Por Nuno Talicosk, Tulio Vasconcelos e .
Colaborou Paulo Floro

Em sua 16ª edição, o Festival No Ar não deixou dúvidas de que há tempos deixou de ser apenas um festival de música para se transformar em um espaço de experimentações, vivências, com destaque para o público jovem. Na programação, além de suas mais de 20 bandas e artistas, teve ainda karaokê, espaço tattoo, barco-sofá, food park, feirinha. A diversidade musical é o carro-chefe do festival, que casa bem com a diversidade de pessoas que circularam pelo Caxangá Golf Club, na Zona Oeste do Recife. No Brasil de 2019, um espaço seguro e livre como esse é algo a celebrar.

Dividida em três três palcos – “Coquetel Molotov”, “Sonic” e “Natura” -, o evento recebeu desde a ciranda de e o brega-funk de , até pop experimental (Raça). Entre os nomes de destaque tivemos ainda Liniker e os Caramelows, Drik Barbosa, Black Alien e .

No palco “Natura Musical”, a abertura, às 15h da tarde, ficou por conta da pernambucana Uana Mahin. A rapper e cantora teve a árdua missão de convocar o público para, sob um sol forte, dá início ao festival. Sua irreverência tomou conta da galera, que logo se reuniu, ignorando o sol, para curtir as músicas de Uana.

No mesmo palco, depois de uma calorosa abertura de Mahin, apresentou-se a também pernambucana . A cantora e atriz apresentou o repertório do seu mais novo trabalho, Tem Conserto. Sempre irreverente, ela reuniu uma multidão para cantar seus maiores sucessos, mesclando seu lado divertido e sofrido. Clarice deixou claro: “primeiro, vou cantar as músicas pra chorar. Então, podem chorar. Depois, canto as músicas pra transar, daí vocês já sabem, né?!”. Mesmo sendo de gêneros diferentes, Uana e Clarice mostraram o poder da música pernambucana e de suas raízes. O emocional bateu mais forte e o público pôde sentir esse êxtase.

Lia trouxe músicas de seu novo disco e fez uma ciranda gigante no festival. (Divulgação).

Uma força chamada Lia

No palco principal, o “Coquetel Molotov”, apresentaram-se artistas de eletrônica, soul e funk, mas também a eterna Rainha da Ciranda, Lia de Itaramacá, que recentemente, recebeu o título de Doutora Honoris Causa, pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e é Patrimônio Vivo de Pernambuco. Com um deslumbrante vestido rodado, Lia se apresentou com sua banda e trouxe, para uma fim de tarde no Recife, a ciranda de praieira.

Mesmo com a plateia lotada, Lia arrumou um jeito para, no meio daquela multidão, armar uma grande ciranda. Seu carisma e voz inconfundível fez desse show um dos pontos altos da noite. A cada pausa, uma onda de aplausos tomava conta daquela palco. No clímax, chegam os os versos “Eu sou Lia da beira do mar/ Morena queimada do sal e do sol/ Da Ilha de Itamaracá”, compostos por Paulinho da Viola na canção “Eu sou Lia”. Pura catarse no Caxangá.

A atual turnê, “Ciranda de ritmos”, na qual passeia por diversos ritmos populares da música pernambucana, como o coco e o maracatu, rodou o Brasil por anos e chegou à Europa.

O novo repertório da cirandeira traz não só uma brincante de ciranda, mas também uma cantora que se aventura por novos ritmos, como o bolero e o brega, e faz uma fusão entre tradição e contemporaneidade. Entre os compositores, nomes atuais, como Ava Rocha, Iara Renó, Alessandra Leão e Chico César, e de tempos passados, como o cantor brega José Ribeiro.

No auge dos seus 75 anos, Lia mostrou que é uma das maiores forças da música pernambucana atual.

Batuques, funks, raps: cabe tudo

O batuque chegou em alta com a , ao iniciar seu “rito de passá” com a plateia no fim de tarde no palco Coquetel Molotov . Um dos nomes mais pedidos para esta edição do festival, a cantora encarnou uma identidade sensual para passear sua música quente e vigorosa. Tendo o funk como base, Thaís brinca com ritmos paraenses e nordestinos, joga trap, electro para azeitar a mistura e sintonizar sua música com a contemporaneidade. Umbandista, a MC tocou uma versão de “Jorge da Capadócia” para celebrar suas raízes.

