Fotos Avener Prado

Durante 15 dias, de 11 a 24 de maio, uma caravana cultural, o , percorreu 11 localidades entre Bolívia, Peru, Acre e Rondônia. A iniciativa existe desde 2008 e leva cinema, artes circenses, literatura e música a locais onde o acesso a atividades culturais desse tipo é algo tão raro como outras presenças do Estado. Mas em tempos onde uma parcela conservadora e retrógrada da sociedade insiste em querer negar o valor e a importância da cultura, nada melhor que o relato em primeira pessoa de um jornalista que acompanhou pela primeira vez o projeto. Lui Machado, em textos que se apresentam como verdadeiros diários de bordo, mostra como há um pedaço do Brasil que engravatados da Avenida Paulista e de Brasília podem até querer, mas jamais vão conseguir suprimir de todo.

cineamazonia ANIMAÇÃO EM EXTREMA

Iñapari – Peru

A manhã tinha começado estranha. Acordara com um gosto amargo na boca e um sentimento enorme de constrangimento que tomava o peito, como se tivesse dado vexame em uma bebedeira e agora teria que encarar a ressaca moral. Uma ressaca que provavelmente durará uns cinquenta anos para passar. O golpe havia sido dado. Sabíamos que aconteceria, mas ver esse péssimo momento histórico e ver um raio cair duas vezes no mesmo lugar, 50 anos depois, era constrangedor e… estranho.

Bem, acordamos e, embora tudo tivesse mudado do lado brasileiro da fronteira, ainda tínhamos um festival para realizar. Lá fora o sol se escondia entre as nuvens, mas não deixava de ser quente, produzindo um mormaço desconfortável. Fomos tomar café em uma lanchonete próxima ao hotel (pão com ovo e vitamina de banana, o café da manhã dos campeões). Se eu me sentia esquisito naquela manhã, Fernanda Kopanakis, uma das organizadoras do Cineamazônia, estava arrasada. Isso de certa forma me confortava, por saber que não era o único a me sentir daquela forma.

Aproveitamos para fazer uma breve reunião de pauta. Eu, o fotógrafo Avener Prado, Fernanda e Christyan Ritse, cinegrafista. Foi ótimo para afinar as ideias e ver o que poderia ser feito e o que provavelmente não iria funcionar nos próximos dias.

Com as ideias um pouco mais afinadas, eu, Christyan, e nosso produtor peruano, John, fomos em busca da nossa principal missão do dia. Entrevistar a primeira personagem para o Museus Vivos, projeto do Cineamazonia de colocar entrevistas com pessoas locais contando a história da região.

E que personagem encontramos.

Para encontrá-la, pegamos um tuco-tuco (ou chuco-chuco, tuk-tuk, chuc-chuc, chimichanga, sei lá… É um triciclo igual aqueles que vemos nos filmes que envolvem a Índia, sabe?) e seguimos em direção a área mais rural de Iñapari, distante uns dez minutos do hotel.

À medida que íamos nos aproximando, o asfalto se transformava em chão de terra batida. Nas duas extremidades da rua, o mato crescia abundantemente em frente às casas feitas de madeira. De dentro das casas, algumas crianças olhavam a nossa chegada com desconfiança.

A casa que procurávamos era como todas as outras ao redor, de madeira velha e sem pintura. Ficava em um terreno cercado de mato na altura de nossa canela. Uma tábua de madeira nos ajudava a não pisar em uma poça de lama. O quintal de chão batido tinha duas árvores grandes e outras menores, cobrindo quase todo o terreno. Havia uma namoradeira, uma cadeira, um galinheiro e uma casinha, aparentando ser o banheiro. Todos de madeira.

Na porta da casa, a dona ainda reluta um pouco para falar. Indica a filha, Maria, que ajudou com o contato, para o seu lugar. John, entretanto, a convence. Ela senta no banquinho de madeira. Christyan produz o enquadramento, embaixo de uma das árvores maiores. Ela ajeita os fios grisalhos que começam a invadir o cabelo liso e negro na altura das orelhas com as mãos calejadas. Olhos pequenos desviavam da direção da câmera. Passa as mãos no rosto enrugado. Ela começa a falar.

