1. Raiva

“Eu te falei que esse cara era um imbecil! Um homofóbico escroto! E você sempre dizendo: ‘não, não, é só da boca pra fora, é pra ganhar eleitor, ele não vai fazer isso’. Agora taí! Isso é só o começo. Mais um filho da puta para foder com a vida da gente!”. Ernani estava transtornado. Acabara de ver uma postagem no Twitter na qual o deputado Jamerson Noberto anunciava que o governo estava apoiando o projeto que ele ressuscitara autorizando práticas de terapia de conversão – a cura gay – em entidades religiosas. Sandro, seu namorado, havia votado nele, apesar das ponderações de Ernani para não apoiar esse tipo de gente. O deputado, que também era pastor de uma igreja neopentecostal, na legislatura anterior, tinha conseguido colocar o orfanato, onde Sandro fazia trabalho voluntário, em uma emenda parlamentar impedido o seu fechamento. A contrapartida foi o apoio com votos de quem estava ligado ao orfanato e o uso da instituição na sua propaganda para a reeleição em grupos de WhatsApp. Ernani fora contra. Sugeriu que eles buscassem uma outra solução como uma campanha de crowdfunding, mas Sandro contra-argumentou dizendo que precisavam do dinheiro com urgência e aquilo daria mais trabalho para os voluntários. Ernani calou-se. Ficou alguns dias sem falar com o namorado, mas decidiu deixar pra lá, talvez não valesse a pena permitir que aquele tipo de conflito interferisse na sua relação com Sandro.

“Meu amor não fique assim. Eu sei que ele não presta, mas ele ajudou o orfanato. Agora acabou. As coisas voltaram ao normal, as crianças estão bem e o compromisso com o deputado foi só nessa eleição. Quando eu terminar aqui, vamos assistir um filme, comer pipoca e depois namorar que você esquece esse cara”. Sandro largou o computador, foi até a varanda e fez um chamego em Ernani. Deu um beijo nele e retomou seu trabalho. Ernani demonstrou indiferença aos afagos de Sandro. Lembranças de episódios da relação entre eles rodaram rapidamente em sua cabeça como num filme. O dia em que se conheceram, a primeira transa, a decisão de morarem juntos e os impasses e as rusgas que foram surgindo por conta de embates ideológicos. Quando os ânimos políticos do país se acirraram depois do golpe de 2016 e chegou ao seu ápice nas eleições de 2018, eles protagonizaram diversas discussões e criaram imagens distorcidas um do outro. Para Ernani, Sandro transformara-se em um simpatizante do neoliberalismo flertando com os movimentos de direita. Um típico representante da classe média fodida que pensa como se pertencesse às elites. E para Sandro, Ernani não passava de um burguês metido a esquerdista idealista perdendo tempo militando em favor de projetos políticos que nunca se concretizariam. Os bate-bocas entre eles, no início amigáveis, mudaram de tom e começaram a atrapalhar a vida sexual do casal. Desde que passaram a compartilhar a moradia, tinham o hábito de, pelo menos duas vezes na semana, tomar um vinho, fumar um baseado e terminar a noitada fazendo amor. Depois desses acontecimentos, os momentos de relax estavam se transformando num ringue e as energias ruins ativadas na discussão não raro perturbavam a trepada.  Assim, aos poucos, para evitar o desgaste, um acordo tácito foi se estabelecendo entre eles e esses assuntos foram sendo excluídos da convivência em comum. O sexo ficou bom de novo e eles seguiram em frente. 

