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	<title>Revista O Grito! &#187; Maurício Angelo</title>
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	<description>Cultura Pop Sem Contra-Indicação</description>
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		<title>Maurício Angelo: Homens Comuns</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Sep 2009 17:14:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Coluna: Maurício Angelo]]></category>

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		<description><![CDATA[
Retrato de Fiódor Dostoiévski (1872), por Vassilij Grigorovič Perov.
Homens Comuns
Por Maurício Angelo
Estes dias me deparei com o lançamento recente da editora 8Inverso: as correspondências de Dostoiévski entre 1838 e 1880. Na verdade, as cartas são unilaterais. Não há contraponto. As respostas não estão presentes. As cartas traduzidas são endereçadas principalmente ao irmão, Mikhail.
A despeito destas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2009/09/Retrato-de-Fiódor-Dostoiévski-1872-por-Vassilij-Grigorovič-Perov..jpg" alt="" /><br />
Retrato de Fiódor Dostoiévski (1872), por Vassilij Grigorovič Perov.</p>
<p><big><strong>Homens Comuns</strong></big><br />
Por Maurício Angelo</p>
<p>Estes dias me deparei com o lançamento recente da editora 8Inverso: as correspondências de Dostoiévski entre 1838 e 1880. Na verdade, as cartas são unilaterais. Não há contraponto. As respostas não estão presentes. As cartas traduzidas são endereçadas principalmente ao irmão, Mikhail.</p>
<p>A despeito destas falhas, o livro é obrigatório para os interessados pelo autor russo. Nelas, ficam expostas as entranhas de Dostoiévski. O tanto que um dos maiores gênios da literatura mundial é…um homem comum. Comum e ordinário como todos nós.</p>
<p>Oprimido pelo serviço militar, as doenças, a fome, a prisão, a carência, insegurança, o vício no jogo, a falta de dinheiro. Dostoiévski escreve por diversas vezes desesperado implorando por dinheiro ao pai e ao irmão. Lista todas as suas necessidades básicas, justifica o pedido por cada centavo que ele não tem para a mínima sobrevivência.</p>
<p>Como escritor, narra em detalhes o processo de criação das obras. Para além do perfeccionismo quase comum a todos os autores, Dostoiévski deixa claro a necessidade de fazer dinheiro com os livros. O inegável aspecto comercial. O quanto aguarda que se torne um escritor de sucesso para poder quitar as dívidas. O quanto acompanha, crítica por crítica, texto por texto, o que sai em jornais e periódicos sobre ele. Avalia os amigos. Os escritores do seu tempo: Gogol, já consagrado e Turguenev, a quem admira a princípio, tem uma série de desentendimentos e acaba se reconcicliando já no final da vida.</p>
<p>Definindo-se como vaidoso e ambicioso, Dostoiévski deixa entrever tudo que seria inimaginável a quem não conhece sua história, perceber. É óbvio que isto não invalida em absolutamente nada as obras que escreveu. Pelo contrário, as engrandece.</p>
<p>O trágico permeia o livro: além de todas as privações, o exílio na Sibéria, a prisão por conspirar contra o regime, as doenças, a epilepsia, a ordem de execução cancelada na última hora e posteriormente a crueldade do czar que manda os soldados fazerem todo o processo de execução apenas para “pregar uma peça” nos prisioneiros e anunciar a redução da pena. As mortes da esposa, da filha e do irmão no mesmo ano. O dinheiro ganho nos primeiros anos de seu reconhecimento como escritor perdido no jogo.</p>
<p>A inveja. A infinita insegurança. O quanto se preocupava com a opinião alheia. Um Dostoiévski frágil, atormentado, bestialmente comum. Humano. Tudo está em seus livros: cada trama, personagem, pensamento. Tudo é tirado literalmente da vida que teve.</p>
<p>É assustador, mesmo que óbvio, constatar estas mazelas materiais, espirituais e psicológicas, presentes em todos nós.</p>
<p>Ler as correspondências do autor russo é não só mergulhar no seu inferno pessoal como perceber a grandeza e a desgraça da vida. A eterna ânsia. A estupidez, o desejo e as necessidades primais. O quanto somos ridículos. E como os tais raros conseguem equilibrar isto com uma genialidade sem igual.</p>
<p>Fechei o livro com algumas lágrimas nos olhos e muitas feridas por cicatrizar.</p>
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		<title>Maurício Angelo: Entropia</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jun 2009 04:08:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Maurício Angelo]]></category>
		<category><![CDATA[Coluna: Maurício Angelo]]></category>

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		<description><![CDATA[
Pollock Number One 1948
Entropia
Não se reconhecia. Parecia que tinha definhado, apesar de crescer. Era difícil tirar a sujeira do olho. O lodo da alma. Estava pesado. Um leopardo num corpo de paquiderme. Comparações ruins. Analogias patéticas. Fastio. Escrevinhador barato. Muito barato. E nem pra isso servia.
Coisas inacabadas. Coito interrompido. Urro em silêncio. Não tinha vergonha. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2009/06/Pollock-Number-One-1948.jpg" alt="" /><br />
<sup>Pollock Number One 1948</sup></p>
<p><big><strong>Entropia</strong></big></p>
<p>Não se reconhecia. Parecia que tinha definhado, apesar de crescer. Era difícil tirar a sujeira do olho. O lodo da alma. Estava pesado. Um leopardo num corpo de paquiderme. Comparações ruins. Analogias patéticas. Fastio. Escrevinhador barato. Muito barato. E nem pra isso servia.</p>
<p>Coisas inacabadas. Coito interrompido. Urro em silêncio. Não tinha vergonha. Aprendera não ter. Estava domesticado. Manso. Ridículo. Cego, surdo, mudo. Gordo. Tommy jogando pinball. Sem paciência. Sapos. Rãs. Gatos. Pedras. Ínguas. Always the same shit. Nothing really changes. Everything stays the same. Erro.</p>
<p>Letargia. Involução. O mal venceu. Sem combustível. Sem rosto. O menino brilhante mergulhando na privada sem volta. A nostalgia sempre é mais encantadora que a realidade. Auto-repetição. Retrocesso. Já tinha dito tudo. Cedo. Rápido demais. Nada mais adorado e estimulado do que a estupidez virginal.</p>
<p>Era péssimo ator. A idéia da limitação não se apresentava meramente opressiva, inaceitável. Mas constituia motivo de profundo tormento e desilusão. Limitação e ansiedade. A origem de toda desgraça, todo conflito. Medo, revolta, ira, ódio, torpor. Lamentações risíveis.</p>
<p>A capacidade que alguns tinham de mergulhar tão profundamente no kitsch (e na ignorância) achando-se dotados da personalidade mais singular do mundo já não causava pena. Acabavam sendo divertidamente admiráveis.</p>
<p>Mediocridade (no sentido pejorativo). Pobreza (física e intelectual). Arrogância injustificada. Auto-comiseração, retrocesso, repetições, miserabilidade, religiosidade, regras morais, vida alheia. Esquecer o que sabia. Fazer abaixo do que era capaz. Despolitização, apegos hipócritas, teorias e práticas desnecessárias. Desperdício e ignorância. Tudo isso o aborrecia e causava repulsa, ódio e nojo mais do que tudo. A ponto de bloquear seu cérebro</p>
<p>Diziam que blefar é tarefa simples. Engano. Até para a mais vil e odiosa das ações é necessário talento.</p>
<p>Maurício Angelo, Brasília, 20 de junho de 2009.</p>
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		<title>Maurício Angelo: Só pra te ver, meu bem</title>
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		<pubDate>Mon, 11 May 2009 03:12:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Coluna: Maurício Angelo]]></category>
		<category><![CDATA[Roberto Carlos]]></category>

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Só pra te ver, meu bem
Por Maurício Angelo
Roberto Carlos é só um velhinho esquisito que canta as mesmas músicas de sempre e distribui rosas em cruzeiros cafonérrimos para senhoras e coroas ao redor do Brasil. Na média, é o que pensa a juventude de hoje sobre RC. É bem provável que a massa que entoa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2009/05/roberto-carlos-foto-divulgacao.jpg"/></p>
<p><big><b>Só pra te ver, meu bem</b></big><br />
Por <a href="http://www.revistaogrito.com/page/author/mauricio">Maurício Angelo</a></p>
<p><b>Roberto Carlos</b> é só um velhinho esquisito que canta as mesmas músicas de sempre e distribui rosas em cruzeiros cafonérrimos para senhoras e coroas ao redor do Brasil. Na média, é o que pensa a juventude de hoje sobre RC. É bem provável que a massa que entoa “além do horizonte/existe um lugar/bonito e tranquilo/pra gente se amar” nos shows do Jota Quest nem imagina quem é o autor da composição.</p>
<p>Mesmo o conturbado “Acústico MTV”, de 2001, não foi suficiente para apresentar RC à esta turma. E memória, a gente sabe, não faz parte das “virtudes” do povo brasileiro. É dessa forma estranha, menosprezado pela sua figura atual e adorado em regravações de clássicos por bandas mais jovens, digamos, que Roberto Carlos sobrevive no imaginário popular de quem está na faixa dos 20. Não há culpados.</p>
<p>Sempre olhei Roberto com admiração. Antes de qualquer coisa, o motivo é simples: Espírito Santo. O estado, não a entidade. Não costumo cair na armadilha fácil do bairrismo. Mas, para um capixaba, é difícil não valorizar um dos únicos artistas consagrados que saíram da sua terra. Pra quem gosta de números, dizem as estatísticas que RC vendeu mais de 100 milhões de discos. É o artista de maior vendagem da história na América Latina, superando inclusive os Beatles na região. Feito considerável para um menino de Cachoeiro.</p>
<p>Não sou de Cachoeiro. A cidade, uma das mais importantes do ES, fica no sul do estado. Eu nasci no norte. Na verdade, nunca cheguei sequer a visitar. Mas ela povoa a minha imaginação desde cedo. Por coincidência, outro ícone da cultura capixaba também nasceu lá: Rubem Braga.  Reconhecidamente um dos maiores da literatura brasileira em todos os tempos. O cronista, na prática, foi quem me ensinou a ler. Devorei com insaciável curiosidade quase toda a obra de Braga. Da descoberta numa biblioteca de escola pelos idos da 5 série em diante, um abraço. Impossível não se encantar.</p>
<p>Daí que você passa a compreender melhor a aura sentimental e melódica tão forte em Roberto. A aparente simplicidade de expressão que só os gênios possuem. Como quem não quer nada, querendo tudo. E ele chegou lá. É nossa estrela maior. O rei. Assim, em minúsculas. Em decadência. Mas o rei.</p>
<p>Chamá-lo de “decadente”, na verdade, é fácil demais. Parte da difícil equação em equilibrar o envelhecimento da pessoa, Roberto, com o envelhecimento da carreira artística. Acontece com frequencia. Saber a hora de parar. Ou não.</p>
<p>Claro que Robertão não é infalível. A histórica chapa branca. O catolicismo irritante e o romantismo cansado. Parte dele. Parte “contribuição” do TOC. A influência, positiva e negativa, na música brasileira.Deslizes perdoáveis. Quem tem 50 anos de carreira pode fazer o que bem entender da sua vida. Nem precisaria de tanto. A nós, mortais, resta agradecer. Ninguém é obrigado a gostar de RC. Como de nada, aliás. Mas descartar a sua discografia de antemão é atestado de estupidez.</p>
<p>Fica a referência: Roberto e Rubem. Bela sugestão para qualquer dia. Dois nomes que parecem destoar do pedantismo da maioria dos nossos “artistas”, congêneres, simulacros e aspirantes. Um versinho e nada mais:</p>
<div align="center">&#8220;<i>Talvez tenha acabado o verão. Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol é muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão</i>.&#8221;<br />
RB, em &#8220;O Verão e As Mulheres&#8221;</div>
<div align="right"><i>Brasília, 09 de maio de 2009.</i></div>
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		<title>Maurício Angelo: Má notícia: não existe fórmula</title>
		<link>http://www.revistaogrito.com/page/2009/04/mauricio-angelo-ma-noticia-nao-existe-formula/</link>
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		<pubDate>Tue, 28 Apr 2009 03:07:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Maurício Angelo]]></category>
		<category><![CDATA[Coluna: Maurício Angelo]]></category>

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		<description><![CDATA[
Má  notícia: não existe fórmula
Por Maurício Angelo
As pessoas passam boa  parte da vida procurando uma fórmula. Pra tudo. Pra emagrecer, para  ganhar dinheiro, para ser feliz, para conseguir um parceiro, etc. Todo  este frisson por um motivo principal: preguiça. Acomodação. Buscam  o que é &#8220;fácil&#8221;. O mais rápido.