“Meu nome é Raimunda Gomes Cavalcante, nascida em Seringal de Porto Carlos…”

Raimunda venceu na vida. Não através da lógica que aprendemos desde cedo, enraizada para nos ensinar o mantra burguês de crescer, estudar, produzir, enriquecer. Raimunda não tem uma casa enorme e luxuosa; mas ajudou a construir com a própria força do trabalho as casas em que morou. Nunca viajou a Europa e Estados Unidos, mas sempre conseguiu sobreviver por onde passou, não importasse a dificuldade. Nunca conseguiu pagar estudo de ponta para os filhos serem médicos ou engenheiros, mas conseguiu fazer com que não passassem fome e os viu serem alfabetizados e darem a ela netos e bisnetos. Ela é, até hoje, analfabeta, mas se orgulha dos calos que cultivou na mão durante todos esses anos. Raimunda é e sempre foi pobre economicamente falando, mas já chegou a abrigar em sua casa, ao mesmo tempo, dezesseis haitianos que ficaram desabrigados durante a última grande cheia do Rio Acre. Ela até hoje os chama de filhos.

Dona Raimunda é vencedora por tudo isso. E não entenda isso como ode à pobreza, como adoram apontar os ferrenhos defensores neoliberais, mas como um enorme respeito a quem se acostumou a contrariar todas, TODAS, as probabilidades para dizer que sim, ela existe. E tem direito de existir.

Até porque, convenhamos: quem realmente tem fetiche por pobreza é aquele que faz de tudo para perpetuá-la. Um abraço apertado, uma foto para recordação e fomos embora.

Depois do almoço, tivemos algumas horas livres. Aproveitei para dar uma volta na cidade para procurar algum lugar com Wi-Fi. Foi bom para dar uma olhada melhor em Iñapari. Constatei que é uma típica cidade do interior, com jardins e cercas baixas (não há muros altos na cidade).

Você deve estar pensando: legal, mas e o festival? Bom, eram seis horas da tarde quando as nuvens carregadas do mormaço que castigava-nos desde o início da manhã mostraram a que vieram. A chuva foi uma ducha de água fria para nós. Literalmente. Choveu. Mas choveu… CHOVEU! Tanto, que ficou impossível de montar a parte elétrica, já que o filme seria exibido a céu aberto.

Restou a nós apenas jantar pizza novamente, dormir e esperar que no dia seguinte as coisas funcionassem. Foi o que fizemos.

Festival realiza

Caravana do festival durou 15 dias e percorreu 11 localidades na .

Capixaba – Acre

O sono imperava absoluto na nossa van no caminho à cidade de Capixaba, no Acre. Tínhamos chegado muito tarde ao hotel na noite anterior e nenhum de nós dormiu o suficiente para conseguir recarregar a bateria de forma decente.

O único som que realmente se ouvia era o do CD acústico do O Rappa que, àquela altura do campeonato, já soava como tortura chinesa. Eu ainda resisti bravamente. Precisava recuperar o tempo perdido. Depois que o meu notebook queimou, tinha ficado muito mais complicado de escrever (eu ainda não havia me adaptado com o Mac que a Fernanda me emprestara. Na verdade, até o presente momento eu continuo apanhando para o Steve Jobs).

Lá fora, é possível ver o borrão branco se aproximando no horizonte do solo praticamente careca com pastos a perder de vista. Os pingos grossos da chuva batem com violência na lataria da van. Apresso o passo para poder ter algumas horas de sono antes de chegar em Capixaba. Com exceção de uma súbita quebra do ar-condicionado, que deixara a todos preocupadíssimos (mas que logo fora consertado pelo seu Joselito, o motorista), a viagem seguiu sem grandes sustos até nosso destino final.

Chegamos ao hotel em Capixaba. Almoçamos e já pergunto para o dono do local onde ficamos hospedados se havia alguma personagem interessante para o projeto dos Museus Vivos. Tivemos alguns desencontros até chegarmos à nossa personagem, dona Rosaura. Ela tem 80 anos, cabelos grisalhos e pele branca, mas bem menos enrugada que dona Raimunda, nossa primeira personagem. Impressionante como o trabalho no sol envelhece a pele. Ela veste uma camisa azul de bolinhas brancas, com um cruscifixo caindo no peito.

Ela foi uma das primeiras pessoas a se instalar em Capixaba. Como professora, lutou muito para conseguir trazer vitórias para a educação e, consequentemente, o próprio desenvolvimento da região. Ela conta que quando chegou havia apenas mato e pouquíssimas famílias vivendo no local. Todas de donos de seringais. A escola ajudou a aproximar os trabalhadores que ficavam muito longe e passaram a se aproximar para que pudessem estudar. Uma personagem que explica muito e que cumpre seu propósito, já que ela viveu absolutamente tudo o que aconteceu na cidade.

