Brega Story: uma vertigem de som e fúria
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A cena tecnobrega do Norte do país é, hoje, inegavelmente uma das maiores potências criativas do país. E o que nos chega para consumo pronto desse universo é sua explosão sonora, suas cores e outros elementos, que por vezes, aparecem através de um filtro condescendente do exótico. Várias obras de arte, como filmes, novela e clipes, já se apropriaram desses elementos para compor histórias, mas poucas conseguiram proporcionar um mergulho tão aprofundado como esse Brega Story, novo quadrinho de Gidalti Jr., autor vencedor do Prêmio Jabuti com Castanha do Pará. A obra também marca a estreia da nova editora Brasa, que tem como proposta publicar quadrinhos nacionais que discutam o Brasil.

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A trama acompanha a história de Wanderson Jr., músico conhecido como Breguinha, que sonha em se tornar um dos maiores nomes da música no Brasil – e até mesmo, quem sabe, uma estrela internacional. A partir do seu ponto de vista começamos a trombar com diferentes personagens e ambientes ligados ao brega paraense. Apesar de famoso em Belém e tido como o “rei do Brega”, Wanderson é uma pessoa deslocada, que foi atropelada pelas transformações do tempo, em diversos sentidos. Atávico e fechado para um mundo dinâmico e plural, ele responde às lapadas da vida da pior maneira possível, ou seja, dobrando a aposta no machismo, homofobia e na total falta de escrúpulos para conseguir o que quer. Como parte do seu plano de fazer sucesso, ele passa a negociar com políticos locais, com DJs de aparelhagens, músicos e dançarinos, sempre pautado por um senso de desespero e cobiça, que deixa a narrativa em um estado permanente de tensão.

Entre a miséria e a esperança, o desejo de viver

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Gidalti traz complexidade ao abordar o universo do brega, pois cria sua história a partir de uma pesquisa muito bem organizada desse ritmo musical. Além do material de referência (livros, ensaios, séries, documentários), o autor ainda realizou entrevistas com músicos, produtores, cantoras e cantores. Mas ele também tem um olhar de dentro desse universo, pois atuou como músico amador no brega paraense antes de se dedicar aos quadrinhos. Essa abordagem é bem mais que puro verniz no resultado final de Brega Story – na verdade gera um produto encorpado e cheio de verdade, o que nos coloca dentro daquele ambiente de maneira intensa. Isso resulta em novas possibilidades para como o brega (e toda a sua cultura) pode ser vista e entendida, distantes do paternalismo com que a mídia – e mesmo a Academia – sempre se debruçaram.

Brega Story traz personagens críveis, cheio de camadas. E isso se reflete também, literalmente, no traço. (Divulgação)

Ao conferir complexidade e apresentar um conjunto de personagens rico e cheio de matizes, Gidalti Jr. reivindica a humanidade desses indivíduos periféricos da cultura brasileira, que o exotismo e o folclore sempre omitiram. Sistematicamente esquecido pela historiografia musical brasileira, o brega (originado da ideia de música “cafona”, romântica) evoluiu para o tecnobrega a partir de um uso criativo de tecnologias emergentes e acessíveis de produção, como o sampler, e também de diferentes usos para instrumentos como a guitarra.

Brega Story mostra o tempo todo que o brega e o seu entorno é fruto dessa expressão criativa orgânica originada nas periferias e da qual seus integrantes ainda lutam para se manterem fiéis. Esse reconhecimento tardio, evidentemente, trouxe vantagens, como um maior alcance dos artistas e também uma interseção lucrativa com o mainstream. Porém, numa outra ponta, proporcionou interações recheadas de interesses, como o personagem Ribamar, o candidato a governador que se aproxima de Wanderson Jr. na sua campanha.

O trabalho de Gidalti é conhecido por ser permeado de realidade, que ele usa como substrato de suas histórias, mas em Brega Story isso tem ainda mais peso do que Castanha do Pará, que tinha o caos urbano de Belém quase como um personagem. Além da pesquisa gráfica e musical, o autor ainda apresentou neste novo livro um roteiro que traça pontes com temas explosivos como questões de classe, racismo, exploração e precarização do trabalho, além de política e corrupção. E faz tudo isso sem receio, com vigor, com os personagens sempre operando no limite. São seres que estão em uma espécie de vertigem, oscilando o tempo todo, saindo de foco, dissonantes, desalinhados.

E esse nível de vertigem de personagens tentando encontrar saídas das maneiras mais absurdas possíveis casa bem com o estilo de desenho utilizado por Gidalti Jr. nesta HQ. Utilizando um traço mais experimental, mas ainda bastante realista, o autor usou contornos que parecem inacabados, riscos e traçados sobrepostos que dão ideia de imagens em movimento e um maximalismo que abusa do riscado do nanquim. A vertigem do desenho vai aumentando à medida em que a trama avança e fica ainda mais evidente nas cenas de shows. Um caos organizado que combinou demais com o tom da história. Tudo isso somado aos usos econômicos das cores, feitas em aquarela, que surgem em momentos importantes da história. É um dos casos mais emblemáticos em que o estilo e o desenho de um quadrinho comunicam tanto quanto o roteiro.

Brega Story é uma HQ que adentra um tema rico da cultura brasileira com interesse genuíno, original, sem aqueles voos rasantes que estamos cansados de ver.

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