  1. Ódio

“Está vendo! Olha esse vídeo do teu deputado! Está xingando os ministros do STF dizendo que dois deles são gays e que por isso não teriam moral digna para ocupar o cargo! Está falando um monte de baixaria! Que filho da puta! E diz que é cristão esse desgraçado! E ninguém faz nada! Só notinhas de repúdio e postagem em rede social!” Ernani estava furioso e comentava o vídeo em voz alta, quase aos gritos, para Sandro escutá-lo. Passara-se menos de uma semana da história do projeto de cura gay e Jamerson Noberto estava outra vez vomitando suas opiniões homofóbicas na internet. Sandro saiu do quarto assustado e tentou acalmar o namorado. Puxou ele para o sofá e o abraçou. Ernani se desvencilhou e olhou para Sandro de uma forma hostil. O rapaz esboçou um sorriso e até tentou falar algo, mas pressentiu que o melhor era silenciar. Levantou-se e voltou para o quarto. Ernani foi até a varanda. Do décimo quinto andar tinha uma bela vista diante de seus olhos. O mundo lá embaixo corria indiferente aos seus sentimentos. Tudo parecia ordenado e fluindo em contraste com a tormenta que se instalara no seu íntimo. Desejou a morte de Noberto. Os ideais pacifistas de Ernani estavam se diluindo. Sentia repugnância por toda aquela gente de extrema direita conservadora e hipócrita que agora estava no comando do país. Também se cansara de ir a manifestações e protestos que não logravam em nenhum êxito. Nenhuma mudança efetiva. Ernani mais uma vez concluía que pessoas como Sandro, incapazes de se posicionarem até mesmo contra os que os desprezavam e perseguiam, eram os maiores responsáveis por tudo aquilo. Estava na hora dele tomar uma decisão drástica.

“Oi querido, veja o que fiz pra você! Camarão ao molho de queijo! Está uma delícia. Você prefere vinho branco ou vinho rosé?” Sandro preparara um belo jantar para Ernani. A mesa estava arrumada com flores e velas. Ernani atravessou a sala e colocou sua mochila sobre a escrivaninha. Continuava taciturno. A mesa posta, o sorriso de Sandro, o cheirinho do camarão que ele tanto gostava o amoleceram um pouco. Do caminho da faculdade até em casa, estruturara uma verdadeira aula de ciência política para mostrar ao namorado como era importante se posicionar contra o que estava acontecendo com as pessoas LGBTQIA+, cada vez mais vítimas de ataques e assassinatos, além da ameaça de suspensão dos direitos adquiridos.  Mas, resolveu esperar um momento mais conveniente para iniciar sua preleção. Enquanto comiam, conversaram amenidades. Ernani reclamou da pouca dedicação da maioria de seus alunos e da apatia em participar dos debates dos temas propostos em aula. “Eles passam a aula inteira de olho nos celulares”. Sandro indagou qual fora o assunto discutido. “A grande mídia e o fascismo”, disse Ernani secamente. Sandro mostrou-se indiferente e ofereceu mais vinho ao companheiro. O silêncio instalou-se. Ernani pegou a taça de vinho, levantou-se e foi para a varanda, local que se tornara uma espécie de refúgio para ele. As inúmeras janelas iluminadas dos edifícios em volta reproduziram nele o mesmo sentimento de dias anteriores. O contraste entre sua indignação e o mundo lá fora, seguindo em aparente indiferença, o derrotava. Durante anos militara nos movimentos sociais e agora via o desmonte acelerado das poucas conquistas conseguidas. Algo precisava ser feito para calar gente odiosa como Jamerson Noberto.  Estava cada vez mais convencido que os caminhos legais e opiniões publicadas no Facebook não eram suficientes para acabar com aquele pesadelo. Deu um gole no vinho, pegou seu celular e entrou em sua conta no Twitter. Deparou-se com uma postagem de uma conhecida socióloga propondo aos seus seguidores encontrarem uma forma de organizar uma revolução sem violência. Raramente ele fazia comentários em redes sociais, mas resolveu escrever: “Revolução só se faz com armas”.

