Show de Tasha & Tracie no palco Coquetel Molotov. (Foto: Dani Ferreira).

Cobertura No Ar Coquetel Molotov 2022: Com novo local e estrutura, festival reafirma vocação de ser vitrine da cena indie

Nomes como Letrux, MC Carol, Rico Dalasam, Don L, Jup do Bairro e Flora Matos se apresentaram no evento, que retornou ao Campus da UFPE

No Ar Coquetel Molotov 2022
Campus da UFPE, Recife, 19 de novembro
Produção: Coda Produções
Com Letrux, Tasha & Tracie, Don L, MC Carol, Rico Dalasam, UANA e Flora Matos

Tudo novo de novo. Em sua 19ª edição, o No Ar Coquetel Molotov se transforma mais uma vez ao retornar ao espaço onde tudo começou: o Campus da UFPE, no Recife. Nomes como Letrux, MC Carol, Rico Dalasam, Don L, Jup do Bairro e Flora Matos se apresentaram no evento, que aconteceu neste sábado (19).

As primeiras edições do evento aconteceram no Teatro da UFPE, o que representou uma inovação enorme para a época (um show de rock e pop no teatro!). O festival cresceu e experimentou diversas outras configurações e diferentes estruturas, como o Teatro Guararapes, a Coudelaria Souza Leão e o Caxangá Golfe Clube. Nesse quesito o Coquetel foi pioneiro em Pernambuco em imaginar um evento de música cuja experiência fosse além da simples apreciação dos shows, com diversas atividades e eventos agregados. Neste ano, a volta ao Campus não significou um deja-vu das primeiras edições. Agora, a estrutura aumentou e usou a Concha Acústica e uma área ao redor do teatro, o que foi suficiente para três palcos, uma feirinha e praça de alimentação. Fechado para reformas, o Teatro da UFPE emprestou sua fachada para projeções de luz.

Os shows começaram cedo com apresentações de Melly, Léo da Bodega, Budah e Melly no palco que leva o nome do festival. No palco Natura Musical, que ficou na Concha Acústica, a cantora e compositora Karina Bühr fez um show com a participação da Orquestra Jovem de Pernambuco. Em seguida, Djuena Tikuna, cantora indígena amazonense, trouxe a musicalidade percussiva tradicional da região do rio Solimões com uma autoralidade que reúne ritmos do Amazonas e da world music. Ela apresentou no palco sons de seu mais recente álbum lançado este ano, Torü Wiyaegü.

O Palco Natura Musical recebeu e implantou a atmosfera MPB/Pop/R&B de IVYSON. Pela primeira vez tocando no Festival, o jovem cantor pernambucano de 21 anos fez a concha acústica embarcar no intimismo de sua música, versando sobre amor e sentimentos afáveis.

IVYSON começou a ter notoriedade em 2018 através de vídeos no YouTube. Desde então, vem crescendo na cena local e conquistando um público fiel. Provas disso, foram os coros de peito aberto do público em canções como “Azul” e “Girassol”. Entre o romance e outras mais gingadas, compuseram o repertório, as faixas do último álbum lançado, O Outro Lado do Rio (2022)

Na metade do show aconteceu o encontro do cantor com Louise França, atriz, cantora, vocalista da banda Afrobombas, e filha do grande Chico Science. Os artistas valorizaram ritmos da cultura popular, como na performance que trouxe a mistura da ciranda, do merengue e do carimbó de “Dorival” da banda Academia da Berlinda.

Tasha & Tracie, super afiadas

Um dos shows mais esperados da noite entregou tudo o que se esperava das gêmeas: atitude e muito rap. Tasha & Tracie, revelação na cena nacional, reuniram um público de peso à frente do Palco Coquetel Molotov num show em que as duas fortes presenças se complementaram e fizeram tudo tremer.

Em uma sintonia que vai além de uma ligação parental, as rappers apresentaram uma interseção artística genuína. Os versos bradados em duetos harmônicos, o dinamismo no espaço do palco e a interação constante com a audiência, promoveram momentos apoteóticos como quando “Tang” começou a tocar.

Além disso, o ativismo periférico como uma das bandeiras das gêmeas inspirou recados como: “Fortaleçam quem faz o rap de qualidade. Sabe quem? As mina, as gays. Vocês batem palma pra qualquer coisa medíocre por rapper homem”. Elas também mostraram uma boa conexão com o público local. “Recife sempre nos recebendo muito bem. Vocês são foda!”. Elas fizeram show recentemente no Recife, em maio.

O palco principal do festival recebeu ainda o show imersivo e sensorial de Giovani Cidreira, que trouxe ao Recife o elogiado show de seu disco Nebulosa Baby (2021), que marca uma mudança estética e sonora em sua proposta artística. Gio, como agora é também conhecido, dançou, conversou bastante com a plateia e fez uma show que mostrou toda a sua versatilidade. O palco recebeu ainda a apresentação do rapper cearense Don L, que também trouxe ao festival o show de um disco aclamado, no seu caso o Roteiro para Aïnouz Vol. 2, do ano passado. Ele emendou um discurso de representatividade do rap nordestino ao mesmo tempo em que soltou rimas poderosas em um show visualmente impecável.

