Foi tanta gente no show de Pabllo que mais parecia uma segunda versão do Galo da Madrugada. A artista prova que é a maior estrela do pop brasileiro atual, sem dúvidas

Fotos de Jonatan Oliveira/Revista O Grito!

Pode-se até não gostar dela, dizer que ela foi longe demais e etc, mas arrasa. E foi essa a sensação que a cantora mais badalada do Brasil provocou nos milhares de fãs que foram ao seu show na segunda noite do 2019. O Cais da Alfândega foi pequeno para tanta gente, não tinha um cantinho livre, parecia uma segunda versão do Galo da Madrugada. A multidão ocupou todo o cais, e até a ponte Maurício de Nassau estava lotada com pessoas cantando e dançando os hits da artista. Teve empurra-empurra, teve desmaios, muita comoção mas, ao final, todos ficaram extasiados com a performance da Pabllo Vittar. Ela é poderosa e sua presença e vigor no palco é incontestável.

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O show durou quase uma hora e meia e Vittar cantou seus sucessos, dançou funk, , fez (o hit “Toma Empurradão”, de Shevchenko & Elloco) e mostrou que não é à toa que ela é hoje uma das figuras mais badaladas do showbiz nacional. Ela trouxe todos os seus hits, com destaque para faixas do mais recente álbum Não Para Não, como “Seu Crime”, “Disk Me”, “Problema Seu” e “Buzina”.

Durante a apresentação ela evitou declarações políticas e polêmicas como costuma fazer. Talvez para não incendiar ainda mais os ânimos do público que, durante toda a noite, de vez em quando, puxava em alto e bom som o “ai, ai, ai, Bolsonaro é o carái”. Mas, tudo bem, o fato de uma cantora do segmento LGBTQI estar no palco sendo ovacionada por tanta gente não deixa de ter um significado político e social para o momento que estamos atravessando.

E, além do mais, irreverência e pauladas nos governantes tresloucados que estão no poder teve de sobra no segundo show mais instigante da noite de domingo do RecBeat: o do cearense . Se autodenominando forrozeiro gótico e psicodélico, o artista e seu grupo pintaram e bordaram no palco. Com roupas extravagantes e muita encenação enquanto se apresentavam, o grupo mostrou acreditar que a música, a força do corpo e das ideias são capazes de questionar a opressão social em que vivemos e provocar novas sensações.

As canções de Abelha, como uma das suas mais conhecidas, “Laricado”, revelam um artista irônico e bem-humorado, capaz de dar o seu recado contra a intolerância e a LGBTfobia de forma brilhante. No telão, no fundo do palco, acompanhando os números musicais, imagens e textos lembravam os crimes contra líderes de movimentos sociais e as mortes violentas de travestis e pessoas trans. E a resposta do grupo a todo esse estado de coisas alcançou seu momento mais forte quando eles simularam uma relação erótica entre três pessoas. Mas Gilberto também trouxe à tona seu lado romântico e até ingênuo, executando com uma nova roupagem musical forrós conhecidos e de sucesso. Todo mundo cantou e dançou pra valer.

E em se falando de renovação musical, vale ressaltar a boa apresentação do pernambucano Romero Ferro. O estilo brega new wave pop que o artista tem hoje como a sua principal marca, trouxe para o palco do RecBeat um artista mais solto e com uma desenvoltura musical que faz jus ao seu esforço de estabelecer uma melhor comunicação com o público. A canção “Acabar a brincadeira” que abriu seu show é um exemplo desse novo momento do artista. Mesmo antecedendo a atração maior da noite, Pabllo Vittar, Romero segurou o pique e transformou a inquietação da plateia em festa, levando-a a cantar com ele suas composições.

Os dois shows que abriram a noite também foram muito bons e demonstrou que a diversidade musical do festival é um de seus trunfos. Tanto a apresentação de Cassio Oli, artista de Igarassu que faz uma curiosa mistura de música de fanfarras e bandas marciais com rock e outros ritmos, quanto a da banda paranaense foram primorosas. Cassio ganhou o espaço no Rec-Beat ao ser o vencedor deste ano do Pré-Amp. Reconhecimento justíssimo a um músico que já demonstra maturidade e que sabe o que está fazendo.

A Tuyo é uma das boas revelações do pop brasileiro e seu estilo Afrofolk futurista apresenta um mix de violão e sintetizadores em composições que buscam atingir nossa sensibilidade. O trio, formado pelas irmãs Lai e Lio e Jean, trouxe um show que navega por uma sonoridade dançante e ao mesmo tempo faz experimentos musicais onde as vozes e os instrumentos criam uma estética que valoriza a poesia como forma de expandir os sentimentos. A Tuyo integrou a lista de melhores de 2018 da Revista O Grito! e a apresentação no Rec-Beat selou essa escolha.

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