Má notícia: não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2009/04/title_studentforms.jpg" alt="Title Student From (Foto: Divulgação)" /></p>
<p><big><strong>Má  notícia: não existe fórmula</strong></big><br />
Por <a href="http://www.revistaogrito.com/page/author/mauricio">Maurício Angelo</a></p>
<p>As pessoas passam boa  parte da vida procurando uma fórmula. Pra tudo. Pra emagrecer, para  ganhar dinheiro, para ser feliz, para conseguir um parceiro, etc. Todo  este frisson por um motivo principal: preguiça. Acomodação. Buscam  o que é &#8220;fácil&#8221;. O mais rápido.</p>
<p>Má notícia: não  existe fórmula para nada na vida. E o mais provável é que você terá  alguns momentos bons e muitas fases péssimas. Vai comer muito pão  velho e duro antes de chegar no croissant quentinho. A não ser que  você tenha nascido rico. Mas isto não vem ao caso. É extremo. Como  se sabe, o valor de qualquer análise é na média. Os extremos desequilibram.  Enganam. Confundem. Não servem. Não são amostragens necessárias.  Ao mesmo tempo que, em alguns casos, produzem as características mais  interessantes.<br />
Em suma, não existe  nenhuma receita que, seguida, dá resultado. Até na cozinha. Você  pode seguir certa receita e dar certo. Mas, confie em mim. Fica muito  melhor se você arriscar e experimentar por conta própria.</p>
<p>Qualquer dieta mirabolante  funciona. É óbvio. Mas o infeliz não vai conseguir mantê-la pelo  resto da vida. Ou seja. O único caminho razoável é alimentação  balanceada e exercícios físicos. Pra sempre.</p>
<p>Pra ter sucesso nos  negócios não adianta ler dezenas de livros enganosos, que prometem  o céu e um pouco mais. Não tá fácil pra ninguém, amigo. E nunca  esteve.</p>
<p>No amor, sem comentários.  Há &#8220;n&#8221; toques comuns a todos e situações parecidas que, compreendidas,  podem evitar transtornos e facilitar o caminho? Sim. Mas esta é só  uma parte da história.</p>
<p>Com esse papo de que  &#8220;não existe fórmula&#8221; eu não quero dizer o mundo é anárquico  e imprevisível. Pelo contrário. O universo é de uma previsibilidade  assustadora. Nós somos tão criativos quanto entediantes. E até acho  que a maioria das reações e pensamentos são ridicularmente antecipáveis.  Teoria comprovada.</p>
<p>Pode soar arrogante.  Mas, sempre que escrevo um texto, é inevitável pensar quais os argumentos  &#8211; geralmente imbecis &#8211; mais prováveis que as pessoas podem falar  contra. E olha que, fazendo as contas pelos dados dos meus sites e tendo  só uma leve noção do que já escrevi e não tenho como contabilizar,  dá mais de 1.000 textos. Apenas nestes últimos 8 anos de escrita profissional,  digamos. Antes disso não vale. Tenho lá alguma experiência. E um  pouquinho de propriedade pra falar.</p>
<p>A busca pela receita  é, ao mesmo tempo, a covardia. A negação em ter a ousadia de viver.  &#8220;Ser é ousar ser&#8221;. Isto é Hermann Hesse. Um escritor em que o  adjetivo &#8220;genial&#8221; não soa exagerado. Hesse foi um companheiro.  Foi e é. Não li tudo dele. Mas boa parte. Significa tanto pra mim  que a simples lembrança da passagem completa citada acima serve perfeitamente  para encerrar este texto.</p>
<p align="justify">Hesse é como Rubem  Braga. Lê-los e não se emocionar (e tornar-se um ser humano melhor)  é no mínimo preocupante. Faça a experiência. Não estou querendo  subestimá-lo, mas aposto que você não está fazendo nada mais importante.</p>
<p align="justify">Porque&#8230;como ensinou  o mestre alemão, um dos meus pais (e esta é a melhor &#8220;fórmula&#8221;que  eu posso te dar):</p>
<p align="justify"><em>&#8220;Quem quiser  nascer tem que destruir um mundo; destruir no sentido de romper com  o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente  cômodo e seguro da infância para a conseqüente dolorosa busca da  própria razão do existir: ser é  ousar ser.&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;">Brasília, 24 de abril  de 2009.</p>
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		<title>Maurício Angelo: Das paixões</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Mar 2009 03:02:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Coluna: Maurício Angelo]]></category>

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		<description><![CDATA[
Das paixões
Não faço nada pelo  qual eu não seja apaixonado. É isso. Não abro mão da paixão. Se  ela não existir, não me interessa. O nobre leitor pode estar imaginando  que este escriba é um abençoado que goza do privilégio de apenas  fazer aquilo que lhe apetece. Longe de mim. Ainda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2009/03/audience_applause.jpg"/></p>
<p><strong>Das paixões</strong></p>
<p>Não faço nada pelo  qual eu não seja apaixonado. É isso. Não abro mão da paixão. Se  ela não existir, não me interessa. O nobre leitor pode estar imaginando  que este escriba é um abençoado que goza do privilégio de apenas  fazer aquilo que lhe apetece. Longe de mim. Ainda não cheguei a tanto.</p>
<p>Contudo, fazer algo  que você na realidade não gosta não significa ir contra o principio  da paixão. Muitas vezes, e já escrevi isto em peças anteriores, você  faz algo desagradável apenas para financiar, ou ter a possibilidade,  de alimentar e exercer sua paixão. Ou seja, no fim, tudo acontece e  é pensado de acordo com ela.</p>
<p>Se assim não for,  não  vale a pena. Porque você deveria passar a sua vida inteira  fazendo coisas das quais não gosta e não lhe propiciam nenhum benefício?  Aquele papo de que a vida é curta, aproveite o máximo, bla bla bla,  é batido e clichê, mas verdadeiro. Aliás, clichês e ditados populares  dizem mais sobre nós mesmos do que gostamos de admitir. Ou são convenções  testadas e comprovadas ou tratam-se de puro conhecimento milenar traduzido  em frases simples, de efeito.</p>
<p>Não é engraçado  como temos vergonha do que é popular? Como renegamos o que é básico,  humilde e muitas vezes tão dentro da nossa realidade. Não há nenhum  problema em gostar, também, do que é &#8220;de massa&#8221;.</p>
<p>Felizmente, sempre  tive minhas paixões muito bem definidas. Nunca passei pelo dilema de  não saber o que &#8220;queria ser&#8221;, que profissão seguir, o que travar  contato na minha vida. Claro que, como toda criança, você se forma.  Mas desde cedo foi muito evidente o que era atrativo pra mim, o que  dava gosto, graça, tesão, interesse, prazer, descoberta&#8230;</p>
<p>Há muito pouco glamour  no jornalismo. Quase que inteiramente para quem vê de fora. Ainda hoje,  não sei se é disso que vou viver pelos próximos anos. Se não estou  satisfeito, pulo fora. Pode ser menos complicado do que parece. E isso  nao significa que vou deixar de escrever, entrevistar,  tecer minhas  observações, análises, devaneios.</p>
<p>Nada me impede disto.  Não é minha formação acadêmica, um pedaço de papel, que define  a minha vida, minhas atividades e minhas paixões. Ele pode ser importante  para, também, conquistar &#8220;respeito&#8221;. Mas o respeito e reconhecimento  só vem mesmo através daquilo que você é, o que você faz, não de  um título que muitas pessoas podem ter.</p>
<p>Vê-se que sou um romântico.  Descendência italiana. Câncer com lua em gêmeos e ascendente em leão.  Difícil não ser: sensível, intenso e inflamável.</p>
<p>O presuposto básico  da vida é conhecer a si mesmo (Templo de Apolo, hum?). Há milhares  de anos que a frase é notória. Mas, como disse David Foster Wallace, <em> &#8220;a </em>realidade<em> mais </em>óbvia<em>, </em> ubíqua e vital<em> costuma ser a mais difícil de ser reconhecida&#8221;. </em></p>
<p>Pensamento que resume  grande parte das dificuldades e angústias da vida. O que está mais  próximo a nós, o que nos é mais íntimo e presente, é o mais difícil  de enxergar. Inteligência intrapessoal (trabalhada e posta em prática  permanentemente) é a mais árdua de se obter.</p>
<p>Um pequeno exemplo  de que o &#8220;óbvio ululante&#8221; costuma ser um dos maiores mistérios  possíveis. Nesta brincadeira toda, o importante é ter paixão. E todo  o resto lhe será acrescentado.<br />
&#8211;<br />
<small><strong>Maurício Angelo</strong> é jornalista e escritor. Atualmente edita os sites <a href="http://www.revistamovinup.com/" target="_blank">Movin’ Up</a>, <a href="http://www.crimideia.com.br/" target="_blank">Crimidéia</a> e  <a href="http://www.brasilia50graus.wordpress.com" target="_blank">Brasília 50 Graus</a>.</small></p>
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		<title>Maurício Angelo: Do que realmente importa</title>
		<link>http://www.revistaogrito.com/page/2009/02/mauricio-angelo-do-que-realmente-importa/</link>
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		<pubDate>Tue, 17 Feb 2009 03:02:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Maurício Angelo, Belo Horizonte,  13.02.09, 19:17.