MC Tha lançou seu primeiro álbum, Rito de passá, há apenas cinco meses. Ao unir funk e umbanda, pista e fé, tem lotado casas pelo Brasil. Também está se tornando figura disputada por festivais do país. O batidão, é bem verdade, veio antes da religião na vida da cantora. Ela já tinha um trabalho dentro da cena do funk produzido e criado na periferia paulistana. Talvez por seu estilo ela tenha sido abraçada por um novo público, principalmente o LGBTQ+, que aprecia o funk, mas não se vê representado ou confortável nos bailes tradicionais. Ela fez um dos melhores shows do evento.

Em seguida, subiu ao palco a cantora iraniana/holandesa Sevdaliza, que fez sua estreia nos palcos brasileiros. Conhecida por suas canções que navegam por temas como identidade, pertencimento e poder feminino, Sevdaliza misturou sua voz doce e suave com beats densos e uma pegada experimental cheia de sintetizadores. O resultado foi uma imersão musical cheia de personalidade. Ela começou a fazer sucesso com dois EPs de eletropop lançados em 2015.

O festival apostou com força em novas tendências da música brasileira contemporânea. Trouxe como grandes atrações artistas e bandas de projeção nacional recente e também promessas da cena independente, caso de Jurandex (que fez um show com muita instiga, ainda que para um público bem vazio, no Palco Sonic) e Raça, um dos nomes que precisa ser mais descoberto no cenário indie atual.

Liniker fez um show com muita conexão com o público. (Foto: Alexandre Figueirôa/OGT!)

Que sorte a nossa termos Liniker   

A apresentação de Liniker e os Caramellows foi um dos pontos altos da edição 2019 do No Ar Coquetel Molotov. A área do palco principal do evento foi pequena para a multidão que se espremeu para ouvir as músicas do novo disco da banda, intitulado Goela Abaixo, um dos melhores lançamentos da música brasileira deste ano.

O show, regado com uma intensidade melódica que mescla o soul e o blues com toques de funk e afro, trouxe um grupo afinado musicalmente e com a vocalista Liniker se mostrando segura e solta no palco, transmitindo uma energia que contagiou o público e levou os fãs a cantarem com ela os hits do álbum.

As canções de Liniker e os Caramellows falam de afeto, de paixão e o entrosamento entre a vocalista e os músicos e as backing vocals, testemunhado na performance do show do No Ar, transformaram a audição do show numa experiência envolvente e sedutora que mesmo na amplidão do espaço de um palco aberto foi intensa e contagiante. Não é à toa que Liniker foi a primeira artista trans a ser indicada para o Grammy Latino, um fato que foi destacado pela artista em sua primeira participação no festival pernambucano. 

Após a extasiante apresentação de Liniker, o palco principal continuou fervendo com a ótima performance do rapper Black Alien. Com uma longa carreira iniciada ainda nos anos 1990 com passagem marcante no grupo Planet Hemp, Black Alien trouxe o show do seu mais novo trabalho, Abaixo de Zero: Hello Hell.

O álbum tem letras fortes, fruto dos problemas que o artista enfrentou com as drogas e a depressão, que contagiaram o público. Alien trouxe também canções antigas que falam da vida da periferia, da batalha dos jovens contra a violência policial, e como ele mesmo destacou: “são músicas antigas da década passada, mas que continuam atuais, porque nada mudou”. A galera entendeu o recado e cantou e dançou com ele, caso do hit “Babylon By Gus”.

Muito bacana também foi a participação do pernambucano Luiz Lins. O artista destacou como estava exultante por estar na line-up do palco principal do No Ar e fez jus à indicação.

Apresentou um show onde, mais uma vez, provou porque é um dos nomes de destaque da nova cena musical. Suas raízes são o hip hip e o rap, mas Lins abre espaço para uma musicalidade experimental e o resultado é um som diverso e uma poética nas letras de suas canções capaz de ser dura e terna e que dão ao rapper um estilo pessoal e fora dos rótulos.

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