Paulo André por Ricardo Maciel/Divulgação.

O nosso bom, velho e pedófilo Foucault pensou os hospitais e instituições carcerárias como os dois espaços contíguos como mecanismo social de controle, repressão e “cura” dos indivíduos que estão dissociados daquilo que se convencionou como normalidade. Na pandemia do novo coronavírus, com o necessário isolamento em massa para prevenir a salvação da população que, só ficará saudável no claustro, isso mudou diametralmente de forma. Elevando à última potência a inversão de papéis nos mecanismos de punição e controle social. É nos hospitais, no cárcere e  particularmente no pós-guerra que os diários, aqui grosseiramente tratados enquanto literatura de testemunho, ganham força e graça. Na pós-modernidade pandêmica de 2020, o diário enquanto campo de sobrevivência do relato e da ficção, desprovido do remelexo do cotidiano que conhecíamos, ganhou novos contornos sendo registrados para além da forma tradicional, mas também em lives, vídeos, experiências e performances.

Foi nesse entremeio que e Paulo André Viana construíram o projeto Para um Amor no Recife – Para Caber Numa Narrativa, experiência dramatúrgica-performática (por mim livremente intitulada) que foi contemplada no edital da Lei Aldir Blanc. Eles se juntaram ao cineasta Ricardo Maciel, artista convidado para integrar a equipe e que ficou responsável pela captação de imagens, edição e trilha sonora. Construindo, assim, um material híbrido, que reúne diversas técnicas de coleta e distribuição de imagens e texto e que refletem, em uníssono, a reestruturação do cenário de vigília e controle social constituído pelo advento da modernidade.

A narrativa de é caótica e entrópica, funcionando como registro deste “evento-limite” que começou a ser vivenciado coletivamente a partir de 2020. Eles deslocam o real, o espaço da cidade e seus personagens para uma área de sombra, onde se testemunha o excepcional e o singular. O cotidiano de todos nós é o registro histórico que demarca esse passado-presente. E toda essa joia, que contraditoriamente pontua o não-lugar do relato pandêmico, está localizada nesse espetáculo que vai registrando a história à “contrapelo” (como diria Walter Benjamin), colocando no centro da análise não mais os eventos grandiosos, mas os relatos daqueles que experimentam esse fato-limite chamado coronavírus.

Foto: Ricardo Maciel/Divulgação.

Posso arriscar que não tem uma sinopse, pois é uma experiência. Primordialmente de deslocamento, mas que não leva o espectador para outro ponto. Ele gira sobre si mesmo e traz a plateia para o mesmo lugar: um assento assolado pelo desconforto do vazio e do estranhamento. Para falar um pouco sobre essa experiência, que pode ser contemplada neste link, conversamos com o escritor e ator e com o ator Paulo André Viana, que nos aponta as linhas mestras dessa obra que, nasce e ganha voo no calor dos acontecimentos, estando ela bem distante do testemunho que tem um forte caráter retroativo e não trata do trauma.

parece uma medida profilática, mas na verdade é a própria chaga.

Como foi conjugar processos diferentes e estruturar tudo dentro de uma dramaturgia?

Cleyon Cabral: O que vejo da minha varanda/janela, por exemplo, era algo presente nos nossos textos. Uma entrada do meu diário do isolamento — intitulada “Acabou Chorare” e que está neste trabalho — dá conta do que eu vi e anotei numa manhã. Desde o início da pandemia fui tomando notas de minhas impressões sobre a situação de confinamento por conta do coronavírus. Ao longo desse um ano tenho feito um inventário dos meus dias. E essa observação em confinamento foi se alastrando nos pequenos eventos do cotidiano. Paulo André Viana também, com seus poemas. Percebemos, antes mesmo da montagem dos vídeos, que este mundo de dentro confrontava o mundo de fora. As paisagens suspensas. Eu, que moro em apartamento, cercado de prédios; Paulo, em casa, com jardim. Os dois com tendo a varanda/janela em comum. Daí exploramos isso no trabalho. O mesmo acontece com o trânsito. Quando faço um passeio de bicicleta pela cidade no começo da pandemia e quando Paulo sente vontade de ver o mar. E quando, juntos, agora com a presença de Ricardo Maciel, fomos ao Centro, fazer o percurso à pé do Galo da Madrugada, no sábado de Zé Pereira. E, assim, surgiu o poema que abre o experimento. Extrapolamos esse jogo de dentro X fora, público X privado, realidade X ficção na dramaturgia. Tudo isso tendo o Recife como cenário e personagem. Dois escritores pernambucanos compartilhando suas vivências no meio de uma pandemia e a intervenção de um videomaker a partir destas narrativas.  

