Foto: Lucas França/Divulgação.

Que Pernambuco é um celeiro e tanto de música boa e de bandas com um DNA muito marcante, não é nenhuma novidade. Mas o som da Lado Fim do Mundo sim.

Formada em 2020 pelos integrantes Emerson Silva (Guitarra), 22 anos; Karol Melo (Vocalista/Guitarra base), 21 anos e Edberg Joan (Baixo), 21 anos, a Banda Lado  Fim do Mundo lançou o seu disco de estreia intitulado O Mesmo Lugar de Sempre, no dia 7 de janeiro, chegando as plataformas digitais como mais uma obra autoral produzida no Agreste Pernambucano entre tempos pandêmicos. Produzido por Wagner Mestrinho, responsável pela mixagem e masterização do EP, o trio surubinense iniciou seus trabalhos com o lançamento do single “Certo ou Não”, prosseguido do single “Lia”, ambos lançados no segundo semestre de 2021 como uma amostra do EP, que agora se encontra disponível na íntegra, mesclando a psicodelia com vocais radiofônicos e instrumentais que com certeza, vão te levar a uma viagem que navega por diversas frequências ao longo dos seus 26 minutos de duração. 

A nascente dos nomes da banda Lado Fim do Mundo e do disco O Mesmo Lugar de Sempre surge do intuito de expressar o sentimento pertencente a todo jovem de cidade do interior, cujo é que sua cidade é o fim do mundo e com ele, carrega-se todos os conflitos internos originários desse cenário: ‘‘A vida noturna surubinense instigou na criação deste nome, por sermos de uma cidade pequena, sempre convivemos com as mesmas pessoas nos mesmos lugares, e o pensamento de que o lugar que crescemos não apresenta uma diversidade de expansão e de diversão. Alimenta o pensamento de que estamos vivendo na cidade, que é no imaginário popular, denominada de fim do mundo’’, afirma Émerson, guitarrista e idealizador da banda. 

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Essa sensação partilhada de que esse lugar é o mesmo que assola e impede de crescer, aflorando as mais diversas questões é o principal expoente para a inspiração das composições das cinco faixas do EP, que tem capa assinada pela artista surubinense Manu Roff. A imagem carrega um recorte da Usina, marco histórico no centro da cidade, ilustrado em uma miscelânea de cores e texturas, que forma a representação simbólica das mentes caóticas, em meio a um espaço que traz o ponto de encontro para reflexão da pessoalidade e de tantas angústias dos jovens que são encobertas em meio ao dia a dia, mas que se mantém vivas a cada vez que passam por esse ‘‘mesmo lugar de sempre’’, nesse caso, simulado pela Usina.

A banda tem como influências nomes como Boogarins e Tagore. (Lucas França/Divulgação)

‘‘Ela (a Usina) principia o lado do fim do mundo do surubinense, é o lado do fim do mundo das pessoas que trabalham no interior, do artista que procura algum reconhecimento na cidade, é o momento que você tá voltando pra casa e lembra do que aconteceu no dia, naquele rolê, você olha pra Usina e se pega olhando para o seu interior, é de certa forma, um pertencimento para quem mora aqui’’, revela Roff. A artista detalha o processo criativo em que utilizou de um trocadilho com a ajuda da camuflagem de um jornal para simular os sentimentos rasgados, reforçando assim, o sentimento e expressividade do conteúdo lírico presente no álbum.

Em seu repertório influenciado por Boogarins, Tame Impala e algumas figuras pernambucanas como Tagore e Lia de Itamaracá, que é homenageada em uma das canções do álbum, “Lia”, a banda dá um gostinho da época em que o rock progressivo dominava o mundo do rock com solos complexos e instrumental com aquela característica descompassada. Indo na contracultura da era de streaming, dominado pelas músicas curtas que encabeçam o topo das playlists, a Lado Fim do Mundo apresenta faixas mais longas com composições que evocam o mundo em geral, conflitos interiores e também a densa relação de espaço e pessoalidade dos integrantes com a cidade, levantando uma mensagem que conversa diretamente com a juventude. É um claro recorte da atualidade que gera rápida identificação e ultrapassa a barreira do Agreste Pernambucano, afinal, ‘‘o mesmo lugar de sempre’’, pode vir de qualquer parte, de qualquer momento, de qualquer mundo, cumprindo a promessa do conceito que conecta o álbum do seu início ao fim. 

Incorporando o dream pop, neo-psicodelia, rock alternativo e o underground, o disco faz um passeio imaginário cheio de camadas, embalado por sintetizadores com batidas suaves em slow-motion que guiam as músicas, guitarras que aparecem com mais detalhes criando uma atmosfera bucólica, mas ao mesmo tempo bem aconchegante, abrindo espaço também para saborearmos novos sons e gêneros como o shoegaze, que vem da mistura do rock de garagem com o rock psicodélico. Tudo isso unificado a bagagem de música popular brasileira que permeia a tônica deste trabalho.

‘‘A gente se inspira em artistas independentes que estão de certa forma próximos de nós, algumas delas são as bandas Bule e Guma, grupos recifenses que carregam potência e suavidade em suas músicas, além do também pernambucano Tagore e os goianos da Boogarins, que por sua vez nos inspiram com a originalidade de suas produções’’, explica Edberg, baixista da banda.

Um ponto particular que chama atenção são as demarcações de tempo bastante autênticas entre os instrumentais de algumas músicas como na poderosa ‘‘Certo Ou Não’’ e ‘‘Carretero’’, em que são feitas propositalmente algumas pausas ritmadas e transições que deixam as produções mais inventivas e singulares.

A Banda fez sua estreia no evento ‘‘Luá do Fim do Mundo’’, promovido pelo Reduto Coletivo, espaço colaborativo de artes integradas de Surubim, no último dia 15 de janeiro, apresentando as canções do álbum pela primeira vez junto aos artistas Luanda Luá e Gil e teve a faixa ‘‘Lia’’ incluída em uma das playlists indies mais populares do Spotify, A Indie Brasil.

A capa do álbum. (Divulgação).

Com distribuição do selo paulista Tratore, o disco O Mesmo Lugar de Sempre encontra-se disponível para streaming em todas as plataformas digitais. Ouça: 

Acompanhe o trabalho deles no instagram.com/ladofimdomundo

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