Abrem-se parênteses. Mas por que cargas d’água um município no Acre se chama Capixaba? Bem, na época do boom da borracha, várias famílias se mudaram para o norte do país. Uma das primeiras famílias que lá chegou tinha saído exatamente do Espírito Santo. Como era uma família que tinha uma condição financeira um pouco melhor, servia como ponto de distribuição e venda de artigos de primeira necessidade, principalmente ferramentas. Assim, sempre que alguém precisava de alguma coisa, falava que ia ver se tinha lá no “capixaba”. O nome se tornou ponto de referência. Na época de emancipação da cidade, uma eleição entre Capixaba e Vila Santo Antônio (padroeiro da região) feita com caroços de milho (representando Capixaba) e de feijão (representando Vila Santo Antônio) decidiu o nome. Venceram os caroços de milho.

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Drone registra uma das sessões do CineAmazônia.

Por volta das 16h, eu estava escrevendo no quarto pequeno do hotel. Um beliche, uma cama de casal, um frigobar desativado, uma televisão sem funcionar em cima de uma mesa de madeira e um ar-condicionado barulhento preenchiam o quarto acanhado. No meu celular, as poucas músicas do Descendents me distraem enquanto tento produzir, lutando para conseguir colocar todos os acentos usando o Mac. Eis que entre uma música e outra eu ouço um chiado familiar. Pauso a música, para ter certeza do que ouvia. Sim, era ela… A famosa chuva nortista. Pingos grossos, retos, frios, caindo com força nos vidros e telhados do hotel.

Não havia muito o que fazer naquele momento, senão salvar tudo o que tinha feito até então, trocar de roupa e descer a escada estreita que levava ao térreo. Na entrada do hotel, Christyan e Phillipe conversam com Fernanda sobre algo que naquele momento já não era mais importante. Precisávamos tomar banho naquela chuva. Mais que isso, seria um insulto se não o fizéssemos.

O primeiro que convenci fora Philippe com o seguinte diálogo: “Vamo!”, “Vamo mesmo?”, “Vamo, pô!”, “Tu vai mermo?”, “Vou, pô! Bora!”, “Então bora!”, “Bora mesmo?”, “Num tô falando ‘bora’?”, “Então bora!”. Fomos.

O segundo foi Christyan. Ele estava reticente. Havia muito o que fazer, muito o que trabalhar. Ele é um daqueles caras pilhados do bem que te puxam para cima sempre que você está para baixo e cuja animação é sempre instigadora. Mas naquele momento ele estava indeciso. Pensou, relutou um pouco e só se convenceu da ideia com o aval de Fernanda e depois que eu e Philippe entramos debaixo da chuva.

Éramos apenas nós três na rua naquele momento. Três marmanjos barbados correndo no meio da chuva torrencial como se fossem três moleques. Fernanda ria e tirava fotos nossa pulando e tomando banho de biqueira. Foi sensacional! Faltava muito pouco para ficar tudo perfeito. Até que, olhando do outro lado da avenida, avistei dois garotos corriam em direção ao campo de futebol do município. Um deles levava consigo uma bola embaixo do braço. Pronto! Não faltava mais nada!

Não tive dúvidas. Chamei Chris e Philippe e ainda convenci dois meninos da montagem. Formou o time partimos para o campo. Vamos jogar bola na chuva. Era um goleiro e dois times de três. Dois ficavam de fora. O gramado estava extremamente escorregadio e a chuva continua caindo com força. Várias poças de lama se formavam e era praticamente impossível correr sem escorregar.

A chuva passou. Voltamos para o hotel esperarmos a hora do festival.

Quando a noite chegou, Sussa e o pessoal da montagem já tinham terminado o serviço. Capixaba é uma cidade muito bonitinha, com ciclovia e um calçadão movimentado, com várias lanchonetes e serviços. A estrutura ficou montada na entrada do campo de futebol, defronte ao hotel. Uma sacada do lado direito do telão servia como camarote e uma grande árvore criava sombra e dava charme ao local escolhido. O local ficara absolutamente lotado, com muita gente no canteiro central da rodovia que corta o município e com os comerciantes ao redor aproveitando para faturar uma graninha com o movimento atípico.

A noite foi linda. A programação conseguiu se conectar bem com o público. Os palhaços peruanos Figurita e Aguahito conseguiam se entender com a plateia mesmo só se comunicando com apitos (nenhum dos dois sabe falar português).

