Grupo Bote de Teatro apresenta 'Salto', experimento cênico e audiovisual. (Foto: Divulgação / Fillipe Vilar)

Bote de Teatro faz a estreia presencial do espetáculo Salto: um olhar para o coletivo

Um papo com Pedro Toscano, ator e diretor da peça, que será exibida no Teatro de Santa Isabel. "Quando pararmos de pensar apenas enquanto indivíduo, talvez seja mais fácil da gente sobreviver”

O espetáculo Salto estreia sua primeira temporada presencial no Teatro Santa Isabel, na área central do Recife, nestas quarta-feira (30) e quinta-feira (31).  A estreia da obra, porém, ocorreu, de forma remota, no Recifest – Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero, em 2021, em formato audiovisual, tendo sido exibido também o filme-espetáculo no Festival de Teatro Virtual da Funarte

O elenco do espetáculo é formado pelas atrizes Inês Maia, os atores Daniel Barros, Cardo Ferraz, Pedro Toscano, além  da atriz convidada Una Martins. O trabalho do Bote de Teatro tem raízes de inspiração no musical infantojuvenil de 1977, Os Saltimbancos, uma tradução e adaptação de Chico Buarque da peça teatral I Musicanti, de Sérgio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov, inspirada na fábula dos Irmãos Grimm Os músicos de Bremen.

O musical infantojuvenil adaptado de Chico conta a história de um operário (o jumento), um soldado (o cachorro), uma camponesa (a galinha) e uma artista (a gata), que, rebelando-se contra seus donos e opressores, juntaram-se para formar uma banda e juntos explorar a liberdade. 

Criado em 2019, o Bote de Teatro possui projetos aprovados em vários editais, como o Prêmio Funarte Festival de Teatro Virtual 2020. O grupo debruça-se sobre o processo de criação coletiva, teatro, mesclando artes e relação entre artista e público. “Quem trabalha com arte atua muito no escuro. Estamos felizmente e desesperadamente tentando absorver o que está em volta para poder transpor enquanto objeto de observação”, observa Toscano, que além de atuar, também assina a direção da peça. “É uma possibilidade de observar a natureza humana, as possibilidades sociais e de convivência, se predispondo a observar. Normalmente, as pessoas vão vivendo sem observar diretamente a vida. Esse olhar, pra mim, é muito um reflexo do que é o teatro”, acrescenta o artista. 

Salto mistura cinema, música, dança e teatro para mostrar o processo de agrupamento desses sujeitos. “A peça coloca esses arquétipos – sujeitos usuários como a gente costuma chamar – nesse ponto de entendimento de que as coisas precisam mudar enquanto coletividade. Quando pararmos de pensar apenas enquanto indivíduo, talvez seja mais fácil da gente sobreviver”, conclui o diretor.

Conversamos com Pedro Toscano sobre a peça, motivações, teatro e sua trajetória no mundo da arte. Confira: 

De onde veio a ideia de encenar o espetáculo?

No momento nós nos juntamos enquanto grupo, passamos meses trabalhando e depois começamos a desenvolver uma dramaturgia própria. Alguns meses depois, quando finalizamos essa dramaturgia, percebemos que ela era inviável para ser feita sem recurso e sem estrutura. Então, decidimos pesquisar dramaturgias que já existiam e faziam parte daquela narrativa que estávamos tratando e da pesquisa desenvolvida pelo grupo. Foi daí que chegamos ao “Saltimbancos”. A gente tinha um olhar sobre essas obras mais políticas, algumas delas que tratavam da burguesia e desse movimento como um todo. Daí chegamos ao “Saltimbancos” e depois para “Os músicos de Bremen”, que é a obra originária. 

A partir disso, entendemos que era disso que a gente precisava tratar porque depois que lemos enquanto grupo, olhamos para a mensagem do espetáculo, nos indagamos: “as pessoas entenderam isso? as pessoas entenderam do que esse espetáculo estava tratando?”. Todo mundo ao redor da gente e também observando essa movimentação entendeu que a gente precisava de novo tocar nessa tecla. É uma narrativa que desde mil oitocentos e bolinha vem surgindo, cresceu com o Feudalismo; depois caiu ali nos Irmãos Grimm, que deram um suporte; depois quando a Itália pós-facismo montou uma adaptação; e aqui no Brasil saiu da Ditadura Militar teve o Chico Buarque com a montagem do “Saltimbancos”. Agora nós achamos que é um momento propício de readaptar e contar essa história de novo para tentar ver se provoca. Uma das motivações da nossa montagem foi entender que é uma narrativa que existe há muito tempo, aponta para hoje e aborda toda a história de uma sociedade  que talvez não tenha sido completamente acessada. Decidimos, então, que ainda tinha uma curva que a gente conseguia acessar. 

Você falou em provocação. Em que aspectos o trabalho busca provocar?

