Foto: Divulgação.

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Masculinidade em xeque no longa Eu, Mamãe e os Meninos

Por Iran Ferreira de Melo
Especial para a Revista O Grito!

Para se produzir um texto biográfico no âmbito da arte é preciso não apenas um bom enredo, mas também uma dose de criatividade que ajude a dar forma à narrativa. Caso contrário, por mais relevante que seja a história, seu conteúdo pode parecer desinteressante. Risco que certamente não acometeu o longa-metragem franco-belga Eu, Mamãe e os Meninos (Les garçons et Guillaume, à table!).

Ganhador de dez César, um dos principais prêmios do cinema francês – inclusive de melhor filme e melhor ator –, esse trabalho se destaca por uma temática nada óbvia e uma narrativa menos ainda, que, sob o frescor de um roteiro inusitado (classificado, por vezes, de comédia), aborda de forma extremamente leve o mito do contínuo sexo-gênero-desejo, inquietando-nos ao propor uma bela reflexão sobre a condição da masculinidade dominante na cultura ocidental. Trata-se da adaptação para o cinema de um monólogo teatral autobiográfico homônimo sobre aspectos da vida do seu próprio diretor e roteirista, , que, tanto no palco quanto na tela, também interpreta a si mesmo.

Sucesso no teatro por longas temporadas, Eu, Mamãe e os Meninos tematiza traços biográficos sobre a constituição da masculinidade do personagem biografado a partir da relação que mantém com sua mãe, personagem também interpretada por Gallienne e por quem o protagonista nutre uma grande admiração a ponto de imitá-la em suas diferentes práticas sociais e performances corporais (nas atitudes, na voz, no andar, sentar, gesticular e nas escolhas estéticas), todas elas caracteristicamente convencionadas como femininas na cultura ocidental hegemônica. Isso se apresenta na película como razão para a mãe e o resto da família achar que o personagem biografado é homossexual e esse mote desencadear uma série de ações que apresentam a angústia vivida por Guillaume diante das diversas práticas de violência que sofre em função de sua maneira feminina de se comportar e da suposição que as pessoas tinham sobre a sua sexualidade, principalmente por estar imerso na cultura demasiadamente homofóbica e misógina que prevalecia nos anos 1950 e 1960 retratados no filme.

Filme foi um dos grandes vencedores do César. (Divulgação).

Filme foi um dos grandes vencedores do César. (Divulgação).

Ao enxergar o feminino que constitui os modos comportamentais de Guillaume, sua mãe procura anular as marcas de gênero que representam a identidade dele no uso das formas de nomeação para identificá-lo, negando, assim, chamá-lo de menino e também de menina – traço que a biografia parece querer sugerir uma possível transgenerecidade do então garoto Guillaume. Sua mãe escolhe chamá-lo apenas pelo nome, atitude marcadamente diferente daquela dirigida a seus dois irmãos mais velhos.

Portanto, em situações como a de gritar para avisar a ele e a seus irmãos que a refeição está pronta, prefere dizer: “Guillaume e meninos, a comida está à mesa”, fala da personagem que ajuda a dar título ao filme, o qual, na versão brasileira, se apresenta na voz do próprio Guillaume: “Eu, mamãe e os meninos”. Nesse sentido, o longa nos conduz a pensar sobre as expectativas que a cultura do Ocidente produz acerca das relações entre o comportamento social e a performance sexual das pessoas, sobretudo dos homens. Tais expectativas são impostas por meio de vários mecanismos ideológicos, fazendo com que meninos e meninas sejam, desde cedo, submetidos/as a um tratamento diferenciado que os/as ensina os comportamentos e emoções considerados adequados àquilo que diz respeito ao seu gênero. Reside aí um
dos maiores méritos do longa. Mas não só isso.

Ao final, o filme revela que o personagem Guillaume, ao contrário do que a sua família pensa, é heterossexual e que as suas performances do feminino além de serem características constitutivas de sua identidade, de seu jeito de ser, são acentuadas pela imitação proposital que faz da mãe em razão da admiração patológica que despende por ela. Nesse sentido, a obra nos lembra que nascemos machos e fêmeas e é a cultura de nossas sociedades que nos faz homens e mulheres; mais ainda, torna-nos seres masculinos e femininos e estabelece as fronteiras entre a identidade dominante e as outras, consideradas marginais do lugar simbólico de poder e prestígio social que o mundo ocidental contemporâneo ostenta.

Ator e diretor interpreta personagens femininos e masculinos. (Foto: Divulgação.)

Ator e diretor interpreta personagens femininos e masculinos. (Foto: Divulgação.)

Essas identidades periféricas, em geral, transgridem a relação de congruência sexo-gênero-desejo construída culturalmente, matriz linear que corresponde à classificação de pessoas cujo sexo biológico é coerente com a sexualidade/desejo dirigida a pessoas do sexo biológico oposto e cujas expressões de gênero estão diretamente ligadas aos modos de viver essa sexualidade, atrelando a masculinidade à vivência sexual/erótica de homens biológicos com mulheres biológicas e a feminilidade à experiência contrária. É essa matriz que posiciona a sociedade a definir esses homens biológicos como verdadeiramente homens, e todos os outros – que nasceram biologicamente homens (machos), mas que não preenchem esse perfil, por serem socialmente femininos – como menos homens ou não-homens, concepção que deixava entrever a forma como a mãe de Guillaume pensava.

A temática em si e o foco narrativo recaído sobre a subjetividade do personagem-título fazem dessa obra um trabalho impossível de classificar como comédia. É fato que as cenas de densa tristeza do protagonista têm seu efeito catártico atenuado por causa das situações esdrúxulas em que Guillaume se envolve para imitar a sua mãe, como aquelas em que aparece vestindo as roupas dela, andando como ela pela casa e imitando a voz dela ao telefone. São também cenas como essas que apontam a maestria de interpretação do ator, que consegue distinguir claramente os momentos de representação de sua pessoa daqueles em se representa tentando imitar a mãe (e aí é propositalmente caricata) e daqueles que representa de fato a mãe (cenas estas memoráveis, em face da precisa mudança de enquadre interpretativo de Gallienne, o que nos provoca dúvida se é o mesmo ator quem assume essa personagem).

O fato de o filme concluir que não há relação entre a maneira de ser feminino do personagem e a sua orientação sexual e, portanto, que o referido contínuo preconceituoso sexo-gênero-desejo é infundado, nos mostra que a masculinidade de Guillaume é tratada como mais uma possível dentre as muitas formas de ser homem, uma vez que é desse modo que esse personagem se reconhece. Em outras palavras, isso quer dizer que, não é a carga comportamental convencionalmente feminina em um homem que o fará ser mulher, ainda que a sociedade reconheça seu comportamento feminino e o caracterize unicamente por isso.

Os ganhos em assistir “Eu, mamãe e os meninos” estão em reconhecer que o cinema de ficção e, mormente, os filmes de ficção biográfica não precisam recorrer a uma abordagem que abarque toda a vida do sujeito biografado; em demonstrar que esse tipo de filme não tem necessariamente que seguir um modelo de gênero (drama, comédia etc.); e em expor que a quebra de expectativa sobre a verdadeira identidade do personagem central pode nos fazer pensar sobre os estereótipos que montamos a partir das convenções ideológicas que sustentam o nosso jeito de ver a realidade e rotularmos as pessoas.

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* Iran Ferreira é Doutor em Filologia e Língua Portuguesa e professor do Mestrado Profissional em Letras na Universidade de Pernambuco.

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