Pernambucano Sem Coração foi um dos preferidos do público. (Divulgação).

Pernambucano Sem Coração foi um dos preferidos do público. (Divulgação).

Três curtas de PE estiveram entre os premiados. Gaúcho Se Essa Lua Fosse Minha ganhou o prêmio principal

Por Karen Lemos
De São Paulo

Celebrando 25 anos de existência, o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo apresentou uma programação plural, com destaque para seis novas produções do cinema pernambucano, exibidas entre outros 331 filmes de 51 países em alguns cinemas da capital paulista entre os dias 20 a 31 de agosto.

O gaúcho Se Essa Lua Fosse Minha, de Larissa Lewandoski, sobre moradores de rua de Porto Alegre, levou o Prêmio Itamaraty – principal do evento. Três produções de Pernambuco se destacaram entre os premiados. Exibido na Quinzena dos Realizadores do último Festival de Cannes, Sem Coração, de Nara Normande e Tião, levou o prêmio CTAv e ficou entre os favoritos do público. Casa Forte, estreia de Rodrigo Almeida, recebeu o troféu Cachaça Cinema Clube.

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Costurado por imagens de fachadas de prédios do Recife que exibem nomes em referência ao período colonial, o curta Casa Forte narra uma história sob dois pontos de vista diferentes. “Eu não queria que o filme fosse mais um – chamando bem grosseiramente – ‘filme de prédio’ do recente cinema pernambucano, daí resolvi desenvolver dois depoimentos, a partir de uma outra ideia que eu tinha e que tornasse a colocação do filme mais contundente”, explicou Rodrigo em conversa com a Revista O Grito!. “Escrevi dois textos narrados, criando um ruído envolvendo o suposto fetiche de um homem branco por negros e o uso do negro para estabelecer uma relação de dominação inversa”.

Curta gaúcho Se Essa Lua Fosse Minha passou também em Gramado. (Divulgação).

Curta gaúcho Se Essa Lua Fosse Minha passou também em Gramado. (Divulgação).

Destaques de Pernambuco

Muito aguardado por conta de seu conteúdo que, após os últimos acontecimentos, ganhou outra significância, Em Trânsito, de , teve uma recepção curiosa. O curta-metragem que trabalha com a exploração da imagem de Eduardo Campos, presidenciável morto em um acidente aéreo, teve sua primeira exibição no festival após a tragédia. Mesmo uma cena em que um cartaz ilustrativo do político é decapitado, não causou espanto e o público riu e aplaudiu a obra cuja crítica social permanece fresca. “Neste momento em que várias coisas podem se confundir, é importante frisar a intenção política do filme: uma crítica ao projeto desenvolvimentista, ao personalismo, a uma forma antiga de fazer política que se dizia nova. É nesses termos que se funda o gesto da obra e é assim que espero que ela possa continuar a ser vista e debatida, não obstante o impacto desestabilizador da tragédia e da morte”, declarou Marcelo em um comunicado lido pelo assistente de direção Carlos Nigro antes da sessão.

A História Natural foi premiado no último Festival de Cinema de Gramado. (Divulgação).

A História Natural foi premiado no último Festival de Cinema de Gramado. (Divulgação).

Premiado no último Festival de Cinema de Gramado, A História Natural, de , deixou o público intrigado com um misterioso objeto orgânico que é colhido de uma árvore que, de tão alta, acaba isolada em sua existência. “Perto da minha casa, no bairro Dois Irmãos, tem uma floresta na qual, em cima de um morro, existe uma árvore mais alta que todas as outras. Queria fazer algum trabalho artístico com isso e saí pelo mundo buscando árvores nessa mesma situação de isolamento”, explicou o diretor.

Sobre o estranho objeto, ele definiu: “Ninguém sabe o que é. Alguns acham que é um fruto, outros uma casa de inseto ou uma armadilha, ouvi até dizer que é um ovo alienígena. Vai da interpretação de cada um”, completou Júlio, que usou referências de filmes de ficção pós-apocalípticos e histórias em quadrinhos neste trabalho.

O curta Loja de Répteis conta com a ‘atuação’ de um jacaré. (Divulgação).

O curta Loja de Répteis conta com a ‘atuação’ de um jacaré. (Divulgação).

Sob um clima de terror existencialista, Loja de Répteis, de , traz uma atmosfera decadente de um inusitado comércio e de como isso afeta o dia a dia de um casal, cada vez mais consumido pelo ambiente inóspito em que vive. “Ao usar uma loja que comercializa animais, eu desejava questionar também essa lógica consumista na qual vale tudo para obter o sucesso financeiro”, explicou Severien. O curta conta com a ‘atuação’ de um jacaré, encontrado por ele em uma empresa de abate em Alagoas. O animal é o principal causador de toda a estranheza abordada na obra. “Desde a primeira sessão, percebi que o filme parece atingir o público com um misto de estranhamento e prazer”, pontuou.

