Lourenço Mutarelli (Foto: Fred Chalub)
(Foto: Fred Chalub)

AUTOR EM TRÂNSITO
Por Germano Rabello e Paulo Floro

Mutarelli é um caso rarís­simo no pano­rama das artes bra­si­lei­ras. No mer­cado edi­to­rial do final dos anos 80, ele era um peixe fora d’água. O seu tra­ba­lho cor­ria pelas bei­ra­das de um mer­cado naci­o­nal que tinha como prin­ci­pais expo­en­tes no momento a gera­ção das tiras: Angeli, Glauco e Laerte. Publicou seu pri­meiro zine em 1988 com a ajuda do qua­dri­nista Marcatti, e algu­mas par­ti­ci­pa­ções em revis­tas como a Animal vie­ram em seguida. Ironicamente, Mutarelli então tra­ba­lhava nos estú­dios Maurício de Souza. Em 1991 con­se­guiu publi­car seu pri­meiro álbum de qua­dri­nhos, um grande feito para um dese­nhista pouco conhe­cido. Transubstanciação foi tam­bém o pri­meiro álbum do que ele chama sua fase “Heavy Metal”: ele enchia as pági­nas com per­so­na­gens e situ­a­ções expres­si­o­nis­tas ao extremo, com um visual exces­sivo, rotei­ros cheios de angús­tia. Havia tam­bém um senso de humor estra­nho. Depois, ele fica­ria conhe­cido nas HQs pelo per­so­na­gem Diomedes, numa tri­lo­gia em qua­tro partes (!).

Autoretrato/ Lourenço Mutarelli para o livro A Arte De Produzir Efeito Sem Causa (Companhia das Letras)Depois de sua deci­são de parar de fazer qua­dri­nhos, Mutarelli vem avan­çando a pas­sos lar­gos pela lite­ra­tura, tea­tro e cinema. Na defesa de uma expres­são mais nova, ele aban­do­nou tem­po­ra­ri­a­mente um ter­ri­tó­rio onde estava esta­be­le­cido. O Cheiro do Ralo, seu romance de estréia de 2002, foi adap­tado com sucesso para as telas e Mutarelli inclu­sive par­ti­ci­pou desta pro­du­ção como ator coad­ju­vante. O Natimorto vai seguir o mesmo cami­nho dos livros para as telas. Como o pró­prio Mutarelli já decla­rou, o pro­cesso de rea­li­za­ção de um livro de prosa é pra ele muito mais rápido e menos tra­ba­lhoso do que a fei­tura de um álbum de qua­dri­nhos. O mais novo livro, A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, vem com o res­pei­tado selo da Companhia das Letras – da qual Mutarelli afirma ter rece­bido um tra­ta­mento muito mais pro­fis­si­o­nal do que pela Devir. Apresentando uma trama com um per­so­na­gem dis­fun­ci­o­nal, o escri­tor recheia o livro com peque­nas ilustrações-diagramas que dão um vis­lum­bre do pro­cesso de dete­ri­o­ra­ção men­tal do protagonista.

São novos cami­nhos aber­tos, novos hori­zon­tes artís­ti­cos para uma mente inqui­eta, que man­tém um olhar afi­ado e atento para as ques­tões huma­nas. Foi depois de um debate sobre a rela­ção entre lite­ra­tura e qua­dri­nhos que fize­mos esta entre­vista com o escri­tor. Em mais ou menos uma hora de con­versa, Mutarelli nos brin­dou com refle­xões inte­res­san­tes e sin­ce­ras, que nos aju­dam a des­ven­dar melhor a sua obra. Sentados no chão de uma Livraria Cultura lotada num domingo em Recife, come­ça­mos a entrevista

A pri­meira fase do seu tra­ba­lho teve his­tó­rias muito car­re­ga­das, muito visu­al­mente exces­si­vas, e parece que o tra­ba­lho foi se depu­rando, ficando com um visual mais limpo. De repente, você che­gou à lite­ra­tura. Me pare­ceu uma cami­nhada, uma depu­ra­ção.
Mutarelli: É pos­sí­vel. Eu nunca tinha rela­ci­o­nado tudo numa mesma linha. Eu rela­ci­o­nava numa linha aos qua­dri­nhos. Tem o que chamo de fase negra, como Transubstianciação, que inclu­sive a capa é preta mesmo. Antes da tri­lo­gia do Diomedes, por exem­plo, lan­cei antes uma cole­tâ­nea, que é o Seqüelas, com uma capa colo­rida. Antes da Caixa de Areia, que con­si­dero uma tran­si­ção, fiz outra cole­tâ­nea. Quando decidi mudar de edi­tora, lan­çei uma cole­tâ­nea de tea­tro, então per­cebo que as cole­tâ­neas meio que mar­ca­ram uma mudança grande.

