Por Alexandre Figueirôa, Rafaella Soares, Fernando de Albuquerque, Túlio Vasconcelos e Livio Fabrício. Edição: Paulo Floro

Arte da capa por Rogi Silva.

2020 mostrou que mesmo em momentos difíceis, a música segue produzindo momentos incríveis nos mais diversos gêneros e ritmos. Em um ano caótico de pandemia, quarentena, protestos contra o racismo e eleições, a trilha sonora variou entre a introspecção e a vontade de expansão.

Do pop eletrônico e nostálgico que nos fizeram dançar dentro do isolamento (Jessie Ware, Charli XCX, Lady Gaga) ao sentimento de acolhida que é também super importante (Adriane Lenker, Zé Manoel), passando pelo embate (Djonga, Elza Soares), selecionamos as 50 melhores músicas do ano que passou.

Veja também a nossa lista de Melhores do Audiovisual em 2020.


50
Nick Hakim – “QADIR”

O artista do Brooklyn Nick Hakim criou essa delicada canção cheia de camadas e nuances para homenagear o seu amigo de infância, Qadir Imhotep West, que morreu em 2018. Além da linda ode feita por Hakim, a faixa nos lembra também da importância do cuidado ao próximo, sobretudo, nesse momento tão difícil. A música foi a primeira a ser divulgada do seu disco, WILL THIS MAKE ME GOOD, que é repleto de ótimas faixas.


49
Sufjan Stevens – “My Rajneesh”

Faixa lado B do single America, o primeiro do novo disco de Sufjan Stevens. Como foi escrito na era do álbum anterior, Carrie & Lowell, a música é focada no estado de Oregan e faz referência ao guru Rajneeshpuram, um líder espiritual que fez sucesso nos anos 1980 (e foi mais tarde acusado de bioterrorismo). A música, portanto, tem diversos movimentos que parecem referenciar os diversos estágios de envolvimento com um culto.


48
Rubio – “Volver”

A artista chilena Rubio preparou um disco cheio de personalidade, Mango Negro, onde as 12 canções foram lançadas por etapas. A primeira parte, de onde saiu “Volver”, uma faixa atmosférica e com elementos minimalistas na produção fala, sobretudo, de solidão e resiliência.


47
Celeste – “Stop This Flame”

Toda catártica “Stop This Flame” foi a música que tornou artista britânica Celeste conhecia no mundo. Sua base de jazz se une a potentes arranjos de R&B para falar sobre resistência e determinação.


46
Taylor Swift com Bon Iver – “exile”

Uma das maiores forças do pop, Taylor Swift retornou este ano com um trabalho bastante sofisticado e introspectivo. Das muitas ótimas faixas de folklore, esta “exile”, ao lado de Bon Iver, é uma das que mais se distanciam do que Taylor fez até agora. Fala de dois ex-amantes momentos após o fim.


45
Tatá Aeroplano – “Alucinações”

“Alucinações” foi o primeiro single do álbum Delírios Líricos do músico e compositor Tatá Aeroplano. A canção foi composta de uma só vez numa madrugada inspirada, com letra, ritmo e harmonia, de maneira automática, um fluxo inconsciente de ideias pescadas do cosmos e vivências nas ruas de São Paulo. As palavras que vieram naquela noite foram registradas ao vivo, o que pode gerar interpretações diversas dependendo do estado de espírito do ouvinte.


44
Benjamin Biolay – “Comment est ta peine?”

Biolay segue a estrada já bem conhecida do pop francês mainstream, de nomes como Serge Gainsbourg, mas adiciona elementos contemporâneos na produção, com ecos de Daft Punk e The Strokes, como é o caso desta ótima balada “Comment est ta peine?”.


43
SAULT e Michael Kiwanuka – “Wildfires”

A misteriosa banda SAULT segue soltando seus lançamentos de surpresa e, em um ano tão difícil, eles trouxeram várias faixas ativistas, que ressoam muito dos sentimentos gerados pelo Black Lives Matter. “Wildfires” é uma faixa de protesto cheia de batidas fortes de R&B que se conecta com a indignação mundial após o assassinato de pessoas pretas pelas forças policiais.


42
Charli XCX – “forever”

A cantora britânica Charli XCX resolveu lidar com a pandemia se conectando ainda mais com os seus fãs. Fazendo um diário aberto de produção, com muitas lives e pedidos de colaboração online (ela fez um videoclipe inteiro feito apenas com imagens dos fãs), as faixas refletem essa persona de celebridade acessível que ela construiu ao longo dos anos. “Forever” é uma música que soa muito como um fluxo de consciência sobre os diferentes sentimentos que todas nós sentimos em meio à quarentena.