É bem difícil e simples ao mesmo tempo. Enquanto criadores, pelo percurso que nós percorremos até aqui é muito óbvio enxergar essas necessidades e ver essa situação do país. O espetáculo é político, não exclusivo à nossa montagem, mas todas elas, incluindo o “Saltimbancos”. Quando observamos a narrativa, trata-se de um grupo de pessoas ou de bolhas, sendo cada uma representada por arquétipos presentes na dramaturgia que estão sufocados, em rota de afogamento, eles não têm para onde ir, não tem mais chão pra pisar, nem tem o que fazer. Assim, eles precisam encontrar uma forma de sobreviver e de reescrever uma estrutura de sociedade, pensar uma forma de viver coletivamente, sem necessariamente diminuir ninguém. Parece tudo uma lógica meio hippie de “paz e amor”, vamos viver todos juntos e tudo bem. Só que, na verdade, é muito mais do que isso. Do jeito que está não dá pra continuar a viver, por mais que a gente não saiba qual é o jeito ideal, precisamos nos reestruturar e encontrar uma maneira que seja minimamente mais saudável. Talvez essa seja a provocação de “Saltimbancos”. A peça coloca esses arquétipos – sujeitos usuários como a gente costuma chamar – nesse ponto de entendimento de que as coisas precisam mudar e a coletividade e enquanto pararmos de pensar apenas enquanto indivíduo, talvez seja mais fácil da gente sobreviver. A gente traz um pouco dessas imagens : quase o “megazord” ou uma grande balsa formada por formigas que estão flutuando numa enchente: são imagens de agrupamento e de novas formas de pensar a sociedade.

 Quais são os interesses do Bote Teatro e também seus interesses enquanto diretor?

Enquanto grupo, a gente se juntou em 2019 e já éramos pessoas que nos conhecíamos  paralelamente, alguns já tinham trabalhando em outros projetos juntos. Somos quatro integrantes atualmente e tínhamos uma formação de seis no início. Depois dois terminaram se deslocando e já somos os quatro há cerca de quatro anos. Para o espetáculo, é uma maior que essa equipe de quatro, inclusive com uma atriz convidada que é a Una Martins. 

Para ser sincero, quando nos reunimos lá no início em 2019, a gente nem sabia exatamente o que seria a nossa pesquisa. Com o passar dos meses, por abstenção de certeza de qual seria o foco de abordagem, a gente entendeu que algo real já estava em nosso entorno, que era essa necessidade de estar em coletivo, de voltar o olhar para o pensamento criativo e a possibilidade de criação de uma força de forma grupal. Por mais que a gente quebrasse a cabeça tentando entender qual seria a linguagem e o caminho, o mais forte de tudo era o desejo de estar junto.  Então, quando essa ficha caiu, isso já foi o primeiro passo e pra gente entender que essas dinâmicas sociais de viver em coletivo era uma pauta de pesquisa. A nossa pesquisa passou a dialogar com essa dinâmica e estabelecer essas estruturas que se formou em 2019. Quando 2020 chegou, fomos obrigados a entender como a gente iria conviver em grupo diante do isolamento social provocado pela pandemia. 

Então a pesquisa foi pressionada a tomar outras estruturas, ampliou o trabalho enquanto linguagem por abraçar uma lógica de hibridação de artes integradas. “Como o teatro, que necessita da presencialidade para se estruturar, enquanto linguagem, o que precisa ser feito para sobreviver?”. Para isso, a gente precisava se agrupar e trocar com outras linguagens: cinema, fotografia, rádio, entre outras, para poder sobreviver. 

A gente tem alguns projetos que foram executados durante a pandemia e um deles é Salto – O filme, o filme desse espetáculo, e tratamos a obra como cinema. Não tratamos como “teatro virtual”, por exemplo. A ideia era sempre a expansão de uma certa linguagem, aderindo a outras. 

Com a volta do presencial, tudo aquilo que era feito no cinema, a gente agora está usando a dança pra poder alocar esses efeitos e essas sensações que o audiovisual trazia na experiência do filme. Mesmo no presencial, conseguimos dar continuidade a esse desejo de dialogar com outras linguagens.

Como diretor essa é minha estreia e trabalhamos de uma forma geral coletiva e colaborativa. Ha uma direção geral do Bote, somos todos atores criadores, reescrevemos nossa versão que está sendo contada para não ser exatamente uma adaptação, na verdade, é inspirada. Assim, fico mais nessa função de encenador, um cargo do teatro que nem existe mais. Hoje em dia, essas funções se juntam e são do corpo da direção. Tenho muito essa lógica da encenação e desenvolver essa cena. De formação, trabalho como ator, mas também atuo como diretor de arte e sempre foi assim. Quando me mudei para São Paulo e trabalhei no Teatro Oficina, entrei como diretor de cena de alguns trabalhos e foi a partir daí que começou a se organizar essa minha estrutura. 

Quando Salto chegou pra gente, eu trouxe essa proposta de como seria possível reescrever esse espetáculo. Como foi a partir dessa estrutura, ficou sob minha responsabilidade essa dinâmica  de dirigir essa trajetória. 

Minhas referências são muito calcadas na cultura visual e as imagens sempre foram muito fortes pra comunicar. Essa é uma linguagem muito vigente hoje em dia com Instagram, Tik Tok, internet… E o texto está ficando cada vez menor, está tudo mais compactado, e entendo que talvez a imagem seja uma narrativa  de mais fácil compreensão. 