Ainda representando o rap no Coquetel Molotov, a rapper Flora Matos entrou quase às 3h da manhã como uma das atrações mais aguardadas. Ela trouxe o elogiado disco Flora de Controle, lançado no ano passado. Um dos melhores shows da noite foi Letrux, que trouxe Supla para participação especial no palco. A conexão da artista com o público é claramente muito forte. Ela conversou bastante, tocou sucessos e músicas de seu mais novo trabalho, Letrux aos Prantos (2020).

Show de MC Carol teve escracho, riso e muita ferveção. (Foto: Hannah Carvalho).

MC Carol, rainha do palco Kmkze

O Palco Kmkaze virou baile funk assim que MC Carol chegou. Uma das maiores referências do ritmo no Brasil abriu o show com “os pés na porta” ao som do batidão, trazendo um compilado de sucessos como “Vou Tirar Sua Virgindade”, “Meu Namorado É Maior Otário” e “FDP Eu Te Amo”.

O palco eletrônico reuniu um bom público e claramente poderia ser bem maior e com um palco elevado. Os artistas e DJs estavam praticamente no mesmo nível da plateia, o que transmitia uma energia de festa de rua, o que foi legal, mas teria sido incrível ver energia explosiva de MC Carol em um palco maior.

A MC comandou com propriedade a apresentação, introduzindo as narrativas que inspiraram suas músicas e sempre interagindo com o público. Carol trouxe discursos de empoderamento, pediu respostas, puxou coros e se divertiu, muito dona de suas propostas.

A voz potente e estrondosa também trouxe entre seus sucessos consagrados a parceria com Pabllo Vittar “Descontrolada” e hits do último álbum lançado em 2021, A Mulher do Borogodó, como “Novinho de 17” no pernambucano brega-funk. Em entrevista a Revista O Grito!, Carol contou que pretendia trazer um show de muita “sacanagem” ao NoAr, e cumpriu.

O Palco Kamikaze trouxe ainda o afrofuturismo da britânica Glor1a, a festa Baile do Marley, com Rayssa Dias e Gui da Tropa, Kenya20hz e seu som com muita africanidades, o Brasil Grime Show com Margot, Adelaide, Bione e Kael Semlote e encerrou com Miss Tacacá, quase de manhã. Mais cedo tocaram por lá a Festa DIP com Gueros, Taxidermia e Makeda.

Jup do Bairro: o que pode um corpo?

“O que pode ser um corpo sem juízo?”, começou perguntando o prelúdio do show de Jup do Bairro, dando o tom do que seria o espetáculo que foi. Os temas sociais e políticos presentes nos discursos e letras da artista dividiram espaço com a irreverência e a saliência num repertório único.

Dava para perceber a sede de palco que Jup estava, refletidas em sua performance, sua poesia e sua energia. O público também apresentava o sentimento da saudade sendo consumada, marcando presença aos pés do Palco Natura Musical. Faixas do EP Corpo Sem Juízo embalaram o setlist, também tomado por sucessos como “Pelo Amor de Deize”, “O Corre” e “All You Need Is Love” que promoveu a participação inédita de Rico Dalasam, também atração do palco.

Um dos destaques da apresentação foi o solo do backing vocal Mulambo, trazendo uma música autoral discutindo sobre a indústria e vivência pretas. A versatilidade sonora e performática (entrega de rosas, bamburim de “notas de reais”) de Jup construiu um show memorável.

Rico Dalasam na Concha Acústica. (Foto: Paulo Floro/O Grito!)

Rico Dalasam: emoções

A emoção tomou conta da concha acústica com o show de Rico Dalasam no Palco Natura Musical. O cantor levou à sua apresentação a carga de uma das características mais cativantes de sua música: a sensibilidade. Emotivo pelo final da atual turnê, Rico não se privou em deixar as lágrimas rolarem ao expressar o que vem de seu coração através de suas letras.

Um dos momentos mais tocantes da performance foi quando ao tocar o sucesso “Braille”, Rico surgiu no meio do público, como costuma fazer em seus shows, cantando de forma intimista e sincera.

Virando os ares, o rapper colocou a audiência para dançar através de faixas como “Linhas Riquíssimas”, fruto da parceria com Gloria Groove e o clássico “Todo Dia”, canção que colaborou com Pabllo Vittar, e ainda com a última lançada “30 Semanas”, já na boca do público.

Uana: pop PE dando as caras

Fechando com chave de ouro e alta voltagem de energia, as atrações do Palco Natura Musical, Uana tomou lugar dando protagonismo ao brega-funk pernambucano, com seus tradicionais flertes aos afrobeats, a música eletrônica e ao funk carioca.

As batidas envolventes e frenéticas envolveram performances com muita dança, destacando o empoderamento feminino e os desejos da mulher como tema central. Assim fluiu em faixas como “Pirraça”, “Vidro Fumê” e “Erva Daninha”.

Cada vez mais evidente na cena da música local, Uana celebrou depois de anos como público do No Ar Coquetel Molotov, a oportunidade de ser uma das atrações, finalizando o line up na concha acústica com muito gás e potência.

Colaborou: Paulo Floro, Tulio Vasconcelos e Rafaella Soares.

*Todas as fotos: Divulgação.

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