Morreu Antonio Bivar, aos 81 anos, vitimado pela Covid-19. Era um escritor, um dramaturgo. Ponto.
Mas não é só isso. Nunca é só isso.

Bivar era mágico para mim. Está num mesmo patamar que coloco Caio Fernando Abreu e Carlos Heitor Cony, meus maiores companheiros de páginas, se é que assim posso dizer.

Bivar era uma das pessoas que eu mais desejei ter conhecido na vida. E nunca o conheci pessoalmente. Mas li muito. E isso é de certa forma conhecer alguém no que ela tem de mais íntimo talvez. Ou real.
Morre Bivar. De uma doença ampliada pela estupidez mais violenta que essa sociedade atual, namoradeira de neofascismos obscurantistas, pode conceber.

Eu preciso reorganizar pensamentos. Bivar gostava da ideia de ser um memorialista. Contava histórias da própria vida e com isso dava testemunhos geracionais prenhes de vida.

Eu necessito voltar a 1986. Vejo a mim mesmo descendo de um ônibus um quarteirão da casa de uma amiga chamada Adelaide. Perto da casa dela havia um pequeno ‘sebo’. Início de um bairro chamado Guamá. Na livraria de livros usados, deparei com um chamado Verdes Vales do Fim do Mundo. O nome me chamou a atenção. Li a orelhinha e fiquei entusiasmado. Era um livro de memórias sobre um período da contracultura. E eu, um bicho-grilinho entre a adolescência e idade adulta, estava cada vez mais envolvido com a literatura que vinha à margem, descobrindo Caio F, Ana C., Marcelo Paiva, Leminski, Ginsberg, Ferlinghetti. Tão doce a descoberta.

Eu filava almoços na casa de Adelaide às vezes, evitando voltar para Icoaraci. E, depois, li o livro em um dia, entre a beira do rio na UFPA, o ônibus de volta para casa e meu quarto. E liguei entusiasmado para minha namorada à época, uma moça magrinha e amante dos livros como eu, chamada Tereza Catarina, que também se apaixonou por aquela narrativa breve, onde Bivar dividia as páginas de suas memórias tendo como personagens Caetano, Gil, Mautner, José Vicente etc.

Bivar era doce. Contava histórias de festivais e de peças teatrais, de caronas por países europeus, de comunidades hippies, de afeto e amizade. De amor, de sonho e camaradagem.

O livro se tornou um dos meus cinco preferidos em qualquer listagem boba a se fazer sobre literatura pessoal que eu fizesse, como um Nick Hornby.

Bivar era o cara que abriu passagem para os punks nos meios de comunicação tradicionais. Escreveu aquele livrinho O que é punk, da Brasiliense. Bivar não era punk. Nem hippie. Nem dândi. Era só uma pessoa que certamente dava vontade de ser amigo. Queria tê-lo chamado assim.

Em 1995, caí de amores por uma moça chamada Márcia. Era bióloga. Juramos juras eternas, planos tão sólidos como um rio que vai e vem. Ela morava em Fortaleza. A história ficou naquele breve período, mas ela levou, ofertado por mim, o meu exemplar de Verdes Vales…como prova de solidez sentimental. O livro talvez nem esteja mais com ela.

É outro exemplar, o que está aqui em casa, tantos anos depois. Antes disso, ainda nos anos 80, emprestei esse mesmo exemplar para Fran. Era o segundo semestre de 1987. Fran terminou de ler e me ligou aflita, ansiosa. Precisávamos viajar, pegar carona, fazer alguma coisa assim. E meio de brincadeira fomos de carona até o balneário de Mosqueiro, em um pampa. Era a sensação de ânsia por liberdade, por ser jovem, o que inspirava aquelas páginas.

A quase todas as pessoas que conhecia e eu sabia gostavam de ler, indicava o livrinho de Bivar. Michelle, que há 15 anos me acompanha nessa estrada maluca de vida, também se apaixonou por Bivar, por sua humanidade, sua doçura, sua gentileza e leveza diante de tudo. Michelle me deu a notícia da morte dele nesse domingo frio. Eu leio a biografia de Will Eisner, o genial autor de Spirit e ele sempre fala de seguir os sonhos. É um pouco Bivar isso.

A gente se abraça na cozinha e temos os olhos úmidos. Faz frio e o tempo não é mais moço.
Gabriel, meu filho, me pediu indicações de livros para ler. Verdes Vales está ali, ao lado de Morangos Mofados, de Caio F.

Quando eu ministrava aulas de jornalismo em Belém, presenteava quem houvesse se destacado no semestre com um livro. Em um desses semestres, foi Wanessa, que eu chamava de Ruiva, por conta de seu cabelo extremamente vermelho e para não confundir com outra Vanessa, essa com V, que era da mesma turma. Wanessa me relatou no semestre seguinte ter lido o livro nas férias e ter ficado hipnotizada.
Bivar causa um pouco isso. Depois de Verdes Vales, li ‘Longe daqui aqui mesmo’, esse título belo, assim como ‘Mundo adentro vida afora’. Todos repletos de boas lembranças, histórias evocativas de um tempo que pareceu sempre ter sido bem vivido.

Bivar morreu. Bivar viveu. Um Antônio. Um conselheiro sem conselho emitir.

E volto então a 1984. Estou em frente ao teatro Waldemar Henrique, no centro de Belém. O cartaz anuncia uma peça chamada Alzira Power ou o Cão Siamês de Alzira Porra Louca.

Texto de Bivar. Premiado. No palco Salustiano Vilhena e Henrique da Paz. Gruta era o nome do grupo. Do meu pedaço de chão, Icoaraci. Dias depois meus amigos Edilene e Erick irão também assistir. Mas não naquele instante. Não naquela noite. Compro o ingresso. Estou sozinho. Entro. As luzes se apagam. A peça começa. Minha vida muda para sempre.

Bivar. O que dizia “eu era feliz todos os dias a troco de qualquer coisa que tivesse gosto de primeira vez”.
Me falta um pouco de ar. A noite é escura, mas a lua brilha. E eu penso na vida vivida ao lado dos livros de Bivar.

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