Assim como Bob Wilson [encenador americano] parto de uma imagem para poder compor uma cena, tenho a sensação que parto de uma ação, de um movimento de cena, para poder contar algo. Sou muito consumidor de cultura e trabalho muito com referências, possuo pouca ganância de querer criar o novo, meu desejo é mais antropofágico de lidar com as coisas. Quero “comer” tudo o que posso para poder botar pra fora outras a partir daquilo que me alimento [risos]. A minha direção segue muito por esse caminho, com muita abertura pra ouvir  o que os atores têm pra dizer e, quando a gente chega numa cena, normalmente, sou o último a falar sobre ela.

O teatro é presença e muitos espetáculos foram obrigados a irem para a internet durante a pandemia. Como lidou com esse período de pandemia e como entende o chamado “teatro on line”?

O período de isolamento foi desesperador, sem saber o que fazer por que contra tudo aquilo que a gente vinha estudando, produzindo e lendo. A gente foi pressionado, de fato, a sair do lugar que a gente há tanto estava trabalhando. Nosso bote salva-vidas foram as outras linguagens, em grande maioria, o áudio e o visual, inclusive fizemos, também, um podcast no período chamado “Bote Salva-Vidas”. A primeira convidada do programa foi a historiadora e atriz pernambucana Ana Maria Sobral e durante a entrevista, ela soltou que: “a partir de agora, somos todos audiovisuais!” Está todo mundo preso numa tela e todo mundo terá que se relacionar com isso”.  E como o teatro vai sobreviver a esse novo cenário? Até hoje não sei, não tenho como te dar uma resposta a respeito disso. Talvez minha opinião esteja um pouco datada. Particularmente, quando vejo uma obra de teatro on line, consigo observar obras maravilhosas, mas não consigo entender diretamente como pode ser considerado teatro. Identifico fundamentos, mas não percebo a linguagem de fato e confesso que fico meio perdido. Como tudo é muito novo, estamos num momento em que essas opiniões são muito particulares. Acredito que a gente nem conseguiu perceber as consequências disso socialmente, sabe?  Desde o início da sociedade, o teatro é presente e reflete sobre isso: observando e questionando o seu tempo e é preciso uma lógica dilatada. A maioria das linguagens artísticas são muito assistemáticas. Só daqui a 20, 30 anos é que vamos começar a compreender como o teatro foi impactado.

Quem trabalha com arte atua muito no escuro. Estamos felizmente e desesperadamente tentando absorver o que está em volta para poder transpor enquanto objeto de observação. É uma possibilidade de observar a natureza humana, as possibilidades sociais e de convivência, se predispondo a observar. Normalmente, as pessoas vão vivendo sem observar diretamente a vida. Esse olhar, pra mim, é muito um reflexo do que é o teatro. 

Qual foi a sua primeira experiência com teatro?

Eu era muito novinho, meu pai me levava com minha irmã pro Teatro Valdemar de Oliveira e também pro Teatro do Parque, no centro do Recife. Lembro muitas vezes de ver “A Flor e Sol”, o próprio Saltimbancos, e várias montagens locais dos anos 2000. Sempre fui muito consumidor, meu pai me levava bastante, era o programa da tarde do final de semana, o que é baita de um privilégio e tenho consciência disso. 

Trabalhando, comecei na dança, meu colégio tinha balé popular e iniciei com uns 12 anos mais ou menos. Depois troquei de escola e havia um professor que estava no meio de uma montagem, fiz um teste e passei.  Do nada, eu já havia largado a dança e trabalhava apenas com teatro e fiquei assim desde então. Desde os 16 anos, que atuo nessa área. Agora vou completar 30 anos e isso sempre foi algo que esteve comigo. Sempre! Acho que nem tive muitas escolhas, não tinha muito o que fazer, não tinha muitas possibilidades porque é só o que eu sei fazer. 

Faça então o convite para o público prestigiar o espetáculo.

Se conseguimos alcançar vários feitos foi graças a uma galera incrível colada que queria viver isso também. Isso reforça, inclusive, nossa pergunta, se é o coletivo que salva. Nessa lógica, é entender que o importante é estar juntos, ajudar tudo e todxs. Fica o convite para todo mundo ir assistir, no Teatro Santa Isabel, no Centro do Recife. Esse ano a gente faz uma circulação nacional também. Que todo mundo venha!

Serviço:

Espetáculo Salto – Bote de Teatro

1ª apresentação

Data: 30/03 (quarta-feira)
Local: Teatro Santa Isabel (Praça da República, 233 – Santo Antônio, Recife/PE)
Horário: 20h
Entrada: R$ 20 (meia) e R$ 40 (inteira); gratuito para pessoas trans
Ingressos: https://bit.ly/364wODC (Sympla)

2ª apresentação

Data: 31/03 (quinta-feira)
Local: Teatro Santa Isabel (Praça da República, 233 – Santo Antônio, Recife/PE)
Horário: 20h
Entrada: R$ 20 (meia) e R$ 40 (inteira); gratuito para pessoas trans
Ingressos: https://bit.ly/364wODC (Sympla)

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