A acessibilidade está cada vez mais presente nas artes: recursos como audiodescrição e tradução de libras estão sendo mais usados nas produções culturais brasileiras. A psicóloga Liliana Tavares é a idealizadora do festival VerOuvindo, voltado para a discussão da produção audiovisual com acessibilidade, além da exibição de filmes, curta metragens e premiações. Em 2021, o Festival completou sete anos com sessões em Pernambuco e a próxima edição já tem data: 10 a 15 de novembro em formato híbrido.

Até 30 de setembro, profissionais do cinema e da acessibilidade comunicacional poderão inscrever filmes acessíveis na Mostra de Curtas com Audiodescrição e na Mostra de Curtas com Tradução Audiovisual para Libras. As inscrições são gratuitas e poderão ser feitas no site

A ação de práticas inclusivas para pessoas com deficiência no universo das artes em geral, como teatro, dança, circo, artes visuais e as aplicabilidades da audiodescrição, libras, braille, entre outras tecnologias assistivas, tem sido ampliadas. O tema chama cada vez mais a atenção de profissionais de diversas áreas de formação como produtores, artistas, arte-educadores, gestores culturais, pedagogos, historiadores, monitores e interessados em arte e acessibilidade em geral. “Quando a acessibilidade é planejada desde o início, é menos um obstáculo”, pontua Tavares.

Em Pernambuco, foi possível perceber um avanço na questão da acessibilidade na área do audiovisual, nos últimos anos. Os produtores da área concordam que o Funcultura, fundo de incentivo do Governo do Estado, foi um dos grandes impulsionadores.  “O Funcultura é exemplo de edital que está cada vez mais inclusivo”, considera Tavares.

O Grito! conversou com Liliana Tavares sobre acessibilidade, o papel do VerOuvindo e as projeções para as próximas edições. Confira a entrevista:

Como você enxerga o atual momento da questão da acessibilidade na arte?

Os recursos de acessibilidade comunicacional básicos, como audiodescrição, Libras, LSE- legendas para surdos e ensurdecidos, também chamada de legendas descritivas, e o braile têm cada vez mais migrado para o campo da criação e da poesia, deixando de ser apenas um serviço utilitário, uma tecnologia assistiva, para se revelar como parte constituinte da obra.

Como começou sua a relação com a acessibilidade?

Na verdade, é uma relação muito mais com a inclusão do que simplesmente com a acessibilidade. Ter um posicionamento inclusivo perante a vida significa buscar minimizar preconceitos, quebrar barreiras atitudinais e colaborar para promover a acessibilidade. Eu sou graduada em Psicologia, e fui professora universitária por vários anos. Nesse período ministrava uma disciplina que tinha um nome esdrúxulo: “Psicologia para as pessoas portadoras de necessidades especiais”. Era um prato cheio para discutir com os alunos o que seria essa “Psicologia” e quem eram essas pessoas. Todo semestre eu convidava pessoas com deficiência (cegas, com Down, surdas…)  para falar sobre sua condição e questionar os mitos sobre ser pessoa com deficiência.  Depois fui trabalhar na “ETE- Almirante Soares Dutra”, a segunda escola técnica no Brasil a oferecer um curso de tradutor intérprete de Libras, e foi lá que me aproximei da comunicada surda.

Por que a arte é tão excludente?

A arte é excludente quando não se tem acesso a ela. Qualquer público precisa ser exposto às expressões artísticas para que possa ser tocado. Acessibilidade é indispensável. Aqui, levando em consideração desde o local onde ela se encontra e o preço para chegar até ela (passagem de ônibus, entrada no espaço expositivo), até se ela pode ser acessada por uma pessoa que faz uso de uma cadeira de rodas, ou por uma pessoa cega. Aproximar o público das artes sempre foi um desafio, uma preocupação para os produtores. A gente tem acompanhado manifestações artísticas nas ruas, exibição de filmes em prédios, dança nas calçadas. Daí a importância de fundos de cultura públicos para que os artistas não precisem cobrar ingresso, por exemplo, o que para a nossa realidade é, muitas vezes, um fator decisivo de impedimento para fruição de uma obra.

A arte é excludente quando não se tem acesso a ela. Qualquer público precisa ser exposto às expressões artísticas para que possa ser tocado. Acessibilidade é indispensável.

Ainda é preciso que as pessoas com deficiência lutem pelo direito de serem percebidas?

