Foto: Enock Carvalho/Especial para O Grito!.
Foto: Enock Carvalho/Especial para O Grito!.

Mudou, mas continua o mesmo
Situação do festival reflete conflito geracional na cena cinematográfica. Formato caduco do evento e seleção fraca ameaçam afastar público

Por Alexandre Figueirôa
Da Revista O Grito!, em Olinda

Acho que chegou a hora de colocar os pontos nos is com relação ao que estamos observando na cena cinematográfica pernambucana, hoje, particularmente no que diz respeito ao Cine PE. Há uma sutil contenda se desenrolando por trás dos refletores e o mote dessa disputa é um enfrentamento entre o arcaico e o novo. Este tipo de situação não é nenhuma novidade no mundo das artes, aqui e alhures. Para não nos estendermos demasiadamente, podemos citar dois episódios ocorridos no campo do cinema, no século passado, em que traços desse mesmo tipo de confronto ocorreu.

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Uma delas foi a polêmica desencadeada pelo Cahiers du Cinéma com relação ao cinema francês nos anos 1950, cujo marco foi o artigo de François Truffaut, “Uma certa tendência do cinema francês” em que o jovem crítico questionava o sistema cristalizado de produção fílmica na França, mostrando como ele era burocrático, hierarquizado e pouco criativo. O embate, inclusive, foi um dos pontapés para o surgimento de um dos mais conhecidos e significativos movimentos cinematográficos: a Nouvelle Vague.

Nos anos 60, no Brasil, o mesmo se observou em atitudes tomadas pelos cineastas do Cinema Novo em relação aos seus predecessores e sucessores. Para se afirmar no cenário nacional e mundial, os cinemanovistas desqualificaram o que havia sido produzido até então no país e o saco de pancadas principal foi a chanchada. E curiosamente eles fizeram o mesmo com o cinema udigrudi de Bressane, Sganzerla, surgido após o êxito do movimento brasileiro, afirmando, sobretudo para os europeus, que os filmes dessa nova corrente seriam irresponsáveis e evasivos.

Já deu para perceber que estamos falando, entre outras coisas, de conflitos entre gerações. No cinema produzido em Pernambuco, de 1997 (ano de Baile Perfumado) para cá, podemos constatar a existência de diferentes gerações de realizadores. Paulo Caldas, Lirio Ferreira, Claudio Assis, Adelina Pontual, Marcelo Gomes, entre outros, são o que poderíamos chamar de os heróis da Retomada. Foram eles quem iniciaram essa nova fase do cinema pernambucano e projetaram a nossa produção, consolidando a imagem de um cinema autoral, ousado e diferente do que estava sendo feito no resto do país.

Embora todos esses cineastas continuem em atividade, uma nova leva de realizadores mais jovens entraram em cena a partir dos meados da década passada. Eles, de alguma forma, mantêm essa imagem de um cinema autoral e questionador, mas se distanciam de seus predecessores por uma série de razões que vão dos mecanismos de produção utilizados aos deslocamentos das preferências temáticas e enfoques da nossa realidade social, e também das escolhas estéticas.

Exibição de Era Um Vez no Oeste, de Sergio Leone, no Janela: Público quer filmes bons, não importa onde (Divulgação)
Exibição de Era Um Vez no Oeste, de Sergio Leone, no Janela: Público quer filmes bons, não importa onde (Divulgação)

Kleber Mendonça Filho, Daniel Aragão, Gabriel Mascaro, Marcelo Lordello, Marcelo Pedroso são exemplos desse grupo. Vale ressaltar que no plano nacional esses recortes geracionais também existem, como podemos observar em artigos que falam de um “novíssimo cinema brasileiro”, com um grupo de jovens críticos, estabelecendo, inclusive, marcos e um discurso que busca ordenar afinidades e referenciais estéticos compartilhados. E podemos até apontar uma terceira geração se configurando, levando em conta os diversos primeiros filmes que estão sendo lançados.

E não é novidade a identificação e simpatia dessas novas gerações dos cineastas locais com essa corrente. Basta ver a relação por eles estabelecida com a Mostra de Cinema de Tiradentes, o festival que encampou esse novíssimo cinema não apenas na produção de longas quanto de curtas-metragens. Embora as faixas etárias desses realizadores não sejam tão distantes, os contextos em que eles começaram a produzir filmes se diferenciam seja pelo uso de equipamento majoritariamente digital, pelas novas formas de financiamento, os novos dispositivos de exibição, etc.

Cineastas pernambucanos no Cine PE em 2008. Relação dos realizadores locais com o evento foi se deteriorando ao longo dos anos (Foto: Beto Figueirôa/Divulgação)
Cineastas pernambucanos no Cine PE em 2008. Relação dos realizadores locais com o evento foi se deteriorando ao longo dos anos (Foto: Beto Figueirôa/Divulgação)

Seria leviano afirmar, sem fatos documentados, que existe no cinema pernambucano grupos de cineastas de gerações diferentes em trincheiras opostas. No entanto, dá para perceber que cada um dos dois principais grupos interagem dentro de suas fronteiras. E dentro dessas fronteiras ouve-se pequenos comentários e insinuações de territórios de afinidades que não são convergentes, o que é perfeitamente natural.

