(Foto: Leo Caldas/ Divulgação)

PERNAMBUCANO GLOBAL
Tido como van­guar­dista e pio­neiro nas artes mul­ti­mí­dias, Paulo Bruscky ganha novos holo­fo­tes sobre sua pro­du­ção
Por Raíza Cavalcanti

Paulo Bruscky é, hoje, pre­sença cons­tante nas seções de cul­tura dos jor­nais de Pernambuco e, tam­bém, do Brasil. Este reco­nhe­ci­mento de sua tra­je­tó­ria artís­tica veio tar­di­a­mente, quase três déca­das após o iní­cio da mesma — na década de 1960, quando o artista ini­ciou a pro­du­ção de tra­ba­lhos que vão além da pin­tura e escul­tura. Mas o conhe­ci­mento sobre esta vasta obra, vol­tada para o expe­ri­men­ta­lismo radi­cal, a sub­ver­são das lin­gua­gens e o cons­tante ques­ti­o­na­mento (seja artís­tico, como tam­bém polí­tico), ainda não havia dis­per­sado sufi­ci­en­te­mente. Isto até a rea­li­za­ção da 10ª Edição da Bienal de Havana, um dos mais impor­tan­tes even­tos artís­ti­cos do mundo, que home­na­geou o artista com uma sala espe­cial para abri­gar os frag­men­tos des­tes qua­renta anos de arte de Bruscky.

O con­vite veio de Íbis Hernandez, mem­bro do comitê cura­to­rial desta edi­ção da Bienal. Ela conhe­ceu o artista quando esteve no Brasil em 2008, para rea­li­zar pales­tras sobre a arte de Cuba. Ao conhe­cer a obra do artista, perguntou-se: “como é pos­sí­vel que a América Latina não conheça esse artista?”. Meses depois, veio o con­vite: o artista mul­ti­meios, pio­neiro da arte con­tem­po­râ­nea de Pernambuco, seria um dos gran­des home­na­ge­a­dos do evento e con­ta­ria com uma sala espe­cial para apre­sen­tar os seus 40 anos de trajetória.

A Bienal de Havana pro­vo­cou ques­ti­o­na­men­tos desde o seu tema: Integração e Resistência na Era Global. A pró­pria exis­tên­cia de um evento artís­tico inter­na­ci­o­nal em um lugar que, por durante anos, amar­gou boi­co­tes comer­ci­ais e polí­ti­cos impin­gi­dos pelos Estados Unidos, rom­peu rela­ções diplo­má­ti­cas com outros tan­tos, já é, em si, um grande enfren­ta­mento, uma enorme ati­tude polí­tica. Dentro dessa pro­posta, Paulo Bruscky encaixa-se per­fei­ta­mente, como  artista crí­tico que é. A cura­do­ria da sala espe­cial, rea­li­zada por Cristiana Tejo, teve o polí­tico como foco prin­ci­pal e par­tiu das obras Poemas Para Voar – Arte em Trânsito Em Todos Os Sentidos para defi­nir a sele­ção dos tra­ba­lhos. Segundo Cristiana Tejo, houve a ten­ta­tiva de abor­dar todos os aspec­tos da arte de Bruscky, de forma a tor­nar esta cole­tâ­nea a mais repre­sen­ta­tiva pos­sí­vel da vasta obra per­me­ada por uma enorme vari­e­dade de lin­gua­gens e supor­tes, pelo uso da iro­nia como estra­té­gia de sub­ver­são e pela sub­mis­são da ima­gem à poesia.

Participaram da mos­tra cerca de 50 poe­mas visu­ais – que pre­en­che­ram toda a parede cen­tral da sala em for­mato de “U”, for­mando um grande poema -, regis­tros de per­for­mance, arte-correio, livros de artista – inclu­sive um de 2009, con­cluído espe­ci­al­mente para par­ti­ci­par da Bienal-, xero­gra­fias, fax arte, Fotolinguagem e inter­ven­ções urba­nas. Houve tam­bém um docu­men­tá­rio sobre o artista, pro­du­zido pela TV Cultura e outros vide­o­arte rea­li­za­dos por Bruscky, exi­bi­dos em dois tele­vi­so­res na parte final do espaço expo­si­tivo. Ao todo, foram cerca de 150 tra­ba­lhos, abran­gendo o período de 1969 a 2009, que fica­ram expos­tos durante toda a Bienal na Galeria Rubén Martínez Villena, situ­ada na Biblioteca Pública, em frente à Plaza de Armas, cen­tro de Havana – ponto de venda de livros usa­dos. O local da mos­tra não pode­ria ser mais con­ve­ni­ente, visto o cará­ter de arquivo e regis­tro que a obra de Paulo Bruscky assume.

Por durante dois meses, a sala de Bruscky foi visi­tada por gente de toda parte do mundo. Além dos cuba­nos, visi­tan­tes da Costa Rica, Guatemala, Áustria, Inglaterra, Canadá, Estados Unidos esti­ve­ram pre­sen­tes no evento que mar­cou, defi­ni­ti­va­mente, a inser­ção de Bruscky no pano­rama artís­tico inter­na­ci­o­nal. Durante o pri­meiro fim de semana, por exem­plo, a mos­tra con­tou com cerca de mil visi­tan­tes  e, dia­ri­a­mente, a orga­ni­za­ção do evento con­ta­bi­li­zava cerca de 400 visi­tas à expo­si­ção de Bruscky. O pró­prio artista con­ta­bi­li­zou mais de duas mil men­ções no goo­gle à sua par­ti­ci­pa­ção na Bienal em menos de um mês. Além da boa recep­ti­vi­dade do público, a crí­tica tam­bém manifestou-se favo­ra­vel­mente e ele­geu a sala de Bruscky entre as três melho­res de toda a Bienal, junto com as de Luis Camnitzer e Léon Ferrari.


