Arte: Biu da Silva.

Aviso: O texto abaixo contém conteúdo impróprio para menores de 18 anos.

Amiga, a senhora precisa sair desse banzo. Duas semanas nesse sofrimento sem fim.

— Se eu não gostasse dele era fácil. Não vê com o outro? O taxista. Eu nem me importo. 

— Aaaahh… e tem dois é? 

— O taxista eu curto, mas não sou apaixonado. Quando ele aparece a gente toma umas cervejas, quando ele vem aqui pro apartamento a gente transa. E ele não fica me explorando, pedindo isso, pedindo aquilo…. só de vez em quando é que ele pede um dinheiro emprestado pra ajudar alguma prestação atrasada…

— Que nunca paga…

— É o jeito dele. 

 — Esse truque da prestação é velho. Inventam isso pra não assumir que são putos. 

— Eu não ligo. Ele trepa direitinho, na maior limpeza. O porteiro do prédio já percebeu que tem algum lance. “Seu Armando, o taxista chegou, pode subir?” kkkkkkk Mas com o pedreiro é diferente. Não sei explicar. Eu sinto amor.

— Ama é a rola dele. 

— Também. Mas não é só isso. Sinto que tem algo a mais entre mim e José. Ele gosta de mim. Eu vejo pelo jeito que ele fala comigo, como me olha. A gente se entende tão bem. Esses anos todos e a gente nunca teve uma briga. Agora não sei o que foi que deu nele que não quer mais me ver.

— Arranjou uma racha, né, amor?

— Mas ele sempre teve as raparigas dele. Eu nunca me importei. E por que agora esse pantim?

— Olhe, a senhora é muito casamenteira, gosta desses envolvimentos prolongados. Não sabe ficar sem um caso. Tanto homem aí dando sopa, mas fica grudada nesses bofes, anos a fio, sofrendo, sustentando eles. Eu não gosto disso. Amor só na hora de dar o edi. Me entrego, me descabelo, chamo de paixão, depois é apenas mais um.

— Eu queria ser assim, mas o que posso fazer?

— Faz terapia. A senhora é muito carente. Fica pagando mole pra esses machos. Se empodere. Kkkkkk. 

— A senhora diz isso porque é galinha. Gosta de ir pra sauna, faz pegação no cinema … 

— Sou, e daí? E por que não vai também? Medo de ficar falada? Todo mundo sabe que a senhora é bicha. 

— Você esculacha demais meus sentimentos…

— Ô amiga, desculpe. Estou só brincando. É que me dá uma agonia danada quando vejo você assim toda desanimada. O tempo tá passando e, em vez de estar se divertindo, fica em casa esperando as migalhas desses caras. Às vezes até acho que a senhora gosta desse drama, essa coisa meio masoquista de ficar sofrendo. A gente precisa se ver mais, dar uns rolés…

— Eu me apaixono mesmo. Eu gosto de ter um homem ao meu lado, mas um homem de verdade. Pode ver que eu não curto esses boyzinhos afrangalhados, de sobrancelha feita, brinquinho de brilhante, cabelo pintado. José é o meu tipo. 40 anos, se veste feito homem, sério, só se solta na cama. E esses com o passar do tempo é que fica bom. 

— Pois eu não tenho isso não. Boyzinho, coroa, galego, negão, travesti, já tracei de tudo. Pra mim só tem uma exigência, tem que ser maconheiro. Kkkkk Tem que tocar fogo na Babilônia.

— A senhora é da vida. É artista. Faz teatro. Pode dar pinta que ninguém censura. Já eu enfiado num banco, só gente careta…

— Peraí amiga, nos dias de hoje a senhora vir com um papo desse. Tudo liberado, Casamento gay, as trans aí abalando…

— É diferente. 

— Diferente o que, bicha? E tu acha que não tem frango onde tu trabalha?

— É o ambiente, tudo muito certinho, comportado, tem que ter cuidado.