Contudo, para não comprometer o processo de consolidação de uma cinematografia forte e coesa, essas pequenas diferenças geracionais têm sido postas de lado em prol dessa imagem de que o cinema pernambucano é um dos mais pungentes feitos no Brasil nos dias atuais. Assim, curiosamente, o conflito geracional em vez de ocorrer entre os realizadores veio à tona no âmbito do espaço de exibição, no caso os principais festivais de cinema existentes hoje em Pernambuco. Isso não é colocado abertamente, mas os cochichos no hall do Centro de Convenções, entre os que insistem em ir ao Cine PE, deixam bem claro que o festival está ultrapassado e a bola da vez é o Janela Internacional de Cinema.

O Cine PE foi uma iniciativa pioneira no estado e aproveitou o boom da retomada e o reaparecimento da produção cinematográfica em Pernambuco para se consolidar. As primeiras edições do evento consagraram a marca de festival de maior público no País e durante certo tempo foi nele que os filmes feitos aqui ganhavam visibilidade.

O modelo do festival com pompas e circunstâncias, uma certa falta de critério na seleção dos longas-metragens, a ânsia de conquistar os refletores da mídia do Sudeste, o incensamento de estrelas globais e os atritos sobre a garantia de espaço para os filmes feitos no Estado foi, aos poucos, deteriorando a relação entre os cineastas locais e os organizadores do festival. A mostra paralela Sapo Cururu foi um sintoma de discordâncias. E com o tempo isso foi se agravando com o desinteresse dos realizadores em exibir seus filmes no Cine PE, inclusive os cineastas da geração da retomada.

Não tem Maracanã do audiovisual que resista a uma seleção de filmes pouco inspirada.

De uns anos para cá, então, vem se observando um esvaziamento do Cine PE seja por erros e descuidos dos próprios organizadores, sobretudo com a programação – esse ano apontada como insana pelo crítico do Jornal do Commercio, Ernesto Barros – , seja por fatores externos como o alegado corte de verbas de apoio sempre lembrada pelos promotores do evento. A décima sétima edição, no ano passado, tornou isso ainda mais gritante quando se sentiu a evasão do público, ameaçando o grande trunfo e cartão de visitas do Cine PE, os dois mil espectadores por noite no Teatro Guararapes.

Porém, uma das fontes de enfraquecimento do festival, não resta a menor dúvida, foi o aparecimento do Janela Internacional de Cinema. Com uma estrutura muito mais aberta e moderna, investindo numa ideia de cinema moderno e em filmes sintonizados com a contemporaneidade, o Janela demonstrou que uma mostra de filmes não é um elefante engessado e, para cineastas de qualquer geração, pernambucanos ou não, passou a ser mais atraente e interessante exibir ou até mesmo estrear um filme nesse novo espaço como ocorreu com Febre do Rato, de Claudio Assis e Tatuagem, de Hilton Lacerda.

O conflito geracional acabou, portanto, ocorrendo no confronto de um modelo de festival obsoleto e caduco com uma mostra que não gasta milhares de reais com coisas que muitas vezes não tem nada a ver com cinema. Há um certo respeito em relação ao papel que o Cine PE teve durante alguns anos, mas a verdade é que não tem Maracanã do audiovisual que resista a uma seleção de filmes pouco inspirada e descuidos, como transformar o evento em internacional e colocar um documentário português para ser exibido a uma hora da madrugada de uma segunda-feira para uma plateia de 50 pessoas.

Cena do Ecce Hommo: seleção de curtas esse ano foi marcada pelo amadorismo. (Divulgação).
Cena do Ecce Hommo: seleção de curtas esse ano foi marcada pelo amadorismo. (Divulgação).

A organização do Cine PE tentou dar uma chacoalhada no evento tornando-o internacional, mas o que se vê esse ano não é algo muito diferente com o que ocorre com outros eventos locais denominados de internacionais como bienais de livros, feiras de artesanato, cuja participação estrangeira resume-se a um ou dois estandes de países latino-americanos.

A curadoria, outra novidade, pelo menos nesse primeiro ano, em relação aos curtas foi decepcionante e causou mal estar sobretudo com relação aos filmes pernambucanos exibidos. O resultado disso é uma leitura equivocada do que anda acontecendo por aqui como a feita pelo site G1 que apontou a nova safra pernambucana como fraca, quando temos o único filme brasileiro em competição em Cannes, o curta Sem Coração de Tião e Nara Normande e trabalhos como o do coletivo Deslumbramento apontando para uma oxigenação da produção local.

Sabemos que não existe intenção deliberada dos organizadores do Janela em minar o prestígio do Cine PE. Cinéfilos querem ver e apreciar filmes pouco importando se eles estão sendo exibidos no Teatro Guararapes ou no Cine São Luiz. E o público em geral, cinéfilo de carteirinha ou não, curte ver filmes de qualidade, sejam eles documentários, obras de ficção ou experimentais. Em 2011, no encerramento do Cine PE, a noite da premiação foi marcada pela exibição feita por cineastas pernambucanos de uma faixa onde se lia a frase “menos glamour, mais cinema”. O glamour foi cortado por falta de recursos, agora estamos esperando mais cinema.

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