Exposição de Paulo Bruscky (Foto: Leo Caldas/ Divulgação)

Embalado pelos bons resul­ta­dos, Bruscky somou con­vi­tes. A Tate Modern Gallery o cha­mou para par­ti­ci­par de pales­tra sobre os pre­cur­so­res da arte cor­reio; o crí­tico espa­nhol Francisco Jarauta tam­bém expres­sou seu desejo de levar o artista para expor no Museu Reina Sofia, em Madri (com co-curadoria de Adolfo Montejo Navas); a Fundação Daros – orga­ni­za­ção não gover­na­men­tal suíça vol­tada para a arte con­tem­po­râ­nea — tam­bém rea­li­zou con­ta­tos com o artista.

Após qua­renta anos, o per­so­na­gem prin­ci­pal no fomento ao expe­ri­men­ta­lismo no Recife, tem sua obra apre­sen­tada e reco­nhe­cida para além das fron­tei­ras locais. O artista que, desde sua par­ti­ci­pa­ção no grupo Fluxus, é glo­bal, ainda pre­ci­sava ser visto e conhe­cido pelos vizi­nhos latino-americanos. Sua obra sem fron­tei­ras de lin­gua­gem, de téc­nica e inven­ti­vi­dade, é feita para cir­cu­lar mun­di­al­mente. A capa­ci­dade crítica-inventiva-subversiva que seus tra­ba­lhos abri­gam tornam-os pas­sí­veis de serem lidos, vis­tos e refle­ti­dos inde­fi­ni­da­mente – qual­quer  seja o lugar por onde ela passe.

Um pouco mais de Bruscky
Filho de Eufemius Bruscky — fotó­grafo russo que veio ao Recife junto com um grupo de circo — e da per­nam­bu­cana Graziela Barbosa — pri­meira mulher a ser eleita vere­a­dora no Estado — Paulo Bruscky ini­ciou, em 1963, sua for­ma­ção artís­tica atra­vés do dese­nho, como a mai­o­ria dos artis­tas. Aos 20 anos ganhou o pri­meiro prê­mio no XXVII Salão do Museu do Estado de Pernambuco e, com o domí­nio da téc­nica, par­tiu para o expe­ri­men­ta­lismo em novos supor­tes e linguagens.

Nos anos 1970, Paulo Bruscky ini­ciou uma série de pes­qui­sas que cul­mi­na­ram em uma grande pro­du­ção artís­tica que uti­liza vídeo, xerox, fax, out­door e foto­gra­fia como lin­gua­gens, tendo ele tam­bém se tor­nado o dono da maior cole­ção pes­soal de docu­men­tos e obras, cujo acervo, só sobre artis­tas per­nam­bu­ca­nos, ultra­passa os 31 mil arqui­vos. O artista, que até mea­dos da década de 80 era exe­crado pela crí­tica e por outros artis­tas locais, é hoje revi­si­tado e pes­qui­sado por artis­tas, cura­do­res e crí­ti­cos do mundo inteiro.

Bruscky foi o pri­meiro a tra­ba­lhar com fax-arte, xerox, filme super-8 e, em 1980, inven­tou os “xero­fil­mes”, que são fil­mes fei­tos a par­tir de ima­gens xero­grá­fi­cas, abrindo um novo campo para o dese­nho ani­mado e o cinema expe­ri­men­tal. De todas as ino­va­ções que imple­men­tou, a de maior rele­vân­cia, que con­tou até com patro­cí­nio da Prefeitura do Recife, foi em 1981, quando, junto com Daniel Santiago, orga­ni­zou no Recife a pri­meira (e única no país até então) Exposição Internacional de Arte em Outdoor/Artdoor, da qual par­ti­ci­pa­ram 190 artis­tas de 25 paí­ses. “Eu tra­ba­lho com os mate­ri­ais mais inu­si­ta­dos. Para mim, o uso de supor­tes é ili­mi­tado, depen­dendo, para isso, ape­nas da idéia e do con­ceito que pre­tendo trans­mi­tir em um dado momento ou tra­ba­lho”, diz.

Apesar da incom­pre­en­são local, que pro­vo­cava um certo iso­la­mento de Paulo Bruscky no cená­rio per­nam­bu­cano, o artista, atra­vés da arte cor­reio e dos gru­pos Fluxus e Gutai, entrou em con­tato com o mundo inteiro. “Através da arte-correio, em 1973, entrei em con­tato com o mundo inteiro. Em uma semana eu sabia o que o mundo pen­sava e o mundo sabia o que eu pen­sava atra­vés dessa rede. Nós já éramos um sis­tema de rede antes da inter­net”, afirma.

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comentários (01)

  • feliz em ver o grande mes­tre da arte pos­tal Paulo Bruscky em seu site.

    Minha revista vir­tual está de pági­nas abertas!!!

    att. luís

    luísbrusque 12.06.2010 10h51