Com uma letra e uma batida, 250 reais e uma galera talentosa, em duas horas qualquer um pode gravar um hit. O Grito! resolveu viver essa experiência de perto

O -funk está na moda. É mais um fenômeno da música pop que contagiou os jovens da periferia e hoje alcança os espaços da classe média do Recife. Muitos questionam a qualidade das músicas e, sobretudo, o conteúdo das letras, marcadas por referência direta a atos sexuais. Embora existam variações como o “batidão romântico” e artistas que privilegiam narrativas sobre o cotidiano das comunidades periféricas onde a violência e o racismo imperam, boa parte das composições falam de bunda, pau, pepeca, de sentar naquilo, meter, quicar e rebolar, e os passos de dança, encenados enquanto as músicas são executadas, não deixam a menor dúvida quanto ao seu caráter sexista.

Especial brega-funk
MCs tomam conta da cidade, mas o gênero ainda sofre preconceito

Essa característica do gênero é sempre questionada, com toda a razão, mas a maioria das dezenas de novos MCs e composições que surgem a cada semana não escapam dessa fórmula. O acesso aos recursos técnicos e o baixo custo de produção são a porta de entrada para a possibilidade de se fazer sucesso e ganhar algum dinheiro.

Revista O Grito! resolveu então descobrir um pouco desse mundo do brega-funk de uma maneira inusitada. Com o auxílio do repórter e cantor estreante , decidimos gravar uma música do gênero, seguindo o passo a passo de qualquer MC que quer se lançar no mercado. Nuno está produzindo, de forma independente, seu primeiro EP, OMNIA, a ser lançado brevemente com composições em diversos estilos musicais.

Para dar início ao experimento, a primeira tarefa foi escrever uma letra para uma canção. Resolvemos então fazer uma composição com a mesma pegada dos brega-funks que têm como tema principal uma situação de envolvimento sexual. Com um detalhe. A letra é uma tentativa de resposta, irônica e maliciosa, aos MCs que sempre evidenciam um comportamento machista com a mulher aparecendo quase sempre apenas como mero objeto sexual. Assim, em vez de dirigir os desejos eróticos apenas às mulheres de uma maneira sexista, a música composta, intitulada “Tá na Marola”, convoca os boys para a pegação, no entanto, não só com as minas, mas com os boys também.

Single no Spotify e clipe não deu nem R$ 250 contos. (Foto: Alexandre Figueiroa/OGT).

O passo seguinte foi encontrar um produtor que topasse gravar a música. Hoje, com 100 reais, é possível pagar duas horas de estúdio e sair dele com uma música pronta para ser consumida. Não sairá uma sinfonia, mas… De início não acreditei que isso fosse possível quando chegamos, eu e Nuno, às 16 horas de uma quarta-feira de junho no estúdio FestaVip, localizado em Jardim Brasil, Zona Oeste do Recife. Também não imaginava que o tal produtor fosse apenas um jovem de 19 anos, cabelo descolorido, bermuda branca, com uma camiseta na cor preta com a logomarca do estúdio. , seu nome artístico, é um rapaz sorridente que, além de produtor musical, é MC, DJ e dançarino.

Rômulo mora em Santo Amaro e desde os 14 anos está envolvido com música. Está há um ano e meio como produtor e domina o equipamento de gravação do FestaVip que se resume a um notebook, uma interface de áudio, duas caixas de som de monitoramento, dois microfones, headset (fone de ouvido) e, em dois cantos da parede, duas placas de isolamento acústico. No notebook, um software de tratamento de som. Pergunto a Rômulo como ele aprendeu a mexer com essas coisas e a resposta é curta e direta: “na internet, sozinho”.

Um detalhe: não estávamos sós no estúdio. Outros três rapazes acompanharam a nossa gravação. Um deles era um garoto negro com 25 anos, conversador e brincalhão. Logo descobrimos que ele é o MC Losk. Está há um certo tempo na onda do brega-funk e é um dos MCs da trupe comandada por Shevchenko e Elloco. Depois de Nuno, ele iria gravar uma nova música com Rômulo.