Estava tudo bem quando subitamente veio o breu. Um problema em um dos transformadores de energia da cidade deixou boa parte de Capixaba no escuro completo. Algo que poderia ter acabado com o espetáculo. Nada! Mesmo no escuro a população não arredou o pé de onde estava o festival, alimentado por geradores. A cidade estava toda no escuro e o único local que iluminava o município era onde estava a arte. Em tempos de crescente obscurantismo, pense na simbologia deste momento. De uma forma ou de outra, a arte sempre ilumina.

O show continuou como tem que acontecer.

E ia seguindo bem, até que veio a cena mais estranha da noite. Enquanto os palhaços divertiam as crianças em sua apresentação, no alto da árvore que ficava ao lado do telão uma preguiça (que eu mentalmente apelidei de Sarali), pisava vagarosamente em falso em um dos galhos. Antes de cair ao chão ela consegue se segurar no último galho. O barulho na árvore foi o suficiente para transformar a noite em um alvoroço só. Todas as pessoas que estavam sentadas no show foram correndo para ver a tal preguiça.

Rodeavam a preguiça embaixo do galho em que ela estava agarrada, gritavam, tiravam selfie e fotos com flash em sequência. A organização do festival ainda tentou convencer os moradores a dispersar e continuar o show, até porque, estávamos todos preocupados com a integridade do animal. Demorou alguns minutos, mas conseguiram tirar a multidão do local.

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Caravana reúne populações locais para exibições ao ar livre. Bem, isto se a chuva ajudar, claro.

Visita Alegre de Abunã – Rondônia

Mal tínhamos chegado a Vista Alegre de Abunã quando começamos a receber as notícias que corriam à boca pequena nas esquinas do distrito. “Oito pessoas teriam sido assassinadas naquela semana”, era a informação que circulava entre os moradores. Embora o número exato de mortos fosse um pouco desencontrado (cada um falava uma coisa), isso já dizia um pouco sobre o lugar que estávamos.

Fernanda bateu na porta assim que ouvira os rumores violentos. Quando abrimos a porta, ela nos olhava com uma expressão de assustada. “Como ninguém fala sobre isso? É uma chacina!”, exclamava indignada. Ainda não sabíamos quais as circunstâncias dessas mortes, nem se os números eram de verdade. Decidi ir a um posto policial para confirmar o que realmente havia de real (ou não) nesses boatos.

Pensei que não seria uma tarefa fácil. Em Vista Alegre do Abunã não existe posto policial e apenas quatro soldados da Polícia Militar fazem o policiamento no local que tem aproximadamente 1500 habitantes (segundo o IBGE). Encontrar um deles na rua seria como achar agulha no palheiro.

No final das contas sequer precisei procurar. Isso porque no final da rua em que estávamos hospedados, um sargento da PM local estava à paisana. Ele é o dono do bar/restaurante onde havíamos acabado de almoçar.

O restaurante de parede vermelha não tinha paredes e era escorado por troncos de madeira, também pintados de vermelho. Bem de frente ao balcão, uma enorme televisão estava ligada e passava um filme meio softporn às 14h e um gato olhava atento para um calango que passava debaixo de uma mesa.

Conversei com o sargento que, por motivos óbvios, não quis se identificar. Vista Alegre de Abunã é um local com intensos conflitos fundiários e é mais um distrito cujo poder público passa longe. Ele conta que por lá os homicídios ocorrem quase toda semana. De dezembro a maio, foram registradas 33 “mortes matadas” por lá, sendo a maioria por motivos fúteis.

A banalização dos assassinatos em Vista Alegre do Abunã chegou a tal ponto que a causa mortis de alguns casos é descrita apenas como “cachaçada”.

Um exemplo de morte por “cachaçada” acontecera três dias antes de chegarmos no distrito. Explico utilizando nomes fictícios: João era amigo de José e casado com Maria. Maria tinha um caso com Antônio. José sabia do caso e não contou para João. Em um momento de embriaguez, José contou para João que Maria o traía com Antônio. João matou José porque este não havia lhe contado da traição antes.

Não se sabe o que aconteceu com Maria e Antônio, mas se são espertos já devem estar bem longe dali.

De qualquer forma o difícil mesmo é saber quantos desses não estão realmente ligados aos conflitos de terra, uma vez que os homicídios raramente são investigados pela polícia. E mesmo quando um dos assassinos é pego, quase nunca se consegue fazer a ligação entre o executor e o mandante do crime. Em um lugar que o Estado não chega, a pistolagem e a lei do mais forte são regras. Bater de frente com isso não é lá muito prudente.

cineamazonia EQUIPE SE LOCOMOVENDO

Equipe se locomovendo em áreas afastadas para a montagem do festival.

