Com a programação reduzida devido a cortes de patrocínio importantes como o da Petrobras, o festival teve início nesta quarta-feira (6). O evento, que antes durava dez dias e chegava a exibir até 150 filmes, vai até o próximo domingo (10) com 50 obras cinematográficas. O corte no orçamento atingiu outros festivais importantes no país. O É Tudo Verdade, em São Paulo, e o Panorama Internacional Coisa de Cinema também não contaram com o apoio da Petrobras.

O festival ocorre nos cinemas São Luiz, Fundaj e Cinema da UFPE. Na programação, clássicos, competição de longas-metragens, competição de curtas-metragens, sessões especiais e programas convidados. A edição deste ano do festival, realizado desde 2008 por Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux, contou com financiamento coletivo para se viabilizar.

O festival conseguiu resistir com a realização de crowdfunding com doações do público e ainda contou com um aporte especial da Prefeitura do Recife, além de recursos solicitados em convocatória do Fundo Setorial do Audiovisual.

O público lotou o Cinema São Luiz, no bairro da Boa Vista, área central da capital pernambucana, para assistir à sessão de abertura, com sessão do longa O Farol (The Lighthouse), dirigido por Robert Eggers. Na abertura do evento, Mendonça Filho, diretor artístico do Janela, chamou a atenção para a crise que se instaura no Brasil em meio ao clima de caça às bruxas que cerca quem vive de cultura ou de educação no país.

O cartaz de Clara Moreira traz o artigo 215. (Victor Jucá/Divulgação)

Logo de cara, o festival demonstra estar conectado com a realidade brasileira, a começar pelo cartaz da edição deste ano que foi divulgado nas redes sociais. Ele é assinado por Clara Moreira e traz o início do artigo 215 da Constituição Federal, que fala sobre os direitos ao exercício e acesso às fontes de cultura.

“Este governo não apenas ameaça desencorajar, mas também criminalizar um sentimento que é muito natural a qualquer nação, que é ter artistas e que eles façam arte”, disse Mendonça Filho. O festival demonstrar estar com a cabeça na realidade brasileira. “Tenho muita dificuldade para entender por que esse desejo de acabar com o movimento da cultura, que na verdade é uma indústria e é estratégica porque é a identidade de país”, acrescentou.

Lá fora, com 25 páginas dedicadas ao Brasil, a edição de setembro da revista Cahiers du Cinema, mais reconhecida publicação sobre cinema no mundo, denunciou a “ofensiva reacionária e regressiva de Bolsonaro” contra o cinema no país. O enunciado na capa estampava: O Brasil de Bolsonaro. O editorial afirmava que a “ameaça” do presidente acontece no “momento em que o cinema brasileiro é um dos mais férteis”, citando filmes como Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho. Bacurau, do mesmo diretor, está na capa e ao longo de cinco páginas.

Esta semana, em meio aos ataques do governo Bolsonaro sobre a cultura brasileira, atores, diretores de cinema e cantores criticaram o decreto do presidente, que transferiu o Conselho Superior de Cinema do Ministério da Cidadania para a Casa Civil, o corte de verbas na Agência Nacional de Cinema (Ancine) e protestaram contra a censura. Eles participaram de audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF).

Os artistas tiveram diversos filmes com sua produção cancelada por órgãos públicos devido a motivações políticas e ideológicas. Além do setor audiovisual,  peças de teatro também estão sendo alvo de perseguição do poder público, com a suspensão de patrocínios e o cancelamento de apresentações.

A paralisia ou a mera diminuição do ritmo dos repasses feitos pela Ancine impacta o setor de forma substancial. Estima-se que em 2018 tenham sido movimentados mais de R$ 1,25 bilhão em recursos da agência no apoio a produções e iniciativas do setor audiovisual. Vale destacar a importância crescente do setor para o Brasil, por ser uma área que produz não somente riquezas, empregos e renda, mas gera também cultura, cidadania, identidade e até soberania nacional.

Não obstante, o governo Bolsonaro propôs a extinção de municípios com menos de 5 mil habitantes que tenham arrecadação própria menor que 10% da receita total. A iniciativa é criticada por entidades que representam os prefeitos, por exemplo. Bacurau, dirigido por Mendonça Filho e Juliano Dornelles, mostra uma situação parecida: os habitantes da cidadezinha sertaneja que dá título ao longa se insurgem contra uma célula de assassinos estrangeiros, chefiados por um alemão (Udo Kier), que coordena uma caça a pessoas pobres.

Bacurau

O setor audiovisual precisa seguir seu crescimento: o país conquistou no final de maio dois prêmios inéditos no Festival de Cannes, na França, um dos mais prestigiados do mundo, demonstrando a consolidação do cinema do país, ao menos lá fora.

Em tempo: Bacurau foi vencedor do Prêmio do Júri, que é tido como a terceira categoria mais importante do evento francês. A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Karïm Aïnouz, por sua vez, recebeu o prêmio relativo à mostra Um Certo Olhar do festival. Em ambos os casos, trata-se da primeira conquista do Brasil na história do festival nessas categorias.

Após Kléber ter ganhado notoriedade pelos protestos em Cannes, durante o processo de impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, na época de Aquarius; e do cineasta ter sofrido retaliações do governo federal e, ainda assim, recebido diversas premiações em festivais em todo o mundo, Bacurau tornou-se um dos filmes mais aguardados do momento. “O cinema brasileiro nunca esteve tão forte de prestígio, festivais internacionais e reconhecimento fora do Brasil. Em termos de diversidade, nunca passamos por um momento com tanta força”, destacou Mendonça Filho.

O Janela Internacional de Cinema do Recife é uma realização Cinemascópio e Jaraguá Produções, com patrocínio da Prefeitura do Recife, BRDE e Fundo Setorial Audiovisual (FSA)/Ancine.

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