  1. Ira

“Ernani, preciso falar com você. Há dias que quero te contar, mas não sabia como dizer”. Sandro disse isso entre dois goles de vitamina de abacate. Não levantou os olhos para seu namorado. Ficou esperando uma resposta enquanto olhava para o líquido verde claro viscoso em seu copo. Ernani também tomou um gole de vitamina e ficou com o copo suspenso no ar, fitando a cabeça inclinada de Sandro. “Será que ele resolveu me deixar?” Pensou. “O que é menino? Desembucha. Que mistério”, respondeu Ernani tentando ser descontraído. “O deputado me chamou para fazer um projeto para ele”. Ernani sentiu o sangue ferver e esquentar sua cabeça. O coração acelerou. “Como é a história? Você vai fazer trabalho praquele filho da puta? Não, Sandro, aí já e demais. Caralho!” Sandro ergueu a cabeça e com expressão de desamparo prosseguiu: “Mas querido, ele vai me pagar muito bem. Com esse dinheiro nós podemos completar a grana que falta para comprar aquele terreno na praia”. “Meu amor, eu não vou repetir a aula sobre a nossa situação política que dei pra você ontem à noite. Faça o que você quiser, depois não reclame”. As palavras de Ernani mesclavam sarcasmo e ameaça. “Porra Ernani, eu não me meto nos teus lances de trabalho, mas você sempre bota terra nas minhas coisas! Eu vou lá falar com ele hoje e ver qual é a proposta. Eu nem sei o que é. Se for algo que eu não concorde, não se preocupe. Não sou o idiota que você acha que eu sou”. Ernani permaneceu calado. Estava cansado de dar murro em ponta de faca. Saiu da cozinha, foi para a sala, pegou um livro e recostou-se no sofá. Resolvera passar a manhã do sábado lendo um romance. Sandro pegou sua mochila disse até logo e saiu.

“O que foi que aconteceu? Você está tremendo”. Ernani tomou um susto quando viu Sandro entrar na sala naquele estado, ofegante e desalinhado. O cabelo estava assanhado e havia um pequeno rasgo na manga direita de sua camisa. “Foi assalto? Pelo amor de Deus diz o que aconteceu!” Sandro sentou-se no sofá e começou a chorar.  Ernani sentou-se ao seu lado e o abraçou. “Aquele maldito! Quero que queime no fogo do inferno. Velho safado! Ele vai me pagar!” explodiu Sandro entre soluços. Ernani não conseguia decifrar o que estava se passando. “Desculpe Ernani por não ter te ouvido. Você tinha razão. Aquele Noberto é um bandido nojento!” Sandro respirou fundo e prosseguiu. “Eu cheguei lá, no escritório dele, com a maior boa vontade. Achei estranho ele estar sozinho e ter trancado a porta após eu ter entrado. Aí o cretino começou a me assediar. Eu reagi, o empurrei, mas ele voltou ainda com mais violência. Aí ele pegou uma arma. Uma pistola, Ernani! Uma pistola! E com ela mirando na minha cabeça me obrigou a chupar o pau dele”. Sandro voltou a chorar. Ernani ficou cego. Um sentimento de ira incontrolável invadiu sua alma. Apertou Sandro em seus braços. “Eu não podia fazer nada. Ele gozou na minha boca. Depois, me empurrou no chão, disse para eu ir embora e que se eu o denunciasse, poderia encomendar o caixão”. “Já passou, já passou, tire essa roupa e vá tomar um banho, depois conversamos”, foram as únicas palavras que Ernani conseguiu pronunciar. Sandro foi para o quarto, despiu-se e entrou no chuveiro. Ao sair encontrou Ernani com um calmante em mãos. Sandro relutou, mas estava tão abalado que resolveu aceitar. Dali a instantes, deitou-se e dormiu profundamente. 