Até mesmo o perfil dos pistoleiros está mudando. Esqueça aquele perfil de matador de aluguel que anda com a arma na cintura pagando de machão. Agora são os jovens os preferidos para a contratação para esse tipo de trabalho. “Esses dias prendemos dois garotos de 18 anos que tinham recebido dois mil reais para matar uma mãe e um filho que tinham umas terras na zona rural”, conta o sargento.

Para finalizar a conversa, o sargento me dá a direção do que ele disse ser uma pessoa que já fora ligada ao MST e que teria todas as informações sobre a questão das mortes e, principalmente, de conflitos de terra em Vista Alegre. “Procure pelo Jacaré”, disse.

O calor era intenso, embora o sol não saísse. Fomos eu e Avener. Fernanda, que estava fazendo propaganda do festival em alguns comércios e casas próximos ao hotel, decidiu se juntar a nós. De vez em quando eu olhava ao nosso redor. Definitivamente estávamos na periferia da periferia. A maior parte das casas de madeira eram tão velhas que pareciam que iriam cair se batesse um vento mais forte.

Encontramos Jacaré saindo de carro. Estavam ele, a esposa e o filho mais novo, saindo num Gol velho e branco, apelidado como Jacarezinho.

Jacaré foi uma decepção como fonte, mas um presente como personagem. Fanfarrão, ele falava sempre na terceira pessoa e se dizia “administrador de todo o sul de Lábrea” (Lábrea é um município de Amazonas, local onde mais há mortes devido a conflitos fundiários no Brasil atualmente). Mais que isso, se intitulava responsável por ajudar na comunicação de 30 municípios e comunidades na faixa que faz fronteira entre Amazonas e Rondônia. Era pelas mãos dele, garantia, que as certidões de nascimento e de óbito passavam.

A casa de Jacaré era simples, mas arrumada, com paredes de madeira sem pintar. Os dois sofás da sala tinham capa azul e ficavam de frente um para o outro. Ele confirmou o número de mortes, mas desconversou sobre as causas. Parei de dar atenção a ele quando insinuou que os madeireiros eram vítimas de perseguições na região por não poderem fazer o trabalho deles em paz e sem críticas.

Em determinado momento, o nosso anfitrião sacou o smartphone do bolso para nos mostrar um vídeo no mínimo surreal. Era ele próprio apresentando um corpo que estava estirado no chão havia três dias e esperava a remoção pelo IML. O jovem estava coberto por um tapume de madeira e teria sido morto a facadas. Causa mortis: cachaçada.

No vídeo bizarro ele pedia às autoridades para que tomassem providências na região. Mostrava o cadáver com braço direito em puro osso (o resto teria sido comido por cachorros); a mãe do rapaz morto chorando; ele se enrolando para colocar a máscara de pano no rosto… Tudo isso em cinco minutos de puro mau gosto.

O melhor, entretanto, Jacaré tinha deixado para o final. Na saída, em frente a casa, em uma espécie de garagem/depósito de madeira, ele mostra um caixão que trouxe de Porto Velho. Ele diz que o caixão já é o dele, mas como a rotatividade de mortes na região é tão grande, é muito provável que outra pessoa faça uso antes dele. “Às vezes alguém aqui morre e não tem dinheiro para um enterro adequado. Aí eu já tenho um aqui que dou para a família”, diz.

Saímos rindo de quão surreal toda aquela situação era. “Isso é um personagem capaz de deixar Gabriel Garcia Márquez com inveja”, disse Fernanda.

No caminho avistamos uma butique com roupas de marcas de grife. Era uma loja elegante, de paredes brancas peroladas, com iluminação decoração dignas de uma loja em Ipanema. Detalhe: eram por volta das 16h e não havia uma pessoa sequer na butique. Nem trabalhando.

O contraste do estabelecimento com o resto da comunidade era tão gritante (mais tarde eu chequei os preços e vi uma calça jeans sendo vendida por R$ 250 que, por um minuto, eu até cheguei a pensar que era um típico lugar para usado lavar dinheiro.

Era uma noite quente. Os mosquitos atacavam sem piedade as pernas e os braços que ousavam ficar de fora. A exibição seria na quadra de uma escola pública. Muitos dos presentes eram alunos e ainda usavam uniforme da escola.

