Os bairros Boa Vista, Casa Amarela e Varadouro, de Recife e Olinda, interligam-se através de sentimentos na pernambucana , realizada pela produtora audiovisual 7ª Arte Cinema. A proposta, encabeçada pela diretora de fotografia Camila Silva e pelos diretores e roteiristas Marcelo e William Oliveira, vem sendo produzida há quatro anos de forma totalmente independente. Em três episódios, o drama gay conta três histórias, ressaltando temas e sentimentos existenciais como carência, alegria, medo e solidão, vividos pelos próprios autores.

“São situações vividas e ressignificadas por nós, concentrando-se principalmente nos sentimentos amorosos. Como artistas gays, estamos utilizando da nossa liberdade de criação para compartilhar e transformar em narrativa histórias que vivemos”, explica William. Ao todo, mais de 70 pessoas estiveram envolvidas de forma voluntária na produção. Mas, para concluir o último episódio, o trio precisou criar um financiamento coletivo online para cobrir despesas como transporte dos atores, aluguel de equipamento, direção de arte, alimentação, criação da trilha sonora e materiais gráficos.

Questionamentos permeiam a produção e buscam cercear as dúvidas e quebrar costumes. “Somos artistas gays e estamos utilizando da nossa liberdade de criação e escolhemos compartilhar nossas histórias, nosso amor, solidão, nossos medos e nossas origens. Nos encontramos no ano de 2014 e, desde então, entramos em um processo de analisarmos nossos relacionamentos amorosos, nossa relação com a família, com o bairro que moramos e principalmente, estudar como transformar e ressignificar essa análise em vídeo”, ressalta Marcelo.

As leis de incentivo que apóiam o cinema brasileiro estão ameaçadas e os artistas perceberam que vários projetos independentes estão sendo financiados por meio de vaquinhas e resolveram captar através dessa ferramenta. O processo de execução se sustentou dentro de uma horizontalidade nas relações entre os criadores – atores, diretores e toda equipe técnica.

“O estudo de fotografia da websérie caminhou muito junto ao processo de construção de cena e de seus personagens. Foi muito voltado a utilizar espaços reais, seus objetivos, luzes, cores, acolher ao máximo o que eles ofereciam, trazendo mais organicidade e simbolismo pra cada episódio”, destaca Camila.

Os bairros
O episódio Boa Vista apresenta o personagem Mateus (interpretado por Marcelo, que após o término repentino de seu relacionamento, tenta suprir sua carência e solidão nos pontos de pegação gay do bairro Boa Vista. O episódio Casa Amarela conta a história de Ítalo, um jovem gay de 25 anos (interpretado pelo ator William Oliveira) que reside no bairro com seus pais (interpretado por Célia Regina e Gilberto Brito). O episódio conta uma fase do personagem que vive em um paralelo: dentro de casa com uma relação superficial com seus pais e fora de casa com uma relação mais íntima e verdadeira com seu namorado. O episódio Varadouro, conta a história de um ator de teatro (William Oliveira) que convida um crush (Marcelo Oliveira) para assistir seu ensaio em um galpão abandonado no bairro Varadouro. Lá, assim como em vários relacionamentos amorosos, eles se sentem presos, enclausurados, sufocados e agredido.

“A ideia foi ter duas montagens distintas, a do Boa Vista mais cartesiana, do tipo narrativa clássica, com planos e contra planos, flashbacks, continuidade, etc… Já no Casa Amarela segui um conceito mais pessoal, penso que o início é o parto, e o fim o enterro, qualquer coisa entre esses dois é um retalho de uma vida. O Casa Amarela é uma colcha desses retalhos, bem mais solto, dando mais liberdade para o público criar as ligações internas da narrativa propositadamente mais livre”, avalia o montador João Maria.

A websérie foi lançada no canal no Youtube da 7ª Arte Cinema, que também realiza projetos de combate à violência contra mulher, leis dos direitos da paternidade e humanização de ambientes hospitalares.

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