Foto: Divulgação/Netflix.

Adaptação de Sandman é uma narrativa fidedigna às HQs, mas com brilho próprio

Trazendo mais representatividade para os personagens, a história dos quadrinhos de Neil Gaiman é bem representada na adaptação

Adaptação de Sandman é uma narrativa fidedigna às HQs, mas com brilho próprio
3.8

O mundo das adaptações de quadrinhos e livros em séries e filmes assusta bastante aqueles que admiram as obras desde seu princípio. Com medo de que a narrativa se perca, personagens importantes se tornem meros coadjuvantes e grandes mudanças na trama atrapalhem os arcos desenvolvidos na história, muitos optam por sequer assistirem a versão. Por vezes, porém, os novos roteiros conseguem fazer jus ao produto original e parece ser capaz de unir o público fiel e dedicado de antes, com os novos admiradores e até mesmo com os espectadores casuais. 

Esse parece ser o caso de Sandman, nova série da Netflix que estreou na sexta-feira (5). Baseado em uma das franquias de HQs mais famosas do mundo e adorada por um grande contingente de fãs, a série consegue se manter fiel à essência da narrativa e dos personagens.

Publicado pela primeira vez em 1988 pela DC Comics (e mais tarde parte do famoso selo Vertigo), Sandman foi criado pelo escritor inglês Neil Gaiman e trazia a história de Sonho, um dos sete Perpétuos (Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio) que é capturado por um humano durante um ritual para invocar a Morte, mas que acaba por dar errado e acarreta na prisão de Sonho por mais de um século. Durante o tempo em que está aprisionado, os artefatos do personagem são tirados de si e o seu reino, o Sonhar, se deteriora cada vez mais, criando um caos tanto no mundo dos sonhos quanto no mundo dos humanos. Assim, a narrativa acompanha Sonho em busca dos seus pertences de volta e do restabelecimento dos mundos. 

Mantendo a mesma narrativa, a série conta com o ator Tom Sturridge protagonizando Sonho, Gwendoline Christie como Lúcifer, Kirby Howell-Baptiste como a Morte e Mason Alexander Park como o pesadelo Coríntio. Na produção é possível observar cenas quase totalmente idênticas aos dos quadrinhos e diálogos completos que remetem às mesmas situações e discussões que estão presentes na história original. A trama adapta os dois primeiros arcos da HQ, Prelúdios e Noturnos e A Casa de Bonecas.

Neil Gaiman se envolveu por completo no trabalho de transportar os personagens das páginas das HQs para a televisão e é possível notar seu sucesso. O Sonho da série parece realmente ser uma versão em vida do personagem imaginado por Gaiman, com os mesmos traços lânguidos, espírito pós-punk oitentista e características que remetem à fleuma dos heróis trágicos. Sturridge conseguiu não apenas alcançar essa semelhança física como nos entregou uma interpretação contida, tensa, sempre retesado em seus sentimentos, exatamente como Sonho nos quadrinhos.

Nos demais personagens, apesar da fidelidade, é importante perceber a atualização para 2022, criando um cenário de mais representatividade. A Morte, por exemplo, é interpretada por uma mulher negra e o personagem bibliotecário Lucien nos quadrinhos, se tornou Lucienne na adaptação. 

Essas mudanças mostram a importância de encarar a representatividade com olhos de seriedade e em especial na adaptação de Sandman, uma história lembrada por ser vanguardista e muito à frente de seu tempo. As mudanças são encaradas com a normalidade que devem ser e a narrativa, em nada alterada. 

Com a história fantástica se desenrolando, o respeito às HQs é inegável e a série é levada com o carinho necessário para criar uma produção nova que seja capaz de acrescentar e retirar pontos sem que a história se transforme em uma colcha de retalhos. 

Dessa maneira, a série encontra o seu ritmo de contar os arcos já desenvolvidos nos quadrinhos sem ignorar as mudanças, mas abraçando-as e, apesar de não atingir a perfeição, é uma adaptação boa e genuína de um trabalho complexo.

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