No começo é aquele excesso de ima­gens, de hachu­ras. Com o tempo não era só o traço que eu ia desor­bi­tando, como a pró­pria temá­tica. Busquei pôr mais deli­ca­deza, achava que tinha uma pegada forte demais, des­ne­ces­sá­ria. Eu cos­tumo falar que no começo eu me “expres­sava” e a par­tir de um tempo pas­sei a me “comu­ni­car”. Antes eu gri­tava e depois pas­sei a, tal­vez, dialogar.

Essas cole­tâ­neas tam­bém ser­vi­ram para você fazer uma revi­são da sua obra?
M: Não. Geralmente eram para cum­prir um prazo, publi­car alguma coisa. Eu tinha um con­trato, então tinha que publi­car algo. Juntava alguma mate­rial quando estava num pro­cesso de mudança, pra poder expe­ri­men­tar uma coisa nova onde pre­ci­sa­ria de um tempo maior. Então pra não ficar um lapso eu aca­bava sol­tando uma cole­tâ­nea. Tinha gente que per­gun­tava o que eu fazia antes do Transubstanciação, e eu tinha muito tra­ba­lho em fan­zi­nes e algu­mas ilus­tra­ções. Eu que­ria jun­tar tudo isso pra não ficar dis­perso. Mas eu acho hor­rí­vel Seqüelas, [pri­meira cole­tâ­nea] mas tem uma his­tó­ria que eu gosto, “Resignação”, que tam­bém saiu na revista Brazilian Heavy Metal.

Teve uma his­tó­ria, “O Nada”, que você dese­nhou três vezes.
É. E ficava uma bosta a cada vez que eu dese­nhava (Risos). A pri­meira é a melhor. A segunda eu ten­tei fazer algo pró­ximo do under­ground ame­ri­cano, mas eu nunca fiquei feliz com o resul­tado. Nem sei por­que insisti tanto.

Tem alguma his­to­ria que você gos­ta­ria de reto­mar ou refa­zer?
Não. Nesse caso espe­cí­fico, foi que eu nunca gos­tei do resul­tado e ficava ten­tando e nunca che­guei onde eu que­ria com essa historia.

A Devir sem­pre me aju­dou muito, mas nunca acre­di­tou no meu tra­ba­lho. Com o tempo isso foi cri­ando um des­gaste. Eles não que­riam lan­çar Cheiro do Ralo, que­riam só publi­car quadrinho

Te ocor­reu em come­çar um romance e que­rer adaptá-lo para os qua­dri­nhos?
Não. A edi­tora [Companhia das Letras, atual de Mutarelli] até suge­riu isso mas eu acho que são coi­sas bem dis­tin­tas [HQ e lite­ra­tura]. No cinema eu per­mito adap­ta­ção por­que ganho uma grana e tam­bém por­que são outras pes­soas adap­tando. Eu gosto de dar essa liber­dade de cri­a­ção às pes­soas. Antigamente eu era muito obce­cado, tinha pre­o­cu­pa­ção em cons­truir um cená­rio, dava muito aten­ção aos deta­lhes, eu gosto de cons­truir uma his­tó­ria com pouco, cons­truir um ambi­ente com o mínimo. Eu ouço muito mini­ma­lismo, ouço muito música con­creta, acho que isso me influ­en­ciou muito. Eu tento agora mon­tar tudo e con­tar uma his­tó­ria com o mínimo de peças.