41
Febem com Fleezus e CESRV – “TERCEIRO MUNDO”

Os rappers Febem (Felipe Disiderio) e Fleezus são responsáveis por um dos discos mais interessantes do rap este ano. Eles criaram o “brime”, a união do estilo grime inglês (em ascenção por aqui) e do funk brasileiro. O resultado é algo bastante novo e instigante, que deverá se tornar um marco no futuro.


40
Jup do Bairro – “TRANSGRESSÃO”

Jup do Bairro lançou seu primeiro EP, Corpo Sem Juízo, que traz participações especiais de Deize Tigrona, Linn da Quebrada, Rico Dalasam, Mulambo, BadSista e Felipa Damasco. O trabalho discute temas como identidade, afetos e vivências do corpo negro e periférico, como é o caso dessa poderosa “TRANSGRESSÃO”, em que a cantora retrata sua narrativa de construção. “É uma celebração coletiva com memórias e experiências, criações autodidatas e contracultura sobre as dores e delícias de sermos nós mesmas”.


39
Bob Dylan – “Murder Must Foul”

A primeira canção inédita em oito de anos de Bob Dylan é um épico de 17 minutos que inicia falando sobre o assassinato de John F. Kennedy e amplia se escopo para falar sobre temas como melancolia, morte e política. “No dia em que o mataram, alguém me disse, filho, a era do anticristo apenas começou”, canta Dylan. Apoiada apenas no piano e com algumas baterias e violinos esparsos, a canção se conecta com muito dos trabalhos mais interessantes (e longos) do músico dos anos 1960.


38
Adriane Lenker – “anything”

A introspecção de Adriane Lenker (vocalista do Big Thief) neste seu trabalho solo revelou faixas que vão fundo no minimalismo e na interpretação bastante emotiva como esta “anything”, balada que se apega às características do folk, mas com um espírito roqueiro.


37
Run The Jewels com Pharrell Williams e Zack de la Rocha – “JU$T”

A dupla Run The Jewels segue fazendo um rap ativista, com críticas políticas afiadas e um som pesado que pega emprestado muito da crueza do rap clássico dos anos 1970 e 80. Em “JU$T” temos a adição do rock com a participação de Zack de la Rocha do Rage Against The Machine em uma letra irônica contra o sistema financeiro.


36
Phoebe Bridges – “Kyoto”

A música “Kyoto” descreve uma passagem da cantora e compositora Phoebe Bridges durante sua passagem pela cidade japonesa e fala sobre a síndrome do impostor. A música traz uma vibe roqueira animada que contrasta com esse dilema interno de nunca se sentir boa o suficiente. A faixa faz parte do excelente Punisher, lançado este ano.


35
Bule – “Baby”

A banda pernambucana Bule é um dos tesouros ainda escondidos da cena pop independente brasileira. Depois de um excelente EP lançado no ano passado (cuja faixa “coro” figurou no Top 10 de melhores do ano aqui na Revista), o grupo retorna com um trabalho mais sóbrio, mas ainda instigante e inovador.


34
SD9 com VND – “40º .40º”

O rap brasileiro em 2020 apostou em diferentes direções, com gêneros até então negligenciados pela galera daqui, como é o caso do grime. “40º .40” traz uma crônica da dura realidade das periferias, mas se afirma como uma narrativa de embate.


33
Chloe x Halle – “Do It”

A dupla Chloe x Halle cria um som impecável em que nada parece fora do lugar. O resultado é um hit como esse “Do It”, em que exploram beats modernos e estética do R&B clássico para criar uma faixa viciante e dançante.


32
SZA com Ty Dolla $ign – “Hit Different”

SZA vai criando expectativas para o seu novo disco com esse “Hit Different”, faixa cheia de suíngue onde a cantora explora potencialidades de sua voz em uma faixa que é a quintessência do R&B moderno.


31
Jessy Lanza – “Anyone Around”

A produtora e cantora canadense Jessy Lanza segue explorando os limites do pop com a eletrônica neste “Anyone Around”, faixa de seu mais recente disco, All The Time, gravado durante a quarentena. É uma faixa que reflete muito as angústias do isolamento e a necessidade de contato.


30
Boogarins – Inocência

Com um loop de dois acordes de violão e batidas hipnóticas que seguem o estilo da banda, o Boogarins chega lúdico nesta linda faixa gravada em meio à quarentena. A música fez parte do compacto Fefel 2020 e depois figurou no álbum Manchaca Vol. 1.