Foi um encontro com uma curiosa fotografia que levou a filmar Pausas Silenciosas. O filme mostra os registros de um Recife – não mais existente – sob as lentes do fotógrafo (não há parentescos com a realizadora) e captura sua lenta perda de memória por conta do Alzheimer. “Alcir fotografou o Recife para que nós não nos esquecêssemos da cidade que um dia tivemos. Ele salvou do curso do tempo a nossa cidade”, declarou Mariana, que traz um trabalho contundente em tempos de críticas diante de um desenfreado crescimento urbano. “Foi muito bom ter o exercício de olhar essas fotografias que estavam adormecidas, escondidas em um arquivo, e colocá-las em uma dimensão cinematográfica”, concluiu.

Filme Bashar foi filmado no Egito. (Foto: Divulgação).

Filme Bashar foi filmado no Egito. (Foto: Divulgação).

Brasil dentro e além das fronteiras

As mostras nacionais trouxeram outras gratas surpresas, como produções brasileiras filmadas em outros países, traçando um panorama internacional sob novos pontos de vista. Um bom exemplo disso é a coprodução Brasil/Egito Bashar, de Diogo Faggiano, que testemunha os conflitos na Síria e de como a guerra civil tem trazido extremo sofrimento à sua população indefesa. Filmado em Aleppo, em novembro de 2012, a produção do curta envolveu alguns riscos. “Tínhamos medo de ter as imagens apreendidas, fosse na Síria ou no Egito. Por isso guardávamos backups nas meias e debaixo do colchão”, recordou Diogo, em conversa com O Grito!.

Para o cineasta, o mais difícil do todo o processo é encarar os ‘fantasmas’ da guerra presentes no seu trabalho. “É estranho saber que a maioria dos homens que aparecem no filme estão mortos. E, de certa forma, o que sobrou desses homens está contido num cartão de memória”. Além do curta, o material que a equipe conseguiu em terras sírias (e outros locais do Oriento Médio) será transformado no longa-metragem A Revolução do Ano, com estreia prevista ainda para este ano.

O "disco voador" do curta Efeito Casimiro. (Divulgação).

O “disco voador” do curta Efeito Casimiro. (Divulgação).

Bem distante das nossas fronteiras, Efeito Casimiro, de Clarice Saliby, ‘pega carona’ até Júpiter, de onde alienígenas se comunicam com um ser humano e, através dele, anunciam uma visita a Terra, usando a pacata cidade de Casimiro de Abreu, no Rio de Janeiro, como local de pouso. Embora pareça absurdo, o anúncio mobilizou centenas de pessoas no Brasil (e de alguns outros países) na década de 1980. “Meu pai estava nesse evento e ele me contava essa história desde que era pequena. Quando comecei a fazer cinema, pensei que isso daria um ótimo documentário”, contou Clarice à reportagem. A história agradou e recebeu um prêmio do festival, além de ter ficado entre os favoritos do publico. “Acredito que histórias sobre discos voadores mexem com o imaginário de qualquer ser humano, não importa sua idade ou classe social. É um filme pop, sem restrições. Por isso tem tido uma recepção bem calorosa, mesmo para quem não acredita nesse tipo de coisa”, acrescentou.

Curta O Caminhão do Meu Pai foi filmado no Vietnã. (Divulgação).

Curta O Caminhão do Meu Pai foi filmado no Vietnã. (Divulgação).

Filmado no Vietnã, O Caminhão do meu Pai, de , traz em seu enfoque a relação de pai e filha e do choque de realidade que a criança enfrenta em suas primeiras excursões pelo mundo. “Quando visitei o Vietnã pela primeira vez, enquanto eu dirigia pelo interior ou me perdia pelas multidões da cidade, via a mesma vivacidade e energia que havia visto pelo interior do Brasil”, contou Maurício, ao ser questionado sobre a decisão de filmar no Vietnã. Com atores locais no elenco, que não falavam inglês, ele precisou de um tradutor para se comunicar. Valeu a pena. “Eu sabia que isso poderia aumentar as dificuldades de filmagem, mas por outro lado, os atores tinham um entendimento, uma naturalidade e entrega que me agradava muito”.

Boas histórias também vieram dos mais diversos lugares do Brasil; no caso de Contos da Maré, de , muitas delas. “O curta traz histórias que meus familiares maternos me relatavam, todos residentes do Complexo da Maré, e que sempre povoaram minhas lembranças. Nos últimos anos, comecei a perceber que uma geração mais nova de primos e moradores da favela desconheciam tais lendas. Usar o cinema como resgate e divulgação desse passado me pareceu um bom caminho”, explicou o diretor que traz em sua obra contos que envolvem lobisomens, sopa de cobra que misteriosamente mata quem a come, e até um morador que transou com uma porca, dando origem a um ‘bebê porco’.

Edifício Tatuapé Mahal foi todo filmado com bonecos. (Divulgação).

Edifício Tatuapé Mahal foi todo filmado com bonecos. (Divulgação).

