Spacca (Foto: Divulgação)

AS CORES DE AMADO
Quadrinista pau­lista faz adap­ta­ção de Jubiabá para qua­dri­nhos
Por Lidianne Andrade

Polêmico nos roman­ces e com per­so­na­gens for­tes e cari­ca­tu­ra­dos, o escri­tor Jorge Amado mar­cou a lite­ra­tura bra­si­leira com suas obras. Já rece­beu diver­sas adap­ta­ções para TV e cinema, aumen­tando a apre­ci­a­ção de suas his­tó­rias pelo público popu­lar, mas, para alguns, sua lite­ra­tura con­ti­nua com a lin­gua­gem cen­su­rá­vel pela ausên­cia de pudor nar­ra­tivo, sem muito atra­tivo para os mais jovens. Talvez essa bar­reira seja rom­pida com a che­gada nas livra­rias de Jubiabá, adap­ta­ção em qua­dri­nhos de obra homô­nima de Amado com ilus­tra­ção e roteiro de Spacca pelo novo selo da Cia. das Letras, Quadrinhos na Cia.

Ao longo de suas 98 pági­nas, colo­ri­das em for­mato 21 x 28, o HQ traz, na ínte­gra, a his­tó­ria do casa­mento de ima­gem e texto com sín­tese da obra escrita por Jorge Amado entre 1934 e 1935. Nascido no morro do Capa-Negro, em Salvador, Antônio Balduíno (Baldo) é pro­te­gido do pai-de-santo Jubiabá. Já na infân­cia o pro­ta­go­nista aliena-se em seu mundo, lide­rando um pequeno grupo de mole­ques para fur­tos e arruaças.

Baldo viven­cia o pior da soci­e­dade bai­ana em uma luta por ascen­são. Na tra­je­tó­ria da per­so­na­gem, Jorge Amado cons­trói um pai­nel da Bahia e con­seqüen­te­mente do Brasil. O Morro do Capa Negro é pin­ce­lado em deta­lhes, a pai­sa­gem ganha cores e movi­men­tos, não esque­ci­dos por Spacca nas pági­nas do qua­dri­nho. Diferentemente de outros tra­ba­lhos do artista, aqui há dese­nhos mais rea­lis­tas. “As situ­a­ções exi­gem mais dra­ma­ti­ci­dade. Há cenas trá­gi­cas, como­ven­tes, até pie­gas, e pre­ci­sei de per­so­na­gens um pouco mais pró­xi­mos do real para pare­ce­rem mais con­vin­cen­tes ao lei­tor”, explica Spacca, em entre­vista a Revista O Grito!.

Entre pro­du­ção, pes­quisa e fina­li­za­ção, foi um ano e meio de tra­ba­lho árduo. Só de pes­quisa foram seis meses para retra­tar com fide­li­dade as pai­sa­gens, bus­ca­das em fotos e livros e uma visita de cinco dias à Bahia. Entre as fon­tes, o livro Retrato da Bahia, do fotó­grafo Pierre Verger, com fotos de 1946 que segundo o autor cap­tam o espí­rito dos roman­ces. O fotó­grafo por sinal é home­na­ge­ado na segunda con­tra­capa, na cena do cor­del, onde Spacca dese­nhou um turista segu­rando uma câmera Rolleiflex.

O con­vite para o tra­ba­lho veio da Cia das Letras quando ainda estava con­cor­rendo com outras edi­to­ras do Brasil pelos direi­tos da obra de Jorge Amado. “Pediram para esco­lher uma obra para dese­nhar uma amos­tra de capa de HQ. Fiquei feliz em saber que a Cia ganhou, mesmo sem ter feito a pro­posta mais alta. Eles esco­lhe­ram pelos pro­je­tos apre­sen­ta­dos”, conta. A esco­lha por Jubiabá foi con­junta entre edi­tora e dese­nhista. A edi­tora pediu para o artista esco­lher qual­quer uma momen­ta­ne­a­mente para apro­va­ção e Scappa esco­lheu esta. Gostou e resol­veu ficar com ela. “Foi esco­lha nossa, minha com o aval deles”, diz.