29
Waxahatchee – “Fire”

O disco novo da cantora e compositora Katie Crutchfield (o nome por trás do Waxahatchee) trabalha questões sobre amor, relacionamentos e outras observações da vida sob a ótica sincera da busca pela sobriedade. Este é o primeiro disco gravado pela artista desde que parou de beber. Por isso as faixas por vezes transparecem esse momento de maior estabilidade, como esta “Fire” (“amanhã pode ser como daqui a cem anos/ mais sábio e mais sintonizado”).

Leia: A jornada de sobriedade de Waxahatchee.


28
Soccer Mommy – “circle the drain”

O indie-rock segue vivo e bem em trabalhos como este da Soccer Mommy. “Circle the drain” é uma faixa que traz uma atitude positiva para falar de depressão e faz parte do ótimo disco, Color theory.


27
Mateus Aleluia com Thiago França e Pastoras do Rosário – “Canta Sabiá”

Mateus Aleluia segue explorando sua ancestralidade em músicas que soam como resistência pelo respeito e destaque que traz para a cultura negra. “Canta Sabiá”, ao lado das Pastoras do Rosário, reflete muito a capacidade de Aleluia (músico que fez parte do mítico grupo Os Tincoãs) em unir o erudito e o popular com maestria.


26
Kelly Lee Owens – “Jeanette”

Trabalhada no minimalismo e nos espaços vazios, de silêncio, a DJ e produtora Kelly Lee Owens constrói lindas e complexas canções, como esta “Jeanette”, uma homenagem à sua falecida avó.


25
Grimes – “Delete Forever”

Provando que ainda pode surpreender dentro do seu pop eletrônico alternativo, Grimes trouxe uma ótima faixa toda calcada na guitarra em “Delete Forever”. A música é parte do seu quinto disco de inéditas, Miss Anthropocene, um álbum que se arrisca ao buscar novas saídas para o som feito pela canadense.


24
Zé Manoel e Grupo Bongar – “No Rio das Lembranças”

Entre a ternura e o embate, Zé Manoel faz de seu novo disco, Do Meu Coração Nu, parte de um processo de cura de todo o sofrimento sofrido pelo povo preto e indígena. A linda “No Rio das Lembranças”, com participação do Grupo Bongar, resgata um canto do Candomblé colhido no Terreiro Xambá (Olinda). O sentimento de acolhida ao ouvir a faixa é bem reconfortante.

Leia: Zé Manoel e a luta do povo preto e indígena em Do Meu Coração Nu


23
Banda Sentimentos com MC Tocha – “Onde Estás”

Fenômeno do brega recifense em 2020, a Banda Sentimentos tem no DNA o melhor do cancioneiro romântico clássico das bandas de brega dos anos 1990, mas vai além da pura nostalgia em canções que são crônicas reais do cotidiano, que cabem em diversas situações. E tem ainda o beat dançante viciante e o carisma da vocalista Ziane Martins pra completar o combo.


22
Djonga – “Hoje Não”

Nas rimas desta faixa, Djonga retrata um episódio bem característico do racismo estrutural no Brasil: a dificuldade da sociedade em ver pretos no topo. “Hoje Não” fala de um enquadro que o rapper levou em Ouro Preto (MG) por estar dirigindo seu carro, um Porsche Panamera. A faixa faz parte do ótimo disco lançado por Djonga este ano, Histórias da Minha Área.


21
Kali Uchis com Jhay Cortez – “la luz (Fín)”

Canalizando o melhor do reggaetón e do R&B, a colombiana-americana Kali Uchis vai levando o pop para caminhos ainda pouco explorados. “La luz(Fín)” é uma das melhores faixas do seu segundo disco, Sin Miedo (del Amor y Otros Demonios) ∞, o primeiro todo cantado em espanhol.


20
Lido Pimienta – “Te Queria”

Ao olhar para sua ancestralidade com um misto de reverência e crítica, a colombiana Lido Pimienta trouxe novas e boas ideias para o pop. Mais do que utilizar da cultura de seu país como uma alegoria artística, ela decide discutir questões políticas importantes que muitas vezes passam despercebidos quando nos deparamos com obras inspiradas na cultura popular. É o caso de “Te Quería”, uma das melhores faixas do Miss Colombia.

Leia: Lido Pimienta, o imaginário latino com amor e profundidade.


19
Rina Sawayama – “XS”

Surpresa recente do cenário pop mainstream, a nipo-britânica Rina Sawayama chama atenção pelos riscos que toma, como o caso de “XS”, uma canção poderosa com influência de nu-metal.