Ando com pouca  paciência com futilidades. E há que se ressaltar que nossa vida é  composta de 90% delas. Não apenas com o que é fútil, mas efêmero,  característica básica da modernidade. E de nós mesmos, em suma.
O &#8220;escândalo&#8221;  provocado pela &#8220;nudez&#8221; de Morrissey, em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2009/02/muri_temp_ea3ce0d5.jpg" alt="" /></p>
<p><em>Maurício Angelo, Belo Horizonte,  13.02.09, 19:17.</em></p>
<p>Ando com pouca  paciência com futilidades. E há que se ressaltar que nossa vida é  composta de 90% delas. Não apenas com o que é fútil, mas efêmero,  característica básica da modernidade. E de nós mesmos, em suma.</p>
<p>O &#8220;escândalo&#8221;  provocado pela &#8220;nudez&#8221; de Morrissey, em menor grau, e pela maconha  de Phelps, em maior, só me fez lembrar o quão estúpida, limitada,  retrógrada e imbecil nossa sociedade é. Basta dizer que se o fato  de um artista aparecer numa capa disco com um tapa sexo de vinil é  motivo para colocar sua carreira em xeque e não sei quantos absurdos  mais, há muita gente com mentalidade incrivelmente diminuta por aí.  Só posso deduzir que desconhecem profundamente a história da arte,  para ir longe, ou são idiotamente conservadores, pra ficar perto.</p>
<p>Phelps, simplesmente  o maior atleta olímpico da era moderna, não tem que se desculpar ou  ser punido por fumar maconha. Pensar que ele foi suspenso por três  meses do seu esporte é um absurdo tão grande que beira o incompreensível.  Os mais apressados podem querer dizer que o rapaz é uma figura pública,  um ídolo, símbolo de saúde e espelho para milhares de crianças,  jovens, bla bla bla. Esse tipo de comentário padrão quase higienista.   Que ele tem compromisso com patrocinadores que o pagam, etc, etc. Verdade?  Sim. Mas daí a proibi-lo de praticar a sua profissão, aquilo que é  o centro da vida dele, é demais. Não estamos falando de doping. Até  onde se sabe, ninguém fuma marijuana para ganhar vantagem em esportes  competitivos. O cara estava apenas curtindo a vida que é dele &#8211; e  só dele, portanto.</p>
<p><strong>A invasão  da vida privada</strong> &#8211; já disse aqui e repito &#8211; pelas tradições, convenções,  leis, governos, empregadores, mídia, etc, é um das maiores desgraças  que existem. Desde que não trapaceie nas piscinas, Phelps pode fazer  o que bem quiser fora dela. Claro que com os limites que todos nós  temos que seguir. E consumir maconha não é crime, até onde sei. Aliás,  esta semana surgiu uma comissão de políticos, intelectuais, cientistas  (&#8230;) latino-americanos defendendo a descriminalização da maconha,  em primeira instância, e das drogas em geral, no futuro. Por constatarem  que o enfrentamento policial e a repressão não tem funcionado em atenuar  os efeitos do problema, que é vasto e inegável. Demoraram.</p>
<p>A comissão,  pasmem para os mais conservadores, é encabeçada pelo nosso querido  FHC. Apenas lidando com as drogas como questão de saúde pública,  descriminalizando a sua venda e consumo, criando mecanismos diversos  da força para lidar com o problema é que algo tem chance de melhorar.  Não precisa ser nenhum gênio para perceber isso. Os últimos 50 anos  de combate às drogas pelas &#8220;vias tradicionais&#8221; estão aí para  provar que resultado deram.</p>
<p>Voltemos ao  efêmero. É um erro achar &#8220;que o que realmente importa&#8221; são as  grandes coisas da vida. A vida não é grande, pra começar. O mais  importante pra você pode ser um café ao fim de tarde, ter tempo para  ver um filme, a sua cerveja, seu canto, tudo de mesquinho e egoísta  que atenda as suas necessidades mais primais, instintivas. Porque o  ego é o centro de tudo. O que não quer dizer que não devemos reconhecer  a importância óbvia do convívio social, da colaboração, interação,  troca. Pois o homem só é homem se em alguma espécie de sociedade.  Uma coisa, em momento algum, exclui a outra.</p>
<p><strong>Um bom termômetro  de satisfação</strong> &#8211; lembrando que é extremamente saudável estar sempre  insatisfeito &#8211; é perceber quantas coisas você faz por dia que não  gostaria de estar fazendo. Muitas vezes, realizamos ou nos envolvemos  em tarefas desagradáveis, para criar a oportunidade de fazer o que  realmente queremos.</p>
<p>Mas quantos  de nós &#8220;sabem o que realmente querem&#8221;? O paradoxo, a dúvida, a  confusão e o efêmero é tão constituinte do ser humano como o desejo  que o impulsiona para a maioria das coisas que o atrai.</p>
<p>A única certeza  absoluta é que não podemos ter certeza de nada. Somos tão frágeis,  influenciáveis e pequenos, que qualquer pretensão de algo é no mínimo  cômica. Por fim, para ir do Uruguai à França, cito primeiro o vizinho,  que diz que a utopia serve pra isso, para caminhar. E o maldito termina:  &#8220;como foi a imaginação que criou o mundo, ela governa-o&#8221;.</p>
<p>C&#8217;est fini.<br />
——<br />
<small>[+] <strong>Maurício Angelo</strong> é jornalista e escritor. Atualmente edita os sites <a href="http://www.revistamovinup.com/" target="_blank">Movin’ Up</a> e <a href="http://www.crimideia.com.br" target="_blank">Crimidéia</a>.</small></p>
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		<title>Maurício Angelo: O fim e o princípio</title>
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		<pubDate>Wed, 31 Dec 2008 22:06:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
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 Foto: Beautiful Paper
Senhor,
A primeira grande ironia é que, mesmo quem não &#8220;acredita&#8221; ou não vive sob os preceitos do cristianismo, está sob a sua chancela do tempo. Que este 2009 traga um pouco de sabedoria para os pobres de espírito. Conhecimento não. Ele também, na verdade. Mas ele só é bem vindo se vier [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter" src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2008/12/angelo.jpg" alt="" /><br />
<sup> Foto: <a href="http://beautifulpaper.typepad.com/oh_so_beautiful_paper/2008/12/today-i-love-1.html">Beautiful Paper</a></sup></p>
<p>Senhor,</p>
<p>A primeira grande ironia é que, mesmo quem não &#8220;acredita&#8221; ou não vive sob os preceitos do cristianismo, está sob a sua chancela do tempo. Que este 2009 traga um pouco de sabedoria para os pobres de espírito. Conhecimento não. Ele também, na verdade. Mas ele só é bem vindo se vier junto da sabedoria. É difícil, eu sei. Algumas das pessoas mais inteligentes que conheço são também as mais ignorantes. Quanto falta para se tornarem &#8220;seres humanos&#8221; de fato! Não peço piedade a estes. Ao contrário, faça deles o que bem merecerem.</p>
<p>O ano será miserável, tudo indica. O <em>crack </em>só vai ficar maior. Uma série de aumento de impostos já foram anunciados. Nada que abale quem sempre teve grana pra pagar. Quem não conhece o valor do dinheiro, ou jamais teve que se preocupar com ele, na maioria dos casos acaba não dando valor a si mesmo. Conversando com um amigo, estes dias, conversávamos sobre isto. Temos o velho hábito de trocar emails longos. Ardorosos. Intensos. Discordamos frontalmente de quase todos os assuntos que travamos. Mas, no fundo, nutrimos um respeito e uma admiração mútua essencial. Mais que isso, o confronto, a fissura, é que nos dá a oportunidade de ir um pouco além em nossas próprias concepções.</p>
<p>Ele acredita no indivíduo, não na massa. Na mudança de postura, na educação liberal e numa vida espiritual ativa (independente de qual &#8220;linha&#8221; seja). No auto-conhecimento e a elevação da consciência. Eu também. Em parte, da maneira totalmente diversa. Isso tudo é apenas para ilustrar o quanto eu acho cômico quando duas pessoas simplesmente são incapazes de conviver ou conversar sem cair em agressões gratuitas, estupidez e animosidade. Conheci pouquíssimos debatedores de respeito ao longo da minha vida. Pouquíssimos. Eu mesmo já fui contaminado muitas vezes por essa baixeza de caráter tão ridícula e asquerosa. Tento evitar.</p>
<p>Provavelmente, 95% das pessoas que estão lendo isto aqui não estão interessadas neste tipo de papo. Não o subestimo, leitor. Apesar do meu vício em sempre subestimar alguém de antemão. O que no fundo é positivo. A chance dela me surpreender agradavelmente é consideravelmente alta. A verdade (ohh) é que pra maioria dos mortais ser inteligente é um pecado. É careta, chato, etc e tal. E outra parte que acaba caindo demasiadamente no &#8220;academicismo&#8221; se acha tão superior que acaba por se tornar mais burra e insuportável que a maioria. Parecem esquecer o quão nojentos são. Basta lembrar do CDF da escola. Para o adolescente, o CDF é o estereótipo do que NÃO se deve ser. É o cara estudioso, &#8220;certinho&#8221;, que tira notas boas e é ligado em certas coisas que a maioria despreza ou tem vergonha de admitir. Não dá pra esperar nada da educação num país em que a inteligência é motivo de vexame.</p>