Com a Devir, você con­se­gui se tor­nar conhe­cido como qua­dri­nhista, foi nela que você teve uma maior visi­bi­li­dade até mesmo entre a crí­tica. Como você vê o seu período na edi­tora desde o iní­cio até sua saída? O que você acha que ela repre­sen­tou?
As que vie­ram antes tam­bém têm uma coisa inte­res­sante, por­que tirando Transubstanciação, que saiu pela Dealer, todas as outras foram publi­ca­das pela mesma edi­tora só que com nomes dife­ren­tes. É que o cara sujava o nome, fechava a edi­tora, se mudava e abria outra. Era Lilás, Vidente,Vortex, acho que eram essas. E a Devir, eles sem­pre me aju­da­ram muito, mas eles nunca acre­di­ta­ram no meu tra­ba­lho. Com o tempo isso foi cri­ando um des­gaste. Começou com o Cheiro do Ralo, quando outras edi­to­ras pas­sa­ram a se inte­res­sar, come­ça­ram a me pro­cu­rar. Ele foi edi­tado por aci­dente, um acaso, já que a Devir não que­ria publi­car romance meu, só qua­dri­nho. Até o Arnaldo Antunes inter­ce­deu para a publi­ca­ção do material.

Eles tam­bém exi­gi­ram que eu fizesse a capa, e eu não que­ria fazer, que­ria uma foto ou algo do tipo. Enfim, eu per­cebi uma reti­cên­cia deles. Também achava que a Devir era muito fraca em livro [de roman­ces] e, se eu qui­sesse explo­rar mais o romance teria que sair de lá. O Cheiro Do Ralo, um dos meus edi­to­res nunca leu. O meu livro seguinte, O Natimorto, eu tive que lan­çar por uma outra edi­tora que aca­bou falindo [a pequena DBA]. Quando o pes­soal da Companhia das letras me pro­cu­rou, refe­rente a um livro que eu tinha man­dado para eles, eles pro­cu­ra­ram um edi­tor pra mim, tive revi­são, coisa que eu nunca tive na Devir. Pelo con­trá­rio, às vezes encon­trava erros que não estava no mate­rial digi­ta­li­zado. O que eu pedia tam­bém era uma dis­tri­bui­ção melhor, por­que a Devir é muito ruim, nin­guém encon­trava meu tra­ba­lho. No mais, a Devir foi legal por­que eu pude expe­ri­men­tar. Acho que a nossa rela­ção não foi tão boa pra eles quanto foi pra mim.


Capas de O Dobro de Cinco, O Rei do Ponto e A Soma de Tudo 1 e 2 (Devir)

Você acha que esse des­gaste na Devir con­tri­buiu com a sua deci­são de não fazer mais qua­dri­nhos?
Eu parei de fazer quando come­çou um con­flito do qual nunca falei muito a res­peito. Em A Soma de Tudo Parte 1, eu dese­nho um dos edi­to­res. Era uma home­na­gem que fiz pra ele, mas ele não gos­tou. Então eles exi­gi­ram que eu reti­rasse ou iriam reco­lher, o que aca­ba­ram fazendo em Portugal, onde já tinha sido lan­çado 4 volu­mes e na Espanha eles lan­ça­ram só o 1º e o 2º. Era uma forma de me pres­si­o­nar para mudar, mas não mudei. Aqui no Brasil, eles não reco­lhe­ram por­que já tinha saído, mas ulti­ma­mente tem sumido os 2 pri­mei­ros volu­mes, e pode ser que não seja mais encon­trado no futuro. Nunca tinha sofrido cen­sura, achei um absurdo eles exi­gi­rem que eu mudasse a his­tó­ria. Depois eles cobra­ram mais Diomedes [per­so­na­gem de O Dobro de Cinco, Soma de Tudo, etc], por­que a série tava indo bem, mas eu que­ria fazer outras coi­sas como Caixa de Areia.


Selton Mello encarna Lourenço Mutarelli no longa O Cheiro do Ralo, adap­ta­ção do autor com mesmo

Eles ainda têm direito sobre as obras?
Eles não têm direito sobre nada. A gente não tem nenhum papel assi­nado. Vai come­çar uma briga logo, logo por­que têm outras edi­to­ras inte­res­sa­das nesse mate­rial. Quando Cheiro do Ralo saiu nos cine­mas, eles não qui­se­ram nem lan­çar uma segunda edi­ção. E teve edi­to­ras gran­des que qui­se­ram lan­çar o livro, mas eu não quis, por­que achei antié­tico. Mas eu penso em algum momento rever o que farei com o mate­rial que tenho lá, repen­sar essa coisa de con­tra­tos. Eu saí da Devir numa boa, con­ver­sei com eles, mas parece que eles fica­ram com raiva de mim.

