SAGA E MEMÓRIA
Tendo a his­tó­ria da escra­vi­dão no Caribe como mote, conta a saga femi­nina e fami­liar no mundo de pri­va­ções de uma escrava nas Antilhas

Por Fernando de Albuquerque
Editor da Revista O Grito!

Quem assiste o estado de cala­mi­dade em que se encon­tra ali­cer­çada a soci­e­dade hai­ti­ana, não vê que está no pas­sado de hor­ror as ver­da­dei­ras cau­sas do dese­qui­lí­brio e do infor­tú­nio em que estão mer­gu­lha­dos. A ilha, divi­dida entre a colo­ni­za­ção espa­nhola e fran­cesa, viveu um dos regi­mes de segre­ga­ção racial mais bru­tais que se conhe­ceu na Terra. Os negros, tra­zi­dos em sua mai­o­ria da Guiné, na África e de regiões cir­cun­vi­zi­nhas foram sub­me­ti­dos a um sem número de tor­tu­ras que come­ça­vam nos pró­prios navios negrei­ros e cul­mi­na­vam no solo cari­be­nho de águas lím­pi­das e sol à pino. É sobre parte desse pro­cesso que fala o novo livro da escri­tora Isabel Allende. Intitulado A Ilha Sob o Mar, o título é um ver­da­deiro res­gate dos inós­pi­tos cami­nhos da escra­vi­dão. Tudo eno­ve­lado pela his­tó­ria da escrava Zarité e seu amante, Toulouse Valmorain.

O enredo começa em 1770, quando Zarité é escrava. Sua his­tó­ria passa pela escra­vi­dão nas fazen­das de cana, pelos favo­res sexu­ais aos senho­res, mas tam­bém pela pri­va­ção de ser mãe. Sua his­tó­ria tam­bém é reche­ada de rup­tu­ras, de laços fami­li­a­res com­ple­xos e sofri­dos, atra­vés dos quais fica­mos sabendo um pouco da his­tó­ria do que viria a ser o mise­rá­vel Haiti. Ficamos sabendo de onde vem tama­nha cor­rup­ção, des­caso com o poder público e o social.

» Leia tre­cho de A Ilha Sob O Mar

Quando a grande rebe­lião de escra­vos explode e dá ori­gem à repú­blica livre do Haiti, espa­lhando medo entre os senho­res de escra­vos da região, eles são obri­ga­dos a dei­xar as Antilhas, fugindo para Cuba e depois para New Orleans, numa saga res­ga­tada em pri­meira pes­soa pelas lem­bran­ças de Zarité. Isabel Allende narra a tur­bu­lên­cia emo­ci­o­nal e as difi­cul­da­des de adap­ta­ção de seus per­so­na­gens, res­ga­tando as feri­das psi­co­ló­gi­cas dei­xa­das pela escra­vi­dão e a herança de sen­su­a­li­dade dei­xada em cada uma das soci­e­da­des que têm essa marca em seu pas­sado, no então Novo Mundo.

Além da inte­res­sante nar­ra­tiva, o pano­rama his­tó­rico é mar­cante e explica parte da maneira de pen­sar de um povo e seus diri­gen­tes, além de sus­ci­tar, em pou­cas e sufi­ci­en­tes pala­vras, por que as coi­sas estão como estão.

Com habi­li­dade, Isabel Allende faz da pro­ta­go­nista ponto de par­tida para con­tar his­tó­rias de outros per­so­na­gens: o escravo guer­reiro Gambo, a quem amou; a curan­deira negra Tante Rose, que tanto impres­si­o­nava o médico Parmentier; a altiva filha de Teté, Rosette, que cres­ceu ape­gada ao tímido Maurice; a cor­tesã mulata Violette; Sancho del Solar, o pân­dego de bom cora­ção; e pró­prio Valmorain, que nunca dei­xou de pro­vo­car medo e repulsa à escrava e aqui apa­rece enquanto um homem de bom coração.

A trama tran­çada por Allende não tem um grande clí­max ou mesmo um final sur­pre­en­dente ao lei­tor, mas amarra a lei­tura e deixa a pulga atrás da ore­lha a cada página virada. As ondu­la­ções tem seu ponto alto nos pró­prios momen­tos his­tó­ri­cos. Eles são deci­si­vos na con­ti­nui­dade do romance. Assim tanto como Inés da Minha Alma, Filha da Fortuna e Retrato em Sépia, mais do que a che­gada, importa a tra­ves­sia. E como suce­deu a estes dois últi­mos livros, A Ilha sob o Mar deixa des­cen­den­tes para uma pos­sí­vel sequência.

A ILHA SOBRE O MAR
Isabel Allende
[Betrand Brasil, R$ 39,20,  476 páginas]

NOTA: 9,0

Related Posts with Thumbnails

leia mais:

comentários (02)