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SEM MUITO A DIZER
Documentário Orgulho de Ser Brasileiro traz discurso monotemático e narrativa monótona para bradar clichês sobre o Brasil

Por Fernando de Albuquerque
Da Revista O Grito!

O segundo dia da mostra de longa metragens do Cine PE exibiu o documentário Orgulho de Ser Brasileiro, dirigido por Adalberto Piotto, e Vendo ou Alugo, de Betse de Paula. No primeiro vemos uma viagem em torno do real sentimento de ser brasileiro através de entrevistas com personalidades bem tupiniquins, mas não pouco controversas. Já no segundo, passeamos entre as idas e vindas de uma família puramente feminina (formada por quatro mulheres solteiras) e que se esmera na tentativa de vencer na vida.

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Adalberto Piotto vai até Miami, Nova Iorque e viaja entre as principais capitais da nação desfilando o rol de entrevistados do seu longa. Todo o discurso do filme – que se coloca “não ufanista”, mas sim reflexivo – poderia bem se encaixar em um documento de defesa tucano em que o principal sentimento imposto é o tradicional clichê dos conservadores: ainda temos muito o que fazer, mas já crescemos muito.

Sem malabarismos técnicos, a edição e montagem são impecáveis dentro dos padrões já postos, mas a narrativa é monótona, sem imagens de apoio ou alguma criatividade no registro dos entrevistados. É possível dizer que Piotto escolheu a mais alta camada da elite social e cultural de nosso país (os que realmente interessam) para bradar todos os clichês que já foram ditos sobre a nação. Chega-se ao cúmulo de ouvir da boca de Gerald Thomas, radicado em Nova Iorque (realmente um cidadão muitíssimo brasileiro e que conhece muito bem o dia a dia do país) dizer que “o gigante acordou”. Nesse momento Piotto nos entregou um panfleto da Johnny Walker com os principais tópicos da última campanha da marca.

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Também vemos opiniões para lá de importantes como a de Yara Gouveia – outra brasileira que mora fora do país – falar que no Brasil se ganha muito dinheiro… então, porque será que ela mora em Miami? Está aí uma dúvida que Piotto talvez não tenha tido a sagacidade de perguntar. Romero Brito, outro brasileiro que mora fora do país (senti uma certa dificuldade em pronunciar algumas palavras em bom português), deu sua contribuição analisando o futuro da nação com um olhar digamos…colorido.

Uma opinião muito importante foi do ex-ministro Adib Jatene. Ele comparou os jogos de futebol do Corinthians às partidas estrangeiras. Um depoimento digno de vergonha alheia. Afinal o que é bom está fora do País e não dentro dele, foi o que Jatene deixou marcado nas entrelinhas.

Talvez as opiniões mais sinceras estivessem na geneticista Mayana Zatz ou em Marina Silva. Esta última é dona de um discurso muito coeso e bem embasado, mas a edição pode tê-la prejudicado. No mais, só foi dito fábulas de contos de fadas e um carretel de clichês.

A bem da verdade “Orgulho de ser brasileiro” é um filme sem muito orgulho. Um verdadeiro reino da carochinha para lá de encantado. São pessoas que vivem em brasis que estão fora de nossa fronteira. Brasis em Nova Iorque, Miami, Fort Lauderdale, no Itaim Bibi, Moema e outros espaços onde só se consome vinho e se divaga sobre o sexo dos anjos.

Não podemos ressaltar que o filme de Piotto ganha exibição em um período bem oportuno, quando a nação começa sua corrida pela sucessão nacional. Ponto para os tucanos! Começaram mais cedo a sedimentar seu discurso. Ah, faltou o ícone do PSDB entre os patrocinadores. Fica ainda a dica que: quando se quer falar sobre o Brasil, fale com brasileiros.

ORGULHO DE SER BRASILEIRO
Adalberto Piotto
[BRA, 2013]
Documentário com Fernando Henrique Cardoso, Romero Britto, Gerald Thomas

Nota: 4,0

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