Losk, de cara, nos passou seu perfil no Instagram e nos mostrou seu primeiro hit, um brega-funk intitulado “Brota Mais Tarde”. Vibrando, nos adiantou que, naquele momento, estava com muitos acessos no Spotify com a música “Vai Piranha Vai”. Feliz com o sucesso da música, disse que já tinha ganho dinheiro com as duas músicas graças ao número de acessos e downloads alcançados. E isso, segundo afirmou, estava contribuindo também para ele conseguir mais apresentações em casas de show nos subúrbios e festas, garantindo sua sobrevivência como artista.

Quando começamos a trabalhar a música de Nuno, Losk e os amigos entraram na brincadeira. Todos sacaram a pegada da música. Enquanto passava a letra para ver a base musical que ia usar, Rômulo observou: “tô ligado, é música de revolta”. Embora a letra tenha o refrão “tá na marola, tá na marola, boy com boy é o que rola”, eles não demonstraram nenhum tipo de estranhamento. De cara percebemos o tino musical de Losk. Ele contou que desde criança acompanha o pai músico e ele próprio toca violão. Losk deu dicas para Nuno quanto ao tom exato que ele devia dar para sua voz e ainda, junto com os amigos, fez coro para um dos trechos da música.

Rômulo Chavoso: produtor autodidata. (Foto: Alexandre Figueirôa/OGT!).

Compenetrado na sua tarefa, Rômulo, aos poucos foi formatando a música a partir dos samples e efeitos disponíveis no seu software e o que era apenas uma letra com uma batida cantarolada ganhou uma melodia e se transformou em mais um brega-funk. Assim, um pouco antes das 18 horas, depois de dividir um refrigerante de dois litros e alguns saquinhos de pipoca com Losk, Rômulo e os dois outros rapazes, saímos de Jardim Brasil com um “hit” nas mãos. Segundo eles a música tem tudo para acontecer, porque é autoral e não é “capela”, ou seja, a letra não tem cópia de trechos de outras músicas.

Concluída a gravação, decidimos fazer um videoclipe para ajudar na difusão de “Tá na Marola”. Mantendo a mesma lógica de produção de baixo custo, Nuno convidou Michael Douglas para ajuda-lo nesta etapa. Com 21 anos, Michael mora em Abreu e Lima, tem uma câmera semiprofissional e enquanto participa do programa Jovem Aprendiz, vai fazendo bicos como fotógrafo e videasta. Esse é o seu primeiro clipe e ele cobrou apenas 100 reais para filmar e fazer a edição. Nuno convidou duas amigas – a garota Yza e a trans Moana – para bolarem uma coreografia. Convidou também rapazes, mas na hora H eles correram da parada. O clipe foi gravado em três etapas. A primeira nos arredores da boate Metrópole, na Boa Vista, a segunda em Ouro Preto, Olinda e a última no terraço da casa do próprio Bruno.

Agora, “Tá na Marola” está sendo lançada como single no Spotify e Deezer, juntamente com o videoclipe que ficará disponível no YouTube. O custo total da empreitada não passou de 250 reais, incluindo registro da música em uma plataforma digital. A composição interpretada por Nuno Talicosk está numa plataforma de streaming ao lado de outros brega-funk, mas também de Dynho Alves do sucesso “Malemolência”, de Madonna, de Anitta e de milhões de bandas, cantores e músicos de todo o planeta.

Se vai estourar e fazer sucesso ou se será apenas mais um brega-funk em meio a tantos outros, não sabemos. Poderá agradar a comunidade LGBTI+, poderá sofrer críticas, enfim, o resultado está aí para ser visto e ouvido. Só posso dizer que a experiência foi divertidíssima e nos mostrou o talento e a criatividade dessa galera da periferia que está fazendo música hoje.

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