E na Companhia das letras você tem um con­trato?
Sim. Tenho um con­trato para esse e pla­nos para mais dois livros. Tem um que eles gos­tam, mas não gosto do jeito que ele tá fina­li­zado, então tenho que modi­fi­car algu­mas coi­sas. Mas claro, tudo vai depen­der da venda deste primeiro.

Eles têm inte­resse no seu mate­rial antigo?
Sim. Eles que­rem ree­di­tar Natimorto que vence con­trato este ano para apro­vei­tar a lan­ça­mento do filme ano que vem. Mas tam­bém têm inte­resse em coi­sas anti­gas minhas.

Eu que­ria saber qual é a pene­tra­ção do seu tra­ba­lho no exte­rior.
Muito pequena. Portugal e Espanha só. Os roman­ces tem um inte­resse recente da Itália, tem um cara inte­res­sado em tra­du­zir, outro na argen­tina. Com a Companhia das Letras é mais fácil de publi­car em outras lín­guas por­que eles têm um agente para ven­der os direi­tos para outros paí­ses. Quando eu tava na Devir, uma mulher da Itália me pro­cu­rou que­rendo publi­car meu tra­ba­lho, eu enca­mi­nhei o e-mail dela, mas eles nunca res­pon­de­ram a mulher. De qua­dri­nhos tem um pes­soal inte­res­sado em publi­car na França, mas pri­meiro tenho que resol­ver isso na Devir. Eles publi­cam fora meu mate­rial, mas eu nunca recebi um único exem­plar des­sas edições.

Como foi a mudança de rotina, de tra­ba­lhar com qua­dri­nhos e pas­sar a escre­ver lite­ra­tura?
No iní­cio foi ótimo. Com HQ eu tra­ba­lhava mui­tas horas por dia e agora tra­ba­lho pouco. Tenho tempo livre pra estu­dar, pra coçar o saco. É muito mais tranqüilo, mais suave.


Página interna de O Rei do Ponto (2000, Devir)

Quando você fazia qua­dri­nho, você fazia um layout, um estudo antes?
Eu fazia um roteiro, onde eu não punha muito ele­mento mas eu já ia visu­a­li­zando cada página. Eu visu­a­li­zava o cená­rio, o ambi­ente. Em alguns casos, com Diomedes, eu visi­tava o lugar, alguns luga­res eu dese­nhava. Eu dis­tri­buía o texto pela página. Eu não tenho paci­ên­cia de dese­nhar duas vezes, fazer um esboço e depois fina­li­zar. Só nas sequên­cias de ação onde tinha que criar uma core­o­gra­fia eu fazia um esboço bem sim­ples e pequeno e depois eu qudrinizava.

Depois que você come­çou a fazer lite­ra­tura, per­ce­beu que seu tra­ba­lho cres­ceu, que abriu outros cami­nhos? Como você se sente?
Eu sinto que meu público ligado aos qua­dri­nhos, pelo pouco que eu tenho de retorno, ficou muito des­gos­toso com essa mudança. Mas fran­ca­mente é outro panorama. Eu cos­tumo dar como exem­plo uma pales­tra que fiz numa enti­dade no mesmo mês, em Brasília, uma como qua­dri­nhista e outra como escri­tor. Como qua­dri­nista eles me colo­ca­ram num puta hotel fuleiro, me paga­ram um cachê de cento e pouco reais. Aí eu vol­tei no mesmo mês como escri­tor e tinha uma van, um super hotel, era quase 2 paus de cachê, me tra­ta­vam como se eu fosse alguém.

Existe um tra­ta­mento muito dife­rente no Brasil de um autor de qua­dri­nho e um escri­tor. E eu nunca fui muito aceito pelo meio dos qua­dri­nhos, já pelos escri­to­res eu fui aceito como um igual, não como um ET, ou equívoco.

Como assim? O que acon­te­ceu para você afir­mar essa repulsa?
Eu tive mui­tos pro­ble­mas com o Laerte, foi um cara que me saca­neou muito. Ele até pediu des­cul­pas publi­ca­mente por isso, é uma coisa muito antiga. Mas essa minha gera­ção foi muito fechada, tira­vam muito sarro e difi­cul­ta­ram o máximo que pude­ram a minha estrada. Eu gosto muito do Gonzáles, tem auto­res que eu me rela­ci­ono bem. Mas foi difí­cil come­çar por­que eles não me entendiam.