Do lado do festival, um bar de paredes de madeira pintadas em brancas e azuis tocava um brega em um volume alto, como uma cena clichê de um filme nacional. Foi de lá que um homem foi em direção à porta do local onde seria realizada a sessão de cinema. Visivelmente alterado, ele se dirigiu a Mauro e Phillipe Omena, repórteres do Amazon Sat e seu Francisco, o eletricista da equipe.

Com o dedo em riste ele dizia que questionava quem éramos nós, do festival, para querer salvar a natureza ou as pessoas, se por aquelas bandas nem deus consegue salvar. Estávamos, na verdade, era ludibriando o povo com aquele tipo de mensagem. “Sou madeireiro. Estou aqui no bar ao lado. Tô bebendo, tô fumando, tô cheirando… O RECADO TÁ DADO!”, disse ele, para espanto de todos.

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A selfie do palhaço: festival tem atividades circenses, que fazem sucesso com as crianças.

Extrema – Rondônia

Estamos cansados e isso é visível. Está nas nossas expressões, nos bocejos, nas viagens em silêncio na manhã seguinte ao espetáculo. Alguns pequenos problemas também começam a aparecer. Por exemplo, ainda não tivemos chances de lavar roupa. O pouco tempo que temos livres, o sol ainda não apareceu direito, mantendo-se escondido por trás das nuvens, dificultando a secagem das roupas molhadas.

Sorte que temos o pedaço de palo santo levado por Chistyan, que ele diz ser uma madeira mística da cordilheira dos Andes. Segundo Chris, o palo santo – um pedaço de madeira bem leve e com a consistência de um carvão – é um incenso natural que na medicina indígena serve para sarar de tudo, desde alma carregada à dor de cabeça. Mas aqui nós utilizamos para disfarçar a miscelânea de odores no quarto.

Chegamos à Extrema por volta da hora do almoço. Christyan já tinha o personagem do Museus Vivos em mente. Era Walderi Maia, um senhor de 80 anos de idade que chegara a Extrema por volta dos 16, como mais um migrante que saíra do Ceará em busca de melhores condições de vida nas inabitadas terras do norte do país. O rosto coleciona rugas e quase não há cabelos na cabeça. A orelha esquerda foi parcialmente arrancada em uma cirurgia depois de ter se ferido com um prego em uma reforma em casa.

A casa de Walderi fica na baixada de Extrema, em uma rua esburacada e de difícil acesso. O barraco de madeira era ao mesmo tempo lar e trabalho. Na varanda, todos os tipos de produtos ficavam à mostra. Redes, roupas, calçados, toalhas, bolas, brinquedos. Dentro, não há espaço para muita coisa. A cama de casal é baixa e, em cima dela, mais objetos estão à mostra. Um pequeno balcão separa a cozinha do resto do casebre.

Ele conta que saiu com os pais e os 17 irmãos do Ceará quando tinha 16 anos. O percurso durou entre vinte dias e um mês e foi muito difícil. Muitas das famílias que acompanharam a de Walderi com o mesmo destino abandonaram o trajeto e ficaram pelo caminho. Outros tantos morreram de malária.

De certa forma, Walderi já chegou em Rondônia como sobrevivente para trabalhar com os pais e os irmãos no seringal. O local era no meio da mata em uma área predeterminada pelo patrão. A “casa” da família era um pequeno lugar descampado com chão de assoalho beneficiado e um teto de palha segurado por quatro troncos de madeira. No meio da floresta amazônica ainda praticamente inexplorada, não havia paredes que os protegessem de onças, cobras, queixadas e dos mosquitos.

Assim como tantos outros nordestinos que migraram para o norte, Walderi tinha ido em busca de um pedaço de terra para chamar de seu. Tudo que encontrou, entretanto, já tinha dono. A terra, o local de trabalho, as ferramentas, a comida. Por tudo isso tinha que pagar. Enquanto um quilo de borracha era vendido aos patrões por R$ 0,05, o quilo de banha de porco para fazer comida era vendido aos seringueiros por R$ 2,00 (cotação atual).

Foram anos nessas condições. Trabalhando muito, comendo pouco, descansando menos ainda. Viu os pais falecerem e os irmãos procurarem outro lugar para viver. Viu amigos e conhecidos morrerem nas mãos dos patrões, que os matavam assim que esses pediam as contas para irem embora dali.

A história de seu Walderi Maia não é exceção, e sim regra. Isso de certa forma explica o histórico de violência que paira sobre o distrito. O local é tido como um dos mais complicados do trajeto da itinerância. Em Extrema, como todos os outros distritos de Porto Velho em que passamos, o poder público praticamente não existe e as atrações culturais são mais que raras.