Criativo, Edifício Tatuapé Mahal, de e , mostra os bastidores da ‘realidade’ dos bonecos de maquete. A ideia surgiu quando uma das diretoras se deparou com alguns modelos de bonecos que a impressionou pela perfeição nos detalhes. “Usamos referências que visavam transformar os bonecos em pessoas, mas com a vantagem da licença poética que a animação oferece”, afirmou Carolina em conversa com a reportagem. A dupla utilizou a técnica stop motion e 3D para dar vida aos bonecos. Vale destaque, também, o trabalho do ator uruguaio Daniel Hendler na narração do curta. “Foi maravilhoso trabalhar com Daniel. Ele captou o espírito do personagem com uma rapidez impressionante e acrescentou em vários aspectos”, elogiou a realizadora.

Patti Smith no curta Três Pedras Para Jean Genet. (Divulgação).

Patti Smith no curta Três Pedras Para Jean Genet. (Divulgação).

Internacionais e programas especiais

A programação internacional teve destaques como A Outra Mulher, de , do Senegal, que conta a história de um casal de lésbicas tentando sobreviver em um país onde amar uma pessoa do mesmo sexo impõe multas e até prisão. O alemão Três Pedras para Jean Genet, de , atraiu fãs da ao trazer Patti Smith em uma jornada até o túmulo do escritor francês que batiza o curta. Ainda na , Nevermind, de Jean Marc E. Roy, recordou Kurt Cobain, vocalista do Nirvana morto em 1994.

O festival também preparou alguns programas especiais para esta edição, caso de Quebrando Muros que, em parceria com a distribuidora Interfilm Berlin e apoio do Instituto Goethe, trouxe raridades às telonas para celebrar os 25 anos da queda do Muro de Berlim, como produções oficiais da Stasi – a polícia secreta da Alemanha Oriental, entre elas Guerra em Tempos de Paz: Assim Seguimos! e Cabeça Fria, Coração Quente, Mãos Limpas. Já o programa “Diversidade Sexual – Assunto de Família” apresentou quatro filmes internacionais que trataram de assuntos ligados à identidade, aceitação e tolerância, caso do romeno Honra, sobre um general aposentado e seu desafio de aceitar a homossexualidade do menino que criou.

Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

Premiados

Sem caráter competitivo, o festival contou com apoiadores e patrocinadores para distribuir prêmios em cerimônia realizada na Cinemateca Brasileira na noite de sexta-feira (29). Confira a lista de premiados:

Prêmio Itamaraty
“Se Essa Lua Fosse Minha”, de Larissa Lewandoski

Prêmio Revelação
“Se”, de Ian Capillé

Prêmio Canal Brasil de Incentivo ao Curta-Metragem
“La Llamada”, de Gustavo Vinagre

Prêmios SescTV para Novos Talentos (realizado por diretor estreante)
Melhor filme brasileiro – “Kyoto”, de Deborah Viegas
Melhor filme internacional – “O Último”, de Sergey Pikalov (Azerbaijão/Rússia)

Prêmio TV Cultura
Melhor filme do Panorama Paulista – “Guida”, de Rosana Urbes

Prêmio Canal Curta! e Porta Curtas
“Efeito Casimiro”, de Clarice Saliby
“O Bom Comportamento”, de Eva Randolph
“O Táxi de Escher”, de Flavio Botelho e Aleksei Abib

Prêmio CTAv
“Sem Coração”, de Nara Normande e Tião

Troféu ABD-SP
Destaque da Mostra Brasil – “A Cor do Fogo e a Cor da Cinza”, de André Felix
Destaque da Mostra Latina – “O Sonâmbulo”, de Lenz Claude (México)

Troféu Cachaça Cinema Clube
Melhor Filme Lunático – “Se Essa Lua Fosse Minha”, de Larissa Lewandoski
Melhor Filme Mundano – “Vailamideus”, de Ticiana Augusto Lima
Melhor Filme Arcaico – “Casa Forte”, de Rodrigo Almeida

Os favoritos do público

Mostra Brasil
“Ameaçados”, de Julia Mariano (PA)
“Até o Céu Leva Mais ou Menos 15 Minutos”, de Camila Battistetti (CE)
“Contos da Maré”, de Douglas Soares (RJ)
“Edifício Tatuapé Mahal”, de Carolina Markowicz e Fernanda Salloum (SP)
“Efeito Casimiro”, de Clarice Saliby (RJ)
“Geru”, de Fábio Baldo e Tico Dias (SE)
“La Llamada”, de Gustavo Vinagre (SP)
“O Caminhão do Meu Pai”, de Mauricio Osaki (SP)
“Se Essa Lua Fosse Minha”, de Larissa Lewandoski (RS)
“Sem Coração”, de Nara Normande e Tião (PE)

Mostra Internacional e Latino-americana
“Balada para Satã”, de Antonio Balseiro e Carlos Balseiro (Argentina)
“Célestine”, de Annie Gisler (Suiça)
“Completo”, de Iván D. Gaona (Colômbia)
“Deserto”, de Yoav Hornung (Israel)
“Forever Over”, de Erik Schmitt (Alemanha)
“Helium”, de Anders Walter (Dinamarca)
“Minerita”, de Raúl De la Fuente (Bolívia/Espanha)
“Noah”, de Walter Woodman e Patrick Cederberg (Canadá)
“Pai”, de Santiago ‘Bou’ Grasso (Argentina/França)
“Sinfonia Nº 42”, de Reka Bucsi (Hungria)

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