Foto: Divulgação.
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DC e o autor Rafael Albuquerque foram certos em cancelar a capa acima. “É preciso se colocar no lugar do outro e considerar”

Da Revista O Grito!

A polêmica em torno da capa alternativa da revista Batgirl #41 ultrapassou as discussões dentro do meio especializado em quadrinhos e chegou à grande imprensa. Um resumo rápido: o artista brasileiro Rafael Albuquerque desenhou uma capa que fazia referência à obra A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland. Na obra há uma violência sofrida pela personagem e há uma dúvida sobre um possível estupro. O próprio Rafael pediu à DC Comics que não usassem a ilustração.

Um resumo ainda mais rápido: a indústria de HQs e seus leitores ainda é, em grande parte, machista.

A capa foi divulgada na sexta passada e foi uma entre 25 variantes para comemorar os 75 anos do vilão Coringa. “Minha intenção nunca foi ferir ou incomodar ninguém pela minha arte. Por essa razão, recomendei a DC que a capa variante fosse retirada. Estou muito satisfeito que a DC Comics entendeu as minhas preocupações e não vai publicar a arte da capa em junho, como anunciado anteriormente”, disse Rafael em um comunicado.

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Uma visita aos comentários no UniversoHQ dão um vislumbre de como o público leitor de quadrinhos de super-heróis (ao menos os mais tradicionalistas e antigos) é intolerante e não aceita as mudanças da sociedade. E uma das principais mudanças é que hoje é possível existir um título que tenha jovens mulheres como público-alvo. É o caso da HQ da Batgirl, que tem uma proposta ligada ao chamado “young adult”, um rentável gênero literário que rendeu diversas franquias. É uma proposta mais leve, com uniforme mais divertido e uma linguagem bem juvenil.

As leitoras que são o foco dos autores e compradoras da revista poderiam se sentir incomodadas com a imagem que faz referência ao abuso de mulheres. Para alguns usuários na internet as garotas de 14 a 17 anos não possuem esse direito. E ainda chamaram o autor, a DC Comics e leitores que apoiaram a exclusão da capa de “patrulhadores” e “conservadores”.

A nova fase da Batgirl tem um tom mais leve e tem como público meninas de 14 a 17 anos. (Divulgação).
A nova fase da Batgirl tem um tom mais leve e tem como público meninas de 14 a 17 anos. (Divulgação).

O blog feminista de cultura pop, Colant Sem Decote tem um ponto interessante:

Gente, isso não é conservadorismo, isso é mudança – e mudança é uma coisa boa. A nossa sociedade é plural e o mercado é grande o suficiente para todo mundo ter representação. Quando um grupo de fãs vocaliza a sua insatisfação com uma capa por conta do que ela representa para a personagem que está no centro, o correto é escutar – não xingar e ameaçar. Conservadorismo é quando alguém que foi historicamente diminuído consegue espaço para mostrar a sua insatisfação e a horda de fanboys injustiçados cai matando em cima. Conservadorismo é não questionar o status quo dos quadrinhos que sempre foi o de vitimar e diminuir as personagens femininas em prol dos personagens e fãs masculinos.

O próprio Rafael, dada a polêmica, deu declarações sobre a repercussão. “A indústria de HQ sempre foi machista. É importante revermos nossos valores e nossas posições”, afirmou em entrevista ao UOL. “É preciso aprender a ouvir, ter empatia por quem tem uma opinião diferente da sua. Se colocar no lugar do outro e considerar”. E completa: “A liberdade de expressão não pode se resumir apenas ao que você gosta ou quer. Liberdade tem que vir com responsabilidade.”

Nossa colunista Dandara Palankof já denunciava o machismo entre leitores de HQs na sua coluna “Garota Sequencial”. No título provocador “Leitores machistas e homofóbicos: parem de ler HQs” ela falava do grupo de seguidores da indústria de comics que não acompanhou a passagem dos tempos.

A Piada Mortal é um clássico dos quadrinhos. Na obra Batgirl é aleijada e - para muitos - estuprada pelo Coringa. (Divulgação).
A Piada Mortal é um clássico dos quadrinhos. Na obra Batgirl é aleijada e – para muitos – estuprada pelo Coringa. (Divulgação).

“Machismo no mundo das histórias em quadrinhos não é novidade pra ninguém. Qualquer leitor de gibi minimamente sensato sabe que essa mídia, tal qual todas as outras, tem sua porção mainstream dominada por clichês e representações do ideário feminino. Na real, acabam servindo apenas à fantasias onanistas do público masculino, afastando qualquer possibilidade de que um maior número de leitoras passe a se interessar pelo universo dos super-heróis – que ainda é uma grande porta de entrada para a leitura de HQs.”

Sites que tradicionalmente cobrem a cultura nerd relacionada aos quadrinhos mainstream dos EUA, como o Judão, afirmaram que a capa apareceu no momento errado e no lugar errado.

“Essa capa, com o Coringa “forçando o sorriso”, o revólver apontando pra baixo e a cara da Batgirl, Barbara Gordon, APAVORADA, é genial pra quem é fã daquela história. Linda, mesmo. Mas equivocada. Não a arte, o momento em que ela aparece, em qual revista aparece, e o tom que sugere. (…) Rafael Albuquerque não fez nada de errado, e a DC fez o certo.”

Ninguém tem dúvida que a arte de Rafael Albuquerque é INCRÍVEL e que temas como estupro e violência podem ser tratado nos quadrinhos, como já fizeram diversas obras, entre elas A Piada Mortal já citada. O problema, como tudo na vida, é o contexto. E o contexto aqui, além de não acrescentar em nada ao título da Batgirl, ainda ofende sentimentos de uma parte do público. Ninguém quer isso. Ou não deveria querer.

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