SEGUNDO PASSEIO PELO SCI-FI NACIONAL
Devir lança novo volume de tex­tos da fic­ção cien­tí­fica feita no Brasil, indo de a

Por Fernando de Albuquerque
Editor da Revista O Grito!, em Recife

Se for­mos bem fundo nas raí­zes da cons­tru­ção fic­ci­o­nal, a ima­gi­na­ção  está longe de ser um atri­buto da razão. E se pen­sar­mos na cons­tru­ção da lite­ra­tura fan­tás­tica ou nas figu­ras que per­fa­zem a lite­ra­tura de fic­ção cien­tí­fica, as his­tó­rias são reple­tas de mun­dos fora de cogi­ta­ção que sur­pre­ende a crença e evita qual­quer tipo de rea­lismo. Os per­so­na­gens, aqui, não tem vida cor­ri­queira, são assom­bra­dos por obses­sões, delí­rios e estão sem­pre à mercê de for­ças incon­tro­lá­veis, asse­di­a­dos pelo des­co­nhe­cido e de encon­tro mar­cado com o inovador.

Na virada do último século para nossa era assis­ti­mos o cres­ci­mento do mons­tro e a pro­xi­mi­dade dos mún­dos pos­sí­veis. Como se as nar­ra­ti­vas fan­tás­ti­cas saís­sem dos livros e das telas de cinema, mate­ri­a­li­zando em nos­sos labo­ra­tó­rios o pre­co­ni­zado pela ima­gi­na­ção. Como os ratos com ore­lhas huma­nas, o com­pu­ta­dor enxa­drista Deep Blue, o cyber­man e por­que não dizer o cibe­res­paço e a rea­li­dade vir­tual. Esses seres e mun­dos híbri­dos, fru­tos das tec­no­lo­gias de infor­ma­ção e da comu­ni­ca­ção medi­ada por com­pu­ta­dor, indi­cam a perda de niti­dez nas fron­tei­ras moder­nas entre orgânico/maquínico, natural/artificial, físico/não-físico, corpo/mente, factual/ficcional pro­du­zindo eixos de pro­ble­ma­ti­za­ção entre as rela­ções huma­nas e os con­cei­tos técnicos.

O humano, no con­tem­po­râ­neo passa a ser enten­dido como um ser em con­ti­nui­dade com  os ani­mais e as máqui­nas. O cibor­gue,  figura hibri­di­zada entre o homem e a máquina, habi­tante de dois mun­dos se con­fi­gura enquanto o ponto de inter­sec­ção entre rea­li­dade e fic­ção. Justamente sobre esse entre­meio que trata Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, edi­ta­dos, reu­ni­dos e comen­ta­dos por Roberto de Souza Causo. Na seleta, que inclui nomes con­sa­gra­dos da lite­ra­tura bra­si­leira como Lima Barreto, Lygia Fagundes Telles, Berilo Neves, Machado de Assis, entre outros.

Na seleta estão mais de cem anos de fic­ção cien­tí­fica feita por bra­si­lei­ros. O que demons­tra a forte pre­sença do gênero na cons­tru­ção do ima­gi­ná­rio bra­si­leiro e na his­tó­ria lite­rá­ria naci­o­nal.  As his­tó­rias são vari­a­das e pos­suem uma atmos­fera que dá conta da diver­si­dade temá­tica que o pró­prio gênero pode chegar.

Apesar da diver­si­dade que marca a anto­lo­gia, o medo da guerra atô­mica e do pós-holocausto são o prin­ci­pal eixo temá­tico dos tex­tos, em sua mai­o­ria, escri­tos na década de 60, no período que foi o auge da Guerra Fria. A fic­ção cien­tí­fica espa­cial tam­bém está pre­sente, assim como his­tó­rias de con­ta­tos com ali­e­ní­ge­nas. Os dois volu­mes, lan­ça­dos com dois anos de hiato refle­tem que nossa lite­ra­tura é, antes de tudo, um mix de refe­rên­cias que pre­cisa, a todo ins­tante ser revi­si­tado para ser ampla­mente reconhecido.

Entre os mai­o­res acer­tos estão: “A Vingança de Mendelejeff” (Berilo Neves), com uma his­tó­ria sim­ples, mas com­pe­tente de um típico cien­tista louco; a exce­lente “O Homem que Hipnotizava” (André Carneiro), cri­a­tiva his­tó­ria sob os efei­tos da auto-hipnose; “Seminário dos Ratos” (Lygia Fagundes Telles), ótima metá­fora sobre a dita­dura mili­tar e suas idi­os­sin­cras­sias e “O Controlador” (Leonardo Nahoum), que nos explica as difi­cul­da­des que um semi­deus pode viver e encerra muito bem a coletânea.

OS MELHORES CONTOS BRASILEIROS DE FICÇÃO CIENTÍFICA — VOLUME 2
orga­ni­zado por
[Devir, 187 pági­nas, R$ 22]

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