Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação.
Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore torna franquia Harry Potter mais opaca
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Em 2022 a saga literária Harry Potter, escrita e concebida pela britânica J.K.Rowling, completa 25 anos de lançamento. A série de livros, composta por sete volumes, publicados entre o final dos anos 1990 e a posterior primeira década dos anos 2000, em todo o mundo, foi uma espécie de fenômeno entre o público geral, em especial o infanto-juvenil, resultando em um sucesso editorial sem precedentes. Sendo assim, não é de se espantar que Hollywood tenha rapidamente corrido para adaptar o universo mágico dos livros em uma longa franquia cinematográfica, que começou em 2001, e se encerrou dez anos depois, em 2011. Rowling, ao longo de todo este tempo, se mostrou uma criadora obcecada com o seu material, e sempre foi muito vocal e presente na mídia e entre os fãs de sua literatura. Mesmo firme e convicta em não querer continuar escrevendo obras inéditas que dessem continuidade ao enredo protagonizado e liderado pelo protagonista de suas histórias, Harry Potter, a autora, constantemente, entregava informações sobre personagens e curiosidades a respeito deles, como uma forma de alimentar o seu público e a ânsia deste por material original.

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Foi em um desses momentos de revelação sobre informações não presentes nos livros que a escritora anunciou a sexualidade de um dos personagens mais importantes e poderosos de toda a saga, o mago e espécie de conselheiro de Harry, Albus (em português brasileiro, Alvo) Dumbledore. Na ocasião, a notícia a respeito da homossexualidade de uma figura tão vital e basilar, mesmo que ficcional, dentro de uma saga com tamanha popularidade e relevância foi bastante celebrada, tendo a autora sido elogiada por sua atitude. Outro momento de destaque e boa repercussão a respeito de Rowling e do universo potteriano foi quando ela enalteceu a escolha de uma atriz negra para viver a personagem Hermione Granger, a melhor amiga e companheira pensante do protagonista, em uma montagem teatral inédita (trata-se de Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, que estreou em 2016, na Inglaterra) baseada em um recorte específico da história destes personagens enquanto adultos, lidando com problemas novos.

Estes acontecimentos, de certa forma, pareciam emoldurar uma imagem da autora que, aparentemente, teria a ver com mensagens edificantes e inspiradoras presentes em seus livros, a pintando como alguém ciente e atenta às demandas da sociedade por uma valorização e discussão sobre representatividade e pautas identitárias. Mas as recentes e constantes, ininterruptas, aparições de Rowling, envolvendo declarações transfóbicas de todo nível e preconceito, veio, e com razão, macular de vez a outrora figura “progressista” ou até, segundo alguns, ativista, da autora. Alguns podem buscar praticar uma espécie de separação entre obra e autor, como já tentaram fazer com, por exemplo, os cineastas Roman Polanski e Woody Allen, para citar nomes recentes, e assim se sentirem menos culpados na hora de continuar consumindo novos trabalhos destes artistas.

Na verdade, no caso de Rowling, a sua transfobia parece mesmo ter ofuscado suas últimas incursões criativas, em especial a de roteirista em novas adaptações para o cinema de uma sequência de filmes escritos e idealizados por ela. A realidade é que discutir vários dos temas acima elencados acaba sendo mais interessante do que falar sobre os lançamentos que envolvem estas adaptações, no caso a saga Animais Fantásticos, já em sua terceira parte, intitulada de Os Segredos de Dumbledore, com estreia nos cinemas nesta quinta (14).

Antes de chegar até aqui, respectivamente em 2016 e 2018, foram lançados os outros dois títulos desta nova empreitada cinematográfica, que rouba o título principal de um livro, escrito e publicado por Rowling em 2001, onde ela tece e organiza uma espécie de catálogo de criaturas mágicas, exóticas e raras do universo bruxo de Harry Potter, uma “obra acompanhante”, como costuma ser chamada. São eles Animais Fantásticos e Onde Habitam e Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, ambos dirigidos por David Yates, autor que já dirigiu várias produções da franquia principal, como Harry Potter e o Enigma do Príncipe e Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 e 2. Nestas duas primeiras produções de Animais, acompanhamos um novo protagonista, chamado Newt Scamander (interpretado pelo insosso Eddie Redmayne), que é uma espécie de zoólogo – magizoologista, para ser mais preciso –, responsável por capturar (você lembrou de Pokémon?) estes fantásticos animais, por todo o mundo. Os eventos desta nova saga se passam muito antes daqueles apresentados em Harry Potter, mas compartilham do mesmo universo mágico. Outros tantos (e muitas vezes, dispensáveis) personagens fazem parte do enredo, principalmente um novo vilão, o Grindelwald do título da segunda parte (serão cinco, por enquanto), que ameaça o universo bruxo.