Paulo André Viana: “Para caber numa narrativa” o tanto de textos que escrevemos com temáticas variadas, conter nossas inquietações, as necessidades individuais, contemplar o Recife, as narrativas coletivas da cidade, não foi um processo fácil. Foi preciso um recorte, impossível dar conta de tudo. Entendemos que a dramaturgia seria o compartilhamento das nossas vivências individuais e os nossos olhares para o mundo além dos nossos lares. Criamos uma dramaturgia  não linear, nos formatos das imagens, no trato com os textos, que amplia as conexões dos que assistem, são levados para vários tempos e lugares.

Eles deslocam o real, o espaço da cidade e seus personagens para uma área de sombra, onde se testemunha o excepcional e o singular.

O teatro tem um tempo próprio, o cinema e a literatura também. Como foi conjugar esses tempos díspares?

Cleyton Cabral: E no meio disso tudo tem o tempo da vida se misturando com o da ficção. A gente quis navegar na fricção das linguagens e entre esses tempos. A partir dos materiais coletados em vídeo, fotografias, narrativas pessoais e textos ficcionais, queríamos também nos experimentar performando, já que somos atores. Nos dias da exibição ao vivo, decidimos que o material a ser mostrado estava fechado e que não havia necessidade de criarmos cenas, o que não impedia de criarmos uma dramaturgia com a playlist e o chat com a plateia na sala de espera. Ainda estamos inseridos no contexto da pandemia e o que exibimos nesses dois dias foi apenas um recorte de nossas vivências.

Paulo André Viana: Não pensamos especificamente nos tempos de cada linguagem, no objetivo foi o possibilitar diálogos entre a literatura e as artes visuais, com vários formatos, que gerassem uma dinâmica entre as imagens e os textos, numa mescla de ficção e nuances da realidade.

Ao final do espetáculo vocês falaram que a direção foi coletiva. Podem esmiuçar esse processo?

Cleyton Cabral: Foi uma direção feita a seis mãos. Muitas vezes Ricardo chegava com uma proposta visual e de montagem dos vídeos. Outras, a gente sugere caminhos e possibilidades a serem explorados.

Paulo André Viana: Primeiro houve a escolha dos textos por cada escritor, depois compartilhamos e defendemos os textos. Partimos para discussões e sugestões da criação de cada texto com Ricardo. No processo de execução, gravação das imagens e dos áudios, houve uma escuta minuciosa e um olhar atento dos três, resultando numa contribuição coletiva até finalização de cada vídeo.

Trabalhando com futurologia e tendo em vista a forma como a gente está consumindo arte, hoje, acha que no futuro haverá o teatro como conhecemos antes da pandemia?

Cleyton Cabral: Não tenho me preocupado muito em afirmar se é ou não é teatro. Tenho visto muitos experimentos durante esse período de pandemia. Muitas delas nesta fricção das linguagens, teatro flertando cinema, com aplicativos de conversa, game etc. É o teatro possível, né?

Paulo André Viana: O teatro está acontecendo durante a pandemia, adaptando-se aos novos formatos possíveis para sua existência no ambiente virtual, fortalecendo diálogos com o audiovisual. O teatro ampliou suas possibilidades para além do presencial,  alguns grupos já estavam nesse caminho do espetáculo híbrido, no pós pandemia, o teatro segue  resistente, com as mesmas dificuldades de patrocínio, falta de espaços e escassez de público.

leia mais:

Leia Mais
Um papo com Filipe Falcão, autor de A Estrada Amarela: “Muitas vezes falta representatividade nos personagens de histórias de terror”