DESABORES DE ALANIS
Novo disco da cantora canadense está anos-luz de distância da relevância pop que ela conquistou no início da carreira
Por Talles Colatino

ALANIS MORISSETTE
Flavors Of Entanglement
[Maverick, 2008]

Alanis Morissette já foi, em vários sentidos, uma artista mais orgânica. Isso é fato mais que comprovado se compararmos o álbum que a tornou umas das mulheres mais influentes do rock, o Jagged Little Pill, com o seu mais recente trabalho, que chegou recentemente às lojas, Flavors Of Entanglement. O primeiro se mostrou ao mundo agarrando na vibe que começava a dominar as rádios no início da gelatinosa década de 90: a vibe da raiva. O grunge, orgânico como é, deu tapa na cara de muito pós-punk deprimido saído dos anos 80, mostrando uma urgência que o rock tinha esquecido nos anos 70. Urgência e raiva.

Apesar de longe do grunge, Alanis compreendeu muito bem esses “sentimentos de Seattle” e conseguiu decodificá-los numa sonoridade muito mais digerível. Com isso, fez de Jagged Little Pill o disco mais vendido dos 90, trabalho construído em cima de urgência e raiva semelhantes ao do grunge. Um disco de rock que chocava e seduzia por ser melodicamente simples e verbalmente chocante. Afinal, muito didática, Alanis ensinou muito bem como criar nosso inferno pessoal e mandar aquele ex que fodeu nossa vida pra queimar no centro dele.

Em Flavors Of Entanglement, além de ter escanteado a artista orgânica que Jagged e seus outros discos souberam sustentar, Alanis também mostrou uma aproximação da música eletrônica. Uma experimentação que soa, por ora, tão estranho quanto desanimadora. É o caso da faixa “Straijacket”, uma ótima letra desbocada numa roupagem electro broxante. É uma música que merecia estar num disco de Peaches ou até no Discipline da (nova) Janet Jackson, mas não aqui.

Mas o disco tem seus acertos. E se comparado ao trabalho anterior de Alanis, o sofrível So-Called Chaos, aí é que se garimpa bons momentos. Mesmo que estejam esses momentos formando uma esquizofrênica colcha de retalhos. “Citizen Of The Planet”, a faixa que abre o disco, é um deles. Ela poderia muito bem estar no (honesto) disco piração de Alanis, depois que foi “encontrar a si” numa temporada na Índia, o Supposed Former Infactuation Junkie. Isso porque a música segue a cartilha do Supposed no que diz respeito ao instrumental oriental e discussão de temas como a liberdade. “Eu sou uma cidadã do planeta/ Meu presidente é Kwan Yin/ Minha fronteira é num avião/ Minhas prisões: centros de reabilitação”.

Flavors Of Entanglement conta também com faixas que ganham forças com ouvidos atentos. É o caso de “Torch e Not As We”, que abordam “recomeços” em estágios diferentes. A música revela uma Alanis tendo que aprender a lidar com a saudade (talvez do seu “ex”, o ator Ryan Reynolds, atual de Scarlett Johansson). Das que flertam diretamente com a eletrônica, “Moratorium” e “Tapes” são as que merecem destaque. Em contrapartida, “Versions of Violence” parece música do Evanescence e “Giggle Again For No Reason” tem um quê de balada pouco inspirada (desculpem a redundância que vem agora) de Kylie Minogue. Passe longe.

Aquela Alanis que nos ensina alguma coisa está presente nas duas melodias mais bonitas e mais ligadas à velha Morissette. Uma é “Incomplete”, um desabafo à favor das lacunas que temos que preencher aos poucos na nossa vida. Um atestado à saúde emocional de qualquer um. A outra é a escolhida por Alanis como primeiro single, chamada “Underneath”. Com essa a lição é bem direta: salve seu próprio coração antes de começar a pensar no resto do mundo. Amém.

NOTA: 7,5

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=AIy5Cv0un9U[/youtube]

  1. Paulo… cara, você simplesmente escreveu TUDO o que penso, toda vez que leio uma crítica aos novos trabalhos da Alanis. Amo o FOE e, sinceramente, o considero o melhor trabalho da carreira dela. Adoro o trabalho do Guy (produtor do álbum) desde que conheci a extinta banda “Frou Frou” em parceria com a também genial, Imogen Heap. “Flavors” realmente não é “orgânico” como os primeiros discos da Alanis, mas é uma evolução madura e necessária na carreira da artista. O eletrônico foi usado com maestria e passa muito bem a essência obscura do disco.
    Em tempo: A era FOE, tem os melhores b-sides da Alanis, até hoje!

  2. O disco é bom, mas não é o melhor dela. Particularmente, eu não gosto de nada muito eletrônico e “Not As We” é uma das piores músicas que ela já fez (apesar da letra ser interessante).

    Destaco “In Praise Of The Vulnerable Man”. Uma balada Pop/Rock com cara da hit.

  3. Acho que a Alanis tinha de ”amadurecer” mesmo..Vou dar um exemplo…Pikachu podia evoluir pra Raichu..mas se ”evoluisse”..seria ruim uahauhaah..eu amo essa nova Alanis madura…mas não se compara com o rock de antigamente,porém se ela continuar no formato acústico eu curto..”If we were our bodies, if we……i’d be joining you”..música foda dela do Acústico mtv..ela tem de fazer letras fortes como essa.

    flw e ah tenho 16 anos kkkk

  4. Sinceramente não entendo porque tanta crítica negativa acerca do novo trabalho de Alanis… Pessoal, “Jagged…” já foi, os jovens daquela época já são trintões como eu, e a Alanis já se cansou de ser rebelde e mandar seus ex se foderem…ok ??
    Qual o problema de elementos eletrônicos junto ao rock ? Preconceito, só isso… Acho que é normal, graças a DEus, uma cantora de 34 anos estar mais serena, mas não menos criativa, como ela demonstra neste CD…
    Penso que esta adoração e nostalgia pelo “Jagged” devia acabar e estes críticos caírem na real que a Alanis cresceu como pessoa e como artista !!!
    E quer saber ? Adoro a Alanis visceral de Tapes, Not as we e Versions of violence… Adoro a Alanis sóbria, tiazona, mais madura que a idade que ela tem de Underneath, Incomplete, Madness. Adoro a Alanis alto-astral que tenta nos dizer que a vida tem um lado leve e descompromissado de Giggling again (como é bom colocar esta música no último volume num sábado á noite !!!!!!!!!!!!!!!)…

    E que se danem estes azedos que acham que os artistas tem que seguir uma cartilha de sucesso junto á crítica !!! E a Alanis já provou que não segue…. OK ???

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