<p>A principal resolução para 2009 deveria ser acabar com o maniqueísmo. Só assim dá pra viver num ambiente minimamente razoável. Sem a destruição por completo do maniqueísmo, as pessoas, as conversas, os assuntos, o comportamento, a mídia, as artes, etc, etc, etc, se tornam totalmente insuportáveis. E estéreis. Natimortas. São desinteressantes de berço. Será tão difícil pro homem aprender que o mundo não se baseia SEMPRE em conceitos extremos e opostos? Desconfie profundamente de qualquer tom radical, extremo e maniqueísta. É um sinal inequívoco de ignorância (um pouquinho além daquela a que estamos todos inapelavelmente condenados).</p>
<p>O título deste texto foi chupado diretamente do documentário de mesmo nome de Eduardo Coutinho. Procure saber. Na vida miserável daquelas pessoas do interior da Paraíba há mais saber e genialidade do que em boa parte do resto que tenho contato.</p>
<p>Nada indica que 2009 vá ser melhor. Importa somente que você tenha novas experiências e saiba aproveitá-las. Porque nada adianta encontrar-se com o novo e não extrair absolutamente nada daquilo. Um mal comum. O meu grande amigo Huxley disse uma vez que &#8220;experiência não é aquilo que acontece com o homem, mas o que o homem faz com aquilo que lhe acontece&#8221;. Tem gente que passa a vida inteira e não &#8220;melhora&#8221; e &#8220;aprende&#8221; absolutamente nada.</p>
<p>Novos sabores, lugares, pessoas, desafios&#8230; experimentar algo desconhecido. Sem o que não conhecemos o mundo não teria graça alguma. Fiz tanta coisa que nunca havia feito em 2008 que é impossível tentar enumerar. Meu único objetivo em 2009 é, naturalmente, ir aumentando esta lista. Não precisa ser nenhum gênio para perceber que a rotina e a acomodação (mental, espiritual, física, intelectual, financeira, humana, artística&#8230;) acaba com qualquer um.</p>
<p>Tudo que nos toca e define está no campo das emoções. Na mente, no sensível, no imaterial. Tudo surge a partir daí. Num mundo onde 2,6 bilhões de pessoas não tem onde fazer suas necessidades, é até&#8230;isso não é conversa de Unicef. É realidade. Meu inimigo, se é que posso chamar assim, é quem sempre teve  tudo na mão. Na verdade tenho pena. Profunda pena destes. Provavelmente JAMAIS chegarão a algo que dê para chamar de ser humano.</p>
<p>Esta colcha de retalhos que eu chamo de texto e não tem forma definida (se crônica, se artigo, se divagações&#8230;) é a minha despedida de 2008 (que foi absurdamente ótimo, obrigado) e o meu olá a &#8220;2009&#8243;. A coluna vai entrar em férias. Não por muuuuito tempo. Estarei perto da natureza e de quem amo. NADA é mais importante que isto. Vou lá me reencontrar com o oceano e ver o que, em sua infinita história e conhecimento, ele tem o que me transmitir. Concreto cansa. Toda pessoa saudável deve se cansar.</p>
<p>E eu espero que você esteja fazendo algo muito melhor do que sentar a bunda na frente do computador o dia inteiro. Vá tomar um pouco de ar, por favor. Cuide-se. A gente se vê por aí.</p>
<p>——<br />
<small>[+] <strong>Maurício Angelo</strong> é jornalista e escritor. Atualmente edita os sites <a href="http://www.revistamovinup.com/" target="_blank">Movin’ Up</a> e <a href="http://www.crimideia.com.br" target="_blank">Crimidéia</a>.</small></p>
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		<title>Maurício Angelo: Sede &#8211; Part II</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Nov 2008 01:50:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
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Havia dias em que estava particularmente sensível. Parecia constituído por pequenas ilhotas de sentimentos, prestes a eclodir. Uma passagem, uma lembrança, uma música. Brincava com dados, flores e tecidos. Ornamentava o espaço para ele mesmo atuar. Travava diálogos homéricos, discussões acaloradas sobre um tema qualquer. Não sabia o que se passava lá fora, contudo. “Lá [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2008/11/coluna-mauricio-sede-ii.jpg" alt="" /></p>
<p>Havia dias em que estava particularmente sensível. Parecia constituído por pequenas ilhotas de sentimentos, prestes a eclodir. Uma passagem, uma lembrança, uma música. Brincava com dados, flores e tecidos. Ornamentava o espaço para ele mesmo atuar. Travava diálogos homéricos, discussões acaloradas sobre um tema qualquer. Não sabia o que se passava lá fora, contudo. “Lá fora”, para ele, não existia. Ao menos era no que preferia acreditar.</p>
<p>Era um pianista magistral. Capaz de executar as mais intrincadas peças de Chopin. Compunha apenas quando sua consciência musical o tomava de assalto. Apenas assim. Gostava de tudo que era fresco. Frutas da estação constavam sempre em sua lista de pedidos. Nêspera, pêssego e uva, os prediletos. Saboreava com adorável ímpeto a polpa carnuda, suculenta. Não deixava escapar uma gota de líquido sequer. Sorvia com gula o que lhe vinha à boca.</p>
<p>Manifesto, em seu ser, a vivacidade juvenil, embora num corpo decrépito de 80 anos. Achou, então, um texto que escrevera nos idos de sua mocidade:</p>
<p>“<em>Pois o mal do século não é senão outra coisa que a covardia. A inércia, a fidelidade canina à estupidez plácida. Não por opção, claro. Mas sempre o dedo pútrido do establishment, com seus infinitos paradoxos e estratagemas que se chocam e geram sempre o nada. A síntese de nosso tempo é a esterilidade. Anuncia-se, como se fosse grande coisa, a morte de Deus, de Marx, da arte, do amor, dos pensamentos políticos de esquerda, de qualquer possibilidade viável. O asco à mudança é tão grande, que optamos por permanecer onde estamos, como estamos, ainda que isso simbolize a desgraça indiscutível. Mesmo que identifiquem a derrocada inevitável de suas corporações, trilham o caminho mais fácil, mais cômodo, esperando extrair o último suspiro da pujança do lucro. Nós, com efeito, na posição de rebanho, repetimos subliminarmente o mantra de que “o mercado é nosso pastor e tudo nos faltará</em>”. Antes fosse possível resumir em observações tão elementares a magnitude da esterilidade vigente. A covardia, o pudor, o medo, a vergonha, o egoísmo, a hipocrisia, o cinismo e o apego ao conforto parecem, eles sim, fundir-se como a quintessência da constituição humana.</p>
<p>A capacidade que desenvolvemos de manter o status quo forte e sadio, mesmo sob as mais duras crises, renovações, desintegrações e incertezas soa além de qualquer justificativa crível. Somos seus soldados. Os estóicos e empedernidos “consumidadãos”. Estupidificados a ponto de sermos incapazes de nos chocar. De sentir. Quando muito, manifestamos pena ou compaixão. Falsas, obviamente. Os parcos momentos de revolta, daqueles que ainda conseguem compartilhar deles, evaporam-se tão logo surja a primeira necessidade. Entregues à própria conta, exalamos uma dependência asquerosa e insuportável de tudo aquilo que julgamos combater. Desprovidos do véu sagrado do capitalismo, deixamos exposto o quanto nos esforçamos para autenticar o contrário do que pretensiosamente proferimos.</p>
<p>Esticados em seus colchões macios, protegidos por seus carros e casas, amparados pela jamais desprezível quantia na conta bancária, os ternos ajustados, vestidos caríssimos, refrigeradores potentes e toda a opulência de seus pequenos caprichos, tornados essenciais, os seres ditos de intelecto “mais avançado”, os pensadores, independentes e livres de nosso tempo tecem as mais elaboradas teses revolucionárias, pregam a quebra das tradições, a vanguarda artística, celebram a vida como elemento uno e potencializador em si mesmo. Para quê, no entanto? Apenas para almejarem a notoriedade em seu círculo reduzido e esquizofrênico. Ou, senão, para conquistar incautos de suas artimanhas.</p>
<p>Viver, viver, viver. Banalizaram o que temos de mais puro e inato. Sê isso, sê aquilo. Acumule. Demonstre. Prove. Com tão pouco sangue se escreve. Com tão pouca paixão se atua. O entusiasmo sucumbe ante a rotina. O espontâneo se enrijece pelas convenções. Resta apenas a entropia. E tudo que recebo é o silêncio.”</p>
<p>Após um pequeno hiato, soltou uma leve risada irônica. Continuou a passar os olhos pela prateleira, e chamou-lhe a atenção um outro envelope, já amarelado e comido pelas traças. Abriu. Era uma das poucas cartas endereçadas a mulheres que havia escrito. Começava assim.</p>
<p>“<em>Doce S., </em></p>
<p><em>Queria poder te pedir que esquecesse de tudo e viesse comigo. Para dormirmos juntos numa noite fria de inverno, ou mesmo no abafado verão. Abrigaria, com meu corpo, as tuas curvas que me tiraram a paz e a saúde. Mas não posso.</em></p>