Depois da conquista da LBI – Lei Brasileira de Inclusão, de 2015, que fez seis anos no dia 6 de junho, é possível exigir que os direitos sejam cumpridos. A partir dessa lei, passamos a entender que a sociedade é que precisa criar condições para garantir o ir e vir das pessoas. Uma sociedade inclusiva considera os direitos das pessoas. Não falo aqui apenas das pessoas com deficiência, que são quase 25% da população, falo das pessoas em situação de vulnerabilidade, das pessoas discriminadas por causa de sua etnia, de sua identidade de gênero, de sua condição econômica. Essa lei já virou a chave do preconceito, agora falta o exercício dela, e isso virá com o tempo. Claro, vai inicialmente por força da lei, com aplicação de advertências, multas, com denúncias, e protestos. Então é preciso incorporar esse conceito de inclusão na educação, nas mídias, nas pautas dos partidos políticos.

O VerOuvindo já recebeu Voto de Aplauso da Câmara do Recife pelos serviços de acesso à cultura ofertado para as pessoas com deficiência
(Foto: Thais Lima /Divulgação)

Quais os principais desafios para trabalhar a acessibilidade na arte?

São muitos, mas o primeiro é fazer com que a acessibilidade seja desejada. Quando as acessibilidades são entendidas como uma extensão da obra. Quando a acessibilidade é planejada desde o início, é menos um obstáculo e a produção dela ganha outro fluxo quando comparada quando ela é vista como uma pós-produção – muitas vezes virando uma espécie de puxadinho, que não dialoga com a obra.

Outro desafio é que a gente, digo, nós, profissionais da acessibilidade, chegamos recentemente nessa área: há cerca de dez anos. E, por isso, o orçamento que é destinado para esse serviço está longe do valor real. Muitas vezes porque não são orçados no momento da inscrição do projeto; ou, algumas vezes, porque o valor é usado para outras coisas consideradas “essenciais”.

E para resumir, a falta de tempo para fazer o serviço. Como corriqueiramente ele é deixado para ser feito por último, o prazo de entrega é mínimo. Muitas vezes isso compromete a pesquisa, a criação e,consequentemente, a qualidade do produto em si.

Quais as particularidades da acessibilidade comunicacional por meio da inserção da audiodescrição, da Libras e da LSE em diversas linguagens artísticas?

Essa resposta é longa! Cada uma delas tem suas especificidades, principalmente porque são para públicos diferentes. Resumidamente, podemos dizer que em eventos gravados, como audiovisual, por exemplo, a Libras e a audiodescrição devem ser gravadas. Assim como em eventos ao vivo, presencial ou remoto, elas devem ser ao vivo também.

Deve-se entender que tanto a interpretação em Libras como a audiodescrição precisam ser feitas por humanos. Existe uma tentação de baratear usando avatar para Libras e leitor de tela para audiodescrição. Essa opção é indesejada pelos usuários.

Quais as principais diferenças da AD entre eventos ao vivo e gravados?

Em eventos ao vivo, tanto presencial quanto remoto, tem sempre a possibilidade do inesperado. Tanto da parte do espetáculo, um ator que pula a cena, uma luz que não acende, um espectador que interfere, quanto da parte da nossa produção, um problema no aparelho de transmissão, na internet, uma tosse inesperada, ahahaah. Tudo foi ensaiado, mas qualquer coisa pode acontecer e isso é o que é emocionante. E o bacana é que o público também vira parte da cena.

Em uma atividade gravada, está tudo controlado. Roteiros e traduções foram feitos, gravados, revisados, editados. Menos risco de dar errado na hora da exibição.

Quais as características você considera para ser um bom audiodescritor ou audiodescritora?

A gente considera três atuações para audiodescritores. O audiodescritor roteirista, o audiodescritor consultor e o audiodescritor narrador. Cada um tem suas particularidades. Genericamente, roteirista precisa ser bom observador, ter habilidades com a escrita e a paciência de burilar um texto. Saber dizer muito em poucas palavras. Ter manejo em trabalhar em dupla e saber aceitar modificações na sua produção, tanto do audiodescritor consultor, que é necessariamente uma pessoa com deficiência, quanto da produção da obra. Ser paciente e saber trabalhar com prazos apertados.

O consultor faz a análise do texto nas obras, confere a clareza das informações para a população com deficiência visual, levando em consideração os cegos congênitos, os cegos adventícios, e as pessoas com baixa visão. Também dá indicações na narração.

O narrador, que pode ser o roteirista ou não, precisa, além de ter conhecimento da técnica da audiodescrição, ter preparação de voz e destreza para gravar as diversas obras e para sugerir, trocar uma palavra caso ela não caiba. Como o audiodescritor roteirista, é essencial que se aproxime dos usuários e compreenda a visão de mundo deles.

Dentro do processo de produção de uma audiodescrição, qual a importância de haver outros profissionais envolvidos?