Apesar de ter sido um con­vite, o ilus­tra­dor deixa claro que foi um tra­ba­lho árduo mas pra­ze­roso. Para pas­sar mais de um ano enca­rando Jorge Amado dia­ri­a­mente, precisa-se nutrir um cari­nho espe­cial. “Gosto da prosa dele, com des­cri­ções sedu­to­ras e sabo­ro­sas como “o mis­té­rio escorre das ruas da cidade da Bahia feito azeite de dendê…”, cita o desenhista.

Spacca mostra-se pre­o­cu­pado com o des­tino do seu livro. Para mui­tos crí­ti­cos e espe­ci­a­lis­tas em lite­ra­tura, adap­ta­ções de clás­si­cos para qua­dri­nhos não devem ser pro­pa­ga­das como subs­ti­tu­tas das obras ori­gi­nais. Para o autor, a obra deve ser­vir de intro­du­ção e não de única fonte. Ele ainda declara que o qua­dri­nho seria um cha­ma­riz e uma intro­du­ção ao uni­verso de Jorge Amado, não só pelos jovens mas por qual­quer pes­soa que, por algum motivo, não leu ou não gosta mesmo sem conhe­cer. “É impor­tante mos­trar que uma adap­ta­ção em HQ não seja vista como a obra em si, mas sim como a inter­pre­ta­ção de um artista a par­tir daquela obra”, comenta o artista.

Ilustração Spacca

// Perfil
DESENHANDO ATÉ CRESCER

A arte che­gou cedo nas mãos de João Spacca de Oliveira, seu nome de batismo. Graduado em Comunicação Visual pela FAAP de São Paulo, cres­ceu lendo muito qua­dri­nhos da Disney e Turma da Mônica. Aos 15 anos foi con­tra­tado como “man­cha­dor” (layout­man) pela agên­cia de publi­ci­dade Young & Rubicam e sua car­reira foi evo­luindo até ser um dos nomes mais cita­dos em qua­dri­nhos no Brasil.

Spacca tem boas his­tó­rias para con­tar. O sonho de mui­tos dese­nhis­tas naci­o­nais foi rea­li­zado por ele em 1985, quando foi ani­ma­dor da Disney World por um ano na pro­du­tora Briquet Filmes, em ani­ma­ção comer­cial. Teve expe­ri­ên­cia em ilus­tra­ção e char­ges na Folha de São Paulo e mon­tou empresa, mas sem­pre deu pri­o­ri­dade aos qua­dri­nhos e par­tiu para os tra­ba­lhos autorais.

O cur­rí­culo do dese­nhista é vasto. De 1987 a 1995 publi­cou um qua­dri­nho na revista Níquel Náusea com his­tó­rias cur­tas de 5 a 12 pági­nas. Fez story­bo­ards para fil­mes publi­ci­tá­rios no começo da car­reira. Para a Companhia das Letrinhas, ilus­trou O Mário que não era de Andrade, de Luciana Sandroni, O jogo da par­lenda, de Heloísa Prieto, A reu­nião dos pla­ne­tas, de Marcelo Oliveira e Vice-versa ao con­trá­rio, de vários autores.

Com livros tra­ba­lha há cinco anos. Escreveu e ilus­trou as graphic-novels Santô e Os Pais da Aviação e Debret Em Viagem Histórica e Quadrinhesca ao Brasil e D. João Carioca — A corte por­tu­guesa chega ao Brasil (1808 — 1821)’. Entre os prê­mios está o pri­meiro lugar em charge no do Salão de Humor de Piracicaba em 2005. Venceu o tro­féu HQMIX 2006 nas cate­go­rias Desenhista Nacional, Edição Especial Nacional e Roteirista Nacional com animação.

No meio das expe­ri­ên­cias extra-papel, uma boa his­tó­ria: foi cover musi­cal de Cazuza. Largou o tra­ba­lho na Folha de S. Paulo para can­tar com uma banda imi­tando o Cazuza e outros artis­tas. Fez sucesso entre ami­gos, fami­li­a­res e até os pais e ami­gos do Cazuza gos­ta­ram, porém um desas­tre finan­ceiro. Mas a expe­ri­ên­cia não foi em vão, segundo Spacca. “Hoje eu digo que foi um exer­cí­cio de cari­ca­tura e bio­gra­fia. O show tinha um roteiro com Cazuza nas várias fases, seqüên­cia cro­no­ló­gica e teve boa pes­quisa. De certa maneira ante­ci­pou meus tra­ba­lhos atu­ais com bio­gra­fias como Santos-Dumont, Debret, D.João e até a vida de Antonio Balduino”, conta.