Porque era outra lin­gua­gem tam­bém, né?
Eu não que­ria publi­car na Chiclete [Com Banana], eu que­ria publi­car na Circo, onde tinham qua­dri­nhos bem dife­ren­tes, cujo edi­tor era o Laerte. Mas eu tam­bém era muito, muito difícil.

Lembro que eu já vi umas tiri­nhas suas na Chiclete Com Banana.
Esse foi um dos casos de pro­ble­mas que tive com eles. O Glauco ten­tou me levar pra lá. Eu levei, sei lá, umas 200 pági­nas de his­tó­ria. Aí fala­ram “vamos publi­car e tal” e no fim so publi­ca­ram uma tirinha.

Você falou que não acom­pa­nha mais qua­dri­nhos, mas tem algo atual da HQ atual naci­o­nal que te des­per­tou inte­resse?
Conheço Rafael Grampá que é um menino bacana, que está lan­çando um álbum inte­res­sante [Mesmo Delivery, pela Desiderata]. Eu conheço um ou outro, mas por acaso. Eu não tenho tido muita von­tade de ver nada de qua­dri­nhos, quero dei­xar pas­sar mesmo o tempo…

Muitas pes­soas que gos­tam de lite­ra­tura dizem que você é um ex-quadrinhista. Que acha dessa alcu­nha estar vin­cu­lada ao seu tra­ba­lho?

Tem pes­soas que usam muito isso pra me ata­car. O que me magoa nisso é eles depre­ci­a­rem os qua­dri­nhos, por­que eu não parei os qua­dri­nhos por des­res­pei­tar, eu res­peito pro­fun­da­mente, mas eu não gosto quando eles usam “o cara que fazia gibi”. Podem falar que meu livro é uma bosta, mas não venha ata­car os qua­dri­nhos. Não só o meu, mas qual­quer qua­dri­nho. Mas tem um público que me conhece como ator, outro público me conhce como dra­ma­turgo, tem um público que acha que eu so escrevo… Ninguém sabe direito o que eu sou, o que eu faço, então eu faço o que me dá vontade.

Eu nunca fui muito aceito pelo meio dos qua­dri­nhos, e pelos escri­to­res eu fui aceito como um igual, não como um ET

Fala um pouco do Natimorto, o filme.
Tinha um ator que aca­bou saindo, no meio do pro­cesso, que era o Marco Ricca, por­que estava envol­vido na dire­ção de outro filme, teve uns desen­con­tros aí. Entao eu par­ti­ci­pei de algu­mas lei­tu­ras [do roteiro] como o Narrador, ele lendo o Agente e a Simone [Spolodore, atriz] fazia a Voz. Quando ele saiu, come­ça­ram a pen­sar em Wagner moura e em gran­des nomes. Entao eu falei com o Paulinho [Machline, dire­tor], já que estava muito pró­ximo a ele por conta das con­ver­sas que tínha­mos sobre o filme, para pegar o papel. Já tinha atu­ado em alguns cur­tas, além de outras coi­sas meno­res, então fui lá fazer o teste junto com a Simone.

Foi muito difí­cil mas eu tive um pre­pa­ra­dor muito bom, já que o per­so­na­gem exi­gia um tra­ba­lho físico grande. Foi umas das pou­cas coi­sas que me orgu­lho que fiz. Quando eu falo que eu não me orgu­lho dos meus qua­dri­nhos, é que eu nunca estou satis­feito com o resul­tado final. Eu sem­pre vou olhar para eles e ver um defeito, algo que eu podia ter modi­fi­cado. Com meus livros não. Porque meu livro eu tô pegando um objeto, eu não leio meus livros. Eu não tenho nenhum livro ou qua­dri­nho meu. Eu gosto muito de Natimorto, assim como gosto de Transubstanciação. Eu não tenho pro­pri­e­dade sobre meus livros, pra mim livro é de quem lê, não de quem escreve.

