Auto-retrato de Grampá para o jornal O Globo

PASSADO O HYPE
Grampá, um dos mais bem-sucedidos quadrinhistas de sua geração fala da sua relação com os quadrinhos nacionais, de seus projetos futuros e do que ouvia enquanto fazia Mesmo Delivery seu trabalho mais conhecido
Por Paulo Floro

Quando a Revista O Grito! elegeu Rafael Grampá como a principal aposta para 2009, o hype do quadrinhista gaúcho já havia se desenhado. Mesmo sem muitas informações na cobertura diária de quadrinhos, ele levou seu álbum Mesmo Delivery para a Comic Con, maior convenção de quadrinhos do mundo, que acontece em San Diego (EUA). No meio de tantos artistas promissores que levam seus trabalhos ao evento, ele teve um plus: foi indicado junto com os habituées Fábio Moon e Gabriel Bá ao Eisner Awards, na categoria Melhor Antologia, por 5. A americana Becky Cloonan e o grego Vasilis Lolos também assinam a obra. No dia seguinte, Rafael retirou da bagagem 100 cópias do livro e colocou no seu estande. Vendeu todas no mesmo dia. “Aquilo gerou um ‘buzz’ muito grande. Todos vieram na nossa mesa atrás do gibi”, lembra Grampá do episódio, em entrevista por telefone.

Rafael também foi tomado de assalto pela repercussão da obra. “Foi um puta baque. Não tinha caído a ficha. Eu achei que iam demorar para conhecer a revista, mas naquele dia vieram falar comigo o Brian Azzarello (autor de 100 Balas), o Matt Fraction (desenhista) e depois encontro o Mike Mignola (criador de Hellboy), que diz conhecer e gostar muito do meu trabalho”, lembra. Mesmo Delivery, lançada lá fora pela editora AdHouse Books foi bancada do próprio bolso pelo autor. Mas a decisão não poderia ter sido mais acertada. Estratégia incomum nos quadrinhos brasileiros, Grampá foi atrás de onde havia demanda para ser consumido e respeitado. “Eu tinha planejado de lançar apenas nos EUA, porque aqui não tem suporte para o autor. E eu não sou um cara engajado pelo quadrinho nacional, sabe?”, conta. Os próximos trabalhos também serão lançados antes lá fora, já que “os caminhos estão abertos”.

Mutarelli, o padrinho
“Sou um cara normal, sabe? Não conheço muito das HQs nacionais, quando gosto de um gibi vou lá e compro”. Grampá pode até não ter um network extenso nos quadrinhos independentes nacionais, mas ligado afetiva e profissionalmente a importantes e promissores nomes. É amigo de Rafael Coutinho, filho do cartunista Laerte e letrista de Mesmo Delivery. Sem falar nos Gêmeos, Fábio Moon e Gabriel Bá, criadores da série 10 Paezinhos e com carreira consolidada no exterior.

Mas é talvez Lourenço Mutarelli a ligação mais importante na trajetória do gaúcho. Grampá trabalha atualmente na adaptação de O Dobro de Cinco, uma das obras mais conhecidas do autor paulista, que recentemente decidiu parar de fazer quadrinhos. “Não tenho lido mais HQs, nem acompanhado nada, mas posso indicar o trabalho de Grampá, um garoto muito bom, que acho muito bom”, disse Lourenço mês passado, em visita ao Recife. Essa sua lacônica opinião esconde um relacionamento bem mais importante na carreira de Grampá.

Voltando ao episódio da Comic Con, foi Mutarelli que trouxe mais exemplares de Mesmo Delivery para a convenção. “O Sedex tinha mandado 400 cópias para Memphis, então eu perguntei ao [roteirista] Rodrigo Teixeira, se ele não poderia trazer algumas do Rio, onde as revistas tinham sido impressas. Foi aí que ele convençeu Lourenço a trazer 200 para San Diego. Desnecessário dizer que todas também se esgotaram rapidamente.

Mais de um mês depois, Mesmo chegaria ao Brasil, pela editora Desiderata, que mesmo sem falar em números exatos afirma que foi um de seus livros que mais vendeu. “Quando lançei o gibi aqui minha vida já tinha mudado bastante, por conta de todo esse hype, do Eisner”, recorda Grampá. Mesmo tendo “vendido pra caralho”, Grampá discorda do preço, muito salgado para o mercado nacional. “Não aguento esse papo cansado de que HQ não vende. Acho que o editor tem que fazer a parte dele”, reclama. “Os editores sabem que ganham na quantidade da venda, por isso eles fazem uma base de lucro que não leva em conta que se o preço fosse baixo venderiam mais”. Grampá entregou a arte de seu livro pronta, sem receber adiantamento de produção. “Eles botam 40 paus pra que? Pra não vender”. A edição norte-americana, pela ADHouse Books custa 12,50 dólares.

Água Peluda
O novo livro de Rafael Grampá, Água Peluda, ou Furry Water, não tem editora definida no Brasil, mas é certo que seguirá o mesmo caminho de Mesmo Delivery e será lançado antes nos EUA. “A história desta HQ existe antes de Mesmo Delivery, mas eu só tinha feito quatro páginas. Como ela tem uma premissa mais elaborada, decidi fazer Mesmo antes pra me testar, ver se eu teria fôlego para continuar”, diz Grampá.