— Cuidado com o quê? É por isso então que tu só fica com homem que não dá pinta? Porque, no final, é tudo igual, tudo frango. A senhora precisa se valorizar mais, assumir sua vida. Deixar de ter medo, de ficar se escondendo, sei não…

— Eu não vivo me escondendo. Ser discreto não é se esconder. 

— Ah então tá. Fique aí se lamuriando por um cara que não tá nem aí pra você. Eles só querem teu money. Pra eles você é uma diversão que ainda por cima rende. Se você encarasse eles como eu, só como uma brincadeira, metade dessa novela que a senhora vive enfiada acabava num instante.

— Será que eles não sentem nada pela gente? 

— Olhe, podem até sentir, mas você sempre estará em segundo lugar. Vai ter sempre mulheres a quem eles darão mais atenção. É da natureza deles. Por isso eu boto tudo num rolo só. Quando pego alguém, na hora só tem uma coisa que conta, se a neca é grande e tá dura. Se é casado com boy, com piriguete, se dá o cú, se chupa rola, tô pouco me lixando.

— E depois você não sente uma falta de sentido, um vazio? 

— Bicha, menos visse? Que papo furado do caralho.  Que vazio que nada. Se eu fosse você ia num psicólogo para resolver esse negócio de sentir vazio.

— Pois eu sinto, assumo. Se ficar cada dia com um diferente, perco o tesão, começo a ficar deprê. Quando gosto dum cara, quero ter ele outras vezes, gosto da cumplicidade, de ficar abraçado. Não vejo nada de errado nisso.

— É muito romantismo pra meu gosto.

— Pode ser… Eita! Olha. Tá entrando um cara bonitão e gostoso. Nossa, com um homem desse eu endoidava. 

— Onde bicha? 

— Entrou ali pelo lado.

— Tô vendo não. Teu conhecido?

— Queria eu. Nunca vi por aqui.  Eita, tá vindo pra cá visse. Pelo jeito vem falar contigo.

— Comigo?

— Oi Valdo! Boa noite.

— Oi… Oi. Que é que tu tá fazendo por aqui?  

— Posso sentar?

— A gente já tá de saída, né Armando? 

— Muito prazer, Natanael. Tou atrapalhando?

— Não, não. A gente tava falando besteira. Conversa de bicha.

— Tá certo. Se não atrapalhar…

— A gente já tava indo embora, né Armando?

— Oxe Valdo. Deixa o rapaz sentar.

— Só um pouquinho nêgo. Sai mais cedo da firma hoje. Eu ia direto pro teu apê, tomar um banho e te esperar, mas aí passei aqui pra falar com um chegado e te vi. Coincidência, né? Parecido com o dia que a gente se conheceu, aqui no bar. Lembra? Foi essa mesma horinha e tu tava também com um amigo. 

— É. Foi.

— Por esses dias faz um ano. Por isso lembrei. Tempo passa rápido né? 

— Passa.

— Olha, aquele lance da moto vai rolar. 

— Moto? Que moto?

— Aquela que te falei na semana passada. Tá um preço filé. Tu prometeu me ajudar.

— Ahn? Foi? 

— Valdo vai me dar uma força. Tá comprando uma moto pra mim.

— É mesmo Valdo? Tu nem me dissesse nada. Acho lindo quem ajuda os amigos.

— Armando, desculpa tá, mas eu tenho que ir. Vamos nessa Natan…

— Oxe, já vai amiga? É cedo…

— É nada. Daqui que eu chegue em casa.  

— Tá bom, depois a gente se fala. Vai com Deus. 

— Força aí com José. Ele vai voltar, você vai ver. Ele gosta de você. Eu te ligo. Beijo.

— Beijo. Valdo, pera só um instante. Posso te fazer uma pergunta, Natanael?

— Pra mim? Pode.

— Tu fuma maconha?

— Fumo não. Por que?

— Oxe, nada não, besteira. Cuide direitinho de minha amiga viu. 

Leia mais :

Leia Mais
Conto: Heile Welt