<p><em>Seria demasiado ególatra e arbitrário da minha parte. Não posso oferecer-te mais que a volúpia e a libido. É somente o que restou. O demais foi arrancado. A pequenas punhaladas. Pontuais e cortantes. Ficou só o animal. Qualquer resquício da personalidade sensível e paternal já não existe, ou está coberta por uma espessa e irremovível cortina.</em></p>
<p><em>Vês, contudo, que não sou um canalha comum. Os invejo, na verdade. Gostaria de conseguir alcançar a canalhice mais plena e ordinária. Um desejo simples porém distante. Há que se ser sincero mesmo na desgraça. E sabe por que a “verdade” é tão poderosa? Porque não possui adversários. Porque atrai, revela e instiga. E porque não precisamos temê-la. É a melhor escolha dos preguiçosos: não exige nenhum malabarismo mental.</em></p>
<p><em>Contarei um segredo e você pode espalhá-lo se quiser. Em essência, o ser humano é ridiculamente previsível. Existem padrões de comportamento facilmente identificáveis que se repetem há milênios, e que dificilmente se alteram. No que se convencionou chamar de “amor”, mais ainda. A obviedade é gritante. Nos torna patéticos a ponto de não admitirmos nem passado nem futuro. De nos vermos sempre nos mesmos ciclos.</em></p>
<p><em>Não se trata de tentar evitar a dor, sabe-se bem. Ao contrário: é a doença, ipsis litteris. Ver humanos buscarem e desejarem a patologia é de uma estupidez admirável. Em vez do acúmulo de forças, gera-se o acúmulo de fraquezas e frivolidades. Usamos como espelho de nossas imperfeições, que não temos coragem de admitir. Se sozinhos somos abomináveis, no amor nos tornamos duplamente ridículos.</em></p>
<p><em>Não sei como essa equação se resolve, admito. Tornei-me imbecil de mais ao pensar em você. Felizmente esta sensação passou rápido. Saí da utopia asquerosa para voltar a ser um homem digno. É sempre reconfortante. Talvez seja isso: posso ter achado o sentido de tamanha ignorância. Pois a doença não serve para nos certificar do quanto estamos fortes? Não é ela o estado pelo qual temos que passar para expurgar e reconhecer os males, ficando saudáveis novamente? Ela é a nossa mea-culpa. A lama que nos chafurdamos opcionalmente porque, afinal, não somos tão diferentes dos porcos. E como se reviram felizes na lama e na lavagem! Somos nós, no fim, quando destituídos de cérebro.</em></p>
<p><em>Talvez o amor seja só uma desculpa para abdicar da razão. E na estupidez, isso não se discute, é tão mais fácil viver. Percebes o tamanho da previsibilidade? É porque somos covardes, em suma. E necessitamos de muletas para respirar: dinheiro, Deus, os outros, família, amigos, o companheiro. Na relação, note bem, é onde nos deixamos mais vulneráveis, patéticos, dependentes, idiotas. E por isto mesmo mais humanos. Quando todas as ilusões de fortitude, independência e liberdade ruem. Conheces algo mais desprezível que o homem apaixonado? Ele é tudo que não devíamos ser, mas buscamos. O que por si só dá um belo retrato de nossa decadência.</em></p>
<p><em>E é por isso que reafirmo que não almejo a sua presença. Se tiveres alguma pretensão além da fome e da libido. E sei que, apesar de tudo, vai soltar um sorriso contido de admiração. Nunca terás como saber por que falo, para quem, com que objetivo e sob quais condições. Convenhamos: há algo mais sedutor que o mistério e a inteligência?.</em>”</p>
<p>Após ler, ficou satisfeito. Era ele. Indubitavelmente. E percebeu que pouca coisa havia mudado desde os longínquos anos em que aquilo tinha sido escrito. Nada, aliás. Não importa quanto tempo passe, certas coisas nunca mudam. A convicção e clareza que tinha aos 20 era a mesma que demonstrava aos 80. Aquilo o agradou. Foi dormir. Estava cansado.</p>
<p>——<br />
<small>[+] <strong>Maurício Angelo</strong> é jornalista e escritor. Atualmente edita os sites <a href="http://www.revistamovinup.com/" target="_blank">Movin’ Up</a> e <a href="http://www.crimideia.com.br" target="_blank">Crimidéia</a>.</small></p>
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		<title>Maurício Angelo: Sede</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Nov 2008 14:18:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Acordado às 4 da manhã.
“Sabe, eu não sei o que você está pensando. Nós nunca sabemos. Isto tudo é uma grande piada de mau gosto. Uma operação detestável. Que se multiplica. E vai. Vejo grandes homens chafurdar-se na teoria. E ela é estupenda: têm sempre uma resposta pra tudo. Bela noção histórica, admirável análise dos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2008/10/imagem.jpg" alt="" /></p>
<p>Acordado às 4 da manhã.</p>
<p>“Sabe, eu não sei o que você está pensando. Nós nunca sabemos. Isto tudo é uma grande piada de mau gosto. Uma operação detestável. Que se multiplica. E vai. Vejo grandes homens chafurdar-se na teoria. E ela é estupenda: têm sempre uma resposta pra tudo. Bela noção histórica, admirável análise dos problemas. Equilíbrio invejável. Eles perecem. Os mais notórios. Não falo da morte física. Falo da fraqueza. Plena, inescapável. Submissos ao sentimento miserável da&#8230;”</p>
<p>Cabeça explodindo. A parede estava suja, com uma espessa camada de poeira. Já não se dava ao trabalho de limpar. Bobagem, pensava ele. Sempre volta. Era um homem feliz. Dramático, palhaço até. Ator de renome na juventude. Escritor de relativo sucesso. A água da piscina se revelava turva, verde, originando as mais diversas bactérias. Larvas se multiplicavam sem dificuldade.</p>
<p>Há anos, ninguém mais o incomodava. Sabiam que tinha optado pela reclusão. Sequer amigos, a imprensa ou mesmo admiradores se atreviam a contactá-lo. Puro azedume. Um homem deveria ter o direito de se retirar, quando quisesse.</p>
<p>Café preto, sem açúcar, era o seu preferido. Completava o desjejum com duas torradas secas, duras, vez ou outra revestidas por um pouco de manteiga. Iluminava os cômodos com velas. A companhia elétrica já havia desistido dele. Não queria o status de maldito, outsider, excêntrico. Não desejava classificação alguma. A barba alongava-se em pseudo cachos de fios brancos e rublos. Passava o dia escrevendo, à mão, em meio ao cheiro familiar de mofo da sua biblioteca. Tinha quinze manuscritos prontos. Cogitava atear fogo em alguns deles, talvez. Mas, a esta altura, jamais relia um parágrafo depois de escrito. Produzia febrilmente.</p>
<p>Quando de bom humor, abria levemente a pesada janela, permitindo a entrada de parcos raios de luz natural. Gostava de observar o efeito da luz ante as partículas de poeira da sala. Podia ficar horas ali. Tragando os últimos charutos de seu estoque. Começara a fumar tarde, porém. Apenas depois dos 50.</p>
<p>Havia desenvolvido habilidades de pintor. Cada vez com maior freqüência, passara a se dedicar às suas telas. Fez, então, retratos imaginários de rostos ora baseados em conhecidos do passado ora remetendo a expressões idílicas frutos puramente de sua imaginação. No entanto, a paleta estava limitada pela tinta, que começava a rarear. A idéia de adquirir mais o causava repulsa pela própria possibilidade em si. Fazia dez anos que não saía de casa. E um motivo tão funcional seria incapaz de conseguir persuadi-lo.</p>
<p>Tinha um bom acervo. Havia planejado tudo, desde os mínimos detalhes. A reposição dos alimentos era feita por entregadores previamente informados. Comerciantes de longa data que o conheciam e respeitavam sua postura, cumprindo religiosamente o trato estabelecido. Semanalmente, sua cesta era deixada na portilha indicada, onde o dinheiro estava presente. Em verdade, detalhes ordinários da vida comum não o afligiam porque precisava de muito pouco para sobreviver. E construíra seu isolamento com cuidado.</p>
<p>Julgava-se o mais abençoado dos homens.<br />
- Tenho tempo, e isto me basta.<br />
——<br />
<small>[+] <strong>Maurício Angelo</strong> é jornalista e escritor. Atualmente edita os sites <a href="http://www.revistamovinup.com/" target="_blank">Movin’ Up</a> e <a href="http://www.crimideia.com.br" target="_blank">Crimidéia</a>.</small></p>
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		<title>Maurício Angelo: Axiomas</title>
		<link>http://www.revistaogrito.com/page/2008/10/mauricio-angelo-axiomas/</link>
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		<pubDate>Mon, 06 Oct 2008 10:12:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Maurício Angelo]]></category>
		<category><![CDATA[Coluna: Maurício Angelo]]></category>

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		<description><![CDATA[
Toda desilusão é frutífera.
Toda desgraça é bem vinda.
Toda negação é patética.
Toda cópula é ridícula.
Toda rotina é prosaica.
Toda esperança é burlesca.
Todo capital é torpe.
Todo desejo é vil.
Todo esteticismo é frívolo.
Toda concupiscência é plástica.
Toda espiritualidade é inquietante.
Toda dor é construtiva.
Todo vazio é absoluto.
Toda sublimidade é efêmera.
Toda oportunidade é tentadora.
Toda libido é traiçoeira.
Toda preocupação é fétil.