Ele será co-escrita por Daniel Pellizari, escritor e tradutor, muito amigo de Rafael. Será uma série em seis capítulos, mas ainda não há nada definido quanto ao formato. “Estamos bem tentados a fazer três graphic novels com duas histórias cada”. Segundo Grampá nos adianta, será uma proposta mais elaborada, não tão centrada na ação quanto seu primeiro livro. “Terá um conteúdo de honra por trás da trama e um contexto pós-apocalíptico”, adianta. Enquanto isso, o quadrinhista finaliza sua colaboração com Brian Azzarello numa edição de Constantine, do selo Vertigo, da DC Comics. Nas próximas semanas, ele embarca para Nova York, onde fará o lançamento de Mesmo Delivery na descolada Desert Island. Lá poderá encontrar amigos, entre eles Becky Cloonan, que participou da independente 5 e autora de Pixu e DEMO, ao lado de Brian Wood.

[+] RAFAEL GRAMPÁ ALÉM DO MESMO: MÚSICA, QUADRINHOS, CINEMA

Editor
  1. Sério, não vou entrar nesse seu joguinho. Fique aí com suas divagações autistas que fico eu com meu cantinho pasteurizado repleto de insulsas, repetição e louvores aos super-heróis norte-americanos. Só lamento que chegue aqui citando Muttarelli e não tenha nada pra mostrar.

    Abraço.

  2. Sou bem aberto para aprender coisas novas mas discordar eu já sei. Por isso discordei de você sobre ser cedo classificar o Rafael como contador de histórias. Eu, como pretenso contador de histórias, aprendi com o mesmo delivery. Não tenho nenhum calo pra ser pisado, talvez o de novo fã do trabalho desse artista que achei que merece um pouco mais de respeito nos seus comentários. Eu realmente pirei no trabalho de grampá. Acho que se você classifica autores insonsos e repetitivos do ramo de super herois americanos que fazem sempre aquela coisa pasteurizada como contadores de histórias, é por que seu gosto é duvidoso. Se mesmo delivery é só meia dúzia de grafismos e jogos de camera pra você e uma hq podre de heróis é o máximo, existe algo errado com o seu dissernimento. Mas acho que o sucesso que esse hq está tendo é a melhor prova de que você só não quer dar o braço a torcer. Na arte de discordar e analizar, você é mirin.

    Não tenho link nenhum, escrevo pra mim por enquanto pois acho que ainda não estou nem 50% pronto pra isso. Desculpe se irritei você, é só minha opinião, não é veneno. Acho que quem acabou pisando em algum calo fui eu em algum seu. Fique frio, sou só mais um cara na internet com opinião, asim como você.

  3. Me desculpe, mas eu pisei em algum calo seu? Por acaso cheguei a desclassificar ‘Mesmo Delivery’ ou o próprio Grampá como autor de quadrinhos? Creio que não, apenas expressei meu ponto de vista à cerca de seus primeiros passos como argumentista, e de imediato fiz questão de mencionar minha expectativa quanto a ‘Furry Water’ que, diga-se de passagem, tende a ser melhor que aquele nesse aspecto. Se parar um pouco e destilar metade desse seu veneno, vai notar que este “intelectual de internet” aqui estava falando justamente desse “amadurecimento” que acabaste de mencionar.

    Bem, e sobre meus “gostos e comentários”, não tenho problema algum de me assumir como leitor eclético, o que por sinal só me beneficia porque acabo bebendo da 9ª arte em várias fontes, sejam quadrinhos nacionais, do mainstream norte-americano, franco-belga, fumetti, mangás, digitais e até tirinhas. Se seu “gosto” é mais apurado que o meu, paciência, este certamente é um debate do qual não faço questão de participar.

    E se você é “gente que faz”, pelo menos tenho meu “link” e minhas linhas para me expor, se muito falo, é porque muito tenho a dizer, e você? Onde está sua obra, meu caro escritor “wanna be” e fã de quadrinhos? Gostaria de lê-la para ter a mesma oportunidade de me manifestar a cerca de seus “gostos”. Quem sabe você não aprenderia uma ou duas coisas comigo sobre a arte de discordar sem no entanto ser pejorativo no processo.

    Abraço.

  4. Esse Luwig se enquadra no tipo de gente que o Lourenço Muttarelli se refere no prefácio do Mesmo delivery. “aqueles que muito falam e pouco fazem”. Parece que o Mutarelli conhece bem esse tipo de “intelectual de interhnet” e já profetizou esse tipo de comentário já no prefácio do livro. Ahaha! Acabei de entrar no link dele e os gostos e comentários sobre quadrinhos explicam por si mesmo sua opinião sobre a obra do Rafael Grampá. Sou escritor “wanna be” e fã de quadrinhos e considero Grampá um grande contador de histórias sim, ainda em amadurecimento, mas um contador de histórias poderoso. Achei a história simples mas de uma narrativa sem comparações, como nunca houve antes nas hqs nacionais. Acho que Mesmodelivery é o que se propõe ser, um conto. O que acontece com hype é que a imprensa cai em cima de algo e transforma aquilo numa coisa maior do que é. Todo hype é isso e quem não sabe disso, tem que se calar ao invés de expor sua ignorãncia por aí.

    Gostei muito da matéria e espero que continuem o ótimo trabalho de cobertura do q anda acontecendo nas histórias em quadrinhos do Brasil! Parabéns!

  5. Gostei de ‘Mesmo Delivery’ única e exclusivamente como o bom livro de arte sequencial que é, e só. Não entendo (nem faço questão de entender) metade do hype em cima desse trabalho, claro que por conta dele os holofotes acabaram revelando o talento do Grampá inclusive como uma das grandes promessas dessa geração, como ilustrador, é claro, mas como contador de histórias? Acho que ainda é cedo para classificá-lo como tal, quem sabe a partir de ‘Furry Water’, hã?

    Bem, tirando um ou outro “jogo de câmera” inusitado (como a ótima sequência da decapitação), temos apenas uma HQ poderosa com meia dúzia de elementos de grafismo que num piscar de olhos se resolve em ritmo de festim diabólico.

    Grande abraço.

    Ps. O Matt Fraction só escreve, nada de rabiscos.

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