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Outro imbróglio válido de se destacar na novela extra-filme (mais interessante que os próprios produtos finais, diga-se de passagem) é a do ator Johnny Depp, responsável por interpretar o moço malvado da história nos dois primeiros filmes. Depp acabou se envolvendo em uma disputa judicial sensacionalista com sua ex-companheira, a atriz Amber Heard, e acusado de assédio e abusos dos mais variados tipos, foi desligado da franquia. Na época, J.K.Rowling defendeu a permanência do ator, mesmo ele estando completamente cancelado de todo o universo; tanto trouxa, como bruxo, o que não ajudou a própria com suas pendengas. Para complicar ainda mais o cenário, outro astro participante da franquia, o ator Ezra Miller, que interpreta uma criatura atormentada e vilanesca, foi recentemente enrolado em um escândalo, onde foi preso por assédio e desordem. Ou seja, os tais crimes de Grindelwald parecem ter contaminado boa parte da equipe de Animais.

Nesta terceira parte – chegamos, finalmente –, como sugere o título, a trama gira em torno dos segredos guardados por Dumbledore, interpretado por Jude Law, excelente no papel, sendo responsável por uma cena impactante, logo no início da projeção, quando ele acaba falando mais um pouco sobre sua homossexualidade (o que tem gerado memes e piadas na internet, remetendo um dos tais segredos do título à realidade gay do personagem, quando na verdade as informações secretas são de outra ordem). Mads Mikkelsen, ator dinarmaquês, com cara de malvado, substitui Deep e entrega a sua versão, contida, de Grindelwald, em momentos pouco inspirados e enfadonhos. O enredo envolve estes dois personagens em uma espécie de tensão política do mundo bruxo, principalmente por causa de uma importante eleição que se avizinha, responsável pela escolha de uma liderança mágica que comandará uma instituição primordial, uma espécie de ONU da feitiçaria. Uma das candidatas ao cargo é interpretada por Maria Fernanda Cândido, que aqui tem pouco material para trabalhar, em uma participação meio parecida com a Rodrigo Santoro e seu conhecido momento “entra-mudo-e-sai-calado”, presente no icônico filme As Panteras: Detonando (McG, 2003). Em resumo: quantidade excessiva de informações e diálogos cansativos, personagens desinteressantes, tramas fracas. Enredo confuso, com momentos sobrepostos sem muito sentido.

Mads Mikkelsen substituiu Johnny Depp na franquia. (Warner Bros Pictures)

Sendo assim, a sensação que fica é a de um absurdo desperdício. Uma pena, pois a premissa desta nova franquia de filmes parecia interessante, pois a ideia de explorar o universo de Harry Potter pelo viés adulto poderia ter rendido bons resultados. Tudo fica ainda mais triste quando se constata a ausência de um filão com filmes comerciais dentro de estilos mais direcionados para a aventura e os enredos fantásticos. O Wizarding World, como é chamado o mundo expandido de Harry Potter, e Star Wars, são, talvez, os dois únicos exemplos recentes e competitivos de blockbusters que não sejam filmes de super-herói, da Marvel ou DC. E apesar de tantos erros e equívocos, ao final, trata-se de uma produção visualmente bem executada, com destaques para a direção de arte e trilha sonora, duas vertentes que enchem os olhos e ouvidos e operam como resistência e única fonte de motivação para o espectador continuar sentado em sua poltrona.

Um dos principais problemas, desde o primeiro filme de Animais, parece ser a onipresença de J.K.Rowling, que assina os roteiros, e do insistente e cansado David Yates, que deveria ter encerrado sua contribuição para este universo lá em Harry Potter e as Relíquias da Morte. Ele não é um cineasta interessante o suficiente para dirigir cinco filmes que precisariam de um olhar vibrante, fresco e não viciado para dar liga e emoção a um produto tão inócuo.

Dessa forma, a atmosfera que paira é a de uma completa melancolia. Animais Fantásticos acaba sendo afetado por uma espécie de maldição, com tantos problemas em sua produção, tanto em sua criação, como em seus bastidores. A nostalgia pura e simples dos leitores e fãs dos livros de “Harry Potter” não consegue sustentar tamanha tragédia. Talvez, em um futuro próximo, sem Rowling envolvida, e com novos e instigantes cineastas, os filmes possam ter um outro destino, uma nova chance. O que torna tudo ainda mais dramático quando se sabe que são previstos, para um momento próximo, dois lançamentos para o encerramento de uma planejada pentalogia. É desanimador pensar em Harry Potter e em sua trajetória, e, principalmente, o da sua autora. As adaptações cinematográficas dos livros nunca foram excelentes, mas geraram produções divertidas, empolgantes e eficientes, e muito deste resultado começou a se dar quando passou a existir uma troca constante de diretores para cada filme, tendo destaque a abordagem do mexicano Alfonso Cuarón e sua versão de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004). Mas com a presença e mão pesada cada vez mais insistentes de Rowling, e a assombração irritante de David Yates, não se pode esperar muita coisa do futuro. Como diz Dumbledore em uma das passagens do livro, “tempos difíceis e sombrios estão por vir, Harry”. Parece que eles já chegaram.

ANIMAIS FANTÁSTICOS: OS SEGREDOS DE DUMBLEDORE
David Yates
EUA/Reino Unido, 2022, 2h22min. 12 Anos. / Distribuição: Warner
Com Eddie Redmayne, Jude Law, Mads Mikkelsen

Em cartaz nos cinemas.

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