A série criada por Carlos Saldanha para a Netflix, Cidade Invisível, é uma grata surpresa para quem lê a sinopse, que fala em criaturas míticas a partir do nosso folclore, o que poderia sugerir algo conservador e didático, quase sempre recorrentes nos discursos nacionalistas.

Meio ambiente é um tema frequente para Saldanha, o criador da animação Rio (2011), e da arara brasileira Blu, mas esta é a sua primeira série em live action. O Rio de Janeiro da série explora uma outra dimensão da Cidade Maravilhosa, que raramente é enfocada, que corresponde ao  sepultamento incessante que é promovido em nome do progresso.

Ao atualizar as lendas de nosso folclore tupiniquim como Iara, Cuca, Curupira e Tutu Marambá, e as inserir na capital carioca, Cidade Invisível vai muito além de um Sitio do Picapau Amarelo para adultos, sem  jamais abandonar a linha do entretenimento a que se propõe. O enredo policial conta com um protagonista que é um investigador ao estilo noir – quebrando as regras do jogo para chegar à verdade, doa a quem doer, e borrando as linhas entre o bem e o mal. O papel cai bem para o ator Marcos Pigossi no papel do agente policial ambiental Eric e sua filha Luna, interpretada por Manu Dieguez, atriz infantil e influenciadora digital, além de Julia Konrad que performa a esposa e ativista Gabriela. O estopim da trama se dá a partir da morte inexplicável de Gabriela, e do surgimento de um Boto Cor de Rosa numa praia carioca.

A delegacia da Polícia Ambiental e a relação entre Eric e sua parceira Marcia (Aurea Maranhão) conferem o clima exato de uma narrativa policial tradicional. Pigossi deixou a Globo pelas incertezas da Netflix e vem se aventurando em séries internacionais, como o vilão de Tidelands (2018), por exemplo, que também explora o sobrenatural. Por outro lado, investir na discussão sobre a importância da ecologia e preservação do meio ambiente, e apontando para a escalada de crimes engendrados por empresários inescrupulosos e grandes grupos das grandes cidades globais, que almejam crescer  pisoteando florestas e pessoas, é um tema de grande apelo tanto internacional quanto nacional. basta pensar nas recentes queimadas do Pantanal e no imbróglio internacional em que se encontra o atual governo por conta da Amazônia.

Atores como Alessandra Negrini e Fabio Lago dão verossimilhança com sua interpretação aos personagens Cuca e Curupira, mas o Tutu Marambá vivido pelo ex-Matanza Jimmy London é de tirar o chapéu, embora bem distante do Bicho Papão das histórias para não dormir.  Os personagens míticos do nosso folclore ganham uma repaginada bem atual, com elementos que mesclam figuras do nosso folclore caboclo como Saci, Corpo Seco, Iara, a traços de demônios gananciosos, feiticeiras da idade média. Mas como já diziam Hobsbawm e Terence Rancer, em A invenção das Tradições, muitas das nossas tradições culturais foram sendo adaptadas a partir de lendas ou até inventadas, como um novo olhar sobre o passado, por questões patrimoniais e econômicas, e são sempre releituras.

A Cuca, por exemplo, acabou moldada ao nosso imaginário local pela figura de um jacaré, mas sua provável origem, pesquisada por Câmara Cascudo, é a da Santa Coca das lendas ibéricas, uma feiticeira que pode assumir formas de bichos, ou ainda da Coca, que no Minho faz parte dos festejos de Corpus Christi. A Iara tem algo em comum com as sereias, mas também com Iemanjá, então é perfeito que ela seja representada por uma mulher negra, embora seja praticamente inédita essa apropriação, pois Iemanjá é também frequentemente representada por Nossa Senhora dos Navegantes.

O Curupira, defensor das florestas e dos animais, encontra similaridades com entidades míticas europeias, como o deus celta Cernunnos, que surge na série franco-belga Labirinto Verde (2017-2019), ou o espírito basco Basajaun, explorado na primeira parte da Trilogia Baztán, também produzida para a Netflix a partir da obra da escritora espanhola Dolores Redondo – os filmes O Guardião Invisível (2017), Legado nos Ossos (2019) e Oferenda à Tempestade (2020) estão disponíveis na plataforma. Essas produções, coincidentemente, exploram o filão criminal para traçar sua narrativa que se alterna entre o horror e o fantástico.

De volta à Cidade Invisível, a ambientação perfeita da Lapa como reduto de entidades míticas, em meio a ocupações e barzinhos da moda contribui para dar consistência à trama e verossimilhança. O abuso de alguns efeitos especiais, desnecessários, poderia ser atenuado, mas não chega a comprometer. A sequência em que a Cuca entra na mente de Eric é primorosa e de impacto, e é descrita por Saldanha em material promocional. A narrativa demora para entregar a origem de Eric, o que dá a sensação de que foi meio gratuito. O Rio de Janeiro que já foi ocupado por franceses, retomado pelo portugueses, e cartão postal do País para gringos, evoca a partir da série esse imaginário que oscila entre matas (ainda) virgens e urbanidade, o passado colonial , a gentrificação e as novas tecnologias.

O tema da especulação imobiliária que avança sobre a natureza sem piedade não poderia ser mais atual e está bem contextualizado. E ainda que a direção escorregue em muitos pontos, tampouco explorados de forma adequada no roteiro, que venha a segunda temporada. Uma narrativa fantástica brasileira de referência, e que conta com o suporte de atores maravilhosos como José Dumont (Ciço) no papel de líder de uma comunidade de pescadores e Thaia Perez como a avó de Erica, Januária. A produção é da Prodigo Filmes e a direção geral é de Luiz Carone (HBO, Pico da Neblina, 2019) e Julia Jordão (HBO, O Negócio, 2013-2018), mais conhecidos pela série da HBO. O roteiro foi desenvolvido em colaboração com a dupla de escritores de literatura fantástica Carolina Munhóz e Raphael Draccon. Eles desenvolveram também a série O Escolhido (2019) para a Netflix, mas o resultado aqui foi bem melhor.

 

 

 

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