Clássico do quadrinho underground e queer, Stuck Rubber Baby ainda segue atual
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STUCK RUBBER BABY – QUANDO VIEMOS AO MUNDO
Howard Cruse
Conrad, 240 pp, R$ 79,90, 2021. Tradução de Dandara Palankof

Ser gay e apoiar a integração racial no sul dos Estados Unidos, mais precisamente no estado do Alabama, no início dos anos 1960, não era fácil. O cartunista norte-americano Howard Cruse experimentou isto na pele e dedicou alguns anos de sua vida na realização de Stuck Rubber Baby – Quando Viemos ao Mundo, inspirada em sua própria vivência e um dos mais sensacionais quadrinhos com temática queer já produzidas. Agora, ela está disponível para o leitor brasileiro em uma edição comemorativa de 25 anos, lançada pela Conrad, com tradução de Dandara Palankof.

Howard Cruse (1944-2019) foi um dos pioneiros do movimento de quadrinhos underground norte-americano e se tornou conhecido com as tiras do personagem Wendel, dedicadas ao público LGBTQIA+, contando as aventuras de um jovem gay e seu namorado, publicadas, a partir de 1969, na revista The Advocate. No final dos anos 1970 ele também foi o primeiro editor da famosa publicação Gay Comix, criada para divulgar quadrinhos de autores gays e lésbicas. Stuck Rubber Baby é seu trabalho mais primoroso e é baseado em vários acontecimentos da vida de Cruse. Ele cresceu na cidade de Birmingham, no Alabama, e como muitos jovens gays de sua geração era obrigado a viver no armário. Aconselhado por um psicólogo, Cruse foi induzido a se relacionar com mulheres como forma de “curar” sua homossexualidade. Na faculdade, ele manteve um relacionamento com uma amiga com quem acabou tendo uma filha.

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Este é, inclusive, o plot da HQ lançada em 1995 pela Paradox Press, um selo alternativo da DC Comics, e ganhadora de vários prêmios internacionais. Stuck Rubber Baby (“gravidez indesejada” em tradução bastante livre) conta a história de Toland Polk, um jovem que vive na fictícia cidade de Clayfield e esconde sua homossexualidade com um namoro de fachada com a estudante Ginger Rainers. Toland, porém, sente um afeto sincero pela moça e a admira pelo seu engajamento político. Essa relação desemboca num drama, quando Ginger engravida, mas também faz com que Toland se envolva com a comunidade negra da região – vítima constante da violência racial – e entre em contato direto com os protestos pelos direitos civis.

Apesar de já ter completado um quarto de século de existência e estar ambientada nos anos 1960, a obra de Cruse permanece atual. Primeiro como referência histórica incontornável, por nos revelar, de forma contundente e intestinal, os conflitos enfrentados pela comunidade negra – segregação, intolerância, violência policial, ataques da Klu Klux Klan – e que também alcançava, indiretamente, os brancos quando estes eram favoráveis à integração racial.  Segundo, pela riqueza dos detalhes trazidos pelas situações e pelas reações das personagens aos acontecimentos que as cercam. Os desenhos e os diálogos elaborados por Cruse constroem uma tessitura dramática na qual identificamos tanto o que ela sugere na compreensão do que é o racismo e o preconceito entranhado em certos setores da sociedade, quanto como esse comportamento excludente e opressor afeta os indivíduos, seus desejos e seus afetos.

A leitura de Stuck Rubber Baby deve ser atenta e saboreada lentamente. O trabalho do artista é minucioso e com uma riqueza visual ímpar. Na edição da Conrad há um material valioso com fotos e gravuras onde podemos tomar conhecimento de todo o processo de criação da HQ, desde as pesquisas feitas por Cruse para compor a ambientação da trama até a roteirização e a caracterização dos personagens. 

A obra destaca-se pela sua consistência e profundidade no tratamento do tema, mesclando denúncia social com o processo de amadurecimento de seus protagonistas, conduzindo o leitor ao interior da trama e o convencendo da sua pertinência, pela verossimilhança e sinceridade com que tudo é narrado. A perplexidade de Toland diante dos crimes cometidos contra a população negra e com o sentimento que o atravessa por sua relativa imobilidade mesmo quando é diretamente atingido pelo racismo cruzado com a intolerância de gênero e homofobia é algo para se refletir. Ela continua presente nos dias de hoje. Muitas vezes, ainda somos Toland. 

Além disso tudo, o traço laborioso na expressão dos personagens, na composição dos quadros e o perfeito jogo de luzes e sombras só reforçam a ideia de que estamos diante de um dos momentos essenciais das HQs como muito bem observa a quadrinista Alison Bechdel no prefácio desta edição ao ressaltar “a contribuição vital ao poder da narrativa gráfica de refletir nossas vidas – nesse caso, o conflito e o júbilo da transformação social – em todo o seu glorioso caos”. 

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