Toda busca é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2008/10/egocentrismo.gif" alt="Flickr (http://www.flickr.com/photos/l/)" /></p>
<p>Toda desilusão é frutífera.<br />
Toda desgraça é bem vinda.</p>
<p>Toda negação é patética.<br />
Toda cópula é ridícula.</p>
<p>Toda rotina é prosaica.<br />
Toda esperança é burlesca.</p>
<p>Todo capital é torpe.<br />
Todo desejo é vil.</p>
<p>Todo esteticismo é frívolo.<br />
Toda concupiscência é plástica.</p>
<p>Toda espiritualidade é inquietante.<br />
Toda dor é construtiva.</p>
<p>Todo vazio é absoluto.<br />
Toda sublimidade é efêmera.</p>
<p>Toda oportunidade é tentadora.<br />
Toda libido é traiçoeira.</p>
<p>Toda preocupação é fétil.<br />
Toda busca é receosa.</p>
<p>Toda necessidade é estúpida.<br />
Toda perfeição é aterrorizante.</p>
<p>Toda individualidade é vulnerável.<br />
Toda alma é pequena.</p>
<p>Todo turvamento é invencível.<br />
Toda interpretação é duvidosa.</p>
<p>Toda dialítica é introspectiva.<br />
Toda luz é jocosa.</p>
<p>Todo clímax é volátil.<br />
Toda experiência é produtiva.</p>
<p>Toda revelação é leviana.<br />
Toda explicação é fastidiosa.</p>
<p>Todo interesse é funesto.<br />
Toda estupidez é tétrica.</p>
<p>Toda arrogância é legítima.<br />
Todo ego é autêntico.</p>
<p>Toda criação é trabalhosa.<br />
Toda antítese é necessária.</p>
<p>Toda revolução é vital.<br />
Toda vítria é indecorosa.</p>
<p>Todo sistema político é impraticável.<br />
Todo hiperbolismo é patológico.</p>
<p>Todo prazer é nefasto.<br />
Toda insanidade é benéfica.</p>
<p>Todo caos é intrínseco.<br />
Toda praga é inerente.</p>
<p>Toda culpa é errônea.<br />
Toda fuga é libertina.</p>
<p>Toda teoria é válida.<br />
Todo empiricismo é impulsivo.</p>
<p>Toda droga é escapista.<br />
Toda filosofia é perniciosa.</p>
<p>Toda dívida é excitante.<br />
Toda sabedoria é maligna.</p>
<p>Todo amor é insensato.<br />
Toda ilusão é catastrófica.</p>
<p>Toda verdade é inexistente.<br />
Toda repetição é persuasiva.</p>
<p>Todo fetichismo é engendrado.<br />
Todo transcendentalismo é risível.</p>
<p>Toda lucidez é perspicaz.<br />
Toda gênese é profana.</p>
<p>Toda humanidade é eclipsada.<br />
Todo ócio é produtivo.</p>
<p>Toda felicidade é estereotipada.<br />
Toda tragédia é herética.</p>
<p>Toda ambivalência ê rasa.<br />
Toda doença é sadia.</p>
<p>Toda ignorância é inadmissível.<br />
Todo intelectualismo é perverso.</p>
<p>Toda arte é instigante.<br />
Toda distração é perigosa.</p>
<p>E todos estes pseudo-axiomas não passam de puro esporro mental. Egocentrismo salva. Niilismo liberta. Posso morrer em paz.<br />
——<br />
<small>[+] <strong>Maurício Angelo</strong> é jornalista, crítico, escritor e articulista. Já trabalhou, entre outros, no Whiplash, Duplipensar e BDMG Cultural. Atualmente mantém o site <a href="http://www.revistamovinup.com/" target="_blank">Movin’ Up</a> e o <a href="http://revistamovinup.com/podcast-crimideia" target="_blank">podcast Crimidéia</a>.</small></p>
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		<title>Maurício Angelo: Alt Cult Indie</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Sep 2008 15:11:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Maurício Angelo]]></category>
		<category><![CDATA[Coluna: Maurício Angelo]]></category>
		<category><![CDATA[Quentin Tarantino]]></category>
		<category><![CDATA[Talking Heads]]></category>

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		<description><![CDATA[
Há uma característica comum à maioria do público que lê sites como O Grito, a Movin’ Up, inúmeros outros citados em colunas anteriores, vai a shows e festivais geralmente cobertos por estas mídias&#8230;. Essa característica pode ser definida por três palavrinhas bem conhecidas: “alt cult indie”. Ou, traduzindo em bom português, “cultura alternativa independente”.
O termo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2008/09/indie_by_dero321.jpg" alt="" /></p>
<p>Há uma característica comum à maioria do público que lê sites como O Grito, a Movin’ Up, inúmeros outros citados em colunas anteriores, vai a shows e festivais geralmente cobertos por estas mídias&#8230;. Essa característica pode ser definida por três palavrinhas bem conhecidas: “alt cult indie”. Ou, traduzindo em bom português, “cultura alternativa independente”.</p>
<p>O termo define não só uma gama imensa de produtos culturais bem como um comportamento comum entre o público que acompanha esta “cena”, estendido ao tipo de roupa que usam, o que bebem, os lugares que freqüentam, a maneira de se expressarem, aparecer, “criticar” e transitar entre tudo que as palavrinhas abarcam.</p>
<p>É curioso e engraçado destrinchar algumas das (tsc) “idiossincrasias” deste grupo. Primeiro, “alt’s cult’s indie’s” não gostam de serem enquadrados ou se assumirem como tal. Não aceitam serem definidos por rótulo nenhum. Todos os indie’s não seguem nenhum padrão, sendo criaturas absolutamente originais e independentes, que pensam por conta própria e não aceitam os gostos e opiniões da maioria. Ou nisso parecem acreditar. “Maioria” é palavrão. Estão sempre tentando se “diferenciar” da “massa”.</p>
<p>Daí o alternativo. São coisas que apresentam formas diferentes de se manifestarem, caminhando “a margem” de algo estabelecido ou brincando com os meios tradicionais de se fazer aquilo. Música, cinema, literatura e pornografia “alternativa”. Alt porn, alt country, etc.</p>
<p>Cult não é só abreviação de “cultura”, como traz um diferencial importante: designa, também, o que se torna objeto de culto. Reúne seguidores fervorosos em torno dele. Além da possível qualidade que possa ter, vira uma espécie de religião, trazendo paixão e admiração quase cega. Há várias bandas e diretores cult. Quentin Tarantino e Talking Heads, por exemplo. A grosso modo, é praticamente impossível travar qualquer debate crítico lúcido em torno de nomes “cult”, já que seus defensores não aceitam qualquer comentário negativo em torno daquilo que gostam. O cult é blindado, quase unânime. Talvez seja o status mais perigoso e delicado dos três.</p>
<p>Já a independência do indie é curiosa. Muitos dos artistas “indie” tem contrato com grandes gravadoras e comercializam sua produção nos métodos tradicionais do mercado, para ficar apenas no âmbito musical. “Indie rock” virou inclusive um gênero que até hoje ninguém sabe o que significa. O termo serve para identificar bandas que praticam uma infinidade de estilos possíveis e tem pouquíssima coisa de “independente”. Podem alegar que, mesmo dentro de major’s, bandas “indie” tem autonomia para decidir o que gravar, sem interferência direta no seu trabalho. É discutível. A imensa maioria do que se denomina “indie” não tem independência nenhuma, no puro sentido da palavra.</p>
<p>“Alt’s cult’s indie’s” gostam de aparecer. Sempre tem uma “crítica incisiva” a fazer, algo a falar, um comentário “bem elaborado” e “importante” a tecer. Dão uma auto-importância imensa a si mesmos. Tem o ego lá em cima. Crêem ser as pessoas mais “cool” e descoladas do mundo. Cool poderia até fazer parte do pacote, já que é praticamente um objetivo de vida dos ACI soar cool. Ou seja: legais, bacanas, estilosos, etc.</p>
<p>Por convivermos demais neste meio, passamos a achar que boa parte da população está dentro dos ACI. Na verdade trata-se de um joguinho de espelhos bem limitado, estreito e ridículo. Todos mais ou menos se conhecem. São uma “casta” considerável do jornalismo cultural e da opinião veiculada na internet. Estão todos na mesma toada e convivem com os mesmos problemas e características. No fundo, devem constituir uns 5% dos brasileiros. Classe A/B, 18 a 30 anos na média, universitários ou já “profissionais liberais”, antenados nas “novidades” culturais e estéticas que vem de fora (especialmente Reino Unido/Europa), consciência política zero, enorme capacidade de blefar ou comentar sobre aquilo que desconhece ou sabe muito pouco, apenas o suficiente para poder citar para os amigos.</p>
<p>Ao tentar se desgarrar “da massa” e criar uma “maneira própria” de pensar e se comportar, os ACI forjam apenas um novo estereótipo, uma nova (argh) “tribo”, sendo tão caricata, identificável e ridícula como qualquer outra.</p>
<p>Estereótipos não surgem à toa. São, aliás, decorrente de algo identificado como comum a certo grupo e que, em 99% dos casos, é real. Exceções, também, existem em todo lugar. E há até o “estereótipo da exceção”: aquele sujeito que acha que é exceção a tudo. Eu me encaixo numa infinidade de estereótipos diferentes. Logo, não sou isso ou aquilo, nem exceção à porcaria nenhuma, mas apenas fui e sou formado por coisas, sentimentos, culturas e experiências de diversas naturezas possíveis. Não está certo me encaixar num determinado rótulo nem totalmente errado.</p>
<p>Limitar-se a aquilo é que é o problema. Ao fugir de um padrão, sempre caímos em outro. As pessoas parecem ter dificuldade em compreender que não tem apenas um tipo de mentalidade, gostos e comportamento. Parecem não saberem que são milhares em uma só. Podem ser crianças, adolescentes, adultos, idosos. Ranzinzas, patetas, bestas, burros, gênios. Egocêntricos, idiotas, solidários. Cruéis, indiferentes, sensíveis, vulneráveis, preocupados. Niilistas, religiosos. Alegres, idiotas, deprimidos, insuportáveis. Exigentes, flexíveis, bobos, espertos. Irascíveis, controlados. Duros, entregues. Chatos, agradáveis, ácidos.</p>
<p>Daria para continuar a lista durante muitos parágrafos. Mas você pode completar com tudo que lembrar e quiser. Já se disse por aí que uma das principais características da modernidade é o paradoxo. Creio, na verdade, que sempre foi assim. A graça da vida é essa. Metade dos problemas da humanidade poderiam ser resolvidos se as pessoas não tivessem vergonha de serem humanas, e soubessem lidar com isto, admitindo e aprendendo. Certas coisas nunca mudam. Outras se alteram o tempo todo. Vêm e vão.</p>