Entretanto, algo nos jovens sempre fez do local um lugar com um clima especialmente hostil para a caravana. Em experiências anteriores, os palhaços convidados foram agredidos fisicamente pelo público. Isso sem contar os gritos de deboche que vinham a todo o momento do espetáculo.

Para Fernanda, o fato de terem sido ignorados durante tanto tempo pelo Estado criou uma fome de atenção, de cultura e até mesmo de carinho. Faz sentido. Em outras palavras, o abandono do Estado contribui ativamente para a construção de uma sociedade hostil. Não é preciso ser um sociólogo para perceber que muito provavelmente este seja o caso de Extrema.

Já perto da exibição, os palhaços Figurita e Aguahito se arrumavam para a apresentação da noite. Eu e Avener aproveitamos para fazer uma entrevista com eles.

Figurita é Juan Carlos, 40 anos de idade, nasceu em Ica, na costa do Peru. Ele já está vestido quando entrei no quarto que lhe serve de camarim. Tem o cabelo liso preto e uma pele morena como a maioria das pessoas daqui. O rosto não tem um fio de barba sequer, para não atrapalhar o processo de caracterização (é muita maquiagem). Sentado em uma das camas da suíte, ele conta como decidiu se dedicar à vida de palhaço. Torcedor do Alianza Lima, time da capital e um dos mais populares do Peru, Juan divide a profissão com a de professor de Educação Física.

Mas o que mais chama a atenção é a humildade que ele transparece. Durante toda a viagem é fácil perceber que está visivelmente feliz em participar da itinerância.

Durante a entrevista, ele contou sobre algumas experiências como palhaço. Como da vez em que fora contratado para animar uma festa de debutante de uma garota no Peru. No local reservado para dezenas de pessoas, apenas quatro convidados, tirando a família da menina, ocupavam o espaço. Passaram-se 30 minutos, uma hora, duas horas… os convidados não apareciam. A mãe chegou a pedir que ele cancelasse o espetáculo. Juan não obedeceu. “Estou aqui para te animar, irei te animar”, disse à aniversariante que não escondia a frustração. Durante a apresentação foi o único momento em que a garota sorriu.

Terminamos a entrevista com Figurita. Faltava Aguahito, mas um problema no microfone não permitiu a continuidade. Menos mal que naquele momento, seu Joselito chegava com Christyan tendo como missão levar os palhaços para a apresentação. Estávamos atrasados.

Enquanto isso, na quadra poliesportiva em que seria realizado o show, Fernanda começa a ficar preocupada. A tensão pairava no ar de forma palpável, como se fizessem parte das partículas de poeira que tomavam conta da cidade. Os filmes acabaram e era a vez dos palhaços, que ainda não haviam chegado. A plateia começa a ficar impaciente e Fernanda decide colocar mais filmes para rodar enquanto a próxima atração não chega.

No hotel, os dois palhaços já estavam prontos. Philippe filmava a saída dos palhaços do quarto até a van. Estávamos todos no veículo, quando Aguahito se dá conta de que esqueceu algo. Ele para e vai até o quarto para pegar e demora mais alguns minutos.

De volta à quadra, Fernanda precisa ficar atenta. Ela ouviu de um dos garotos conversando e dizendo que pretendiam pegar o extintor de incêndio do festival que estava atrás do telão. Por isso, ela decide ficar o tempo todo atrás da tela, vigiando possíveis tentativas de tumultuar a apresentação.

A dupla passa por uma passarela coberta e entra no ginásio. Nas arquibancadas a presença dos adolescentes é maciça. Alguns jovens gritam impropérios e algumas crianças correm durante por todo lado durante a apresentação dos palhaços.

Pelo menos nenhuma pedra foi jogada. Ufa.

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Equipe do Cineamazônia – intempéries em uma Amazônia que passa por três países.

Abunã – Rondônia

Ainda era cedo quando a van voltou à estrada. Nosso próximo destino era Abunã, distrito que fica há aproximadamente 200 km do centro de Porto Velho. Do lado de fora, o sol finalmente parece deixar a timidez de lado e se mostra por completo sem interferência das nuvens. Já do lado de dentro, o frio do ar-condicionado incomoda e a dor de cabeça vai e volta, de forma irritante. Sem dúvida é o cansaço começando a falar mais alto sobre os nossos corpos.

Menos mal que as brincadeiras não param, o que permite uma leveza importante para o ambiente. Fernanda já falara na noite anterior que há uma energia positiva em volta da equipe que permite com que todos se sintam a vontade. Embora ninguém fale a respeito, a minha sensação é de que todos sintam essa leveza da mesma forma.