Com rela­ção a Natimorto, eu nem lem­bro mais quem são os per­so­na­gens. Por causa do filme, eu fui reler o livro, che­guei ape­nas no segundo capí­tulo e achei um saco, mesmo sendo o tra­ba­lho que mais gosto. Eu que­ria che­gar no per­so­na­gem que Paulinho, o dire­tor via, e não que eu tinha ima­gi­nado. Às vezes eu dis­cor­dava como ator, e ele achava que era como autor, mas não era.

Houve uma mudança grande não? Você estava acos­tu­mado a tra­ba­lhar como qua­dri­nista, como escri­tor, situ­a­ções que te dei­xam com­pel­ta­mente iso­lado.
Eu tive uma mudança grande mesmo. Voltei pro bairro que eu cresci, que foi Vila Mariana. Comecei a tomar cefra­lina, que foi um medi­ca­mento que me trans­for­mou. Eu era muito fechado. Se me per­gun­ta­vam a hora na rua, eu mos­trava o reló­gio. Eu não con­se­guia falar com quem eu não conhe­cia, eu não saía, era difí­cil. E aí come­cei a ficar mais solto, mais à von­tade. Quando eu come­cei a tra­ba­lhar com tea­tro, tra­ba­lhar com um grupo, eu gos­tei disso, eu achei legal. Não a cri­a­ti­vi­dade cole­tiva, mas o tra­ba­lho onde cada um vai pegar uma parte, dis­cu­tir, é muito bom. Então, é uma forma de res­pi­rar um pouco dessa soli­dão que é escre­ver, desenhar.

Te inte­ressa per­so­na­gens dis­fun­ci­o­nais?
Todos os meus per­so­na­gens têm pro­ble­mas. Tem uma his­tó­ria minha do Mundo Pet, onde eu tento ras­trear todos os esqui­zo­frê­ni­cos do lado materno da minha famí­lia: meu irmão tem pro­blema, eu tenho pro­blema. É muito parte da minha vida, e eu sem­pre li muito sobre o assunto, e às vezes tem uns dis­túr­bios muito inte­res­san­tes pra estru­tu­rar um per­so­na­gem ou refletir.

Você falou que tava com uma influên­cia Kafka, por isso me lem­brei de Mundo Pet.
Vocês acei­tam um gole? [tira uma gar­rafa pequena com uís­que de den­tro da bolsa]. É, ali tem muito de Kafka, mas tam­bém tem muito da minha vida. Mais do que uma influên­cia, eu tenho uma iden­ti­dade muito forte com o Kafka.

Você já ten­tou adap­tar para os qua­dri­nhos como fez Crumb e Kuper?
Crumb fez a melhor adap­ta­ção de Kafka, nin­guém pre­cisa fazer mais nada. Kuper é bom, mas ele é óbvio. Ele fez a barata como uma barata. A pala­vra tem esse poder da metá­fora que mui­tas vezes a ima­gem destrói.

Você tem dese­nhado pra você ao menos?
Sim. Toda noite quando eu bebo, e fico meio “balão” eu vou lá e rabisco algu­mas coi­sas, mas nada com muita téc­nica. Então eu vou cole­ci­o­nando isso. Era um pro­jeto antigo que eu tinha, cha­mado “A Vida Com Efeito”. Quando o remé­dio começa a bater eu bebo e ai vou dese­nhar. Não é qua­dri­nho nem livro, tem umas coi­sas escri­tas… É algo bem expe­ri­men­tal que eu gosto muito, tal­vez uma hora eu publi­que. Não é nada com sequên­cia ou lógica.

Pra ter­mi­nar, que você acha de ter come­çado num momento onde não se publi­cava graphic novel no Brasil e hoje isso estar tão pre­sente nas livra­rias.

Quando eu come­cei, a minha idéia não era graphic novel. Eu me ins­pi­rei nos álbuns euro­peus. Os euro­peus sem­pre fize­ram álbuns, nin­guém cha­mou de graphic novel. Fiz numa época que eu tava muito mal, então quando eu melho­rava, dese­nhava um pou­qui­nho. Aí foi quando um edi­tor per­gun­tou se eu não tinha mais nada. Falei que tinha um negó­cio inde­pen­dente, ele gos­tou e falou ‘vamos publi­car isso como graphic novel’. Pra mim tanto fazia, pra mim nunca foi graphic novel, pra mim era um álbum, um livro, muito mais ins­pi­rado nos euro­peus que nos americanos.

MAIS MUTARELLI NA WEB: www.mutarelli.com.br

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