<p>Alt, cult e indie são termos usados extensivamente neste meio. E que designa um grupo facilmente identificável de pessoas. Diria que um dos mais insuportáveis que existem. Com um comportamento tão “de rebanho” como os demais. Têm aparência em demasia e polpa de menos.</p>
<p>Quem sabe se soubessem ler, interpretar, ouvir e absorver de fato os produtos culturais que dizem acompanhar, isto mudasse um pouco. Fica a dica. Mais fácil que nascer de novo, pelo menos.</p>
<p>——<br />
<small>[+] <strong></strong><strong>Maurício Angelo</strong> é jornalista, crítico, escritor e articulista. Já trabalhou, entre outros, no Whiplash, Duplipensar e BDMG Cultural. Atualmente mantém o site <a href="http://www.revistamovinup.com/" target="_blank">Movin’ Up</a> e o <a href="http://revistamovinup.com/podcast-crimideia" target="_blank">podcast Crimidéia</a>.</small></p>
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		<title>Maurício Angelo: Teenagers Must Die ou A Importância do Silêncio</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Sep 2008 07:30:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Maurício Angelo]]></category>
		<category><![CDATA[Coluna: Maurício Angelo]]></category>

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Foto: Flickr/ DVQ
TEENAGERS MUST DIE OU A IMPORTÂNCIA DO SILÊNCIO
Tem coisa mais abjeta que comportamento adolescente? Na verdade não me refiro apenas a aquelas pessoas de idade entre 13 e 19 anos. É muito mais uma coisa mental e de postura do que cronológica. Aliás, se a adolescência estivesse restrita apenas a esta faixa etária, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2008/09/769219854_72e5af41dc_o.jpg" alt="" /><br />
<sup>Foto: <a href="http://www.flickr.com/photos/7221644@N03/" target="_blank">Flickr/ DVQ</a></sup></p>
<p><big><strong>TEENAGERS MUST DIE OU A IMPORTÂNCIA DO SILÊNCIO</strong></big></p>
<p>Tem coisa mais abjeta que comportamento adolescente? Na verdade não me refiro apenas a aquelas pessoas de idade entre 13 e 19 anos. É muito mais uma coisa mental e de postura do que cronológica. Aliás, se a adolescência estivesse restrita apenas a esta faixa etária, o mundo seria um lugar infinitamente melhor pra se viver.</p>
<p>O incômodo não é de hoje. Mas a coluna tomou forma ontem a noite, durante a apresentação do <strong>Hurtmold</strong> no <strong>Eletronika</strong>, em Belo Horizonte. Explico: os paulistas se apresentaram após o show de <strong>Mallu Magalhães</strong>, <strong>a menina de 15 anos que agora tem 16</strong>. Nada contra ela, que fez até um bom concerto. Para minha infelicidade, eis que, sentado na primeira fila, assistindo à uma apresentação no mínimo sublime da melhor banda brasileira da atualidade <strong>(my humble opinion)</strong> três crianças sentam atrás e no intervalo de uma música para outra gritam: <strong>“toca Raaaullll”</strong>. Uma vez. Risadinhas. De novo: <strong>“TOOOOCAAAA RAAAAAUUULLLLL”</strong>, mais alto. Constrangimento. Cólera. Vergonha. Passam-se uns dois minutos e eles falam <strong>“ah, vamos ficar lá fora”</strong>. Abençoado seja.</p>
<p>O que mais incomoda em adolescente não é o corpo ainda em formação, o cheiro ruim que exalam e mentalidade primária, mas principalmente o barulho e a necessidade terrível de aparecer. Como são barulhentos! Como fazem questão de falar, comentar, chamar atenção o tempo todo! Os três infelizes, naturalmente, não estavam ali para ver o show do <strong>Hurtmold</strong> nem tinham cabeça suficiente para entender o que saia dos PA’s, mas ao invés de ir para casa dormir cedo e não incomodar os demais, preferiram fazer “piadinhas” dentro do <strong>Grande Teatro</strong> do <strong>Palácio das Artes</strong>, no melhor show do festival. Não sou capaz de descrever o asco e desprezo que me sobrevém em ocasiões do tipo.</p>
<p>Repito: a questão não é puramente cronológica. Há gênios, há pulhas, há imbecis de todas as idades, já disse <strong>Nelson Rodrigues</strong>. Se numa criança é aceitável, a coisa fede ainda mais quanto constatamos comportamento adolescentes em supostos “adultos”, dos 20 aos 80, é o que mais se encontra. Você se dá conta da desgraça quando, por exemplo, não se consegue falar em “sexo” sem risadinhas imbecis. Quando discussões tornam-se apenas disputas patéticas de ego. E por aí vai.</p>
<p>Os jovens, ah, os jovens. Vou ser sincero: não tenho paciência com a “juventude”. É raro conseguir suportar a companhia de mais de cinco minutos de 90% dos chamados “jovens”. Encontram-se naquele meio termo em que ainda não saíram da adolescência e não criaram mentalidade adulta. Ainda bem que as exceções existem.</p>
<p>Há uma frase de <strong>George Bernard Shaw</strong> (possivelmente um dos meus cinco autores favoritos), uma das maiores cabeças do século XX, em que ele diz: <strong>“A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la em jovens.”</strong></p>
<p>Difícil imaginar algo que resuma tão bem a questão. Pode anotar: gente barulhenta, que adora chamar a atenção e tem necessidade de expressar-se todo o tempo, são tremendamente inseguras, estúpidas e insuportáveis. Necessitam sempre da aprovação alheia. Não conseguem pensar sozinhos. Perdem muita energia falando, querendo aparecer, e não sobra tempo pra leitura, pro raciocínio. Pra mim, quanto mais barulhenta uma pessoa é, mais detestável se torna. Muito do fundamental está no não-dito.</p>
<p>O intelecto se desenvolve com o silêncio. É o silêncio uma das condições fundamentais para uma boa fruição da arte, da vida, dos sentimentos, da inteligência intrapessoal. E é, também, uma das forças mais poderosas que existem. A melhor e mais lancinante resposta, muitas vezes, não é algo concreto, mas o silêncio. Ele diz tudo que precisa ser dito. Atinge mais profundamente que qualquer outra coisa.</p>
<p>Não a toa que o budismo sempre contou com a minha simpatia. Ou mesmo os cultos orientais de maneira geral. Estão a anos-luz de nós, pobres bestas grosseiras e estúpidas do ocidente. Na música, algumas das melhores bandas são aquelas que compreendem a importância que o silêncio tem dentro da sonoridade, da estrutura, do impacto, da capacidade de transmitir sentimentos, ditar o ritmo, envolver o ouvinte. O bom uso das possibilidades do silêncio, por assim dizer, é característica e condição fundamental da melhor música que é produzida. De <strong>Pink Floyd</strong> a <strong>Gang Of Four</strong>, é difícil imaginar um grupo realmente fundamental que não tenha a consciência, a habilidade e o talento em lidar com o silêncio, a pausa, a sinestesia, a provocação conceitual e tudo que ele traz.</p>
<p>Música é aquilo que corta o silêncio. Surge, se desenvolve, forma-se e termina nele. Talvez por isso a música instrumental, clássica, o progressivo, o jazz, o post-rock e congêneres, sempre teve lugar de destaque na minha formação. Para ir além, dá pra citar <strong>Beatles</strong>, <strong>Allman Brothers</strong>, <strong>Black Sabbath</strong>, <strong>Genesis</strong>, <strong>Van Der Graaf Generator</strong>, <strong>Mozart</strong>, <strong>Pere Ubu</strong>… todos díspares porém todos com uma rara noção de se trabalhar o silêncio.</p>
<p>Tenho pouca didática com adolescentes. Na minha época, sempre me achei profundamente distante da maioria dos colegas. Pessoas velhas sempre foram uma recorrente em minha vida. Não que idade seja sinônimo de inteligência e garantia de algo, mas os jovens que não são imbecis e estúpidos, são poucos. E se pensarmos que 90% da “cultura” é produzida tendo como foco os adolescentes, o principal público consumidor, o prospecto não é muito positivo. Quem nunca sofreu com a falta de educação num cinema? Quem nunca teve a infelicidade de conviver com um adolescente estúpido, ou mesmo foi um? Às vezes, a vergonha do que éramos no passado serve muito bem para constatar o quanto evoluímos enquanto pessoas, enquanto “humano” no sentido mais amplo e piegas que possa existir. O pior é que muitos morrem sendo eternos adolescentes. Há que se ter consciência para lidar com estes seres no trabalho, nos locais públicos, nas discussões, etc.</p>
<p>Damos pouquíssimo valor ao silêncio. Gostamos muito de aparecer e pouco de pensar. Maturidade e comportamento discreto são extremamente raros: especialmente neste lado do globo e especialmente numa sociedade que teve uma formação como a nossa.</p>
<p>Está iniciada a campanha. <strong>Enjoy The Silence</strong>. Desfrute o silêncio. Não demorará muito para se observar os efeitos. É nele que a inteligência, os sentimentos e a sensibilidade se desenvolvem. É condição essencial para quem quer se manifestar. Acaba aqui a lição de filosofia barata e auto-ajuda da semana.</p>
<p>——<br />
<small>[+] <strong></strong><strong>Maurício Angelo</strong> é jornalista, crítico, escritor e articulista. Já trabalhou, entre outros, no Whiplash, Duplipensar e BDMG Cultural. Atualmente mantém o site <a href="http://www.revistamovinup.com/" target="_blank">Movin’ Up</a> e o <a href="http://revistamovinup.com/podcast-crimideia" target="_blank">podcast Crimidéia</a>.</small></p>
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		<title>Maurício Angelo: O Ego e o Anonimato</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Aug 2008 14:06:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Maurício Angelo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Maurício Angelo]]></category>
		<category><![CDATA[Coluna: Maurício Angelo]]></category>

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Quando o Paulo Floro, editor da O Grito, me convidou para fazer parte do time de colunistas da revista, eu havia, numa enorme coincidência, escrito no meu twitter “preciso escrever mais” apenas cinco minutos antes do convite surgir, do nada.
