Fotos: Duda Carvalho / Divulgação
Foto: Duda Carvalho / Divulgação

A FESTA NÃO ACABOU
Apesar de datadas, as raves continuam fazendo a cabeça de muita gente que curte ficar doze horas dançando

Por Alexandre Figueirôa
Da Revista O Grito!, no Recife

Uma foto de um rapaz pelado sendo revistado por seguranças num cenário de fim de festa circulou nas redes sociais no último domingo e foi muito comentada em todo o Recife. O episódio aconteceu no parque de diversões Mirabilândia quando o dia já estava claro e o evento de música eletrônica Playground Music Recife 2013 estava chegando ao fim. A imagem era engraçada e convenhamos não tinha nada de assustador. O que mais chama atenção, porém, é o fato dela acontecer num tipo de festa que continua fazendo muito sucesso nos trópicos brasileiros e tem muitos adeptos fiéis no Recife: as raves, ou melhor, o que sobrou delas.

Quando o filme Festa Rave (Groove), dirigido por Greg Harrison, estreou nos cinemas em 2000, mostrando uma festa de música eletrônica em São Francisco, Califórnia, esse tipo de evento já tinha deixado de ser um acontecimento “à margem” para se incorporar ao universo do showbiz. As raves, denominação originalmente dada na década de 1960 às festas caribenhas de Londres, eram naquele momento o ápice de um movimento surgido na esteira da acid house nos meados dos anos 1980 e que se espalhara pelos Estados Unidos e Inglaterra.

Essas festas se caracterizavam por terem longa duração – no mínimo 12 horas – serem realizadas em chácaras, fazendas ou em galpões e terrenos ou edifícios abandonados nas grandes cidades, e onde só se tocava música eletrônica nas suas diversas vertentes: House, Electro, Techno, Psy Trance, etc.. Curiosamente, esse gênero de festa no Brasil, mesmo realizada em moldes bem diversos, ainda continua em alta e atraindo muita gente. Basta lembrar o filme Paraísos Artificiais, de Marcos Prado, lançado no ano passado, cuja trama girava em torno de uma rave à beira-mar ou a Playground Music Festival 2013, que levou cerca de doze mil pessoas ao parque Mirabilândia.

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Na atualidade fica difícil classificar o que é uma rave. Elas não são mais tão espontâneas como no passado, quando eram divulgadas de boca em boca e aconteciam sem grandes preparativos e regras. Existem hoje organizadores especializados neste tipo de evento, Djs badalados que fazem sucesso no circuito e, sejam indoor ou open air, elas tem ingressos nem sempre tão baratos, divisão de áreas de acesso – pista, camarote, backstage – e controle de segurança por conta do consumo de drogas. Apesar disso, os clubbers, ravers ou simplesmente gente que gosta de música eletrônica batem ponto nesses eventos e fomentam uma subcultura em torno deles. Em sites especializados, é possível ver a agenda dessas festas em todo o Brasil e nas redes sociais inúmeros perfis dedicam-se a comentar e divulgar novidades em torno das raves.

E dar uma circulada por uma delas é uma experiência impagável. A Playground Music Recife deu uma pequena mostra do que acontece. Doze mil pessoas, espalhadas num parque de diversões em meio a montanhas russas, trem fantasma, roda gigante, ouvindo música eletrônica a todo volume e iluminadas por raio laser já é algo inusitado. Imaginem elas dançando e gritando como se estivessem num ritual primitivo-futurista e louvando um sujeito num palco cercado de toca discos, computadores e mais raios luminosos. É uma trip para o qual não é preciso o uso de nenhuma substância ilícita, embora todo mundo saiba que boa parte dos frequentadores das raves nunca está de cara.

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Para algumas pessoas esse espetáculo deve ser assustador. Mas para os habitués tudo é normal. A fauna que se espalhava no Mirabilândia sábado dava mostras que estava adorando o evento. Tinha gente fantasiada; boys bombados sem camisa, exibindo vaidosos os bíceps avantajados; travestis; casais heteros e homos, entrelaçados ao som do mais novo hit das pistas; rapaziada dos subúrbios devidamente calibrada nas balas e doces; enfim, todo mundo curtindo o nirvana eletrônico sem maiores preocupações. Vez por outra aparecia alguém que tinha errado o caminho da viagem sendo socorrido. No entanto, para os demais a balada continuava sem traumas.

É interessante lembrar que essas festas de música eletrônica gigantescas atendem uma demanda lógica da cultura massiva, a mesma que movimenta os carnavais fora de época, os festejos juninos, os samba isso, samba aquilo, festivais de rock. Não são melhores ou piores que as outras. Jamesson, um jovem suburbano que estava trabalhando no apoio ao evento do Mirabilândia, era um retrato do fascínio que esses aglomerados festivos provocam. Ele já fez o mesmo tipo de “oia” em outras festas de música eletrônica.

Enquanto trabalhava, de vez em quando, ele dava uma parada para ficar prestando atenção aos Djs. “Ah esse aí é bom, o som dele levantou a galera”. Jamesson contou que só não gostou da luz. “Os efeitos tão fraco demais, teve outra no Centro de Convenções que tava o bicho”. Antes de voltar para suas funções, depois de tomar uma lata de Redbull para ficar acordado, ele revelou: “meu sonho é ser DJ, eu brinco no computador, mas não tenho dinheiro pra comprar o som completo, mas um dia eu chego lá”.

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