18
Fiona Apple – “Shameika”

Calcada no mix de indie-rock, com as guitarras de guia e a base de piano, “Shameika” é uma música sobre memória da adolescência. Fiona Apple lança um olhar honesto e generoso sobre si mesma no passado e lembra da sua amiga no título, que via nela um potencial. O fato de Fiona ter encontrado a verdadeira Shameika nos dias de hoje e ainda colaborado com ela torna essa música ainda mais interessante.


17
Thundercat com Ty Dolla $ign e Lil B – “Fair Chance”

Baixista virtuoso, Thundercat (nome artístico do norte-americano Stephen Bruner) fundamentou sua carreira no passeio livre entre gêneros, promovendo misturas que buscam explorar diferentes possibilidades do hip hop, jazz, soul e pop. E isso continua neste trabalho, It Is What It Is, de onde saiu “Fair Chance”. A faixa é uma homenagem ao rapper Mac Miller, morto precocemente em 2019.

Leia mais: Thundercat reflete sobre o amor no introspectivo It Is What It Is.


16
Jayda G – “Both Of Us”

Se 2020 foi um ano tão desgraçado, ao menos tivemos faixas como “Both Of Us”, o batidão solar da DJ e cantora canadense radicada em Berlin, Jayda G. E é daquelas músicas que trazem um plot twist delicioso ao final. Como resistir?


15
070 Shake – “Guilty Conscience”

Difícil rotular o som da 070 Shake, um misto de pop e R&B, com toques barrocos e interpretação opulenta, cheia de arroubos. “Guilty Conscience” é uma grata surpresa para o rol de clássicos das músicas sobre fim de relacionamento.


14
Megan Thee Stallion e Beyoncé – “Savage Remix”

“Savage” já era o hit do verão e uma das mais quentes tendências do Tik Tok e redes sociais afins quando Beyoncé foi escalada para transformar a faixa neste poderoso remix, que ganhou o reforço da voz potente de Bey e uma letra cheia de ironia.


13
Cardi B e Megan Thee Stallion – “WAP”

Poucas músicas ascendem do patamar de hit do ano para um fenômeno cultural, como é o caso de “WAP”, de Cardi B e Megan Thee Stallion, duas das maiores forças do rap atualmente em atividade.


12
Bad Bunny – “Pero Ya No”

Nome forte do pop latino, Bad Bunny isolou-se dentro de um estilo muito particular, que se apoia no melhor dos ritmos latinos, como reggaetón, e do pop e rap. De sua intensa produção musical lançada este ano (com dois álbuns e vários singles), “Pero Ya No” é o grande destaque.


11
Perfume Genius – “On The Floor”

Mike Hadreas, o nome por trás do projeto Perfume Genius, não para de evoluir neste seu projeto artístico ao mesmo tempo delicado e visceral. “On The Floor”, com sua base de guitarras, reflete muito o estado dramático e selvagem de seu novo trabalho, Set My Heart On Fire Immediately.


Divulgação.

10
Pabllo Vittar – “Rajadão”

Que o disco novo de Pabllo Vittar seria um balaio de hits que nos alimentaria durante todo o ano, isso já sabíamos. A maior surpresa foi ver, na última faixa, uma bate-cabelo super poderoso que serve uma mistura de electro-house com hino de igreja pentecostal. Ninguém estava preparada.


09
Lady Gaga e Ariana Grande – “Rain On Me”

Com seu novo disco, Chromatica, Lady Gaga entregou o combo completo esperado pelos fãs: impacto visual, narrativa conceitual casada com uma bem pensada estética, batidões de influência house e disco e um pop viciante. “Rain On Me”, ao lado de Ariana Grande, representa a epítome desse ideário da artista. É uma música sobre sair da crise, sobre superação, o que acabou ganhando o timing perfeito neste 2020.

Leia Mais: Lady Gaga e o trabalho de retomada em Chromatica


08
Jessie Ware – “What’s Your Pleasure”

Jessie Ware abraçou o hedonismo como forma de lidar com esse período difícil, o que aliás foi a tônica do pop em 2020: angustiados, isolados, porém, dançando na sala de estar. Esse movimento de catarse em um momento de intensa introspecção acabou gerando uma potência criativa fruto dessa dicotomia, o que está bem representado em “What’s Your Pleasure”, uma faixa que parece atropelar qualquer sentimento de desolação. Dancemos.