Já tenho algumas experiências no formato coluna, e uma coisa é fato: são natimortas. Surgem, podem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://www.revistaogrito.com/page/wp-content/uploads/2008/08/coluna-mauricio.jpg" alt="" /></p>
<p>Quando o Paulo Floro, editor da <strong>O Grito</strong>, me convidou para fazer parte do time de colunistas da revista, eu havia, numa enorme coincidência, escrito no meu twitter “preciso escrever mais” apenas cinco minutos antes do convite surgir, do nada.</p>
<p>Já tenho algumas experiências no formato coluna, e uma coisa é fato: são natimortas. Surgem, podem até durar um período com uma freqüência razoável, vem os primeiros entraves (desânimo, falta de tempo&#8230;), ela vai caindo, desaparecendo e quando o autor se dá conta já se foram alguns meses sem escrever. Está fadada à morte, portanto.</p>
<p>Na maioria das vezes, é apenas um exercício egocêntrico estúpido (o título da mesma ser o nome do autor é um sintoma) que tende ao esquecimento. Mas alguns colocam o tempo ao seu domínio, como aquele que me ensinou a ler, o maior cronista que o Brasil já teve, o simples e inigualável (aqui a hipérbole não é gratuita) <strong>Rubem Braga</strong>. A estes minha sincera e eterna admiração.</p>
<p>Falar de esquecimento no suporte digital chega a ser irônico, quase uma piada. A internet, principal meio de comunicação – e propagadora de informação – da nossa época, é, também, a mídia mais frágil e soporífera que já surgiu. Motivo pelo qual sofre tanta desconfiança e até desprezo, ao mesmo tempo em que simboliza, sem dúvida, a maior revolução social, cultural, tecnológica (&#8230;) da história.</p>
<p>E aqui vale citar <strong>William Gibson</strong>, inventor do termo “ciberespaço”, autor do livro <em>Neuromancer</em> – de onde <em>Matrix</em> retirou 70% de sua “tese” – que considera a internet como “o grande evento anárquico que vem derrotar a exploração comercial convencional”.</p>
<p>Frase que simboliza minha “carreira”, a trajetória que percorri para estar aqui e em tantos outros lugares e a própria existência da <strong>O Grito!</strong> ou da Movin’ Up, meu site. Nunca se teve acesso tão fácil e barato a meios capazes de expressar sua própria opinião, reportagens, matérias, críticas, crônicas, textos, contatos&#8230; de maneira tão ampla, irrestrita e factível. A web – teia – se faz através de conexões, cadeias, links, redes colaborativas, indicações, formas alternativas de se estar em contato com quem (ou o que) quer que seja, bem como se criar o conteúdo que desejar. E tais características criam algumas anomalias.</p>
<p>Primeiro: quem escreve na web não é respeitado. Ainda que a coisa tenha melhorado muito, existe um nítido pensamento de senso comum que permeia tanto leigos como geeks de que informação da web não é confiável, e “jornalista de internet” não é lá grande coisa. Apesar do boom digital da virada do século, causando migração em massa de jornalistas das redações tradicionais para a net, atraídos por grandes estruturas, salários melhores que a média do mercado e promessas ambiciosas – que durou pouquíssimo tempo e foi-se junto com o famoso estouro da bolha – a web consagrou-se como o local onde “todo mundo é crítico” e “qualquer um escreve”.</p>
<p>Verdade? Verdade! Mesmo os bordões da estupidez comum tem sua parcela de verdade. Recentemente, caí na besteira de adentrar numa dessas discussões patéticas de orkut, onde cada um consegue ser mais infantil que o outro, e os egos (e o recalque, a insegurança e a necessidade de ser adorado e tido como “fodão” pela comunidade que você participa é imensa) sendo atacado por um figurão da “crítica musical”, que escreve em alguns veículos da “grande imprensa”, dizendo que eu “não era jornalista” porque escrevia de graça para o site Whiplash. Segundo a lógica diminuta do acusador, não posso ser considerado jornalista se escrevo de graça para algum lugar (ainda que o mesmo desconheça os detalhes disto, o resto da minha vida, etc). Este é o tipo de pensamento que acomete muitos.</p>
<p>O jornalismo na internet guarda esta particularidade: arrisco dizer que 60% dos jornalistas que escrevem para sites não são remunerados, considerando ainda que grande (graaaaaande) parte do conteúdo da web ainda vem enlatado do jornal ou revista, sendo apenas reproduzido/reformatado, fazendo com que o profissional trabalhe duas vezes e receba o mesmo. Sites de qualidade surgidos diretamente na web e que remunere a toda a equipe que o produz é uma raridade. Sem estar ligado a grandes empresas e grupos, então, dá para contar nos dedos.</p>
<p>Sites colaborativos como boa parte dos culturais que temos por aí, a própria <strong>O Grito!</strong>, <a href="http://www.screamyell.com.br">Scream &#038; Yell</a>, <a href="http://www.digestivocultural.com">Digestivo Cultural</a>, <a href="http://www.portalrockpress.com.br">Rock Press</a>, <a href="http://www.pilulapop.com.br">Pílula Pop</a>, <a href="http://www.speculum.art.br">Speculum</a>, <a href="http://rabisco.com.br">Rabisco</a>, <a href="http://contracampo.com.br">Contracampo</a>, etc, etc, não remuneram boa parte dos seus colaboradores (para não dizer todos). O que leva estas pessoas a fazerem este trabalho então? A doarem um pouco da sua experiência, dedicar horas e horas do seu tempo a uma produção séria e bem feita? Visibilidade? Ego? Falta de alternativa? Oportunidade de produzir com extrema liberdade? Estar numa equipe bacana, fazer amizades e ir desenvolvendo a própria capacidade através da prática?</p>
<p>Um pouco de tudo e muito mais. Não é de se estranhar que num mundo onde o lucro é a lei-mestra, “escrever de graça” seja encarado como loucura, baderna, desespero, amadorismo. Claro que não ser remunerado não é o ideal. Claro que a oferta de gente capacitada fazendo “free” impede que as coisas mudem. Mas esta é uma parte da nossa prolixa história.</p>
<p>Retomando Gibson&#8230;se a internet deveria “derrotar a exploração comercial convencional”, estaria ela criando a “exploração comercial digital”? Sim e não. De minha parte, basta ilustrar que, aos 16 anos estava escrevendo no maior site de rock do país. Aos 17 estava num dos principais sítios de artigos e visão crítica da web brasileira (o Duplipensar.net), dentro de uma equipe nacional composta por mestres, doutores, pensadores e gente incrivelmente inteligente e capacitada, editando artigos que chegavam e ajudando a pensar o conteúdo e as diretrizes do site num todo. E daí em diante. Bem antes de entrar na faculdade já estava construindo meu estilo, minha cabeça, minha vivência&#8230;e, depois disto, outras coisas vieram, me possibilitando viver de serviços prestados na internet há três anos, não ganhando uma fábula, mas sem dúvida bem mais que os estágios tradicionais no jornalismo. Estágio, sinônimo de escravidão, onde vemos propostas absolutamente indecentes e irreais. Não raras vezes jornalões “consagrados” pegam estudantes nos famosos “estágios não-remunerados”. Isto é absurdo tamanho, que cabe a uma mudança de lei. Donde vemos que a lógica do trabalhar-de-graça não é exclusividade da internet, manifestando-se com muito mais intensidade no mercado “tradicional” e com requintes de crueldade, diga-se.</p>
<p>O maior fascínio da internet é justamente observar como as coisas de desenvolvem sob licenças, ferramentas, possibilidades e serviços gratuitos. Todas as plataformas de código aberto, as redes sociais colaborativas, criando sistemas como o <a href="http://www.wordpress.org">Wordpress</a>, onde a <strong>O Grito!</strong> e a Movin’ operam, totalmente grátis, com pessoas dando o sangue e gastando horas (dias, semanas, meses) desenvolvendo coisas que serão disponibilizadas sem custo nenhum para quem quiser. É absurdo? Não, é genial. A internet é uma espécie de terceiro setor global, onde todos se ajudam e todos ganham, de uma forma ou de outra.</p>
<p>E você, leitor, pode ter acesso a informações da melhor qualidade sem pagar praticamente nada por isso. Pode ter uma infinidade de fontes, matérias e opiniões sem ter que desembolsar um centavo em jornais e revistas chapa branca, comprometidos até o tutano com tudo que se pode imaginar. Você, leitor, pode ter um jornalismo livre, incisivo, ácido, direto, que não tem compromisso com nada a não ser a qualidade do que produz. E ter acesso a muito lixo também, cabendo a você separar.</p>
<p>A internet é o que é porque a legitimidade tem que ser conquistada, não vem “automática” com uma marca qualquer. É onde profissionais de diversas áreas encontram oportunidades infinitamente mais atrativas para si do que aquelas encontradas no “mercado tradicional”. E, a partir da  web, partem para criar suas próprias trajetórias.</p>
<p>Tudo na vida é feito para nosso ego. No melhor sentido possível da afirmação. É pelo ego, e não por outra coisa, que trabalhamos, tentamos ter um corpo bacana, um conhecimento cultural razoável, reconhecimento, enfim, ser “bem-sucedido” (seja lá o que isso for) em todas as áreas da nossa vida. O ego não no sentido restritivo de egoísmo míope e dominador, mas como combustível que nos impulsiona a buscar aquilo que queremos. O ego como elemento fundamental daquilo que nos constitui. Negar que não é o ego que nos motiva, muitas vezes, não passa de um outro artifício para chamar atenção. E ego não é arrogância. Orgulho não é sinônimo de presunção.</p>
<p>O ser humano está tentando, a todo tempo, se afirmar. Provar para si, pros amigos, pra sociedade, etc, etc, que ele “é bom”. É esta coisa adolescente, esta praga maniqueísta que nos empurram – “vitória” ou “fracasso” – que pauta a vida de tanta gente. Quanto mais inseguros, mais necessidade temos de atacar aquilo que nos incomoda. Quanto mais fracos, mais nos apressamos em tentar rebaixar aqueles – ou o que – não conseguimos lidar, não suportamos. Toda a vida é pautada num jogo de afirmação. Não deve existir animal mais patético do que nós.</p>
<p>Não sei sobre o que esta coluna será: não tem tema definido. De esportes à filosofia, de crônica à crítica musical, do mundo pop ao acadêmico. Mas é bom compartilhar esta egotrip. Pra fechar, alguns aforismos recentes de autoria própria:</p>
<p>“Maquiavel estava certo quando dizia que &#8211; as aparências são aquilo que, de fato, nós realmente somos &#8211; tolo quem discorda. E tolo quem crê em verdades absolutas”.</p>
<p>“O mundo é tão massificado que cada pessoa sente, age, se comporta e pensa de maneira diferente”.</p>
<p>“Não existem rebanhos. O “homem de massa” é apenas um fetiche que a crítica ainda não conseguiu se livrar”.</p>
<p>“Desconfie das receitas prontas, das reflexões fechadas e de pessoas com ideologias: basta sentir o cheiro desagradável que exalam”.</p>
<p>“Quem adora se passar por extremo tendem a ser os mais carentes e solitários que existem. Falam muito e vivem pouco. Sabem demais. Sua maior alegria é achar quem lhes dê atenção”.</p>
<p>“Não tente ser radical. Aprenda a pensar primeiro”.</p>
<p>Conselhos grátis, receitas secretas, asneiras elaboradas, minutos de sabedoria e estupidez, piadas infames, caras à tapa e um pouco de pimenta, nas próximas edições. Cuidem-se. Vejo vocês por aí.</p>
<p>——<br />
<small>[+] <strong></strong><strong>Maurício Angelo</strong> é jornalista, crítico, escritor e articulista. Já trabalhou, entre outros, no Whiplash, Duplipensar e BDMG Cultural. Atualmente mantém o site <a href="http://www.revistamovinup.com/" target="_blank">Movin’ Up</a> e o <a href="http://revistamovinup.com/podcast-crimideia" target="_blank">podcast Crimidéia</a>.</small></p>
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