Havíamos saído há pouco tempo das mediações de Vista Alegre do Abunã, quando percebemos um carro estranho acelerando ao lado da van. Ele se aparelha ao nosso veículo e ordena insistentemente que encostemos. Estranhamento geral. Duas noites antes, parte da equipe havia sofrido uma tentativa de intimidação de um madeireiro local. Alguns membros da viagem sentiram o coração parar de bater e o suor correr frio sobre a têmpora.

A van acata a ordem e para no acostamento. De dentro do carro branco parado alguns metros à frente, um homem de óculos escuros e camiseta branca por baixo de um colete cinza se dirige com cara de poucos amigos ao motorista da van.

Era Jurandir Costa, marido de Fernanda e, junto a ela, idealizador do Cineamazônia. Ele acabara de chegar de viagem, estava participando das filmagens no Rio Grande do Sul e se juntara à caravana. Quem está no carro com Jurandir é Rodrigo, o nosso dronista (sim, eu também não sabia que isso era uma profissão, mas aparentemente é). Ele foi contratado para fazer imagens aéreas com um drone – sim, temos um drone.

Para fazermos as imagens com o drone é preciso paciência. Andar e parar, ir e voltar. Uma, duas, três, quatro vezes, repetidamente para conseguirmos o plano perfeito. Cansou um pouco, mas o resultado ficou maravilhoso. As imagens percorrendo o Rio Abunã, mostrando a antiga estrada de ferro Madeira-Mamoré submersa e a ponte em construção que liga Rondônia e o Acre, por exemplo, ficaram sensacionais.

Abunã é um local estranho. A impressão é que o lugar, que já foi uma das regiões mais importantes de Rondônia, tornara-se quase uma cidade fantasma. O silêncio na região é impressionante e só era quebrado com a passagem de uma ou duas motocicletas. Na avenida principal (que na verdade é a BR 364), é possível ver as lembranças das enchentes que atingiram a região em 2014. O frontal do trem que costumava seguir a antiga estrada de ferro madeira-mamoré estava enferrujado e deteriorado e um enorme sino precisava ser escorado para não cair ao chão. Mais à frente um coreto velho e já sem pintura, cercado de um mato por causa de uma grama sem corte, dá um ar de abandono ainda maior ao local.

Sebastião Mota Soares, o Seu Mota, tem 69 anos e vê a deterioração de Abunã todos os dias. Ele é dono do hotel em que ficamos hospedados, além de um pequeno mercado. Ambos ficam bem de frente à avenida principal. Antigo militar, ele conta que era enfermeiro do 5º Batalhão de Engenharia e Construção de Porto Velho. Chegara ainda na década de 1970 para ajudar na recuperação da famosa estrada de ferro que cortava Rondônia. Quando chegou a mata ainda fechada e não muito mais.

Como era o único enfermeiro da região, era a ele a quem as pessoas procuravam quando precisavam de assistência médica. Em uma localidade em que ter malária era às vezes mais frequente que gripe, ter um enfermeiro à disposição podia ser crucial. Era ele também o responsável por fazer os partos das moradoras locais. “Eu não sabia como ou o que fazer. Mas como eu era o único enfermeiro daqui, as pessoas me procuravam e eu tinha que ajudar de alguma forma”, conta. Foi ele, aliás, quem realizou o parto de três dos quatro filhos e quem casou boa parte dos casais na época. Sim, ele também atuava como juiz quando necessário.

Enfermeiro, médico, juiz, parteiro, conselheiro. ‘Seu’ Mota fala tudo com calma, com um orgulho escondido embaixo de várias camadas de humildade. O olhar só perde a serenidade ao falar da cunhada Nicinha, liderança comunitária, assassinada por conta de sua luta pela preservação das áreas florestais da região.

“Todo mundo sabe que mandaram matá-la por conta do trabalho que ela costumava fazer”, diz.

A sessão de cinema ocorreu à noite na quadra da escola municipal do distrito. Para chegar lá, é preciso cruzar um quarteirão inteiro em uma rua escura, de terra e completamente esburacada. A quadra construída em cima de um pântano é cheia de lama. Lá, um menino chamado Israel fazia estrelinhas, dava pirueta e cambalhotas, se exibindo para nós. Alguém perto de mim chegou a perguntar se ele queria entrar para o circo. Israel disse que só estava feliz.

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No meio da floresta: Montagem do telão para a exibição de filmes.

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