07
Moses Sumney – “Me In 20 Years”

A voz de Moses Sumney tem força e amplitude para atingir desde a introspecção completa (com em “Polly”) até o tom de catástrofe como essa balada “Me In 20 Years”. A música fala sobre a solidão após o fim de um relacionamento, mas ganha força, sobretudo, pela interpretação do músico em dialogar consigo mesmo no futuro (“eu em 20 anos”, como diz o título). Uma música repleta de entrega e muita emotividade que mostra o poder da renovação do pop e do R&B atual.


06
Elza Soares – “Juízo Final”

O sol há de brilhar mais uma vez, canta Elza Soares em “Juízo Final”. “Quero ter olhos pra ver / a maldade desaparecer”. A música de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares ressoa muito o Brasil de 2020, país dos mais de 180 mil mortos, do horror de jovens pretos assassinados, da maldade institucionalizada. A interpretação de Elza parece captar esses sentimentos com muita força, mas além do sentimento de indignação, com sua roupagem roqueira, a canção traz também alento e conforto de que tudo isso uma dia vai passar.

Leia: uma conversa com Elza Soares: “quisera eu cantar só coisas alegres”


05
Fiona Apple – “I Want You To Love Me”

Poucos discos refletem tanto esse ano quanto a obra-prima Fetch The Bolt Cutters. Lançado no pico da pandemia do novo coronavírus e com o mundo todo em quarentena, Fiona parece ter percebido que o momento de isolamento, com as pessoas tendo que lidar com emoções muitas vezes negligenciadas no meio da rotina, seria o clima ideal para este disco, que é uma confrontação contínua desde os primeiros acordes. A percussão é o grande destaque desta “I Want You To Love Me”, toda levada ao piano, uma música cheia de força, que fala da superação de um relacionamento abusivo. Uma música sobre se reinventar, de se colocar como dona de sua própria narrativa.

Leia: Novo disco de Fiona Apple parece um expurgo de 2020


04
Dua Lipa – “Physical”

Com seu pop retrô festivo e moderno, Dua Lipa acabou criando um futuro clássico do pop. Suas músicas acabam convergindo para uma celebração para àquilo que a inspira: um pop cuja proposta conceitual é um olhar emancipatório (tanto na questão de gênero, mas também nos relacionamentos). “Physical” com seu electro-pop dançante repleto de camadas e com uma base soturna é ousada por trazer diferentes viradas e movimentos até o fim apoteótico.

Leia: Dua Lipa e o pop impecável e dançante em Future Nostalgia.


03
Letrux – “Abalos Sísmicos”

Depois de um álbum elogiado, Letrux em Noite de Climão, em que a ironia servia como escudo ao absurdo do cotidiano e dos relacionamentos, Letrux retorna mais introspectiva em Letrux Aos Prantos, onde carregas as tintas no drama. A afetação é a base desse trabalho, que é repleto de referências que vão das tragédias gregas ao cancioneiro romântico. “Abalos Sísmicos” com seu toque oitentista e arranjos melancólicos reflete muito esse estado de espírito em que todo mundo passa a se aprofundar mais nos sentimentos, de se permitir olhar pra dentro sem medo do que vai encontrar. Um disco que foi a cara da quarentena.

Leia: O maremoto de emoções em Letrux aos Prantos


02
The Weeknd – “Blinding Lights”

Puxado diretamente do pop oitentista, “Blinding Lights” é a culminância de um projeto muito bem pensado de Abel Tesfaye, o nome por trás do The Weeknd. O synthpop misturado à bateria eletrônica e as viradas sônicas ao longo da audição geram um interesse instantâneo desde os primeiros acordes. É um pop tão burilado, orquestrado, que chega a parecer simples, quando, na verdade, se traduz em um dos mais complexos e lindos objetos da cultura pop. Uma faixa tão bem feita que já nasce atemporal. Não à toa o músico adentrou ao primeiro escalão do pop com esse trabalho.


01
Christine and the Queens – “People, I’ve Been Sad”

No ano em que externamos nossos sentimentos, poucas faixas foram tão abertas como “People, I’ve been sad, de Christine and the Queens. A empatia com que a artista francesa Héloïse Adelaïde Letissier constrói a narrativa dessa faixa cria uma rápida conexão com o ouvinte, que, passa então, a atuar como confidente em uma faixa que é repleta de reminiscências sobre adolescência e reflexões sobre solidão, crescimento e mudança. Cantado em inglês e francês, a faixa, toda trabalhada no french pop, é sofisticada nos arranjos e vai evoluindo para culminar em uma explosão emotiva onde é impossível ficar impassível. Tudo isso dentro de uma das mais bonitas interpretações do pop em 2020.


Leia mais do especial Melhores de 2020

Leia Mais
Papo com Thiago Pethit: “Esperança e acolhimento também são resistência”