  1. Fúria

Sandro acordou por volta das duas da tarde. Encontrou ao seu lado uma valise de viagem pronta. A cabeça pesada, pelo efeito do calmante, o impedia de raciocinar direito. Aos poucos foi recordando os acontecimentos terríveis vividos por ele, mas sem noção exata de há quanto tempo eles teriam ocorrido. Ernani entrou no quarto e o beijou. “Acordou meu anjo? Vamos viajar. Ponha uma roupa, enquanto eu fecho tudo”. Sandro obedeceu automaticamente. Não entendia direito o que estava acontecendo. Ainda estava um pouco sonolento. Lavou o rosto, colocou uma calça e uma camiseta, calçou um tênis e foi para a sala. “Oi querido, não se preocupe com nada, já peguei tudo o que você precisa, suas roupas, cremes, perfumes, notebook…”. Sandro viu que realmente estava tudo preparado para uma longa viagem. “Mas Ernani, vamos para onde? Por que essa viagem assim de repente? Tem bagagem aí para um mês! E o trampo?” Ernani olhou para Sandro e se aproximou, afagou os seus cabelos, deu um sorriso suave e fitou bem seus olhos. “Amado, o melhor que você tem a fazer agora é pegar as malas, ir para o carro e junto comigo ganhar a estrada.”  Sandro voltou a sentir o sabor acre do esperma do deputado escorrendo de seus lábios. Estava sem condições psicológicas para reagir ao que quer que fosse. Fez o que Ernani lhe pedia.

Depois de duas horas na BR, Ernani sugeriu que dessem uma pequena parada num posto com restaurante para irem ao banheiro e abastecer o carro. Sandro continuava apenas obedecendo, mas antes de pararem voltou a perguntar para onde estavam indo. “Ok, ok. Era para ser uma surpresa. Mas como você insiste, vamos para a fazenda de meu tio Inaldo, lá em Triunfo. Os ares de lá vão fazer bem pra gente. Você vai ver.” Já era noite e Sandro notou que não adiantava muito contestar o companheiro. Já estavam na altura de Arcoverde, portanto muito distante do Recife para retornar. Sentia-se como se estivesse sendo sequestrado. Notara que Ernani agia com firmeza, serenidade e o tratava de uma forma muito mais carinhosa do que o habitual. Pararam então num movimentado posto da estrada. Sandro sentiu fome e sugeriu a Ernani que comessem alguma coisa. Depois de irem ao banheiro, dirigiram-se para o restaurante self-service, fizeram seus pratos e sentaram-se em uma das poucas mesas vagas do lugar. Sandro pegou seu celular para ver se tinha mensagens para ele. “Ô Sandro, deixa pra ver isso depois, vamos comer logo pra voltar pra estrada, se não vamos chegar muito tarde”. Ernani pegara apenas um pedaço de bolo e um café. Sandro começou a comer lentamente a macaxeira com carne de sol e levantou o olhar para uma das tevês espalhadas pelo restaurante. O apresentador de um telejornal lia as chamadas das notícias, mas ele não conseguia ouvi-las. Nas imagens que desfilavam surgiu uma foto do deputado Jamerson Noberto seguidas da imagem da fachada do prédio onde estava localizado seu escritório com uma ambulância e uma viatura policial paradas em frente. Sandro ficou pálido e trêmulo. Largou o garfo e a faca, levantou-se e aproximou-se do aparelho de tevê. O apresentador do telejornal dava detalhes do assassinato do deputado naquela manhã. A vítima fora encontrada pela esposa em seu escritório. Ele havia sido morto com três tiros disparados à queima roupa e até o momento não se tinha nenhuma informação de quem poderia ter cometido o crime. As únicas coisas aventadas pelos investigadores eram o fato de ter havido luta corporal e que a arma do crime pertencia ao próprio deputado. Sandro virou-se e cruzou seu olhar com o de Ernani. Voltou para mesa, sentou-se, pegou os talheres e ficou mexendo nos pedaços de macaxeira e carne. Sem levantar a vista, perguntou: “Por que você fez isso?” Ernani esperou um pouco para responder e passou o dedo na borda da xícara de café até Sandro olhar para ele. “Ele merecia”.

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Conto: “Fifteen Feet Of Pure White Snow”, Nick Cave and The Bad Seeds