­ria do selo.

Karen foi a res­pon­sá­vel por fazer a ponte entre os qua­dri­nhis­tas bri­tâ­ni­cos e a DC Comics. Ela, que já havia edi­tado o Monstro do Pântano, de Alan Moore, conhe­ceu Gaiman em uma de suas via­gens à Inglaterra. Do encon­tro, saiu a idéia de criar um título para o per­so­na­gem Sandman e o resto é his­tó­ria. O impor­tante é saber que foi tam­bém ela, uma jovem edi­tora, a res­pon­sá­vel pela popu­la­ri­za­ção do título para não-leitores de gibis. Quando Paul Levitz — hoje pre­si­dente da DC, à época um edi­tor — a con­tra­tou, que­ria alguém que “não fosse fãs de HQs”.

O título do Lorde Morpheus impul­si­o­nou a busca por novos auto­res de qua­dri­nhos adul­tos, movi­men­tando a indús­tria mains­tream. Atualmente, a Vertigo ainda fun­ci­ona como um celeiro de van­guarda den­tro da DC Comics, ainda que não tenha alcan­çado nenhum outro fenô­meno de popu­la­ri­dade. O tra­ba­lho de Gaiman alcan­çou ainda outras mídias, dia­lo­gando com o tra­ba­lho de artis­tas como Tori Amos, com quem cola­bo­rou no disco Strange Little Girls e Alice Cooper, na minis­sé­rie A Última Tentação.

A HQM Editora, que res­ga­tou um dos pri­mei­ros tra­ba­lhos de Gaiman lan­çando Violent Cases recen­te­mente, con­ti­nuou o bom tra­ba­lho aqui. Além da boa tra­du­ção, o livro é bem ilus­trado, com fotos dos entre­vis­ta­dos e tre­chos das obras. Figura como indis­pen­sá­vel na ainda pequena bibli­o­teca de livros sobre qua­dri­nhos publi­cada no Brasil.

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