Ainda vai se ouvir muito de João Spacca este ano, pois o dese­nhista mal cur­tiu as gló­rias de Jubiabá e já está dese­nhando a adap­ta­ção de As Barbas do Imperador, em par­ce­ria com a escri­tora Lília M. Schwarcz, sobre o rei­nado de D. Pedro II. O lan­ça­mento está pre­visto para 2010. Sobre pla­nos e metas, cita ape­nas uma: dese­nhar. “Meu pro­jeto é o mesmo desde 2005: fazer HQ em pri­meiro lugar. Vamos ver no que isso vai dar”, declara Scappa.

SAIBA MAIS:

Site: www.spacca.com.br
Blog: blogdospacca.blogspot.com/ | jubiaba.blogspot.com/

Mais qua­dri­nhos nas pra­te­lei­ras
Editoras inves­tem em adap­ta­ções de clás­si­cos para HQ

De olho em um segui­mento avesso à crise e aumen­tando cada vez mais o número de ven­das, a edi­tora Cia. das Letras lan­çou em dezem­bro do ano pas­sado um selo pró­prio para as publi­ca­ções em HQ, o Quadrinhos na Cia. A expe­ri­ên­cia de bons resul­ta­dos foi com­pro­vada com o pró­prio Spacca, com Santô e os Pais da Aviação con­ta­bi­li­zando 30.000 exem­pla­res ven­di­dos. Vale lem­brar que a obra é um regis­tro his­tó­rico de vida e obra de Santos Dummont, con­si­de­rado um pai da avi­a­ção e um tema não tão tra­gá­vel para ven­das, sur­pre­en­dendo a editora.

As razões para expan­são e inves­ti­mento em tal fatia de mer­cado são diver­sas, mas pode­mos enu­mera algu­mas como o retorno de lei­to­res de gibis do pas­sado, res­sus­ci­tando uma fan­ta­sia de infân­cia. A explo­são das graphic novels norte-americanas (roman­ces grá­fi­cos, termo de Will Eisner, mes­tre da área) tam­bém não deve ser des­car­tada e, claro, os lide­res de ven­das nas ban­cas, os man­gás, gibis japoneses

Juntando o sucesso de ven­das do gênero e ten­tando popu­la­ri­zar obras clás­si­cas, mui­tas edi­to­ras par­ti­ram para inves­tir em qua­dri­nhos. As pra­te­lei­ras já pos­suem uma gama de ofer­tas como A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, da Panda Books e O Cortiço, adap­tado por Ivan Jaf e Rodrigo Rosa, além da pre­mi­ada adap­ta­ção O Alienista, de Fábio Moon e Gabriel Bá.

Existe uma crí­tica de que há um inte­resse per­verso das edi­to­ras em ven­das gra­ças há ado­ção de algu­mas esco­las no gênero como lei­tura obri­ga­tó­ria. Algumas lis­tas de reco­men­da­ção do governo já tra­zem as adap­ta­ções para as esco­las, mesmo sem ler. A prin­ci­pal é a do PNBE, Programa Nacional Biblioteca da Escola, do Governo Federal. O edi­tal de con­cor­rên­cia dá espe­cial aten­ção às adap­ta­ções. No mais, mui­tos sal­dos posi­ti­vos: obras bra­si­lei­ras che­gando mais fácil nas mãos de cri­an­ças e des­mis­ti­fi­cando lei­tu­ras con­si­de­ra­das com­pli­ca­das e mais tra­ba­lho para qua­dri­nis­tas bra­si­lei­ros. A Cia das Letras colo­cou obras impor­tan­tes nas HQ’s este mês, como Retalhos, de Graig Thompson e Nova York, de Will Eisner. Para este ano, ainda são aguar­da­das nomes como Chris Ware e mais Eisner.

Related Posts with Thumbnails

leia mais:

comentários (0)