Adeus a Godard: Crítica brasileira comenta influência do diretor para a liberdade do cinema

Obra do diretor foi pautada pela quebra de modelos narrativos no cinema e pela sensibilidade de buscar novas possibilidades no uso da imagem

Godard em Berkeley, em 1968: olhares sobre a imagem. (Creative Commons).

Jean-Luc Godard, importante nome do cinema mundial, morreu nesta terça (13), no conforto de sua casa, na cidade de Rolle, na Suíça. Aos 91 anos, o cineasta francês influenciou gerações e até hoje é um exemplo de artista capaz de questionar e quebrar as regras do cinema, criar um mundo de referências próprias e ser prolífico e inquieto artisticamente até os seus últimos dias. O diretor, que começou a carreira como crítico, foi um artista que se debruçou sobre o significado da imagem, um provocador de sua área, alargando os limites do audiovisual.

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Ativo desde meados dos anos 1960, ele fez parte de uma geração contestadora, do Maio de 68 e influenciou diferentes gerações de cineastas e cinéfilos ao redor do mundo. No Brasil sua relevância se fez sentida inclusive na música, de Novos Baianos a Paralamas do Sucesso, passando por Legião Urbana.

“A gente perde uma referência muito importante para os estudos da imagem, estudos de cinema e isso é muito ruim. É sempre muito ruim perder pessoas que nos lançam desafios, mas a partir da sua obra ele vai ser sempre um eixo para onde podemos olhar”, afirmou a crítica de cinema Carol Almeida. O francês criou uma nova maneira de fazer cinema desde o movimento Nouvelle Vague, que ele mesmo inaugurou e, segundo Almeida, influenciou novos movimentos como o Cinema Novo, que não existiria da maneira que existiu sem sua contribuição.

Cena de Uma Mulher é uma Mulher. (Divulgação).

Para o crítico, pesquisador e cineasta pernambucano e editor-executivo da Revista O Grito!, Alexandre Figueirôa, Godard foi um exemplo inovador sobre como os filmes podiam trazer poesia: “Quando vi Acossado pela primeira vez descobri que o cinema podia quebrar as regras estéticas e as convenções, ser descontínuo, e que a imagem em movimento tinha uma poética própria. Nunca mais deixei de ver os filmes de Godard”.

“Sou de uma geração que descobriu a Nouvelle Vague no rastro do Maio de 68 e dos movimentos de contracultura nos meados dos anos 1970 e com ela os filmes de Godard, o Cinema Novo, o cinema underground, Andy Warhol, tudo junto e misturado. Foi generoso por compartilhar suas inquietações, suas indagações políticas e por fazer da arte cinematográfica esse lugar de busca de si e dos outros pela poesia. Deixará muita saudade”, completou.

Com um poder filosófico latente, a obra deixada por Godard se caracteriza pela autenticidade em apresentar um mundo novo, porém capaz de dialogar com o real, trazendo questões diversas em seus diálogos poderosos e sensíveis, além dos roteiros delicados e a direção moderna, que quebrava convenções de sua época.

Para a realizadora e professora Gabriela Alcântara, os filmes do francês se perpetuam em suas memórias e habitam o seu imaginário afetivo, levando-a a criar e experimentar cada vez mais.

“Eu entendia meu amor pela cultura e pensava em trabalhar escrevendo e pesquisando sobre filmes, quando aquelas imagens chegaram e me arrebataram. Godard tirou o conforto domesticado do meu olhar, entendi que cinema era minha paixão. Ele tinha uma inquietude que durou até o fim de sua vida neste plano, amou a linguagem cinematográfica e brincou com ela”, explicou a professora.

A jornalista, pesquisadora e crítica Luiza Lusvarghi descreve a obra de Godard como autênticos ensaios “que transitavam entre o documental e a ficção”. O diretor revolucionou o cinema com liberdade e sensibilidade. “A leveza dos novos equipamentos, que possibilitaram a ideia de uma câmera na mão e uma ideia da cabeça, o grande lema do cinema novo e da Nouvelle Vague, encontraram em Jean-Luc Godard um momento privilegiado”.

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