A série Faça Uma Playlist traz contos inspirados em clássicos musicais de diferentes gêneros, épocas e estilos. Os textos são assinados por Ismael Machado, roteirista e escritor paraense, radicado no Rio de Janeiro, autor do livro Sujando os Sapatos – O Caminho Diário da Reportagem, entre outros. As artes são de Igor Alves, ilustrador e DJ paraense, atualmente residente em Portugal.

Acendeu um cigarro e deu um gole generoso no uísque. Esse era um dos motivos por preferir fazer o programa na madrugada. Apenas ele e um operador de som mais cúmplice que outra coisa, dividiam a sala naquela hora. Olhou o relógio na parede. Duas horas. A madrugada dos insones. Tragou fundo, a voz rouca, usada e abusada por longos anos de maus cuidados.

“Alô notívagos, vampiros da noite sem estrelas. Aqui é o Lobo Solitário iniciando mais um ‘Belos e Malditos’ o programa que te acompanha em suas noites insones e solitárias, aquelas noites em que nada te consola a não ser a minha companhia e a de meus amiguinhos. A gente começa com Leonard Cohen. E podem mandar mensagens, ligar ou qualquer coisa parecida. E não esqueçam, a vida pode ser uma droga, então escolha uma que não esteja batizada’.

Era assim nas madrugadas. Por duas horas, Lobo Solitário, na verdade Rogério Santos, um professor de cursinho, desfilava canções mórbidas, densas, destoantes. Cohen, Tom Waits, Velvet, Marianne Faithfull, Van Morrison, a lista era imensa.

Tinha um público pequeno, mas fiel. Às vezes se perguntava quem eram essas pessoas e o que as levava a passar duas horas da madrugada debatendo o programa em fóruns de discussões com temas como ‘Leonard Cohen passou a cantar melhor depois de velho? ’

O telefone tocou. Ele sabia quem era. A única pessoa que usava o telefone para conversar com ele. Flor Noturna, ela se identificava. Nunca aceitou revelar o verdadeiro nome. Não havia problema. Ele também não dizia qual era o dele.

Ela sempre pedia o mesmo cantor. Mas antes trocavam pequenas confidências. De início coisas bobas, preferências musicais. Aos poucos, ela foi contando fatos como o fim de um relacionamento de forma violenta ou um abuso sofrido anos antes. Ele ouvia, respondia pouco, sem saber como proceder. Não era um exemplo de sabedoria de vida, reconhecia. Uma existência passada em meio a discos e revistas musicais. Poucos relacionamentos e uma incapacidade de se ajustar a coisas triviais de cotidianos. A madrugada o salvava. As aulas de Física sustentavam o minúsculo apartamento de 38 metros quadrados, com mais discos e livros do que outra coisa prática.

Naquela noite, ela o lembrou de um fato corriqueiro. Aparentemente banal. Fazia seis meses que ela ligara a primeira vez e pedira que ele tocasse ‘Fifteen Feet Of Pure White Snow’, de . “Você conhece o clip? ”, perguntou. Ele disse que não. “Me faz bem, sinto vontade de dançar pela sala. É o que vou fazer agora”. Lobo Solitário imaginou a cena, embora ela parecesse sempre incompleta, pois não tinha noção nenhuma da pessoa, a não ser a voz que em todos os programas religiosamente ligava, conversava e pedia a mesma música, não importando se naquele programa ele já tivesse tocado outra canção de , como Henry Lee, Into My Arms ou Where the Wild Roses Grow. Na noite em que Flor Noturna lembrou que aniversariavam uma relação cheia de incompletudes, ele sentiu algo diferente. O som de Patti Smith ganhava as ondas do rádio enquanto os dois conversavam. Ao desligar o telefone, Lobo Solitário anunciou a canção de e fez uma pungente declaração de, seria amor? à Flor Noturna. A música encheu todo o espaço. E ele se surpreendeu quando logo depois o telefone tocou novamente. A voz do outro lado fez um convite, cheio de pausas e receios. “Você quer me encontrar? ”. Pela primeira vez uma canção chegou ao final e Lobo Solitário permitiu ao silêncio tomar conta do estúdio.    

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