Cauã Reymond durante a cena de Pedro, onde interpreta o primeiro Imperador do Brasil. (Foto: Fabio Braga/Biônica Filmes)

A viagem às sombras de Dom Pedro e o retrato da escravidão no novo longa de Laís Bodanzky

A Viagem de Pedro desconstrói a visão heróica da figura do ex-imperador do Brasil contando com elenco de peso e entrega de Cauã Reymond

A Viagem de Pedro, longa de Laís Bodanzky, já em cartaz nos cinemas, poderia bem dar plural ao título porque além do deslocamento físico retratado, possibilita verdadeiras viagens ao subconsciente de Dom Pedro I, que nesta visão mais intimista, pouco tem de Dom. O enredo mostra o monarca cheio de traumas da infância, infiel, agressivo. A travessia do Atlântico, do Brasil rumo a Portugal acompanha os tormentos de um homem considerado herói pelo registro oficial, enquanto ao mesmo tempo desconstrói essa visão, num roteiro imerso ao clímax de 1830, ambiente de guerras, conflitos de terras e escravidão.

O filme é uma coprodução Brasil-Portugal pelas produtoras Biônica Filmes, Buriti Filmes, O Som e a Fúria e a Globo Filmes, com distribuição da Vitrine Filmes.

A roteirista, diretora de cinema e teatro Laís Bodanzky coleciona sucessos reconhecidos no Brasil e exterior, como o primeiro longa Bicho de Sete Cabeças (2001), e os seguintes Chega de Saudade (2008), As Melhores Coisas do mundo (2010), Como Nossos Pais (2017). “O cinema é sempre um espaço de reflexão. Sempre tem o que a gente puxar e perceber, porque é uma história contada por um ponto de vista. De fato, neste filme, eu emprestei o meu olhar”, contou Laís sobre o roteiro de A Viagem de Pedro.

 A diretora explica que o convite para contar a história de Dom Pedro I surgiu do ator Cauã Reymond, protagonista do longa, e do produtor Mario Canivello. “Eles me procuraram com um livro sobre a vida do Dom Pedro I, pensando num projeto para trabalharem juntos. Achei interessante focar num pedaço da história do Brasil com um olhar de hoje. Aceitei o desafio com uma carta livre que eu pudesse narrar como eu achasse que deveria, fazendo um filme de autora.”

Sergio Laurentino e Cauã Reymond: o desafio de retratar a escravidão. (Foto: Fabio Braga/Biônica Filmes)

Embarcados na fragata de 1831, num contexto em que, rejeitado por Portugal, considerado traidor, e expulso do Brasil, o imperador mergulha numa melancolia existencial, responsável pelo reviver das memórias e o tormento de seus próprios demônios. O longa leva esteticamente o espectador para dentro da embarcação, com uma filmagem imersiva que se move, balança de forma trôpega dentro dos espaços apertados. Buscando o fidedigno, as cenas que se passam no convés tiveram o Cisne Branco, barco-escola da Marinha Brasileira, réplica da época como palco, enquanto as gravações internas reproduziram cenograficamente um navio fiel e realista.

A ambientação perpassa a trajetória do ex-imperador e tange com êxito as histórias paralelas da época, em que mazelas como a escravidão não poderiam deixar de serem expostas. Sobre isso, Laís Bodanzky considera que a construção de um roteiro nestas condições foi desafiadora. “Eu não tinha noção do desafio que tinha topado. Foi na hora do mergulho, de realmente sentar, pesquisar e escrever que percebi ‘É muito difícil falar de um pedaço da história do Brasil com consciências que hoje a gente já tem na sociedade’. Isso, principalmente quando temos duas vertentes muito importantes e atuantes não só no Brasil como no mundo, que é o movimento feminista, muito capitaneado pelo Me Too, e o movimento preto, que ganhou destaque a partir da morte do Floyd, com o Vidas Pretas Importam.”

O filme foi escrito e filmado em meados de 2018, antes do assassinato de Floyd ocorrer, ainda assim, a diretora pondera: “A pauta preta no Brasil sempre existiu, e eu estava atenta a isso sabendo que não sou preta. Pensei: ‘como é que eu vou contar essa história desse homem branco, com olhar contemporâneo?’ É sabido que o Brasil de 200 anos atrás era de sua maioria de pessoas pretas, como é até hoje, naquela época ainda mais, com toda sua diversidade, histórias de vida de que foram arrancados de várias regiões da África com a sua cultura, religião e língua. Isso está nos livros, mas quem eram essas pessoas? Sempre tem um painel, você percebe o clima do que era o Brasil naquela época, mas você não sabe exatamente quem eram aquelas pessoas. Como falar daquela época sem trazer personagens específicos que dessem conta dessa diversidade do Brasil? Foram dois desafios na construção dessa história que eu me deparei nesses períodos do roteiro, da filmagem e da montagem.”

Dom Pedro após ser resgatado do afogamento: inseguro, doente, atormentado. (Foto: Divulgação).

Construir personagens que não tiveram suas trajetórias captadas nos registros históricos mais tradicionais como o próprio Dom Pedro I exigiu um trabalho árduo de pesquisas e contribuições. “Todos os personagens que estão no filme, são a partir de histórias de pessoas que existiram. Seguimos uma base e depois fomos criando novas camadas. Existe uma coleção chamada Achados e Perdidos da História que tem um volume que é Escravidão, e quando eu li busquei inspiração para muitos dos personagens”, revelou a roteirista.

O longa reúne um elenco internacional e experiente, o qual, segundo a diretora contribuiu para a reformação das narrativas e das formas de abordagem dos personagens no próprio set de filmagem. A diversidade de línguas, dialetos africanos próprios de determinadas regiões, a expressão candomblecista marcante nas cenas, as cantorias nos momentos de alívio do trabalho são fruto das diversas nacionalidades e experiências de um elenco global entregue à representação do Brasil de 1800. Nos destaques estão a portuguesa Isabél Zuaa, o guineense-português Welket Bunguê, o brasileiro Sergio Laurentino, o congolês Denangowe Calvin e a brasileira Dirce Thomas na encenação das vidas pretas escravizadas. Atuações que fazem rir, chocam e comovem. Nomes como Luise Heyer, Victoria Guerra, Rita Wainer, Isac Graça, e Francis Magee, ator de Game Of Thrones, se juntam a um elenco com atores franceses, irlandeses, e de diferentes partes da África.

A Viagem de Pedro parece ser um presente mútuo de Cauã Reymond para Laís Bodanzky e vice e versa. A proposta da diretora em “trazer as sombras desse Dom Pedro” revelam uma encarnação propriamente dita, cênica e até mesmo física de Cauã em sua interpretação, neste nível, inédita para o cinema. As faces e nuances de um não herói, atormentado física e mentalmente rendem momentos ilustres, profundos e de devoção ao personagem que alcançam o impecável. Cauã triunfa como Pedro, e alavanca os triunfos do próprio longa, atualmente, um dos semifinalistas na campanha para representar o Brasil no Oscar.

Laís, por sua vez, entrega um roteiro entre as viagens físicas e mentais de Pedro, que segundo ela, não é sobre um fato histórico, ainda que neste ano sejam comemorados o bicentenário da independência, mas que tem potencial para ser histórico diante do cinema internacional.

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