Foto: Mauren Ercolani / Divulgação

O corpo do público seria elemento da obra de arte propriamente dita (Foto: Mauren Ercolani / Divulgação)

Por muito tempo as obras geraram distanciamento do público, agora artistas trazem novas percepções do corpo através da arte

Por Giovana Casimiro
De São Paulo

Ao longo da história, observa-se que a arte e o corpo caminham transversalmente. A arte representava o corpo, idealizava suas formas, distorcia seus ângulos, explorava suas dimensões. À medida em que surgiram novas possibilidades – inclusive, no âmbito tecnológico -, a arte passou a usar o corpo como instrumento, como obra, objeto. O artista passa a agir em meio ao público e, suas ações e intenções se transformam em obra e poética visual. Atualmente, a arte digital propõe uma exploração ainda mais profunda desse corpo, tão intimamente relacionado à arte: as obras de arte e tecnologia constroem uma relação de redescoberta entre o interator e seu corpo. Tirando-o do papel passivo e o colocando frente a diferentes percepções.

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O ser humano tem como sentido mais desenvolvido, a visão. E a arte, por um longo período, explorou em peso a visualidade. Ainda que determinados movimentos artísticos tenham feito uso de texturas e do apelo tátil – e, sem dúvida, possibilitaram um diálogo e reflexão -, o público sempre permaneceu numa condição de distanciamento da obra de arte. Na onda do interativo, do acessível, o artista que trabalha com novas mídias desenvolve projetos sensíveis, capazes de explorar as potencialidades do corpo quase que em “360º”. Visão, audição, tato, paladar, olfato. Pensar o corpo como componente da obra, ou ainda, como objeto sensível a tantos estímulos. A obra Martela, desenvolvida pelos artistas e , segue por esse caminho: trata-se de um dispositivo – similar a uma cama – composto por 27 unidades táteis – cubos/robôs que se movimentam de diferentes formas.

A obra "Martela": cada visitante, uma experiência (Divulgação)

A obra “Martela”: cada visitante, uma experiência (Divulgação)

O interator se deita sobre a obra e sente seu corpo ser tocado e movimentado por essas unidades, controladas por um aparelho similar a “um teclado”. Desta forma, são criadas “partituras” de composições táteis (uma analogia a música, no entanto, explorando a sensibilidade tátil do corpo humano). As reações do público são diversas: alguns acham relaxante, outros sentem desconforto, há ainda, os que sentem medo – de cair, de choques, dos movimentos etc. De uma forma ou de outra, a obra permite uma nova percepção dos movimentos corporais, viabilizando posições impossíveis de serem realizadas naturalmente pela anatomia humana. Para os curiosos e interessados a obra fica exposta até 1º de setembro no Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso (Avenida Paulista, 1313).

Logo, observa-se uma transformação no diálogo do público com a obra de arte e o artista. E em especial, a relação de arte<>corpo, que redescobre as potencialidades dos movimentos, das ações e reações, das paisagens invisíveis ao redor dos corpos, usando-o como instrumento essencial da arte. Como explana a autora francesa Anne Cauquelin, referência em diversos livros sobre Arte Contemporânea: “O mundo aberto pela obra ultrapassa o domínio próprio da obra e se projeta “além’. Essa simples constatação permite vislumbrar que decerto não haveria um único e apropriado “mundo aberto pela arte”, e sim uma pluralidade de mundos sobrepostos e emaranhados.”

A partir do momento em que o público se torna componente da obra pela ação de seu corpo, os diversos pontos de vista, as mais variadas experiências e interpretações se constroem, gerando possíveis realidades a cada nova interatividade.

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