O trabalho da audiodescrição é, no mínimo, realizado por três pessoas, o roteirista e narrador, o consultor e o editor de áudio. É um trabalho de coautoria. Às vezes a gente precisa de um consultor de conteúdo, quando o assunto é complexo e quando as nossas pesquisas não são suficientes. Como já foi dito, se a produção e o artista também estiverem envolvidos, já vira uma pequena multidão, ahahah!

A nível estadual, o edital do Funcultura inclui a acessibilidade como um requisito obrigatório. Já é um avanço, mas o que o poder público poderia fazer para melhorar a acessibilidade?

O Funcultura é exemplo de edital que está cada vez mais inclusivo. Não apenas por pontuar ações de acessibilidade, mas também por criar requisitos para regionalização, dando oportunidade para que os produtores e artistas fora do eixo da capital possam ser beneficiados, criando cota para mulheres, para as pessoas negras, LGBTQIA+, idosos, além de criar editais específicos para jovens moradores de periferia.

Talvez o poder público devesse olhar mais para equipamentos culturais e promover a acessibilidade lá. Buscar assessoria especializada para quando a pandemia acabar a celebração seja da maioria.

Além da programação de filmes, o VerOuvindo promove debates e oficinas (Foto: Thais Lima / Divulgação)

Você organiza o VerOuvindo, festival voltado para a discussão da produção audiovisual com acessibilidade, além da exibição de filmes, curta metragens e premiações. Como surgiu a ideia do festival? Quais resultados você pode citar até aqui? Sabemos que o cenário de pandemia é desfavorável neste momento, mas o público pode esperar para uma próxima edição em breve?

O Verouvindo vai para a sua sétima edição em novembro. Ele é um festival diferente, porque não apenas exibe filmes com acessibilidade, mas os produz também. Tem várias ações que acontecem no festival como: mostra competitiva de audiodescrição, e, agora, vamos iniciar com uma para Libras; uma jornada formativa, com apresentação de trabalhos e bate-papo pós-sessão; formação de público; engajamento de estudantes de vários cursos de graduação; bem como servir de local de prática para os recém-formados em curso de Libras ou de audiodescrição. Foi o primeiro festival no Brasil a exibir todas as acessibilidades gravadas. Experimentou novas tecnologias, como os óculos inteligentes, para transmissão das acessibilidades;  e, por tudo isso, foi vencedor do “Concurso de Buenas Prácticas de La Sociedad Civil del MERCOSUR em Accesibilidad Audiovisual”, 2018, recebeu o Voto de Aplauso da Câmara dos Vereadores da cidade do Recife. Teve sua quinta edição em 2019. O festival foi meu projeto de finalização de curso de produção cultural realizado pela Fundarpe em 2013 que se concretizou.

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Como avalia a acessibilidade no cinema hoje?

Temos a obrigatoriedade de ter acessibilidades nos filmes, temos os aparelhos padronizados para exibição de forma individual, como pediu a Ancine. Isso tudo levou tempo para se concretizar, participamos de consultas públicas engajamos as pessoas com deficiência para opinarem. Muitos cinemas de shoppings já estão equipados, desde 2019. Assistimos a Bacurau com os equipamentos – só é pedir na bilheteria. Mas o Governo Federal adiou essa obrigatoriedade um dia antes de ela entrar em vigor. Um retrocesso. A data limite é dezembro de 2023. Isso só beneficia os exibidores, que ficam, por ora, desobrigados de equipar suas salas. Uma lástima.

A acessibilidade já está sendo vista como um interesse acadêmico legitimo.  O VerOuvindo chega também a se constituir como um espaço de estudos?

Sim, sim. Como exemplo, a audiodescrição nasceu de uma de uma dissertação de mestrado, nos Estados Unidos. Está na modalidade de TAVA- Tradução audiovisual. Temos professoras, já aposentadas, mas atuantes, na Universidade Estadual do Ceará, na Universidade Federal da Bahia, na Universidade do estado do Rio de Janeiro, na Universidade Federal de Pelotas e na PUC Minas; enfim, é um número que vem crescendo. Mais estudantes fazendo nos cursos de pós-graduação explorando o tema. Durante meu doutorado, lecionei uma disciplina de acessibilidade para as graduações do Departamento de Comunicação Social. E isso serviu para iniciar alguns profissionais que hoje já atuam na área aqui no Recife.

O VerOuvindo tem muito material para quem quiser estudar sobre audiovisual acessível. Na minha tese de doutorado, esse termo (verouvindo) virou uma denominação para quem assiste audiodescrição aberta, pessoas que enxergam ou não. Um paralelo feito do termo “audiovisão”, de Michel Chion, quando ele fala que o som e a imagem são dissociáveis na hora de assistir a um filme.

Evento já teve sessões de curtas metragens em pontos descentralizados como Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, e em Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata Norte de Pernambuco (Foto: Divulgação)

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